Mito: Regulamentar torna a prostituição segura

Por Nordic Model Now
Traduzido por Carol Correia

Um dos argumentos comuns para regulamentar a prostituição é fazer com que ela seja incluída na legislação de Saúde e Segurança, para que seja mais segura para as mulheres. No entanto, esta abordagem não considera que os compradores sexuais são eles próprios a fonte de danos.

Dentist in goggles, mask, gown and gloves
Dentista de óculos, máscara e luvas

Em qualquer outra ocupação em que haja risco de exposição a fluidos corporais de outras pessoas, os trabalhadores devem usar máscaras, luvas, óculos de proteção e roupas de proteção.

Os preservativos não chegam nem perto de reduzir o risco de prostituição para um nível comparável àqueles enfrentados pelos trabalhadores, digamos, na odontologia ou na enfermagem, porque os preservativos escorregam e rompem e os compradores sexuais se recusam a usá-los. E os preservativos não protegem a pessoa na prostituição da saliva, do suor e de outros fluidos corporais do comprador; nem protegem de danos nos orifícios e órgãos internos causados por atrito e penetrações fortes e prolongadas; nem protegem da violência dele.

Os padrões de saúde e segurança exigem que os empregadores repensem práticas de trabalho para eliminar o risco excessivo. Na prostituição, isso exigiria que os participantes usassem roupas de proteção completas e a proibição de qualquer contato íntimo. Isso, naturalmente, mudaria a natureza da prostituição.

Quando não é possível tornar o trabalho seguro, as indústrias são frequentemente fechadas. Por exemplo, a indústria do amianto foi fechada porque os riscos eram muito grandes e havia alternativas disponíveis.

Nós acreditamos que a prostituição nunca pode ser feita segura e, portanto, pedimos a sua abolição.

Isso não significa sugerir que as mulheres na prostituição não devem ter toda a assistência disponível para reduzir os danos e minimizar os riscos envolvidos. O desejo de reduzir os danos é um dos principais argumentos para a total descriminalização das mulheres envolvidas, conforme preconizado pelo Modelo Nórdico.

Leitura adicional

O modelo germânico está produzindo o inferno na terra

Discurso de Dra. Ingerborg Kraus em Vancouver, Canadá, em 20 de setembro de 2016 para “International Approaches to Prostitution: Sweden, Germany, Canada” para uma plateia de 200 pessoas no Orpheum Annex.
A apresentação foi patrocinada por Aboriginal Women’s Organizing Network; Asian Women Coalition Ending Prostitution; Formerly Exploited Voices Now Educating; Foy Allison Law; Resist Exploitation, Embrace Dignity; University Women’s Club of Vancouver; Vancouver Rape Relief and Women’s Shelter e foi reproduzida no Trauma and Prostitution
Traduzido pelo Feminismo Radical Didático

Prostituição sempre foi legal na Alemanha, exceto por um curto período de tempo no início do século 20. [1] A Alemanha instituiu uma lei em 2002 que tentou transformar a prostituição em um trabalho como outro qualquer. Os políticos pensaram que não era a prostituição em si o problema, mas a discriminação das mulheres (prostituídas) pela sociedade e o lapso de direitos que elas tinham.

Considerando o problema dessa perspectiva, eles quiseram fortalecer as mulheres o melhor possível. (Eles disseram): prostituição não deveria mais ser vista como algo “contra os bons costumes”, mas como um trabalho. De agora em diante, as mulheres seriam consideradas trabalhadoras, “trabalhadoras sexuais”. E se elas são trabalhadoras, elas deveriam ter os mesmos direitos que qualquer trabalhador que gerencia um negócio ou um empregado em outra atividade, como ter seguro social, ou se seus direitos não forem respeitados, elas deveriam ter o direito de reclamar por vias legais. O estado não queria regulamentar as práticas sexuais. Eles disseram que ninguém pode dizer como as pessoas deveriam fazer sexo. E como eles tinham um negócio, eles também estavam liberados para fazer propaganda dele. Então a nova lei revogava a restrição de promover a prostituição.

Quinze anos depois da aprovação da lei, os resultados são os seguintes:

Nós estamos observando uma industrialização da prostituição

· A renda total é de 14,6 bilhões de euros com 3.500 bordeis legalizados [2]. Esses não os números oficiais. Há muitos bordeis não legalizados.

· A criação de megabordeis com a capacidade de acomodar aproximadamente 1000 clientes de sexo de uma vez ou até mais. [3]

· O crescimento da demanda: 15 anos atrás era estimado que 400.000 mulheres estivessem na prostituição. Hoje muitos oficiais da polícia dizem que o número aumentou em pelo menos 30%.

· Você não precisa mais ir a Tailândia para turismo sexual, você vê turistas sexuais de todo o mundo chegando em grupos — ônibus transportam turistas direto do aeroporto de Frankfurt para os megabordeis.

Novas garotas no bordel Calígula em Berlim. A absoluta sex-oferta matadora: 20min = 20 euros.

Nós temos bordéis “taxa única”. Por 70 euros eles oferecem uma cerveja, uma salsicha e mulheres ilimitadas. Uma cadeia de bordeis “taxa-única” chamada “Pussy-Club” foi manchete quando, no dia de sua inauguração em junho de 2009, 1700 homens formaram fila para entrar. As longas filas do lado de fora do quarto das mulheres duraram até a hora do fechamento quando muitas mulheres entraram em colapso devido à exaustão, dores, ferimentos, e infecções, incluindo dolorosas coceiras e infecções por fungos que se espalhavam dos seus genitais pelas pernas abaixo. [4]

Nós observamos a redução do pagamento para as mulheres: 30 euros para relação sexual, enquanto elas devem pagar em torno de 160 euros pelo quarto e 25 euros de impostos por dia. Então elas têm que servir 6 homens antes de começar a ganhar qualquer dinheiro. Nas ruas o pagamento começa em 5 euros.

“Verrichtungsboxen”, os bordéis-estábulos.

As condições de trabalho tornaram-se um desastre. Eles desenvolveram “Verrichtungsboxen”, que significa “coisas que são feitas em uma caixa”, como estábulos, sem água, banhei­­ros, nada.

Prostíbulos em garagens.

Ou prostíbulos garagem.

Vemos a banalização da prostituição:

· Publicidade em todos os lugares. O guia turístico oficial de Munique tem promoções para bordeis.

· Recrutamento de mulheres na rua como “acompanhantes femininas”.

· É comum que jovens celebrem a graduação escolar em bordeis.

· Uma visita turística dos bordeis é oferecida para novos estudantes em Berlim.

Inauguração do distrito “red light” em Frankfurt, setembro de 2016.

Ou aqui, há duas semanas em Frankfurt: uma tarde de inauguração no distrito “red light”(*). Mesmo sabendo que o distrito está nas mãos dos Hells Angels, um grupo do crime organizado, os habitantes vieram comemorar o dia.

Violência contra mulher tornou-se violência estrutural, significa que a sociedade, instituições (as autoridades políticas, educacionais, executivas e legislativas) não estão mais a questionando. A violência está internalizada.

Vitrine de uma boutique de roupas comuns na minha cidade, setembro de 2016.

Aqui na minha cidade, também há 2 semanas atrás: essa é uma boutique normal que teve a ideia de fazer publicidade desse jeito. A prostituição afeta a todos, não somente as mulheres na prostituição.

A meta da lei — que era proteger e dar apoio para as mulheres na prostituição — falhou completamente: dessas 400.000 mulheres, apenas 44 são registradas como proprietárias de negócios. [6] Mais da metade dessas mulheres trabalham ilegalmente, significando que elas não têm qualquer seguro social e não têm acesso aos serviços médicos na Alemanha. (1) Então, mesmo que elas tenham uma gripe, elas não têm a possibilidade de se consultar com um médico. Existe um enorme problema com mulheres grávidas que não podem pagar por um aborto ou nascimento da criança em um hospital. Muito frequentemente elas abandonam a criança. [7]

Os inspetores de polícia dizem sentir-se desamparados. Manfred Paulus, um inspetor criminal que trabalhou por anos em campo, diz que com essa lei a Alemanha tornou-se o Eldorado para traficantes, cafetões e donos de bordeis. [8] As mulheres que vêm do exterior para trabalhar no distrito “red light” não conhecem a Alemanha que os alemães conhecem e desfrutam. Não, elas são prisioneiras de uma sociedade paralela de alta criminalidade. [9]

Essas mulheres vivem sob o medo constante: o medo de clientes violentos, medo de não ganhar o suficiente para pagar os custos fixos diários, o medo de adoecer, o medo de engravidar, o medo da polícia, o medo dos cafetões, o medo dos donos dos bordeis, o medo da competição…

A lei de 2002 não ajudou a prevenir o tráfico: em 2000, 151 pessoas foram condenadas por tráfico humano, em 2011 apenas 32. A polícia registrou 636 casos de mulheres traficadas em 2011, 3 vezes menos que 10 anos antes. 13 delas tinham menos que 14 anos, 77 tinham menos de 18. [10] A polícia reclama que tem pouco poder para intervir na situação, porque sem provas inquestionáveis, eles não podem entrar nos bordeis. Além disso, os procedimentos legais dependem do depoimento das mulheres. E muitas das vezes elas estão com medo demais para prestar testemunho e os trâmites são paralisados. [11]

A lei que proíbe a cafetinagem era fácil de contornar, eles simplesmente se tornaram hoteleiros alugando quartos para as profissionais do sexo.

Estima-se que 1,2 milhões de homens compram sexo todos os dias. 18% são consumidores regulares, 80% já estiveram em bordel. [12]

Nós observamos a crescente perversão entre os clientes do sexo. Práticas estão se tornando mais perigosas com o aumento da violência contra as mulheres e o lapso de proteção para elas. Foram feitas pesquisas que examinam a violência na prostituição:

  • O estudo de Zumbek em 2001 na Alemanha descobriu que 70% das prostitutas sofreram violência física. [13]
  • O estudo feito pelo Ministério da Família da Alemanha em 2004 declarou que: 82% mencionaram sofrer violência psicológica, 92% sofreram violência sexual.[14]

Apenas considerando esses números, é difícil dizer que esse é um trabalho como outro qualquer. E essas pesquisas datam de mais de 10 anos atrás — As coisas pioraram muito na Alemanha.

Isso é o que a dominatrix Ellen Templin já tinha observado em 2007: “Desde a regulamentação podemos observar que não apenas a propaganda tornou-se sem inibições, os clientes de sexo tornaram-se mais brutais. Isso foi de dia pra noite. Hoje em dia, se você diz: “Não, eu não faço isso,” você geralmente obterá a resposta, “Vamos lá, não seja tão difícil, esse é o seu trabalho”. Antes era proibido requisitar sexo sem proteção. Hoje, clientes perguntam ao telefone se eles podem urinar no seu rosto, querem fazer sexo sem camisinha, querem fazer anal e oral sem preservativo. Nos dias de hoje isso é comum. Antes os clientes ainda tinham a consciência culpada. Isso não existe mais hoje, eles querem mais e mais.” [15]

Existe um “cardápio” circulando na internet, onde clientes podem escolher o que eles querem numa longa lista à la carte. [16]

Eu vou dar alguns exemplos:

AF = Algierfranzösisch (Zungenanal) — língua anal.

AFF = Analer Faustfick (die ganze Hand im Hintereingang) — Fist Fucking anal (enfia-se a mão até o punho no ânus).

AO = alles ohne Gummi — Tudo sem camisinha.

Braun-weiß = Spiele mit Scheiße und Sperma — Brincar com fezes e esperma.

DP = Doppelpack (Sex mit zwei Frauen) oder: double Penetration (zwei Männer in einer Frau) — Sexo com 2 mulheres ou dupla penetração (2 homens e 1 mulher).

EL = Eierlecken — Lamber o saco escrotal.

FFT = Faustfick total — Fist Fuck total.

FP = Französisch pur (Blasen ohne Gummi und ohne Aufnahme) — Oral sem camisinha.

FT = Französisch total doppeldeutig: Blasen ohne Gummi mit Spermaschlucken und seltener:Blasen ohne Gummi bis zum Finale — Oral sem camisinha e engolindo o esperma.

GB = Gesichtsbesamung (manchmal auch Gangbang, also Gruppensex, aber mit deutlichem Männerüberschuss) Ejacular no rosto.

GS = Gruppensex — Sexo Grupal.

Kvp = Kaviar Passiv (Frau lässt sich anscheißen) — Homem defeca em mulher.

SW = Sandwich, eine Frau zwischen zwei Männern — Uma mulher entre dois homens.

tbl, = tabulos, ALLES ist erlaubt — Sem tabu, TUDO é permitido.

ZA = Zungenanal (am / im Hintereingang lecken) — Lamber o ânus.

Existem sites na internet em que clientes dividem suas experiências onde você pode ler: “Eu abri as bandas da bunda dela e devagar empurrei meu pau dentro dela, o que foi acompanhado por um gemido baixo. Quando eu estava perto de terminar e fodendo ela cada vez mais e mais violentamente, ela queria que eu parasse e fodesse ela na vagina. Eu não queria. Desculpa, Vanessa! Depois de mais algumas estocadas violentas eu disparei minha munição e empurrei fundo nela de novo.” [17]

Promoção: Novas garotas por 40 euros.

Os compradores de sexo querem distração. Mulheres são chamadas “Frischfleisch”, que significa: carne fresca. Mais da metade das prostitutas não tem endereço fixo, mas são mandadas de uma cidade para outra. Às vezes, elas nem mesmo sabem em que cidade estão. As mulheres vivem em bordeis, comem e dormem no mesmo quarto em que servem os compradores de sexo. Elas dormem aproximadamente 5 horas por dia. O resto do tempo, elas devem estar prontas para os clientes. Aqui está uma propaganda anunciando novas garotas.

Existe um estudo médico recente de um ginecologista, Dr. Wolfgang Heide, que está trabalhando com mulheres prostituídas. As condições de saúde dessas mulheres são catastróficas. Com 30 anos elas já estão comumente envelhecidas precocemente. Todas as mulheres têm dores abdominais persistentes. Gastrite e infecções frequentes, também em decorrência das condições de vida e saúde precárias. E claro, todos os tipos de doenças sexualmente transmissíveis.

Na quarta-feira estamos organizando uma festa de sexo grupal com a garota de 19 anos Tina, grávida de 6 meses, 35 euros.

O trauma psicológico só pode ser suportado com álcool e drogas farmacêuticas. Ele avisa sobre o crescimento da demanda por mulheres grávidas na prostituição. Essas mulheres tem que servir de 15 a 40 homens por dia continuamente até darem a luz. Muitas vezes, elas abandonam a criança para voltar ao trabalho o mais rápido possível. Algumas 3 dias depois de dar a luz. Essas práticas são totalmente irresponsáveis para a saúde da mãe e da criança. Podem causar danos irreversíveis para a criança ainda no ventre. E toda mãe sabe que leva um tempo depois do parto antes que a relação sexual seja possível de novo sem provocar dor. [18]

Sob essas condições, nenhuma mulher alemã se acha capaz de fazer esse “trabalho”. O retrato das mulheres na prostituição mudou. Com a abertura da Europa para o leste, mulheres vêm das regiões mais pobres da Europa: Romênia, Bulgária — e geralmente minorias como os Romani que vivem na extrema pobreza. Hoje, cerca de 95% das prostitutas vem de outros países. Tornou-se a prostituição da pobreza. [19]

Sabine Constabel, assistente social que trabalhou em Stuttgart com mulheres prostituídas por mais de 20 anos, disse o seguinte: “30% dessas mulheres são jovens, abaixo dos 21 anos de idade. Geralmente sacrificadas pela própria família para ajudá-los financeiramente. A maioria não fala alemão, e algumas delas são analfabetas. E frequentemente eram virgens antes. Essas jovens vêm para Alemanha e são sujeitadas aos desejos mais perversos dos clientes. Elas não são capazes de dizer “não”, de se defender. Elas são completamente subjugadas pela situação e completamente traumatizadas por ela. Muitas delas pedem drogas psicotrópicas imediatamente depois da primeira experiência. Elas dizem: “De outra forma, não dá pra sobreviver a isso.” Algumas delas estão há apenas poucos dias na prostituição e dizem: “Eu estou morta aqui, e não posso mais sorrir.” Outras aguentam por anos e dizem: “Eu tenho crianças em casa, eu tenho que sustentá-las.” Essas mulheres estão muito traumatizadas, elas desenvolvem depressão, pesadelos e problemas físicos; elas somatizam, têm dores no estômago, ficam doentes e sofrem. Elas se tornam desesperançadas, elas não querem fazer esse trabalho horrendo.” [20]

Eu fui convidado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para falar na conferência de Dublin [21] no ano que vem sobre a saúde mental das mulheres prostituídas na Alemanha. O que eu posso dizer? O que é a situação da saúde mental de uma mulher ser reduzida a um pedaço de carne? Elas estão totalmente destruídas. Uma mulher que está trabalhando em um programa de ajuda para mulheres que desejam sair da prostituição me disse que existem poucas mulheres saindo da prostituição. Elas ficarão até o colapso físico. É só uma questão de tempo. Eu pergunto a mim mesmo, por que é assim? Porque a vontade delas foi quebrada. Elas não estão mais existindo como pessoa que tem uma identidade e um futuro que elas podem imaginar para elas. Nós estamos falando sobre um processo de trauma complexo.

O modelo germânico está produzindo o inferno na terra. As vidas e os direitos dessas mulheres estão sendo sacrificados, mas pelo que? Eles estão defendendo a nossa democracia? É para proteger nossa terra de invasores ou terrorismo? Não, essas mulheres estão sendo sacrificadas para que alguns homens possam ter sexo quando eles quiserem e com quem eles quiserem. E esse é o problema. Nós temos que focar nos compradores de sexo.

O comprador de sexo é uma construção social, não é uma fatalidade, um destino. Os números pelo mundo inteiro provam: Na Inglaterra, 7% dos homens são clientes da prostituição, na Espanha 39%, 37% no Japão, 73% na Tailândia…[23]. Isso é resultado de uma educação desigual entre os gêneros. A prostituição não resolve os problemas dos homens, está aumentando o medo deles de entrar em um relacionamento igualitário com as mulheres. [23]

ingeborg kraus - nova geração de homens

Quando nós falamos de prostituição, nós temos que pensar em que tipo de sociedade nós queremos, não apenas em termos de redução de danos. Nós precisamos de uma nova geração de homens que não recorra à exploração sexual e dominação das mulheres para definir a si mesmo. [24] É falacioso pensar que a sexualidade masculina não é controlável. Homens têm que aprender novos meios de lidar com as frustrações.

Normalizar prostituição significa cimentar a desigualdade entre homens e mulheres e aceitar a violência contra mulheres. E isso diz respeito a todos nós, mulheres e homens. É por isso que a Alemanha precisa do modelo nórdico.

Obrigado!


Bibliografia:

[1] Manuela Schon: Legalized prostitution turned Germany into the bordello of europe, we should be ashamed, 09.05.2016, in Feministcurrent: http://www.feministcurrent.com/2016/05/09/legalization-has-turned-germany-into-the-bordello-of-europe-we-should-be-ashamed/

[2] Michael Jürgs: Sklavenmarkt Europa, 2014, Bertelsmann, P. 327.

[3] Chantal Louis : Die Folgen der Prostitution , Alice Schwarzer HG, Prostitution, ein Deutscher Skandal, 2013, KIWI, p. 70–87.

[4] Der Spiegel: Bordell Deutschland. 27.05.2013 . http://www.spiegel.de/international/germany/human-trafficking-persists-despite-legality-of-prostitution-in-germany-a-902533-2.html

[5] Radio Interview with the Domina Ellen Templin, 08.03.2010. http://abolition2014.blogspot.de/2014/05/interview-mit-einer-domina.html

[6] TERRE DES FEMMES: http://frauenrechte.de/online/index.php/themen-und-aktionen/frauenhandel/prostitution

[7] Dr. Lutz Besser: Stellungnahme zur Anhörung zum Entwurf eines Gesetzes zur Regelung des Prostitutionsgewerbes sowie zu Schutz von in der Prostitution tätigen Personen. 04.06.2016. http://www.trauma-and-prostitution.eu/2016/06/04/lutz-besser-stellungnahme-zum-prostituiertenschutzg/

[8] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2014, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 107.

[9] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2014, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 112.

[10] Geneviève Duché: Non au système prostitutionnel, 2015, Editions Persée, p. 170.

[11] http://www.spiegel.de/international/germany/human-trafficking-persists-despite-legality-of-prostitution-in-germany-a-902533-2.html

[12] Udo Gerheim, die Produktion des Freiers, 2012, Transcript, p. 7.

[13] Zumbeck, Sibylle: « Die Prävalenz traumatischer Erfahrungen, Posttraumatische Belastungsstörungen und Dissoziation bei Prostituierten », Hamburg, 2001.

[14] Studie von Schröttle & Müller 2004 in: Bundesministerium für Familie, Senioren, Frauen und Jugend : Gender Datenreport, Kapitel 10: Gewalthandlungen und Gewaltbetroffenheit von Frauen und Männern, 2004, p. 651–652.

[15] Radio Interview mit Ellen Templin am 08.03.2010: http://www.wueste-welle.de/redaktion/view/id/114/tab/weblog/article/34860/Interview_mit_einer_Domina.html

[16] http://www.traummaennlein.de/

[17] www.freiersblick.de

[18] Dr. Wolfgang Heide: Stellungnahme zur öffentlichen Anhörung zur „Regulierung des Prostitutionsgewerbes“ im Ausschuss für Familie, Senioren, Frauen und Gesundheit im Deutschen Bundestag am 06. Juni 2016 http://www.trauma-and-prostitution.eu/2016/06/05/stellungnahme-von-wolfgang-heide-facharzt-fuer-gynaekologie-und-geburtshilfe/

[19] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2004, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 109.

[20] TV Interview with Sabine Constabe, 17.03.2013 in SWR1 Leute:

https://www.youtube.com/watch?v=BpCPKDRcFg0

[21] http://iawmh2017.org/wp/

[22] Claudine Legardinier: Prostitution: une guerre contre les femmes, 2015, Editions Syllepse, p. 95.

[23] Claudine Legardinier und Said Bouamama: Les clients de la prostitution, 2006, Presses de la Renaissance, p. 235.

[24] Udo Gerheim: die Produktion des Freiers, 2012, Transcript, p. 297.

Prostituição é incompatível com igualdade entre homens e mulheres

Discurso de Dra. Ingeborg Kraus “Prostituição é incompatível com igualdade entre homens e mulheres” na Conferência em Madrid em 15 de outubro de 2015; reproduzido no Trauma and Prostitution
Traduzido por Carol Correia

Na Alemanha, a ideia de abolição não é levada em consideração porque acredita-se que exista uma “boa prostituição”. É claro que a prostituição infantil não é tolerada; da mesma forma, a chamada prostituição “forçada” é considerada má. Mas prostituição entre dois adultos que supostamente consentem mutuamente, porque não? Por que proibir essa decisão entre dois adultos?

Há um ano, iniciei o Manifesto contra a prostituição dos psico-tráumatologistas alemães. Esse apelo afirma que a prostituição é humilhante, degradante, que é um ato de violência e continuadora de violência nas histórias de vida dessas mulheres. Não há “boa prostituição”. Este Manifesto também exige uma lei que responsabilize os homens (compradores de sexo) e pede a introdução da criminalização dos compradores de sexo. Este Manifesto foi assinado pelos mais destacados especialistas em trauma da Alemanha, portanto, aqueles que moldam as opiniões. Para entender a importância deste Manifesto, eu gostaria de enquadrá-lo em seu contexto histórico, porque está chegando 120 anos atrasado!

O fundador da psicologia clínica foi Sigmund Freud. No final do século XIX, os psiquiatras da Europa estavam interessados no fenômeno da histeria. Em Paris, havia o psiquiatra Charcot e em Viena, Sigmund Freud. Enquanto Charcot observava e notava os sintomas dessas mulheres, Freud começou a ouvi-las. Ele publicou suas descobertas em um livro chamado Estudos sobre a histeria, onde descobriu que todas essas mulheres foram vítimas de violência sexual durante a infância. Este livro foi certamente um escândalo na época, acima de tudo, porque essas mulheres vieram de “boas famílias”. Muito rapidamente, o conselho de médicos vienenses pressionou Freud a se retratar desses estudos, o que sugeria que os sintomas da histeria eram o resultado de violência sexual que essas mulheres sofreram durante a infância. Este teria sido o fim da carreira de Freud se ele não retratasse o relatório, então ele cedeu. Ele negou essa verdade e em seu lugar inventou a teoria da fantasia, a saber, que a violência era algo que as mulheres desejavam e fantasiam. Por 100 anos, todas as universidades espalharam essa teoria, que foi fundada na negação da violência contra as mulheres e na absolvição dos culpados. Hoje, as discussões sobre prostituição ainda são marcadas pelos mesmos mecanismos: a negação da violência contra as mulheres e a inversão da vítima e do perpetrador com a alegação: “Mas é o que você quer, você quer dormir conosco!” Tudo isso para proteger um assunto tabu: a sexualidade masculina e seu direito à realização sem restrições ou limites. Se o lobby na época não fizesse ciência sua refém, se Freud não tivesse retratado sua primeira teoria, não estaríamos nessa posição hoje. As escolas teriam conscientizado os alunos e educado sobre a violência contra as mulheres há várias gerações. Hoje, diante de uma mulher que entra na prostituição, devemos instintivamente dizer: “Ela deve ter passado por coisas terríveis para fazer essa escolha” e não “Ela quer isso!”

Quando analisamos o problema da prostituição na Alemanha hoje, descobrimos que a cultura da negação é onipresente e que o lobby também se infiltrou em tudo:

  • Há uma negação da violência cometida contra as mulheres antes de entrar na prostituição.
  • Há uma negação das consequências físicas e mentais causadas pela prostituição.
  • Há uma negação da violência cometida contra mulheres em situações de prostituição.
  • Há uma negação do impacto da prostituição na sociedade, a relação entre homens e mulheres e a família.

 

Eu gostaria de expandir os três primeiros pontos:

  1. Entrada na prostituição e eu estou falando apenas da chamada prostituição “voluntária”:

Aqui está o que Ellen Templin, diretora de um estúdio dominatrix em Berlim, disse: “Não há prostituição voluntária. Uma mulher que se prostitui tem motivos para fazê-lo. Primeiro de tudo, existem razões psicológicas. Aqui no meu estúdio, todas elas foram abusadas durante a infância. Todas elas! As almas dessas mulheres que se prostituem já foram destruídas”. (p. 171-178, Alice Schwarzer HG.: Prostitution , ein deutscher Skandal, 2013)

Rosen Hircher, que começou na prostituição aos 31 anos, diz: “O que eu estava fazendo parecia perfeitamente normal para mim. Eu sabia exatamente para onde estava indo e parecia normal ficar lá. Jamais esquecerei as palavras de uma prostituta que me disse no primeiro dia: ‘Você já fez isso a vida toda.’ Na verdade, eu fui abusada sexualmente pelo meu tio desde que era criança. Meu pai era alcoólatra e extremamente agressivo. Desde a minha infância eu estava acostumada a suportar a violência dos homens.” (Rosen Hircher: A prostitute testifies, 2009)

De fato, vários estudos sobre esse assunto mostram uma correlação direta entre a entrada na prostituição e as experiências de violência durante a infância:

  • Um estudo realizado por Melissa Farley em 2003 mostra que 55 a 90% foram vítimas de agressão sexual durante a infância e 59% vítimas de abuso. (Farley, prostituição e tráfico em nove países: uma atualização sobre violência e transtorno de estresse pós-traumático, 2003)
  • O estudo do DFCS alemão em 2004 constatou que 87% foram vítimas de violência física antes dos 16 anos de idade. (Bundesministerium für Familie, Senioren, Frauen und Jugend: Gender Datenreport, 2004) (Ministério Federal da Família, Idosos, Mulheres e Juventude: Relatório de Dados de Gênero, 2004)
  • Um estudo de 2001 realizado por Zumbeck na Alemanha constatou que 65% foram abusadas fisicamente e 50% foram vítimas de violência sexual. (Zumbeck, Sibylle: Die Prävalenz 3 traumatischer Erfahrungen, Posttraumatische Belastungsstörungen und Dissoziation be Prostituierten, Hamburg 2001) O sistema de prostituição usa esses traumas da infância para seu próprio benefício e lucro.

Existem 3 mecanismos psicológicos que resultam de tal infância:

  • Taterintrojekte – identificação com o agressor: autoestima esmagada, ser persuadida de que não é boa e que não merece mais.
  • Wiederholungszwang – repetição compulsiva, revivendo voluntariamente situações traumáticas similares com a ilusão de controlar as ações a cada vez.
  • Dissociação. Eu gostaria de expandir neste ponto.

Michaela Huber, diretora da Sociedade Alemã de Trauma e Dissociação, diz: “Para permitir que pessoas estranhas penetrem em seu corpo, é necessário extinguir alguns fenômenos naturais: medo, vergonha, nojo, estranheza, desprezo e autocensura. Em seu lugar, essas mulheres colocam a indiferença, a neutralidade, uma concepção funcional de penetração, uma reinterpretação desse ato como um “emprego” ou “serviço”. (02.01.2015) De fato, essas mulheres dissociam.

O que é dissociação? A dissociação é um curto-circuito das funções integrativas quando o estresse se torna insuportável:

  • Consciência (fenômenos de transe)
  • Memória (amnésia)
  • Sentimentos
  • Percepção do corpo e do eu (despersonalização)
  • Percepção do meio envolvente (visão de túnel, tudo fica nebuloso)
  • Identidade (desempenhando um papel, não mais sabendo quem é, etc.)

Então, eu me faço a pergunta: se você não sabe quem você é, você não está realmente presente, a consciência está turva, você não sente nada e está desconectado do seu corpo, isso é liberdade? Isso é realização pessoal, auto-realização; isso é a autodeterminação?

O fenômeno da dissociação não é algo que você possa ativar e desativar conforme desejar. A dissociação pode permanecer. Existem funções integrativas que podem ser extintas por longos períodos de tempo. É impressionante para mim toda vez que vejo essas mulheres se reconectarem com a vida. Após a terapia bem sucedida, alguns dizem: “Agora eu posso sentir dor” ou “Eu posso sentir o cheiro agora e a comida tem um gosto” ou “Eu entendo quem eu sou agora”.

Se fosse apenas o fenômeno da dissociação, os danos da prostituição seriam limitados a esse nível, mas também há lembranças traumáticas. Durante a dissociação, o corpo e o córtex são anestesiados. A pessoa percebe as coisas, mas elas não são todas lembradas no córtex. Pode haver amnésia também, buracos na memória. Uma experiência é registrada em outra parte do cérebro, que chamamos de “memória traumática”. Esta memória 4 não funciona sob os mesmos princípios que o córtex. É uma espécie de caixa preta para a qual não temos acesso consciente e nem sabemos que existe. Essa memória coleta experiências traumáticas de maneira desordenada, sem noção de espaço e tempo. Não é semântico; não tem idioma. Ele pode ser ativado a qualquer momento por eventos “gatilho” que revivem o trauma: um cheiro, uma cor, um som, imagens, palavras, frases, etc. Nesse momento, desencadeia uma intensa ansiedade, como se a pessoa estivesse revivendo o trauma naquele mesmo instante. É o que eles chamam de “flashback”. Essas reações são conhecidas como PTSD: transtorno de estresse pós-traumático. Em outras palavras, essas mulheres têm uma espécie de bomba-relógio no cérebro. (Dr. Muriel Salmona, La dissociation traumatique et les troubles de la personnalité, 2013.)

Portanto, o sistema de prostituição se beneficia do fenômeno da dissociação, no qual as mulheres não estão em posição de se defender. Elas disponibilizam seus corpos e sofrem violência extrema. Essas mulheres ficam cada vez mais traumatizadas.

 

  1. As consequências psicológicas:

As consequências são fatais:

  • O estudo de Melissa Farley de 2008 descobriu que 68% das mulheres em situação de prostituição tinham PTSD de intensidade semelhante a veteranos de guerra ou vítimas de tortura.
  • O estudo de Zumbeck em 2001 na Alemanha descobriu que 60% tinham PTSD muito intenso.

E há outros problemas que podem se desenvolver: todo tipo de ansiedade, várias dependências, transtornos afetivos como depressão ou transtorno bipolar, dores psicossomáticas, transtornos de personalidade, transtornos dissociativos, etc.

  1. Negação da realidade:

A Alemanha instituiu uma lei em 2002 que legalizou a prostituição sem qualquer regulamentação e a transformou em um emprego como outro qualquer. Foi posto em prática porque se argumentou que não era a prostituição que era traumatizante, mas a estigmatização dessas mulheres pela sociedade. Deste ponto em diante, elas foram chamadas de “profissionais do sexo” (o mesmo argumento agora sendo liderado pela Anistia Internacional).

Treze anos após a aprovação da lei, os resultados são catastróficos:

  • Estamos observando uma industrialização da prostituição:
  1. A receita total é de 14,6 bilhões de euros com 3500 bordeis registrados. (p. 327, Michael Jürgs: Sklavenmarkt Europe. 2014)
  2. A criação de megabordeis com capacidade para acomodar cerca de 1000 compradores de sexo de uma só vez. (p. 70-87. Chantal Louis: Die Folgen der Prostitution. In Alice Schwarzer HG. Prostitution)
  3. Bordeis “de taxa fixa”. Por 60 euros eles oferecem uma cerveja, uma salsicha e mulheres ilimitadas.
  4. Você não precisa mais ir à Tailândia para turismo sexual, você vê turistas sexuais de todo o mundo chegando em grupos – os ônibus transportam turistas do aeroporto de Frankfurt diretamente para os megabordeis.
  • O crescimento da demanda: relatórios estimam que 400.000 mulheres estão na prostituição na Alemanha e 1,2 milhão de homens compram essas mulheres diariamente (Terre des femmes)
  • Uma redução na taxa de remuneração para as mulheres: 30 euros para relações sexuais, enquanto eles devem pagar cerca de 160 euros por um quarto; nas ruas começa tão baixo quanto 5 euros.
  • Você vê uma banalização da prostituição, eu digo que essa violência se tornou estrutural:
  1. Guia turístico oficial de Munique oferece promoções para bordeis.
  2. Eles recrutam mulheres nas ruas como “acompanhantes femininas”.
  3. É comum os jovens celebrarem a formatura da escola em um bordel.
  4. Uma visita guiada a bordeis para novos estudantes em Berlim.
  5. Na minha cidade, Karlsruhe, um clube de fitness está localizado em frente a um bordel. À noite, as mulheres se exercitavam para tocar música com as janelas abertas. Os compradores de sexo reclamaram. Houve um julgamento e foi o bordel que ganhou. A lei protege assim os compradores de sexo e não as mulheres.
  • O objetivo da lei, que supostamente protege e apoia mulheres na prostituição, fracassou completamente – dessas 400 mil mulheres, apenas 44 estão registradas como empresas de propriedade exclusiva. Mais da metade dessas mulheres trabalham ilegalmente, o que significa que elas não têm seguro social e não têm acesso a serviços médicos na Alemanha. Então, mesmo que tenham gripe, elas não têm a possibilidade de visitar um médico.
  • Você vê uma crescente perversão entre os compradores de sexo. As práticas estão se tornando mais perigosas com o aumento da violência contra as mulheres e a falta de proteção para elas: há uma pesquisa que examina a violência na prostituição
  • O estudo de Melissa Farley de 2008 a nível internacional mostra que: 82% das mulheres foram agredidas fisicamente. 83% foram ameaçadas com uma arma. 68% foram estupradas. 84% são ou foram desabrigadas.
  • O estudo de Zumbek em 2001 na Alemanha: 70% foram agredidos fisicamente. (Zumbeck, Sibylle: Die Prävalenz traumatischer Erfahrungen, Posttraumatische Belastungsstörungen und Dissoziation be Prostituierten, Hamburg 2001)
  • Um estudo do Ministério da Família da Alemanha em 2004: 82% mencionaram a manutenção de violência psicológica, 92% foram agredidas sexualmente. (Bundesministerium für Familie, Senioren, Frauen und Jugend: Gender Datenreport, 2004)

Apenas levando em conta esses números, é difícil dizer que é um trabalho como outro qualquer. E esta pesquisa remonta a mais de 10 anos atrás – as coisas se tornaram muito piores na Alemanha.

Isso é o que a dominatrix Ellen Templin já havia observado em 2007: “Desde a reforma, você pode ver que não apenas os anúncios se tornaram desinibidos, mas também os compradores de sexo se tornaram mais brutais. Isso é de um dia para o outro. Hoje em dia, se você disser: “Não, eu não faço isso”, muitas vezes você recebe a resposta: “Vamos lá, não seja tão difícil, é o seu trabalho”. Antes era proibido exigir sexo desprotegido. Hoje, os compradores perguntam ao telefone se podem mijar no seu rosto, querendo transar sem proteção, querem fazer sexo anal ou oral. Hoje em dia, é uma ocorrência diária. Antes, os compradores ainda tinham uma consciência pesada. Isso não existe mais hoje, eles querem mais e mais.” (p. 171-178, Alice Schwarzer HG .: Prostitution, ein deutscher Skandal, 2013)

Há um “menu” circulando na Internet, onde os compradores podem escolher o que querem de uma longa lista à la carte. (Lista anexa)

Existem sites na internet onde os compradores compartilham suas experiências: aqui está o que você pode ler lá: (freiersblick) “Eu abri as nádegas dela e lentamente enfiei meu pênis dentro dela, o que foi acompanhado por um gemido silencioso. Quando eu estava perto de terminar, eu a fudi mais e mais violentamente, ela queria que eu parasse e a fudesse em sua boceta. Eu não queria. Desculpe, Vanessa! Depois de vários golpes, gozei e a penetrei profundamente novamente.”

Algumas semanas atrás, recebi um novo estudo de Melissa Farley (Compradores sexuais), que mostrou que os compradores de padrões de exibição sexual são semelhantes aos homens com personalidades antissociais, com as seguintes características: falta de empatia, misoginia e desejo de dominar as mulheres praticando sexo sem fazer uma conexão, falta de uma consciência culpada. Então não é o cara legal da casa ao lado, que só quer um pouco de sexo. Não, a prostituição atrai psicopatas e encoraja personalidades antissociais entre os homens. É desnecessário dizer que esses comportamentos não ficam confinados às paredes dos bordeis, mas também influenciam as relações entre homens e mulheres na vida cotidiana.

Sob essas condições, nenhuma mulher alemã se vê como capaz de fazer esse “trabalho”. A maquiagem das mulheres na prostituição mudou. Com a abertura da Europa a leste, as mulheres vêm das regiões mais pobres da Europa: Romênia, Bulgária – e são muitas vezes minorias como os ciganos que vivem em extrema pobreza. Hoje, cerca de 95% vem de outros países. Tornou-se uma prostituição da pobreza.

Sabine Constabel, uma assistente social que trabalha em Stuttgart com mulheres prostituídas há mais de 20 anos, diz o seguinte em uma entrevista na televisão (17.10.2013: youtube-video): “30% dessas mulheres são jovens, com menos de 21 anos. Muitas vezes elas são sacrificadas por suas próprias famílias para apoiá-las financeiramente. A maioria não fala alemão e alguns delas são analfabetas. E frequentemente, elas não tiveram relações sexuais antes. Estas jovens 7 mulheres vêm para a Alemanha e estão sujeitas aos desejos perversos desses compradores. Elas não são capazes de dizer não, de se defenderem. Elas estão completamente sobrecarregadas pela situação e completamente traumatizados por ela. Muitos delas pedem drogas psicotrópicas imediatamente após a primeira experiência. Elas dizem: “Caso contrário, você não poderia sobreviver.” Algumas mulheres ficam lá apenas alguns dias e dizem: “Eu estou morta aqui, não posso mais rir”. Outras aguentam por anos e dizem: “Eu tenho filhos em casa, tenho que apoiá-los”. Essas mulheres são muito traumatizadas, elas desenvolvem depressão, pesadelos e problemas físicos; elas somatizam, têm dores de estômago, adoecem e sofrem. Elas se tornam desesperadas, elas não querem fazer este trabalho horrível.”

Para concluir, gostaria de permitir que Michaela Huber, presidente da Sociedade Alemã de Trauma e Dissociação fale:

“A sociedade precisa ter uma visão clara disso e perguntar: “O que é isso?” O que está acontecendo? Como é que a sexualidade se desconectou da parceria, amor e família? É isso que nós queremos? É uma discussão que deve ocorrer em nossa sociedade. Queremos aceitar que milhões de homens todos os dias comprem o corpo de uma mulher para penetrá-lo? Nós acreditamos que isso é certo? Que sociedade pode acreditar que isso é certo?” (22/01/2015 eiszeit-der-ethik)

 


Lista do menu

AF = Algierfranzösisch (Zungenanal) — Língua Anal

AFF = Analer Faustfick (die ganze Hand im Hintereingang) — Penetração com punho anal

AO = alles ohne Gummi — Tudo sem camisinha

Braun-weiß = Spiele mit Scheiße und Sperma — brincar com fezes e esperma

DP = Doppelpack (Sex mit zwei Frauen) oder: double Penetration (zwei Männer in einer Frau) — Sexo com 2 mulheres ou penetração dupla (2 homens emu ma mulher)

EL = Eierlecken — Lamber as bolas

FF = Faustfick – Penetração com o punho

FP = Französisch pur (Blasen ohne Gummi und ohne Aufnahme) — Boquete sem camisinha

GB = Gesichtsbesamung – Ejaculação no rosto

GS = Gruppensex — Sexo em grupo

Kvp = Kaviar Passiv (Frau lässt sich anscheißen) — Homem defecar na Mulher

Nsp = Natursekt Passiv (Frau lässt sich anpinkeln) — Homen uninar na mulher

OV = Oralverkehr (Blasen, Lecken); — Sexo oral (boquete ou lambida)

SW = Sandwich, eine Frau zwischen zwei Männern — Uma mulher entre dois homens

tbl, = tabulos, ALLES ist erlaubt — sem tabu, tudo é permitido.

ZA = Zungenanal (am / im Hintereingang lecken) — lamber o ânus.

Prostituição é violência contra mulheres!

Discurso de Dra. Ingerborg Kraus em 25 de novembro de 2016 na França, reproduzido pelo Trauma and Prostitution.
Traduzido por Anna Beatriz Saraiva

Devido ao Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o Prefeito da região de Alsácia-Champanhe-Ardenas-Loren, chefe da autoridade regional de saúde, em cooperação com as organizações chamadas Centro de Informação sobre Diretos das Mulheres e da Família (CIDFF), Movimento do ninho França e Penélope, convidaram um simpósio transnacional ligado ao tema “Prostituição e Saúde: Desafios e Mudança de Perspectiva na Europa”.

Eu gostaria de agradecer aos organizadores desse simpósio Alemão-Francês. Esse primeiro evento após a introdução da legislação pela abolição do sistema de prostituição na França, localizada próxima a Alemanha tem um significado simbólico para nós. Eu acredito que é de fato necessário despertar a Alemanha, que fornece diretrizes no que diz respeito às pautas europeias, pode — nesse caso — precisar de uma tutoria da França e da Suécia.

Em ocasião do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, eu gostaria de relatar sobre as dramáticas consequências da prostituição depois da legalização na Alemanha, e eu irei provar que a prostituição é violência contra mulheres. Depois, eu gostaria de falar sobre os impactos psicológicos.

A razão pela qual eu quero focar na violência é porque a discussão política na Alemanha nunca reconheceu o aspecto violento. Prostituição é vista como uma ação pessoal que não é da conta do estado.

1. Violência na prostituição

Na Alemanha existe um grande Estudo Federal datado em 2004 sobre subordinação a violência. Dentre um total de 10.000 mulheres entrevistadas, tinham 110 prostitutas, que proporcionaram as seguintes afirmações: 82% nomearam formas de violência psicológica, 92% sofreram assédio sexual, 87% sofreram violência física, 59% sofreram violência sexual.

Existe um segundo estudo na Alemanha, datado em 2001, por Zumbeck com 54 prostitutas. Este estudo descobriu que todas as mulheres sofreram traumas. 70% foram fisicamente atacadas e 68% foram estupradas.

A decisão “voluntaria” de escolha a prostituição requer certas condições prévias. Todas as mulheres em situação de prostituição que visitaram minha clinica tinham uma história de proteção insuficiente na infância e — como consequência — auto proteção insuficiente. Em uma idade muito jovem, essas mulheres aprenderam a “se desligarem”. Também aqui, existem vários estudos que provam a relação entre ter sofrido violência na infância e a prostituição. O estudo de Zumbeck na Alemanha mostrou que 65% das mulheres foram fisicamente abusadas e 50% foram sexualmente abusadas na infância.

A violência na prostituição tem muitas faces:

Isto começa com as roupas leves ou estando completamente nuas no frio.

Nas ruas de prostituição só existem más condições de higiene e nenhuma instalação de limpeza, nenhuma proteção, nenhuma segurança, escuridão, frio, exposição aos olhares dos compradores de sexo e dos que passam por ali e julgam, depreciam, insultam, xingam, etc.

Nos bordeis as mulheres são “trancadas”. O direito de informação delas é detido pelo dono do bordel, o que significa que o dono decide quem pode entrar e quem não pode. Se alguém está tentando conseguir contato com uma dessas mulheres, este precisa “se dar bem” com os donos. O contato com o mundo externo é estritamente regulado. Nem todo mundo é permitido a falar com essas mulheres. Elas não são livres.

Nos bordeis as mulheres não experienciam nenhuma autodeterminação. Elas não tem o direito de falar ou fazer nenhuma reivindicação. Como Manfred Paulus descreveu “desde o início elas são prisioneiras, sobretudo, dessas subculturas criminais no distrito da Luz Vermelha. Nesse meio social elas são aprisionadas a uma lugar hierárquico muito baixo. Elas são privadas de todos os seus direitos, estão indefesas, impotentes e expostas”.

Existe um relacionamento totalmente assimétrico entre mulheres e homens: “Hoje, a prostituição se apresenta assim: Cerca de 90% das mulheres em situação de prostituição vieram dos países mais pobres da Europa para o leste. Cerca de 30% são menores de 21. Elas não praticam sexo seguro, elas não podem traçar seus limites ou negociar. Elas estão em uma situação muito inferior. Elas não tem poder de fazerem cumprir suas reivindicações. Por 30 euros elas farão tudo que o cliente quer. Elas são extremamente sobrecarregadas, totalmente traumatizadas.”

Além disso, um enorme problema é o fato de que essas mulheres são, na maioria das vezes, sacrificadas pelas suas próprias famílias. A renda dessa ocupação é enviada para a família em seus países de origem. Portanto, sair da prostituição envolve conflitos internos profundos. Não é como se libertar das correntes de um cafetão, mas sim ser forçada a se separar de própria família. Essa “nova” prostituição na verdade é pior que a prostituição forçada, porque o traficante humano não é um predador estranho, mas sim a própria família.

Além disso, o aluguel elevado (até 180 – toda mulher tem que pagar) pode ser chamado de violência, porque isso significa que mulheres precisam servir 6 clientes, antes mesmo que elas possam começar a ganhar um misero Euro.

As taxa fixas de bordeis são contra dignidade humana. É humilhante saber que você é vendida por 50 euros em um pacote completo junto com linguiça e cerveja.

dra.ingerborg kraus - saúde

Desde a legalização, os compradores de sexo têm se tornado mais pervertidos e as práticas, portanto, mais perigosas. Claro que, como resultado, a violências contra mulheres prostituídas aumentou. Em muitos fórum de compradores de sexo homens se orgulham, de o quão “forte” eles “empurraram” a prostituta, e a avaliaram. Óbvio que eles veem isso como seu direito masculino de avaliar mulheres e as usá-las de todas as formas. Existe um “menu” circulando na internet onde os compradores de sexo podem escolher o que eles querem de uma grande lista à la carte. Em outros países isso gera repulsa e é visto como tortura. Na Alemanha, isso é visto com normalidade. Aqui estão alguns exemplos:

AF = Algierfranzösisch (Zungenanal) — Língua Anal

AFF = Analer Faustfick (die ganze Hand im Hintereingang) — Penetração com punho anal

AO = alles ohne Gummi — Tudo sem camisinha

Braun-weiß = Spiele mit Scheiße und Sperma — brincar com fezes e esperma

DP = Doppelpack (Sex mit zwei Frauen) oder: double Penetration (zwei Männer in einer Frau) — Sexo com 2 mulheres ou penetração dupla (2 homens emu ma mulher)

EL = Eierlecken — Lamber as bolas

FF = Faustfick– Penetração com o punho

FP = Französisch pur (Blasen ohne Gummi und ohne Aufnahme) — Boquete sem camisinha

GB = Gesichtsbesamung Ejaculação no rosto

GS = Gruppensex — Sexo em grupo

Kvp = Kaviar Passiv (Frau lässt sich anscheißen) — Homem defecar na Mulher

Nsp = Natursekt Passiv (Frau lässt sich anpinkeln) — Homen uninar na mulher

OV = Oralverkehr (Blasen, Lecken); — Sexo oral (boquete ou labinda)

SW = Sandwich, eine Frau zwischen zwei Männern — Uma mulher entre dois homens

tbl, = tabulos, ALLES ist erlaubt — sem tabu, tudo é permitido.

ZA = Zungenanal (am / im Hintereingang lecken) — lamber o anus.

É evidente que devido a essas práticas arriscadas de sexo as taxas de infecções aumentaram. Há um estudo científico da Dr. Anna Wolff de 2008, que dá um panorama do estado de saúde tendo foco nas doenças sexualmente transmissíveis. 110 prostitutas foram examinadas em Luberck, Alemanha. 26% tinham doenças sexualmente transmissíveis que precisavam de tratamento, 42% das mulheres estavam afetadas por uma infecção aguda ou uma infecção que já tinha se alastrado.

As condições de trabalho são calamitosas: as mulheres são completamente dependentes da empresa. Trabalham muito, dormem e comem nos bordeis. Elas vivem em um universo paralelo sem nenhum direito e sem acesso ao mundo externo. Enquanto isso, na Alemanha o “produto” chamado mulher é maximamente explorado de acordo com a lei do mais intenso capitalismo: aumento maximo dos lucros e baixo custo, etc.

A hora do trabalho é um risco a saúde: prostitutas precisam sempre estar “prontas” para seus clientes, assim sendo, elas dormem no máximo 5 horas por noite.

Muitas mulheres vivem como nômades na Alemanha. Elas não possuem residência permanente e são frequentemente mandadas de um bordel para outro para proporcionar diversão aos compradores de sexo. Muito frequentemente elas nem mesmo sabem onde estão.

A ONU buscou conselhos a respeito da prostituição e a pergunta foi: “E os direitos reprodutivos das mulheres prostituídas?” Minha resposta a isso é que, nesse contexto, é totalmente absurdo falar sobre direitos reprodutivos. Atualmente, mulheres gravidas são muito populares entre os compradores de sexo. Isso significa que eles querem sentir a criança no útero da mulher. Sendo assim, os abortos tardios no exterior acontecem com bastante frequência. Existem também muitas mulheres dando seus filhos para adoção. Para servir a este mercado, pouco tempo depois de darem a luz, mulheres são regularmente engravidadas de novo. Dizem que, enquanto isso, em Berlin, há mais bebês que casais querendo adotar. O estresse e a situação emocional para uma mulher gravida praticando sexo sem parar é prejudicial, não só para a mãe mas para a criança em desenvolvimento no útero.

A violência não existe só no ato da prostituição. As mulheres não experienciam nenhuma proteção fora dela também. Elas sofrem violência física de seus cafetões, donos de bordeis, traficantes, e até mesmo são assassinadas. Elas experienciam violência psicológica através de olhares enojados e exclusão da sociedade. Elas não são levadas a sério, elas são discriminadas, elas sempre serão uma “ex-puta”.

A violência também ocorre na chamada “prostituição de luxo”. A sobrevivente de prostituição alemã Marie a descreve assim: “O “respeito” que um homem me mostrava não era respeito por mim, era respeito pelo dinheiro que eles tinham investido. Trabalhar com prostituição, suportar o cheiro de um homem estranho, sentir a pele deles no meu próprio corpo… Uma mulher tem que superar todos os seus limites. Eu não vivi o pior tipo de prostituição, mas mesmo depois de eu ter deixado a prostituição, essa vida me apanhou e me atingiu como uma onda.”

Sexualidade exige uma interação da mente e do corpo. Permitir estranhos que penetrem seu próprio corpo requer que sejam desligadas funções naturais, ou, caso contrário, seriam inevitável: medo, estranheza, nojo, desprezo, o cheiro, a dor, etc. Esse desligamento é um fenômeno chamado dissociação. Álcool e drogas são um adicional para ajudar a suportar a dor emocional. Usar a vagina como uma ferramenta de trabalho entorpecida só é possível em um estado patológico de dissociação.

2. Os danos psicológicos causados pela prostituição

Na Alemanha, não existem exames de saúde ou proteção à saúde para mulheres em situação de prostituição. Portanto, dificilmente alguma recolha de dados pode ser encontrada sobre os impactos que a prostituição tem em mulheres. Desta forma, mulheres estão nas garras de um meio extremamente violento e prejudicial.

O estudo de Zumbeck datado em 2001 descobriu que 60% das mulheres na prostituição desenvolveram completamente Estresse Pós-traumático. O estudo de Schröttle & Müller datado em 2004 mostra o auto consumo de medicamentos: 67% das mulheres em prostituição tomam analgésicos, 38% tomam sedativos.

Contudo, eu gostaria de apontar que na maioria dos casos não é fácil descrever ou traçar os danos psicológicos em mulheres que ainda estão se prostituindo. Recentemente, eu tratei uma mulher cujo um cliente introduziu unhas em sua vagina. O comentário dela foi: “Não machuca. Está tudo bem, Senhora Kraus.” Muito frequentemente, os centros de aconselhamento e a polícia não entendem o que dissociação significa e que formas isso pode aparecer. Frequentemente, a dor emocional só se torna acessível para a mulher uma vez que ela consegue sair da prostituição.

Muito recorrentemente eu sou enfaticamente questionada por repórteres se prostituição realmente faz tão mal a mulheres. Eles querem ouvir diagnósticos. De fato, muitas mulheres apresentam o quadro estresse pós-traumático, mas não só isso; vícios, ansiedade e depressão são também muito comuns.

Mas qual diagnostico pode ser dado a uma mulher que está tão traumatizada que parou de falar? Qual diagnostico pode ser dado a uma mulher que não sente nenhuma dor, quando unhas são inseridas em sua vagina? Aqui, nós estamos lidando com múltiplas formas de estresse pós-traumático.

Uma colega minha que trabalhou em um programa de mulheres saindo a prostituição me disse que apenas algumas são capazes de sair. As mulheres geralmente trabalham até elas “quebrarem” fisicamente. Ela disse que é apenas uma questão de tempo até que esse desmoronamento ocorra.

Por que isso é assim? Eu me perguntava. Porque a força de vontade dessas mulheres foi destruída. Essas mulheres não veem um futuro para elas mesmas, elas não tem sonhos, não têm identidade fora da prostituição. Elas são reduzidas a esse construto chamado “prostituta” e elas não são capazes de achar uma saída. Elas estão aprisionadas em seus traumas e em sua humilhação.

As mulheres jovens vindo à Alemanha estão totalmente esgotadas e completamente traumatizadas. Muitas delas demandam por psicotrópicos e outras drogas imediatamente depois de sua primeira experiência. Elas dizem não conseguir sobreviver a este negócio de outra forma. Algumas mulheres estiveram neste lugar apenas por algumas semanas e afirmam: “Eu morri ali. Eu não consigo mais sorrir”. Outras que suportaram isso por anos dizem: “Eu tinha filhos em casa, eu tinha que aguentar”. As mulheres são muito traumatizadas, elas desenvolvem depressão, pesadelos, e problemas físicos. Elas somatizam, elas sentem socos no estômago. Elas ficam doentes, e se sentem doentes. Elas se tornam mulheres sem esperanças.

Jana Koch-Krawcak que entrou em bordeis como uma trabalhadora de rua relata o mesmo: Ela conheceu mulheres negligenciadas que perderam qualquer contato com si mesmas. Elas regiam de um jeito assustado ou apático. É óbvio que elas precisam de tudo, menos de sexo. Mas ao redor delas você só vê compradores de sexo, e aqueles homens não dão a mínima pra isto. Eles riem e se divertem.

Como pode ser? Eu me fiz o mesmo questionamento que Caroline Emcke fez em seu livro “Gegen den Hass” (“Contra o Ódio”). Sim, como é possível ignorar, não ver, a miséria e enxergar apenas as próprias necessidades? Como isso funciona?

Isso funciona porque homens acreditam que eles tem o direito de ter sexo e que eles tem o direito de usar mulheres. A mulher está presa em uma imagem socialmente construída, a figura da “besta sexual insaciável”. Outras necessidades que essas mulheres venham a ter são negadas. Elas são desumanizadas, elas são apenas uma “coisa”, um objeto. Isto permite ao comprador de sexo de tudo, sem nenhuma escrúpulo, a sua empatia é bloqueada e substituída pela indiferença.

Usando o mecanismo de repressão e ilusão, a sociedade e a política estão evitando tomar essa responsabilidade. A violência é negada, a realidade é ocultada. E pra o que é tudo isso?

Tudo isso para defender um forte tabu sagrado, chamado sexualidade masculina, e seu incontestável direito de exploração e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a indústria do sexo, com seus lucros exorbitantes, está sendo defendida também. Com a legislação de 2002 e com a legalização em 2016, a Alemanha continua sendo um Eldorado para donos de bordeis, cafetões e tráfico humano.

“A normalização da prostituição também vem causando efeitos devastadores na sociedade como um todo. Isso sustenta e consolida a discriminação, a hierarquia de gênero de homens em relação às mulheres, na Alemanha Prostituição é violência contra mulheres! Isso reforça e promove relações patriarcais de gênero, isso é um símbolo da dominação dos homens sobre as mulheres, assim como promove a degradação coletiva de mulheres.”