Mulheres, Migração e Prostituição na Europa: Não uma História de Trabalho Sexual

Por Anna Zobnina.

Traduzido por Carol Correia.

PALAVRAS-CHAVE

Mulheres, migração, Europa, trabalho sexual, comércio sexual, prostituição descriminalizada, violência, Anistia Internacional, direito europeu, política de prostituição, tráfico, exploração sexual, crise de refugiados, mulheres migrantes, mulheres refugiadas, violência contra as mulheres, violência sexual, direitos humanos, direitos das mulheres

 

Desde o início da mais recente crise humanitária, quase um milhão de refugiados receberam asilo na Europa. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), em 2016, mais de 360.000 refugiados chegaram às costas europeias em busca de abrigo (UNHCR, 2017). Deste número, pelo menos 115.000 são mulheres e meninas, incluindo meninas menores de idade desacompanhadas. O que alguns descrevem como uma “crise de refugiados” é, em muitos aspectos, um fenômeno feminista: mulheres e suas famílias que escolhem a vida, a liberdade e o bem-estar, em oposição à morte, opressão e pobreza.

No entanto, a Europa nunca foi um lugar seguro para as mulheres, particularmente para aquelas que estão sozinhas, pobres e sem documentos. Os campos de refugiados, dominados por homens, administrados por militares e desprovidos de espaços segregados por sexo ou de unidades básicas de higiene para mulheres, rapidamente se tornaram ambientes altamente masculinizados, onde a violência sexual e a intimidação as mulheres proliferam. Frequentemente as mulheres desaparecem dos centros de refugiados. Como os membros da nossa rede – as próprias mulheres refugiadas que prestam serviços nos campos – relatam que as requerentes de asilo têm legitimamente medo de tomar banho nas instalações mistas. Elas temem ser assediadas sexualmente, e quando os estranhos que se apresentam como trabalhadores humanitários se oferecem para ajudá-las a usar banheiros em um local seguro fora do campo, as mulheres nunca mais voltam.

A menos que uma mulher desaparecida tenha sido oficialmente identificada, é impossível saber se ela foi transportada para outro lugar, se conseguiu escapar ou se está morta. O que nós – a Rede Europeia de Mulheres Migrantes – sabemos é que as mulheres das nossas comunidades acabam regularmente em situações de exploração, sendo o casamento forçado, a servidão doméstica e a prostituição as formas mais graves. Essa exploração vem além do trauma sexual, do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), da privação material prolongada e do isolamento social que predizem a vulnerabilidade das mulheres migrantes em primeiro lugar.

Para entender isso, não é necessário consultar a polícia, você só precisa andar pelas ruas de Madri, Berlim ou Bruxelas. Bruxelas, a capital da Europa, onde está localizada a sede da Rede Europeia de Mulheres Migrantes (ENOMW), é uma das muitas cidades europeias onde a prostituição é legalizada. Se você sair do seu “bairro europeu” – a área luxuosa que abriga a clientela internacional das “acompanhantes de luxo” – em direção a Molenbeek – o infame “bairro terrorista”, onde os migrantes empobrecidos e etnicamente segregados vivem – você passará pelo distrito de Alhambra. Lá você notará os homens, correndo pelas ruas, com os rostos para baixo. Evitam o contato visual para não trair a razão pela qual frequentam a Alhambra – para acessar as mulheres na prostituição.

Muitas dessas mulheres são das ex-colônias da Europa – o que geralmente é chamado de Terceiro Mundo – ou vêm das regiões mais pobres da própria Europa. As mulheres da Rússia, como eu, também estão em abundância. Embora as mulheres latino-americanas, africanas e do sudeste asiático sejam fáceis de localizar nas ruas, as mulheres do Leste Europeu são difíceis de alcançar, pois seus “gerentes” reforçam a vigilância rigorosa e mantêm as mulheres longe dos espaços públicos.

Supostamente, nós devemos chamar essas mulheres de trabalhadoras sexuais da Europa, mas a maioria delas se surpreenderá com essa descrição ocidental e neoliberal do que fazem. Isso porque a maioria das mulheres migrantes sobrevive à prostituição do mesmo modo que você sobrevive à fome, a desastres naturais ou à guerra. Elas não trabalham nisso. Muitas dessas mulheres possuem qualificações e habilidades educacionais que querem usar no que a União Europeia (UE) chama de economias qualificadas, mas as leis trabalhistas restritivas da UE e a discriminação étnica e sexual contra as mulheres não permitem que elas consigam esses empregos.

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O comércio sexual, portanto, não é um lugar incomum para encontrar as mulheres migrantes na Europa. Enquanto algumas delas são identificadas como vítimas de tráfico ou exploração sexual, a maioria não é. Dentro e fora das ruas – em clubes de strip-tease, saunas, casas de massagem, hotéis e apartamentos particulares – há migrantes do sexo feminino que não satisfazem os critérios de tráfico aceitos oficialmente e não têm direito a qualquer tipo de apoio.

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Em 2015, a Comissão Europeia (CE) informou que das 30.000 vítimas de tráfico registradas na UE em apenas três anos entre 2010 e 2012, quase 70% foram vítimas de exploração sexual, com as mulheres e meninas representando 95% desse número. Mais de 60% das vítimas foram traficadas internamente de países como a Romênia, Bulgária e Polônia. Vítimas de fora da UE geralmente vêm da Nigéria, Brasil, China, Vietnã e Rússia. Estes são os números oficiais obtidos através de instituições oficiais. As definições de tráfico são notoriamente difíceis de aplicar, e os provedores de serviços de linha de frente sabem que os indicadores de tráfico dificilmente podem explicar a gama de casos que eles encontram, portanto, atrevem as práticas de exploração, prostituição e tráfico.

As grandes organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, também sabem disso. No entanto, em maio de 2016, a Anistia divulgou sua política internacional de apoio à descriminalização da prostituição (Anistia Internacional, 2016a). A política defende que os donos de prostíbulos, proxenetas e compradores de sexo se tornem agente livres em um mercado livre chamado “trabalho sexual”. A Anistia alega basear sua política de descriminalização em “ampla consulta mundial”, mas não consultou grupos de direitos humanos – como a nossa – que teria se oposto a essa recomendação (Anistia Internacional, 2016b). Este documento político apresenta muitas expressões idiomáticas, como o intercâmbio consensual entre adultos, e tem no centro um argumento de caridade – a proteção dos direitos das pessoas mais vulneráveis, em particular, os direitos das mulheres migrantes.

A Anistia não é a única organização preocupada com os direitos dos migrantes. Cada vez mais os grupos que promovem o “trabalho sexual” estão assumindo o papel de “cuidadores”. A Universidade Aberta do Trabalhador do Sexo em Londres e o Comitê Internacional dos Direitos dos Trabalhadores Sexuais da Europa (ICRSE) em Amsterdã estão entre eles. Este último está a tentar atravessar as instituições e plataformas europeias em Bruxelas para ser reconhecido como “um parceiro respeitado na arena política europeia e legislaturas nacionais e defender eficazmente os direitos humanos e laborais das trabalhadoras do sexo” (International Committee on Rights of Sex Workers Europe, 2016).

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De acordo com a Anistia, o que protegerá os “direitos das trabalhadoras do sexo” é garantir, na lei, os direitos dos homens europeus a serem sexualmente atendidos em uma base comercial, sem medo de processos judiciais. A Anistia afirma cuidadosamente que sua política se aplica apenas a “adultos que consentem”. A Anistia é contra a prostituição de menores, a qual chama de estupro. O que a Anistia omite é que, uma vez que uma garota refugiada seja aliciada para a prostituição, é improvável que ela tenha recursos materiais e psicológicos para escapar e denunciar seus exploradores. É muito mais provável que ela seja condicionada a aceitar o “trabalho sexual” – o rótulo que a indústria do sexo lhe atribuiu. “O trabalho sexual” se tornará uma parte inescapável de sua sobrevivência na Europa. Na realidade, a linha clara que a Anistia chama de política entre adultos que consentem e menores de idade explorados não existe, o que existe é a trajetória de um indivíduo vulnerável em que o abuso sexual se torna normalizado e a violência sexual é consentida.

O convite da Anistia às mulheres mais vulneráveis para consentir com a violência e o abuso da prostituição só se tornou possível porque muitos profissionais o permitiram. Tornou-se um truísmo, repetido por acadêmicos e ONGs, que a prostituição é uma forma de emprego. Com o comércio sexual chamado de profissão mais antiga, é agora, não apenas politicamente correto, mas uma visão obrigatória dizer que a prostituição é uma atividade que cuida dos direitos humanos.

A anistia e seus aliados também garantem a todos que a prostituição é uma escolha. Reconhecidamente, não é a primeira escolha para aqueles que têm outras escolhas, mas para os grupos de mulheres mais marginalizadas e mais desfavorecidas, propõe-se ser uma maneira viável de sair da pobreza. De acordo com esta proposta, Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch, em 2015, afirmou que “todos querem acabar com a pobreza, mas por enquanto negam às mulheres pobres a opção do trabalho sexual voluntário?” (Roth, 2015).

Também se tornou amplamente aceito pelo setor de direitos humanos que o que prejudica as mulheres na prostituição é o estigma. Mesmo que todos nós saibamos que é o trauma associado com a suspensão de sua autonomia sexual que ocorre em qualquer ato de prostituição que é danoso, e é o cliente violento que a mata.

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Se você procurar entre as mulheres migrantes por uma “trabalhadora do sexo” que foi morta pelo estigma, você nunca encontrará uma. O que você vai encontrar é o comprador de sexo que a assassinou, a indústria do sexo que criou o ambiente para que isso aconteça, e os defensores dos direitos humanos, como a Anistia, que fecharam os olhos para o dano.

As mulheres vêm para a Europa devido a extrema necessidade econômica e, em número crescente, temendo por suas vidas. Se você sair da sua mesa de pesquisa e conversar com as mulheres migrantes – as mulheres árabes, as mulheres africanas, as indianas, as filipinas, chinesas e russas – a chance de encontrar uma mulher que descreve a prostituição como “trabalho” é extremamente baixo. Isso ocorre porque o conceito de “trabalho sexual” não existe nas culturas de onde nós viemos. Assim como qualquer outro vocabulário neoliberal, foi importado para o resto do mundo pelas economias capitalistas do Ocidente, muitas vezes canalizado através de ajuda humanitária, redução de danos e programas de prevenção da AIDS.

Uma economia capitalista na Europa é a Alemanha, onde a satisfação sexual dos homens, assim como os cuidados dentários, pode ser adquirida abertamente. O modelo regulatório de prostituição da Alemanha é derivado da descriminalização do comércio sexual em sua totalidade, seguido pela implementação de algumas regulamentações. Neste ambiente de mercado aberto, os compradores de sexo e cafetões não são reconhecidos como perpetradores ou exploradores. No período entre 6 de outubro e 11 de novembro de 2016, quatro mulheres na prostituição na Alemanha foram assassinadas (Sex Industry Kills, 2016). Elas foram assassinadas em clubes de sexo privados, apartamentos de bordéis e o que os alemães eufemisticamente chamam de “celulares amorosos”, ou seja, caravanas em um local remoto e desprotegido de uma cidade, “gerenciados” por cafetões e visitados por compradores sexuais. Pelo menos três das vítimas foram identificadas como mulheres migrantes (da República Dominicana e da Hungria), e todas as quatro são suspeitas de terem sido mortas por seus “clientes” masculinos.

Dada a esmagadora evidência de que a total descriminalização do comércio sexual não protege ninguém, exceto os compradores de sexo e cafetões, inclina-se a concluir que a Anistia, ao compor sua política, encontrou a análise política da discriminação sexista, racista e de classe que sustenta a prostituição muito difícil de realizar. Eles poderiam, de fato, como a sobrevivente do comércio sexual que Rachel Moran sugeriu, sofrer de uma “síndrome do homem branco” (Moran, 2015). Mas a pergunta que pede uma resposta é a seguinte: eles também não sabem o que é sexo? É improvável que todos os membros da diretoria da Anistia sejam celibatários; certamente, pelo menos alguns deles fizeram sexo, e se assim for, saberão que o sexo acontece quando ambas as partes o querem. Quando uma pessoa não quer sexo, é chamado de experiência sexual indesejada, para a qual os termos legais são importunação ofensiva ao pudor, abuso sexual e estupro.

Esta violência sexual é o que a prostituição é, e não faz diferença se ela “consente”. O consentimento, de acordo com a lei europeia, deve ser dado voluntariamente como resultado do livre-arbítrio da pessoa avaliado no contexto das circunstâncias circundantes (Council of Europe, 2011). O consentimento não deve ser um resultado do direito sexual masculino, uma parte das normas patriarcais.

Um ato sexual indesejado não se torna uma experiência aceitável porque a indústria do sexo o diz. Não há princípio moral que o torne tolerável porque você é pobre, desempregada, não documentada, está fugindo da guerra ou de um parceiro abusivo. É verdade que as mulheres migrantes na Europa são limitadas em seus direitos trabalhistas. Também é verdade que sofremos de racismo, exclusão, xenofobia e eurocentrismo. E embora tanto a Anistia quanto qualquer comitê de trabalho sexual possa tentar contestá-la, isso não nos torna menos humanas. Assim como os homens na Europa, as mulheres migrantes têm seus desejos sexuais, corpos sexuais e direitos sexuais. Esses direitos são autônomos e não pertencem a ninguém – muito menos aos homens que não fazem – ou fingem não entender o que é sexo.

A liberdade legal que a Anistia e os defensores de direitos humanos com a mesma opinião oferecem aos homens que confundem sexo com o privilégio de obter gratificação sexual é uma forma cognitiva e é, de fato, ilegal. A menos que tenham esquecido que a Europa aboliu a escravidão há dois séculos, não existe um instrumento legal que traduza a desvantagem econômica e legal de uma pessoa no privilégio de outra pessoa de fazer sexo com ela.

Com o melhor de nossas intenções para ajudar os migrantes, algumas pessoas não percebem que conceder à política da Anistia é prejudicial para as mulheres migrantes e refugiadas. A descriminalização da prostituição normaliza as já profundamente arraigadas desigualdades sexuais, étnicas e de classe nas sociedades européias das quais as mulheres já sofrem desproporcionalmente. Aumenta as barreiras legais ao emprego digno que a maioria das mulheres migrantes já enfrentam, deixando-as desqualificadas e privadas de oportunidades econômicas. O que é pior, é o que leva até mesmo o que as mulheres migrantes mais pobres e desfavorecidas carregam consigo quando embarcam em perigosas viagens à Europa – nossa crença de que uma vida livre de violência é possível e nossa determinação de lutar por ela.

BIOGRAFIA DA AUTORA

Anna Zobnina é a presidente da Rede Europeia de Mulheres Migrantes (ENOMW) e uma especialista com o Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero (EIGE). Ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia. Zobnina tem mais de dez anos de experiência na área de análise feminista interseccional da violência e discriminação contra as mulheres, com um foco especial em mulheres migrantes, exploração sexual e economia de cuidados. Ela trabalhou anteriormente como analista de pesquisa no Instituto Mediterrâneo de Estudos de Gênero (MIGS). Na ENOMW, ela está trabalhando na capacitação das organizações de mulheres migrantes e no fortalecimento de sua inclusão na tomada de decisão da União Europeia em áreas como acesso a trabalho e justiça, participação cívica e saúde e direitos sexuais e reprodutivos.

CITAÇÃO RECOMENDADA

Zobnina, Anna. (2017, January). Women, migration, and Prostitution in Europe: Not a sex work story. Dignity: A Journal of Sexual Exploitation and Violence. Vol. 2, Issue 1, Article 1.DOI:10.23860/dignity.2017.02.01.01. Available at http://digitalcommons.uri.edu/dignity/vol2/iss1/1.

REFERÊNCIAS

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Amnesty International. (2016b). Amnesty International publishes policy and research on protectionof sex workers’ rights. Retrieved from https://www.amnesty.org/en/latest/news/2016/05/amnesty-international-publishes-policy-and-research-on-protection-of-sex-workers-rights/

Council of Europe. (2011). Article 36 of Council of Europe Convention on preventing and combating violence against women and domestic violence (the Istanbul Convention). Retrieved from http://www.coe.int/en/web/conventions/full-list/-/conventions/rms/090000168008482e

EUROSTAT. (2015). Trafficking in human beings, 2015 edition, Retrieved from https://ec.europa.eu/antitrafficking/sites/antitrafficking/files/eurostat_report_on_trafficking_in_human_beings_-_2015_edition.pdf

International Committee on Rights of Sex Workers-Europe. (2016). ICRSE strategic work plan,2016-2019. Retrieved fromhttp://www.sexworkeurope.org/news/general-news/publication-icrse-strategic-plan-2016-2019

Moran, Rachel. (2015). Amnesty can no longer claim to defend human rights if it backs decriminalisingprostitution.”Retrieved from http://www.newstatesman.com/voices/2015/08/amnesty-can-no-longer-claim-defend-human-rights-if-it-backs-decriminalising

Roth, Kenneth. (2015, August 10). “All want to end poverty, but in mean time why deny poor women the option of voluntary sex work?” Retrieved from https://twitter.com/kenroth/status/6306770618589306885Z

Sex Industry Kills. (2017, January 15). Global database on prostitution murders: Prostitution murders in Germany. Retrieved from http://sexindustry-kills.de/doku.php?id=prostitutionmurders:de

United Nations High Commission for Refugees. (2017, January 11). UNHCR data portal: Regional overview, refugees/migrants response—Mediterranean. Retrieved from http://data.unhcr.org/mediterranean/regional.php

Capítulo 6 de “Vagina Industrial” por Sheila Jeffreys

Capítulo 6: Turismo de prostituição – mulheres como lazer dos homens

Escrito por Sheila Jeffreys, traduzido por Carol Correia.

 

O desenvolvimento da indústria do turismo sexual na Ásia a partir da década de 1970 foi substancialmente auxiliado pelo trabalho de base estabelecido pela prostituição militar dos EUA. Começou nos mesmos locais em que a prostituição foi desenvolvida para servir os militares dos EUA em repouso e recreação, como a Tailândia, Filipinas e Coréia e se desenvolveu até o ponto em que estava fornecendo uma proporção substancial do PIB nesses países. Na verdade, os governos dos países pobres desenvolveram deliberadamente o turismo sexual como meio de ganhar divisas (Truong, 1990). Mas a indústria do sexo também cresceu fortemente em outros destinos neste período, como Amsterdã, Havana, Estônia, Jamaica e precisa ser explicada em termos de outras forças globais. Estes incluem o desenvolvimento da indústria do turismo e do consumo como motor central do crescimento econômico (Wonders e Michalowski, 2001). O turismo sexual é um desenvolvimento recente e um aspecto do desenvolvimento do turismo como indústria. As mulheres asiáticas apanhadas no tráfico de mulheres no leste no período de entre guerras não prestaram atenção aos turistas ocidentais, como poderia acontecer no turismo de prostituição de hoje, mas foram para países estrangeiros em busca de clientes entre seus próprios países estrangeiros” (League of Nations, 1933, p.22). Em nenhum lugar havia tentativas encontradas de fornecer novidades exóticas aos clientes de bordeis, oferecendo-lhes mulheres de raças ‘alienígenas’ (ibid.).

O campo dos estudos de lazer cresceu em resposta à crescente importância do “consumo” na economia global. Atualmente, o turismo sexual está sendo pesquisado e ensinado como um aspecto legítimo do “lazer” em estudos de lazer e turismo (Opperman, 1998; Ryan e Hall, 2001). O consumo, o lazer e o turismo em si são profundamente baseado no gênero, como pesquisadores feministas de estudos de lazer estão apontando (Deem, 1999). As mulheres facilitam o lazer dos homens, através do trabalho não remunerado como donas de casa e se tornam objetos através dos quais os homens conseguem lazer, sendo prostituídas ou agindo como strippers. O turismo masculino enfatiza a aventura e o risco e “cada vez mais, as mulheres são vistas como o destino” (Wonders e Michalowski, 2001, p. 551). O turismo sexual também tem apologistas em algumas mulheres acadêmicas que escrevem sobre a indústria sob uma perspectiva de trabalho sexual, enfatizando a agência das mulheres prostituídas e argumentando que o turismo sexual não tem gênero, já que as mulheres também fazem isso e isso não requer uma análise feminista (Kempadoo, 1998).

Este capítulo examinará esta nova “indústria do lazer”, considerando a forma como está sendo normalizada, sua utilidade para os compradores masculinos e para os negócios e os danos graves para as mulheres que são parte integrante desse exercício do direito do sexo masculino. Eu argumentarei que o turismo sexual subordina a subordinação das mulheres, permitindo que turistas e empresários de países ricos acessem o maior desespero e degradação que podem ser comprados em países pobres ou de mulheres traficadas em cidades como Amsterdã. Permite aos homens em países em que as mulheres estão fazendo avanços em direção à igualdade, um dos aspectos da capacidade de negar o acesso sexual absoluto dos homens, de comprar a subordinação sexual das mulheres em outros lugares por meio de seu maior poder de despesa. Oferece aos homens brancos a vantagem de poder comprar fantasias sexuais de alteridade e a noção de que há mulheres em outros lugares que estão desesperadas pelo seu toque.

O turismo sexual é cada vez mais reconhecido como importante para as economias regionais e nacionais. O próprio turismo cresceu enormemente em importância na economia mundial, de modo que, em 1996, formou 10% de todos os gastos do consumidor (Wonders e Michalowski, 2001, p. 549). Como alguns países pobres se viram em desvantagem na nova ordem mundial econômica, eles se voltaram para o turismo; e o turismo expressamente sexual como forma de ganhar renda em dólares: “À medida que os países recém-industrializados se esforçam para encontrar nichos de commodities na economia globalizada, eles frequentemente encontram muitos dos melhores nichos de produtos já tomados. Como consequência, em alguns países, o turismo sexual se torna um mercado significativo promovendo o desenvolvimento econômico nacional e a acumulação de capital internacional” (ibid., p. 551). Ryan Bishop e Lillian Robinson, em seu livro sobre turismo sexual na Tailândia, não procuram estimar a proporção do valor da indústria do turismo atribuível especificamente ao turismo de prostituição, mas consideram-no significativo quando dizem que “US$ 4 bilhões por ano a indústria do turismo anual é o elemento fundamental do processo de modernização chamado ‘Milagre econômico tailandês'”. E o ponto principal dessa indústria é o sexo” (Bishop e Robinson, 1998). As cidades dos países ricos também estão se aventurando na promoção do turismo sexual para competir pelo número de turistas. Windsor no Canadá legalizou a prostituição de “acompanhamento”, em um país onde a prostituição é ilegal, a fim de maximizar os turistas masculinos dos EUA que passariam pela fronteira para usar seus cassinos e são importantes para a economia da cidade (Maticka-Tyndale et al., 2005). Embora alguns comentadores expressem um profundo desconforto no desenvolvimento do turismo de prostituição, outros são mais otimistas, dizendo que o valor econômico desta indústria deve ser reconhecido e sugerindo maneiras pelas quais isso pode ser aprimorado (Singh e Hart, 2007).

Devo usar o termo “turismo de prostituição” em vez do “turismo sexual” neste capítulo por uma questão de clareza. Embora “turismo sexual” geralmente tenha sido entendido como o comportamento de turistas masculinos cujo objetivo é se engajar em sexo comercial com mulheres locais em destinos turísticos (Enloe, 1989), pode ter uma aplicação mais ampla. O termo não implica necessariamente prostituição e pode ser usado para se aplicar ao comportamento dos turistas que esperam interação sexual com outras turistas em resorts ou sexo não comercial com os locais ou com outros estrangeiros de férias nos destinos ocidentais como uma parte rotineira de suas experiências de férias. O termo “turismo sexual” é um eufemismo e um termo normalizante, que pode ocultar os danos causados pelos turistas da prostituição e representar essa forma de comportamento dos homens como sendo sobre diversão e entretenimento mútuos. O termo “turismo de prostituição” é mais adequado para tornar visível a natureza baseada no gênero do fenômeno e seus danos para as mulheres.

O turismo de prostituição não se desenvolveu apenas em países e locais da Ásia que abrigaram a prostituição militar. É uma parte em desenvolvimento da indústria de prostituição em todas as áreas em que homens como indivíduos ou em grupos viajam por diversão, negócios, eventos esportivos ou assembleias políticas. Eles podem ser turistas que visitam especialmente com a finalidade de prostituir mulheres ou usar cassinos, uma vez que o uso de prostituição está integralmente relacionado com essa atividade ou empresários visitantes ou entusiastas de esportes masculinos que prostituem as mulheres como parte ordinária de sua experiência de viagem. Existem destinos turísticos de prostituição no mundo rico, como Amsterdã e o estado de Nevada dos EUA (Wonders e Michalowski, 2001; Shared Hope International, 2007; Farley, 2007). Também há países pobres que usaram o turismo de prostituição como uma ferramenta para desenvolver suas economias e colocar as mulheres locais no mercado como um recurso a ser explorado, sem ter experiências profundas de prostituição militar, como a Jamaica (Shared Hope International, 2007).

As Filipinas

As Filipinas fornecem um bom exemplo do turismo de prostituição à medida que se desenvolveu a partir da construção de uma indústria do sexo maciço para servir as bases militares americanas (Santos et al., 1998). Representa a variedade de turismo de prostituição em que os homens ricos visitam um país pobre onde podem acessar as mulheres assim como podem racializar outros. O turismo de prostituição nas Filipinas provocou intensas campanhas das feministas filipinas locais e da diáspora para obter mudanças legislativas que proibiria a prática. O relatório de uma turnê de estudo para mostrar aos australianos como o turismo de prostituição funciona caracteriza esses danos muito bem:

A indústria do turismo sexual é importante. É grande, é rico e é prejudicial. Cresce sobre a pobreza das Filipinas e sobre o racismo e o sexismo que existem na Austrália, Nova Zelândia e nas Filipinas. Leva as mulheres e as meninas à violência e à humilhação e as deixa, dia após dia, ano após ano, até que não tenham mais uso para eles. Pinta uma imagem das Filipinas como uma nação de mulheres disponíveis, submissas, que podem ser fudidas, espancadas, casadas, descartadas, divorciadas, mortas. (Distor e Hunt, 1996, p.3)

O turismo da prostituição foi promovido pelo governo nas Filipinas devido à sua rentabilidade. Os rendimentos gerados pelas chegadas de visitantes em 1993 foram de US$ 2,12 bilhões e 63,7% dos turistas eram homens (Distor e Hunt, 1996).

A cidade de Angeles, por exemplo, deve sua existência ao turismo de prostituição, inclusive através da prostituição, da Clark Air Force Base (Base aérea de Clark). Quando os americanos se retiraram, houve um hiato na indústria do sexo na cidade, que foi rapidamente preenchido por empresários australianos e turistas sexuais australianos. Pelo menos 80% das 152 casas noturnas e outros locais de entretenimento eram detidos e operados por australianos em 1995. Não há praias ou pontos de vista na cidade de Angeles, apenas a prostituição e quase todos os hotéis e bares são dedicados a esse fim. Os australianos formaram o maior número dos 120 mil turistas que visitaram a área em 1994. Agências na Austrália organizam passeios voltados para turistas sexuais para a cidade, entre outros destinos. A maioria das mulheres nos bares que atendem turistas sexuais são muito jovens, algumas apenas adolescentes, às vezes jogam cat’s cradle[1] quando não são necessárias aos compradores masculinos ou têm que dançar no palco onde são escolhidas (Jeffreys, 1999). O turismo de prostituição nas Filipinas funciona através da provisão de uma companheira para o feriado inteiro ou a compra de mulheres e meninas em bares através do pagamento de multas no bar. Os bares atendem diferentes segmentos socioeconômicos de homens. Aqueles que atendem turistas sexuais japoneses e taiwaneses são os mais caros e luxuosos. A próxima camada protege turistas europeus e australianos. O nível mais baixo do bar, que pode não ter saneamento, oferecem serviços a proletários filipinos. O turista seleciona uma garota e pede para comprá-la uma “bebida feminina” para que ela se sente com ele em uma mesa. Os homens que assim desejam podem comprar a mulher para a noite ou para o dia, pagando uma multa no bar ao caixa, da qual metade iria para a garota. As ONGs femininas nas Filipinas e os expatriados filipinos nos países que enviam turistas da prostituição estão trabalhando para acabar com a prática porque prejudica as gerações de mulheres filipinas que estão presas à prostituição e porque prejudica o status de mulheres filipinas em geral. As campanhas da Coalizão contra o Tráfico de Mulheres Ásia-Pacífico (CATWAP) e outras organizações levaram à aprovação de uma lei anti-tráfico de longo alcance em 2003. Esta legislação, que penaliza aqueles que “mantêm ou contratam uma pessoa para se prostituir ou para se envolver em pornografia”, visa especificamente o turismo de prostituição, tornando um delito “empreender ou organizar tours e planos de viagem que consistam em pacotes ou atividades de turismo com a finalidade de utilizar e oferecer pessoas para prostituição, pornografia ou exploração sexual” (ver http://www.catw-ap.org). O destino turístico de prostituição de Amsterdã tem uma história muito diferente, mas também enfrenta uma crescente oposição de políticos e cidadãos que desejam reduzir a presença da indústria na cidade.

A Holanda

A Holanda representa um tipo diferente de destino do turismo sexual, não apenas porque é uma cidade em um país rico, mas porque os turistas sexuais provavelmente usam o recurso de mulheres traficadas, que foram removidas de seus países de origem para serviços de homens ricos em outros lugares, em vez de mulheres locais que podem ter alternativas para serem prostituídas por sua sobrevivência. Estima-se que 75% das mulheres na prostituição de janelas em Amsterdã na década de 1990 eram mulheres estrangeiras e esta forma de prostituição é particularmente dirigida aos turistas (Wonders e Michalowski, 2001). Como Wonders e Michalowski colocaram em seu estudo sobre o turismo de prostituição em Amsterdã e Havana: “Em Amsterdã, a mercantilização dos corpos foi aperfeiçoada ao nível de uma forma de arte”, de modo que o distrito da luz vermelha se assemelha a um “shopping center” com “janelas e janelas de mulheres para escolher” (ibid., p.553). Tornou-se uma “Meca do turista sexual” (ibid.) Como resultado de uma história de tolerância à prostituição e uso de drogas e fácil acesso a essas commodities. Muitas empresas na cidade que atendem os turistas sexuais agora dependem das receitas que obtêm desta fonte, como hotéis, clubes de strip-tease e o museu do sexo. A Holanda dispõe de 13 distritos oficiais da luz vermelha, que são bem adaptados a uma indústria do turismo de prostituição. Além da prostituição de janelas, há uma variedade de clubes em que a prostituição é prontamente acessada. Curiosamente, esses clubes operam de forma semelhante aos das Filipinas, na medida em que os compradores do sexo masculino devem solicitar bebidas e podem solicitar conversas para as meninas e, em seguida, pagar se desejam penetrar na mulher (Shared Hope International, 2007). Isso pode sugerir que as práticas de prostituição estão sendo divulgadas em todo o mundo enquanto turistas e proxenetas circulam na economia global da prostituição. Existem algumas adolescentes locais na prostituição de janelas para que os turistas acessem também. Elas são induzidas na indústria com uma idade média de 15 anos e meio e controladas por proxenetas “loverboy” de origem turca e marroquina (ibid., UNHRC, 2007b). Elas carregam tatuagens dos nomes dos seus proxenetas em seus braços. O conselheiro de Amsterdã, Roel van Duijn, do Partido da Esquerda Verde, diz que há mais de 10.000 mulheres prostituídas em Amsterdã e apenas cerca de 2.000 estão empregadas legalmente. O resto está na indústria ilegal, que é “abundante com a escravidão sexual” (Shared Hope International, 2007).

Tão famoso e normalizado, Amsterdã tornou-se um destino turístico de prostituição que, em 2005, a principal empresa de viagens do Reino Unido, Thomas Cook, iniciou um passeio a pé do distrito da luz vermelha, aberto a todas as idades (Shared Hope International, 2007). O passeio incluiu uma parada no Prostitution Information Center (Centro de Informação da Prostituição). Houve uma indignação entre os locais que se opuseram à permissão da empresa e encorajamento de menores a participar através de incentivos aos custos. Os ingressos para adultos ao passeio, por exemplo, custaram £12, enquanto os ingressos para crianças custam apenas £6 e os ingressos para menos de três eram gratuitos. Em dezembro de 2005, a empresa removeu a descrição do passeio ofensivo, mas outros operadores turísticos ainda promovem e hospedam passeios a pé com restrições “apenas para adultos”. Houve alguma desilusão sobre a indústria de prostituição de Amsterdã desde a legalização em 1999, que deveria limpar o crime e o tráfico associado à prostituição, porque esses problemas aumentaram acentuadamente e o governo da cidade considerou necessário fechar um terço das janelas em Amsterdã como resultado (Hesen, 2007; Moore, 2007). Além disso, cidadãos e organizações empresariais ficaram incômodos sobre a forma como o turismo de prostituição representa a sua cidade. Os edifícios no distrito de janelas principais estão sendo requisitados e transformados em boutiques de roupas.

A normalização da prostituição como lazer

Para a disciplina dos estudos de lazer, o turismo de prostituição é geralmente proclamado como uma forma satisfatória de atividade de lazer para os prostituidores e uma forma comum de trabalho para aquelas que são prostituídas, mas atormentadas por alguns problemas, como a prostituição infantil e a violência, que pode ser esclarecido pela legalização da indústria. As abordagens de estudos de lazer geralmente não reconhecem que existe algo baseado em gênero sobre o turismo de prostituição. Assim, Martin Opperman, em uma coleção que estabelece o campo do turismo “sexual” como uma área de estudos de lazer, comenta sobre os empresários que se dedicam ao turismo de prostituição: “Com o aumento das executivas femininas, os papeis sexuais reversos também podem se tornar mais comuns” (Opperman, 1998, p.16). Há uma lacuna na análise aqui, uma vez que não há homens e meninos que dançam em palcos para serem escolhidos por “mulheres” e isso precisa ser explicado como mais do que uma ausência de oportunidades iguais para as mulheres. Todos os contribuintes para o volume assumem a posição de que a prostituição precisa ser legitimada como um trabalho comum. Joan Phillip e Graham Dann argumentam que mulheres prostituídas em bares relacionados a turismo em Bangkok deveriam ser reconhecidas como “empresárias”, envolvidas em atividades de risco comuns associadas às empresas, de uma maneira que desapareça a dimensão de gênero e os danos da prática: “Prostituição é simplesmente outra forma de empreendorismo” (Philip e Dann, 1998, p.70). Esses riscos, eles dizem, incluem não serem pagas e ainda terem que pagar as multas de bar aos donos desse bar, violência que pode levar à morte, problemas de saúde como AIDS e compradores masculinos que retiram a camisinha assim que a luz é desligada. Mas esses “riscos”, que são integrantes da prostituição, são vistos como responsabilidade da mulher: “A tomada de riscos envolve em lidar com a responsabilidade de suas ações” (ibid., p.66). Eles dizem que mulheres precisam, como qualquer empresário, fazer decisões e a principal delas é decidir qual comprador aceitar, ou seja, desvendar qual deles é perigoso e qual deles não é: “Tomar decisões é uma função da habilidade” e “a habilidade necessária para reduzir esse elemento de chance que é definido como empreendorista” (ibid.).

Stripping é visto como uma atividade de lazer ou “turista” por alguns pesquisadores de estudos de lazer. Estudos de lazer masculinos em particular parecem ter alguma dificuldade em empatizar com a atual experiência de stripper e permitem que suas próprias identidades enquanto voyeurs masculinos interfiram. Assim, Donlon, que identifica todos os homens que vão a clubes de strip como “participantes de episódios turísticos” (Dolon, 1998, p.116), descreve mulheres que estão procurando identificar homens que podem estar interessados o suficiente para dar uma boa gorjeta, enquanto elas estão dançando, assim: “O procedimento pode ser comparado a um predador habilidoso lançando sobre sua presa” (ibid., p.120). Ele passa a fazer sua identificação com o que ele vê como o comprador bem-sucedido, em vez do stripper ainda mais claro: Pela duração da visita ao clube, as mulheres que estão servindo como entretenimento são certamente “comidas com os olhos” de forma livre, com pouca ou simulada preocupação sobre esse olhar e ainda estão amplamente no poder. Os clientes são, inversamente, obrigados a operar em uma relação de quid pro quo direta, inteiramente baseada na troca comercial” (ibid., p.121). Donlon é especialista em estudar o lazer “controverso”, como a luta entre garotas, além de stripping. Dois outros professores de estudos de lazer masculinos que tomam uma abordagem similarmente tendenciosa de gênero são Ryan e Hall (2001). Eles rejeitam especificamente as críticas feministas ao turismo sexual e à prostituição em tons mordazes. Eles dizem que “grande parte do debate sobre o turismo sexual… foi sequestrada por uma retórica feminista dentro da qual o cliente é uma figura masculina e a prostituta a figura feminina… Isso também implica que a prostituta é a vítima” (Ryan e Hall, 2001, p.37).

Outra perspectiva muito positiva do campo de estudos de lazer é o trabalho de Singh e Hart, que argumentam que o turismo de prostituição deve ser reconhecido como uma “indústria cultural”. Eles dizem que “nomear o trabalho sexual como uma indústria cultural levará a políticas efetivas que… concedam status” (Singh e Hart, 2007, p.170). Eles dizem que organizações como a Associação Mundial de Comércio e a Organização Mundial do Turismo estão trabalhando com o mundo em desenvolvimento para promover políticas culturais – muitas vezes ligadas a indústrias culturais como o turismo” (ibid., p. 156). Isso permitirá aos países em desenvolvimento aumentar sua participação no mercado do turismo sexual. Eles explicam que em 2004, enquanto as chegadas globais do turismo internacional totalizaram 763 milhões e valiam US$ 623 bilhões, o mundo em desenvolvimento recebeu menos de 20% das chegadas e recebimentos. Criando a ideia de que a prostituição é uma “indústria cultural”, eles consideram, ajudará a corrigir essa desigualdade. Eles dizem que as indústrias culturais geralmente reconhecidas são sobre artes performáticas e criativas, em vez de prostituição, mas a prostituição deve ser incluída. Os turistas estrangeiros, dizem eles, vão à Tailândia para acessar as mulheres prostituídas por uma experiência cultural distinta. Eles poderiam, afinal, usar mulheres prostituídas em seus países de origem sem os custos de viagem, se tudo o que lhes dizia respeito era o preço mais barato. Uma das diferenças “culturais” que eles oferecem é a seguinte: “As mulheres tailandesas são descritas como ternas e nutricionais, oferecendo companheirismo a seus clientes e não apenas sexo” (ibid., p.161). Isso também pode ser visto como mostrar mais desespero por dinheiro que ocasiona maior subserviência, mas essa não é sua compreensão. Singh e Hart concluem que a ideia de que o “trabalho sexual” deveria acabar é uma solução fácil. A pesar de haver problemas ligados com a prostituição, tais como tráfico, desumanização e racismo, isso pode ser lidado individualmente, enquanto preserva a indústria da prostituição em si, porque “a resposta está em reforma e monitoramento de práticas abusivas, não em fechar toda uma indústria por completo” (ibid., p.170). Infelizmente, a perspectiva de trabalho sexual também domina considerável pesquisa em que pesquisadoras feministas mapearam as formas e práticas do turismo de prostituição na última década (Kempadoo, 1999a, 2004; Kempadoo e Doezema, 1998).

A abordagem de trabalho sexual ao turismo sexual na teoria feminista

Pesquisadoras feministas que tem uma abordagem de trabalho sexual diferem dos pesquisadores completamente acríticos acima em analisar dimensões de classe e raça da prática. Eles tomam uma perspectiva marxista e pós-colonial e explicam que turismo sexual é uma boa ilustração dos fluxos globais de desigualdade. Comentaristas feministas explicam que os destinos turísticos são formados a partir da opressão colonial, assim como no Caribe. Na prática neocolonialista do turismo sexual, homens ricos, muitas vezes brancos e ocidentais escolhem visitar países pobres para usarem mulheres sexualmente, mulheres essas que devem se prostituir para sobreviver. Mostram como o turismo sexual opera como um setor de serviços para o oeste capitalista, refrescando cansados guerreiros corporativos em uma forma de “descanso e recreação” semelhante ao criado para soldados americanos no Sudeste Asiático (Jyoti Sanghera, 1997). Kemala Kempadoo explica que o turismo de prostituição adota “capital corporativo, identidades de Primeiro Mundo e hegemonia masculina” (Kempadoo, 1999b, p.18).

Turismo de prostituição oferece a homens de países ricos a oportunidade de confirmar sua dominância masculina sobre mulheres, que estão aclamando por igualdade no Ocidente e não estão preparados para aceitar a autoridade masculina nem se adaptar tão devidamente às exigências sexuais dos homens. Como Kempadoo diz: “Muitos turistas sexuais masculinos… expressaram a opinião de que, em seus países de origem, as mulheres desfrutam de poder excessivo, através das quais a autoridade masculina tradicional está sendo minada… No Caribe, eles são capazes de reafirmar sua masculinidade completamente” (ibid., p. 26). No entanto, Kempadoo adota uma abordagem de trabalho sexual e coloca as mulheres e homens prostituídos do Caribe como tendo “agência” e envolvidos em atos de transgressão que os libertam de relações opressivas ao invés de sujeitá-los à opressão. Demais estudos, ela considera, enfatizam os problemas associados à prostituição e turvam a “agência e subjetividade” das profissionais do sexo (Kempadoo, 2001, p.41).

Embora este trabalho feminista mostre uma consciência aguda de que o turismo de prostituição se baseia na desigualdade de classe, raça e gênero, assume a posição de que reconhecer a prostituição como trabalho e legalizá-la irá resolver os problemas associados à prática. Beverley Mullings, por exemplo, escrevendo sobre a Jamaica, diz que se o “trabalho sexual remunerado” não é reconhecido como “trabalho legítimo”, logo, os profissionais do sexo serão vulneráveis a abusos dos direitos do trabalho e dos direitos humanos (Mullings, 1999). O turismo sexual deve, como diz ela, ser visto como uma indústria de exportação, com consumidores que importam serviços de provedores locais (ibid., p. 57). Tomar essa “abordagem da indústria” permitirá que os “aspectos verdadeiramente exploradores” sejam “policiados de forma mais efetiva” (ibid., p. 79). O turismo “sexual” pode então assumir o caráter de um “turismo verdadeiramente comunitário” (ibid., p. 79). De fato, estudos sobre os estados em que a prostituição foi reconhecida como trabalho e a indústria foi legalizada não apoiam a noção de que essa abordagem reduza os prejuízos da prostituição (Farley, 2007; M. Sullivan, 2007; Shared Hope International, 2007). As pesquisas de campo e as entrevistas de pesquisadores feministas de turismo de prostituição, quer tenham uma perspectiva de trabalho sexual ou não, proporcionem um bom suporte para a noção de que os turistas da prostituição do mundo rico ocidental procuram compensar a perda de status masculino que experimentam de um aumento na igualdade das mulheres.

Motivos dos turistas da prostituição

Vagina Industrial - citações

A emancipação das mulheres causou grande angústia aos homens no início do século XX e alguns dos que estavam envolvidos no império como administradores ou comerciantes conseguiram tranquilizar-se através da prostituição das mulheres asiáticas. Assim, esse lamento de queixa, de um livro de 1928 feito por um homem europeu sobre os perigos do feminismo, demonstra uma grande fúria com as mulheres ocidentais, mais emancipadas, que serão traduzidas no final do século, após outra onda de ativismo feminista, em um impulso ao turismo de prostituição:

aquele que sabe quão terrível e degradante pode ser, especialmente para uma natureza masculina mais nobre, a ser reduzido a acasalar com uma das numerosas mulheres brancas de sexualidade anestésica, irão compreender que o europeu retornou dos trópicos, que responde às perguntas dos peritos de que ele prefere a amante malaia, polinésia ou japonesa, que gritou de alegria se ele apenas colocasse a mão sobre ela, enquanto que para a mulher branca fria, que considerava seus transportes eróticos com desprezo e nem se encolheu de mostrar-lhe que ela apenas estava com ele porque era suposto fazer parte de seus deveres indescritíveis. E para piorar as coisas, ela prejudicou seu marido nisso por um sentimento de que, precisamente ao fazê-lo, ela mostrou-se um “ser superior” do que ele, embora, é claro, a verdade é que ela é um indivíduo defeituoso, uma inválida, uma ignorante presunçosa em matéria de amor. (Knudsen, 1928, p. 111)

As palavras de Weith Knudsen são tiradas de um livro no qual ele se queixa geralmente sobre a emancipação das mulheres, o que claramente causou grande desagrado. Neste momento anterior, os aventureiros coloniais que descobriram as alegrias de usar sexualmente as mulheres asiáticas estavam envolvidas no negócio do império, em vez de estarem em férias.

No final do século XX, um estudo encontrou motivações semelhantes por parte dos turistas masculinos da prostituição australiana. Relata que “uma variedade de fatores convergira para pôr em perigo o senso do indivíduo em seu lugar no mundo” (Kruhse-Mount Burton, 1995, p.199), como famílias menores, esposas que trabalham para pagamento e redução da disposição de mulheres para fazer tarefas domésticas. Em relação ao sexo, o ideal masculino da mulher passiva, que os permitiu se verem como professores, foi prejudicado pela expectativa feminina de prazer sexual. Mesmo o comportamento de prostituição em Sydney, Austrália, cujo distrito de luz vermelha é uma ressaca da manutenção dos militares dos EUA na Guerra do Vietnã, é insatisfatório porque as mulheres prostituídas são vistas como sendo “emocional e sexualmente frias… fazendo pouco esforço para agradar” e falhando em “disfarçar a natureza comercial da interação” (ibid., p.193). Também as mulheres prostituídas na Austrália podem exigir sexo seguro, restringir as práticas que estão preparadas para oferecer e podem não ser suficientemente jovens para o gosto dos homens. O turismo de prostituição reafirma seu status superior como homens e os tranquiliza contra a “mudança de papel das mulheres” que é preocupante para eles, que “parece ter representado uma ameaça considerável para a identidade masculina” (ibid., p. 202).

Vagina Industrial - citações(2)

O trabalho de O’Connell Davidson sobre turistas sexuais masculinos na Tailândia demonstrou que eles estavam todos fortemente motivados pela oportunidade de “viver como reis” ou “playboys” (O’Connell Davidson, 1995, p.45). Os homens experimentaram prazeres que vão desde a aquisição de noivas por correspondência até “o simples prazer de olhar para mulheres sexualmente disponíveis [assim como a homens e crianças], em um polo para satisfazer a posse sexual completa no outro” (ibid., p.46). Esses prazeres são ilustrados por um bar em Pattaya chamado ‘No Hands Bar’, onde as mulheres prostituídas rastejam sob as mesas para fazer boquetes nos clientes (ibid.). Os homens que O’Connell Davidson entrevistou não estavam apenas zangados com as prostitutas europeias, mas tinham o que ela chamava de “raiva misógina” das mulheres ocidentais em geral por agir como se fossem iguais aos homens e não adorando eles como reis. A raiva é de “mulheres que têm o poder de exigir qualquer coisa, seja o direito de dizer sobre quem elas fazem sexo e quando elas fazem sexo ou o direito a pagamento de alimentos para os filhos” (ibid., p.53). O “turismo sexual”, diz O’Connell Davidson, “ajuda os homens britânicos a reforçar e construir uma imagem poderosa e positiva de si mesmos como um tipo particular de homem heterossexual branco” (ibid., p.52).

Os turistas sexuais masculinos obtêm um status masculino melhorado de demonstrar seu uso sexual de mulheres locais para seus companheiros. O’Connell Davidson explica uma motivação dos turistas sexuais masculinos na República Dominicana para fazer uso sexual das mulheres locais, pois “fornece a base para a identificação e o reconhecimento entre os homens” (O’Connell Davidson, 2001, p.16). Ela cita um turista sexual masculino dizendo que, em seu hotel, que é “95% composto por homens solteiros”, alcançaram uma “excelente camaradagem” ao discutir seu uso sexual de mulheres locais. Ela comenta que “as mulheres servem para reproduzir vínculos sociais entre os membros masculinos da comunidade” (ibid., p.19). O turismo sexual para homens ajuda a consolidar a amizade entre homens, que é um componente importante da dominância masculina. Esta amizade entre homens pode ser alcançada através dos fins de semana de festa oferecidos aos jovens britânicos na Europa Oriental (CBS News, 2005), em que 1.200 grupos de homens descem em Praga anualmente para participar dos prazeres do “entretenimento” sexual, causar angústia às pessoas locais e serem barrados de restaurantes por seus comportamentos destrutivos.

 Turismo de prostituição comercial e esportivo

A amizade entre homens deste tipo está se tornando cada vez mais central para redes de negócios a nível internacional e esta prática exclui empresárias. Um artigo publicado no The Economist em 2005 comenta as três principais explicações que as mulheres de negócios de topo da América dão para que tão poucas delas chegam ao mais alto nível. O primeiro deles envolve a indústria do sexo: “Primeiro vem a exclusão das redes informais. Em muitas empresas, as “conversas de rapazes” e as bebidas no final da noite ainda acumulam as rotas do progresso. Nos Estados Unidos e em outros lugares, tornou-se quase tradicional que as equipes de vendas levassem potenciais clientes para destravar clubes de strip e outros. Essas atividades excluem especificamente a maioria das mulheres” (The Economist, 2005). Isto é particularmente verdade para os negócios realizados nos mercados asiáticos. Pesquisas sobre executivas britânicas em cargos internacionais mostraram que elas enfrentam “maiores problemas com a adaptação em culturas tradicionalmente patriarcais” (Forster, 1999). As que trabalham na China e no Japão, por exemplo, eram muito mais propensas a relatar dificuldades com a adaptação cultural e enfrentar obstáculos e preconceitos específicos. Uma razão provavelmente é a prática comum de misturar negócios com a prostituição.

A prática de prover prostituição como acompanhamento comum para as empresas tem sido fortemente desenvolvida no Japão. Um relatório de 2007 sobre o turismo de prostituição no Japão fornece alguns detalhes sobre como isso funciona. A máfia japonesa, o Yakuza, organiza cruzeiros sexuais nas Maldivas para empresários japoneses e estrangeiros (Shared Hope International, 2007, p.131). A socialização corporativa após as horas de trabalho tende a ser feita com “entretenimento” e prostitutas (ibid., p.135). A prática não é nova no ocidente, embora possa, até recentemente, ter sido menos comum porque a prostituição foi menos normalizada como uma prática. Hoje as corporações ocidentais fornecem mulheres prostituídas a clientes internacionais de valor. A maior agência de acompanhantes na Austrália, Royalty Services, que tem um faturamento anual de US$ 20 milhões, fornece “acompanhantes que já foram modelos para clientes por preços negociáveis que variam de U$ 5.000 por noite a US$ 130.000 por mês” (IBISWorld, 2007, p.23), com “a pilha dos negócios sendo visitar empresários sendo entretidos por corporações que tentam ganhar sua freguesia”.

A prostituição comercial torna-se particularmente importante para as economias das cidades que dependem fortemente das convenções empresariais, como Atlanta. Conforme explica um relatório sobre turismo sexual e tráfico para essa cidade, há “marketing agressivo da cidade para organizadores de convenções e eventos esportivos” (Shared Hope International, 2007, p.104). Isso é necessário porque Atlanta, como outras cidades que são atraídas para criar uma infraestrutura esportiva massivamente dispendiosa e subsequente para atender a cultura masculina do esporte competitivo, tem “locais cavernosos construídos para os Jogos Olímpicos de 1996” que precisa preencher. O turismo de prostituição esportiva é, por si só, um motorista importante e crescente de mercados de prostituição. O relatório do IBISWorld sobre a indústria de prostituição na Austrália anuncia que eventos esportivos, como o Grand Prix de automobilismo em Melbourne, causa grande aumento na demanda de prostituição de visitantes estrangeiros e interestaduais (IBISWorld, 2007). O Escritório de Convenções e Visitantes de Atlanta informou o número de atendimento da convenção de 2005 em 3.105.256 pessoas, atendendo 3.068 convenções com uma média de 3,4 dias cada. Isso cria renda considerável para a cidade. Embora as mulheres, sem dúvida, estivessem presentes, a maioria dos visitantes deveriam ser homens. Em Atlanta, os cartões de propaganda são entregues aos participantes da convenção que prometem tratamento VIP nos vários ‘clubes de cavalheiros’ na área. Cartões de entrada de desconto também são distribuídos em eventos esportivos, concertos e outros entretenimentos. O comportamento dos homens sobre prostituição é uma parte integrante dessa diversão que “o transporte de um convidado de cortesia de um hotel importante foi observado proporcionando transporte para os hóspedes a um clube de strip, facilitando ainda mais os mercados sexuais comerciais” (ibid., p.104).

A cidade de Sydney, na Austrália, onde os bordeis são legais, experimentaram um boom da prostituição quando a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) ocorreu em 2007. Os compradores masculinos eram principalmente agentes de serviços secretos e enviados de comércio internacional. O negócio aumentou 300% (Sun-Herald, 2007). As variedades de abuso sexual de mulheres prostituídas em oferta revelam uma preocupante falta de respeito pelas mulheres: “As prostitutas interestaduais foram trazidas para preencher a demanda no estabelecimento da cidade, onde foram oferecidas as especialidades temáticas da APEC, como Condi Combo, Duo da ONU e The Presidential Platter”. O “Duo das Nações Unidas” consistia em tempo com “duas meninas de diferentes etnias” (Ahmed, 2007). Tal prática prejudica a igualdade das mulheres nas delegações internacionais e a possibilidade das questões das mulheres serem debatidas de maneira justa em tais reuniões.

A prostituição empresarial tornou-se um problema significativo na China desde a introdução da economia de mercado (Zhou, 2006). As formas tradicionais de prostituição, também, foram revividas e diversificadas e novas formas foram introduzidas em um bom exemplo das formas como o desenvolvimento econômico capitalista atualmente usa os corpos das mulheres como um recurso básico, mas não dito. Algumas empresas chinesas anunciam empregos para mulheres jovens e bonitas menores de 25 anos como “Oficiais de Relações Públicas”, que muitas vezes são sinônimo de prostitutas empregadas pelas empresas para executivos de alto escalão, potenciais clientes e parceiros da empresa (ibid.). Hong Kong e homens taiwaneses que trabalham na China são capazes de explorar a pobreza severa das mulheres chinesas do continente que migram para as zonas econômicas especiais, como Shenzhen, para encontrar trabalho (Hobson e Heung, 1998). Uma indústria de prostituição florescente desenvolveu-se para atender empresários visitantes. Uma revista de Hong Kong informou que cinco ou seis “estádios pornográficos” foram instalados nos salões dos hotéis de Shenzhen. As prostitutas, conhecidas como “cavalos” femininos, têm que pagar uma taxa de entrada de HK$ 50 (US$ 7). Os homens então pagam HK$ 200 (US$ 25) para levar um cavalo à mesa, serviços adicionais na mesa do cavalo custam mais de HK$ 750 (US$ 100)” (ibid., p. 137). Há também “carros luxuosos” de “touros sexuais” disponíveis “com guias turísticos femininos que estão disponíveis para prestar serviços sexuais aos convidados enquanto eles estão no ônibus” (ibid.). Os clientes são de Hong Kong, Taiwan e Japão. A prática tradicional prejudicial do concubinato, no entanto, é particularmente comum entre os motoristas de caminhão da classe trabalhadora. Em ambos os casos, é problemático para as esposas dos homens, 41% dos quais disseram que se divorciariam de seus maridos se descobrissem. Como um talk show de rádio colocou em Hong Kong: “Em Hong Kong, eles podem ser um motorista de caminhão ou mesmo um varredor de rua, sem status. Mas, quando atravessam a fronteira para suas concubinas, eles são tratados como deuses” (citado em Hobson e Heung, 1998, p. 140). Um aspecto problemático da normalização das práticas de turismo de prostituição é que uma proporção considerável de meninas envolvidas nas indústrias locais de prostituição que os turistas acessam são crianças.

Turismo de prostituição infantil

A imagem positiva do turismo de prostituição que é dada na literatura de estudos de lazer é prejudicada por uma realidade difícil, que é que uma grande proporção daqueles usados na indústria são meninas menores de 18 anos. Nas últimas duas décadas, durante as quais o turismo de prostituição desenvolveu-se consideravelmente como setor de mercado, tem havido crescente preocupação na comunidade internacional sobre o “turismo sexual infantil” (Jeffreys, 2000a). Como é o caso da prostituição infantil e da pornografia infantil, as crianças são separadas do resto da indústria do sexo global como objetos especiais de preocupação. Esta distinção é visível no trabalho da ONG internacional End Child Prostitution in Asian Tourism (ECPAT) e no Protocolo à Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança de 1999, que trata especificamente da exploração sexual de crianças na prostituição e na pornografia. Em relação ao “turismo sexual infantil”, os governos passaram por uma legislação extraterritorial especial para que possam processar o retorno dos seus nacionais que exploraram sexualmente crianças no exterior (Hall, 1998; Seabrook, 2000; Jeffreys, 2002). Essas organizações e instrumentos internacionais distinguem os danos da prostituição de acordo com a idade. Eles usam a idade de 18 anos, como na convenção infantil, como um ponto de corte, vendo a prostituição a partir do 18º aniversário como uma prostituição potencialmente livremente escolhida, que não deveria ter algo a se preocupar, enquanto prostituição até o dia anterior ao aniversário de 18 anos é visto como fisicamente e emocionalmente prejudicial e moralmente repugnante.

De fato, a prostituição “infantil” é difícil de distinguir do resto da indústria da prostituição, como mostra um relatório da OIT (Lim, 1998). Em um grande complexo de bordel na Indonésia, 10% dos trabalhadores eram menores de 17 anos e dos 17 e acima, 20% se tornaram prostitutas menores de 17 anos. Uma pesquisa de 1994/1995 sobre as prostitutas registradas da Indonésia encontrou 60% entre 15 e 20 anos (ibid., p. 7). Na Malásia, das mulheres e meninas resgatadas pela polícia dos bordeis entre 1986 e 1990, 50% tinham menos de 18 anos e o restante entre 18 e 21 (ibid., p. 173). Um estudo tailandês descobriu que 20% das mulheres e meninas prostituídas começaram a trabalhar entre 13 e 15 (ibid.). A conclusão evidente de tais estatísticas parece ser que a prostituição se baseia no uso sexual de mulheres ou meninas muito jovens em países pobres. O turismo exacerba o problema da prostituição infantil, mas as crianças já estão integradas na indústria de prostituição familiar.

Alguns comentaristas feministas questionaram a distinção entre prostituição infantil e prostituição adulta. Tenho argumentado, por exemplo, que os danos identificados como decorrentes da prostituição de crianças reproduzem com precisão os danos que foram identificados em mulheres adultas prostituídas (Jeffreys, 2000a). Julia O’Connell Davidson também argumenta contra a utilidade da distinção (O’Connell Davidson, 2005). Ela ressalta que as adolescentes são totalmente integradas em sistemas de prostituição em muitas partes do mundo. Ela explica que, embora exista uma demanda de homens especificamente interessados em prostituir crianças pequenas, isto é, pedófilos, este é um mercado pequeno e específico. A maioria dos abusadores na prostituição são homens indígenas e tanto eles quanto os turistas de prostituição usam adolescentes na prostituição como uma parte rotineira de seu abuso na prostituição nem, em muitos casos, reconhecem ou fazem notar a extrema juventude daqueles que abusam. Embora O’Connell Davidson e eu critiquemos a distinção, é com intenções diferentes. Enquanto eu argumento que as ONGs e teóricas feministas devem estar apontando para acabar com a prostituição de todas as mulheres e meninas, eles devem ser são sérios em acabar com a exploração sexual infantil, porque a prostituição infantil não pode ser efetivamente separada, O’Connell Davidson toma um caminho diferente. Ela diz que está “desconfortável com o que eu vejo como um impulso mais geral para separar as crianças como um caso especial” e com o que ela chama de “processo de classificação”, o que evidencia a indignação na prostituição infantil” (O’Connell Davidson, 2005, p. 1). Mas ela critica o que ela chama de “feministas antiprostituição”, que, segundo ela, ignoram as “realidades diversas e complexas” daquelas que são prostituídas e negando a “autonomia e agência” delas (ibid., p. 3). Ao enfatizar que as crianças podem ter “agência”, ela se junta a um fluxo crescente de pesquisadoras feministas que argumentam que crianças e mulheres adultas expressam agência e escolha na prostituição e que mostrar uma preocupação especial às crianças, infantiliza-as.

Uma vez que uma proporção tão grande daqueles que são utilizados pela indústria do sexo global são jovens adolescentes, a normalização da sua participação é necessária para que a indústria mundial do sexo seja legitimada e continue seu crescimento sem qualquer espécie de obstrução. Alguns escritores, mesmo em antologias feministas, estão preparados para suportar essa normalização. Assim, Heather Montgomery, por exemplo, escrevendo sobre crianças prostituídas em um resort turístico da Tailândia, diz que a “agência” de crianças precisa ser reconhecida (H. Montgomery, 1998). Ela diz que os argumentos de que a prostituição prejudica as crianças são etnocêntricos. Treena Rae Orchard argumenta que as meninas na prostituição devadasi na Índia, que são entregues aos sacerdotes para serem criadas como prostitutas em um ato que, historicamente, deveria demonstrar devoção religiosa, mas que agora está envolvido por famílias para que elas possam viver com a renda da filha, não deve ser entendido como “vitimização” (Orchard, 2007). A prática, diz ela, tem aspectos positivos. As meninas ganham status porque são importantes economicamente em suas famílias e cercadas por redes de amigos, apesar de não quererem ser prostituídas e sua virgindade ser leiloada para o melhor preço aos 14 anos ou menos.

O argumento de que a prostituição infantil em situações em que é praticada por tribos inteiras, como os “intocáveis” ou entre as pessoas que praticam a prostituição devadasi, dão status às meninas não é corroborado por outros relatos. Um relatório no The Guardian sobre a prostituição infantil entre dalit ou tribos intocáveis em Madhya Pradesh explica que as meninas são colocadas em prostituição entre os 10 a 14 anos pelas Baccharas e as Bedia (Prasad, 2007). As meninas são vendidas pelos compradores ao longo das estradas, sendo comum a violência contra as meninas por clientes e pelas famílias. Um exemplo disso é uma garota que foi entregue aos 12 anos a uma barraca de comida administrada por seu tio em uma rodovia. Todo o dinheiro que ela ganhou foi levado por sua família e usado para construir uma nova casa com um quarto para cada um dos quatro filhos e para pagar os casamentos dos filhos. Seu baixo status de garota não foi, neste caso, atenuado pelo fato de ela ter fornecido a maior parte da renda familiar. De fato, o status das mulheres não é necessariamente elevado em outras situações em que elas fornecem renda aos proxenetas/parceiros na prostituição ocidental.

As mulheres também fazem isso?

Outra dificuldade para aqueles que procuram justificar o turismo de prostituição como trabalho sexual e a expressão da agência é a natureza, obviamente, de gênero da prática. Para contornar este problema, alguns pesquisadores e teóricos do turismo de prostituição levaram a enfatizar que “as mulheres também fazem isso”, geralmente sob a forma de mulheres ocidentais que fazem sexo com “meninos na praia” no Caribe. Este “turismo sexual” por mulheres, eles argumentam, mostra que a prostituição não é fundamentalmente de gênero e é razoável minimizar a análise feminista e se concentrar nas perspectivas de raça e de classe (Kempadoo, 1998; O’Connell Davidson, 2005; Sanchez Taylor, 2001). Esses escritores usam a existência do “turismo sexual feminino” para argumentar que as mulheres podem ser tão exploradoras quanto homens, de modo que, se não fossem as restrições à construção da sexualidade criada pelo patriarcado, as mulheres seriam tão propensas a usar homens e mulheres na prostituição da mesma forma que os homens. Jacqueline Sanchez Taylor acusa as “feministas radicais”, como Cynthia Enloe e eu mesma, de promover estereótipos enganosos sobre turistas sexuais. Ela diz que estamos erradas em retratar turistas sexuais como homens, em vez de pessoas de ambos os sexos e erradas em “tratar o turismo sexual e a prostituição como principalmente uma expressão do poder patriarcal masculino e da impotência feminina” (Sanchez Taylor, 2001, p.749). Essa abordagem consagra a prostituição. Uma análise cuidadosa das diferenças entre o “turismo sexual” das mulheres e a dos homens mostra, no entanto, profundas variações no poder, efeitos, consequências e significados como resultado das diferentes posições dos atores na hierarquia da classe sexual.

As semelhanças que, aqueles que procuram incluir as mulheres, apontam são os privilégios econômicos e raciais dos turistas do sexo masculino e feminino do ocidente em comparação com seus parceiros sexuais locais. Os turistas ocidentais são vistos como sendo motivados por estereótipos sexuais racistas e usando o turismo sexual para reforçar sua situação privilegiada de raça e classe. Os turistas do sexo feminino, dizem pesquisadores, empregam fantasias de alteridade da mesma forma que os turistas do sexo masculino, na sua interação com homens negros no Caribe. As mulheres procuram “homens negros com bons corpos, que são máquinas de sexo firmes e musculadas que podem controlar e este elemento de controle não deve ser negligenciado” (O’Connell Davidson e Sanchez Taylor, 1999, p. 51). Outra semelhança é o fato de que turistas femininas sexuais e alguns dos turistas masculinos sexuais afirmam que não estão se envolvendo em prostituição, mas em romance (Pruitt e LaFont, 1995; Dahles e Bras, 1999). Pesquisas sobre turistas sexuais masculinos sugerem que, embora alguns homens visitem destinos como a Tailândia com a expectativa de que eles pagarão homens e mulheres prostituídos por sexo, outros são ingênuos o suficiente para acreditar que não estão envolvidos em comportamento de prostituição (O’Connell Davidson, 1995). As mulheres com as quais eles se envolvem são habilidosas para não deixar suas demandas financeiras evidentes para que tais homens possam permanecer enganados quanto à natureza das relações (Seabrook, 2001). É surpreendente que os turistas masculinos sejam tão ingênuos, considerando que os homens estejam cientes de que existe um roteiro para as relações entre homens e mulheres na prostituição. A indústria da prostituição e da pornografia, bem como os contos de seus companheiros, existem para torná-los conscientes disso. Para as mulheres, não há tal roteiro. A compra de sexo pelos homens não faz parte da cultura que as mulheres habitam e não há nenhuma razão para que elas estejam conscientes dessa possibilidade.

As diferenças entre o comportamento dos turistas sexuais masculinos e femininos são numerosas. Eles são mais evidentes nas formas de interações sexuais e românticas que ocorrem entre mulheres turistas e homens do Caribe. A escala do “turismo sexual feminino” é bastante diferente da do turismo sexual masculino. Julia O’Connell Davidson diz que “o turismo sexual feminino heterossexual é, em termos numéricos, um fenômeno distante, muito menor do que o turismo sexual masculino” (O’Connell Davidson, 1998, p. 81). A maioria das diferenças decorrem das diferentes posições na hierarquia de classe de sexo que os turistas masculinos e turistas femininos ocupam. A sexualidade dos homens sob domínio masculino é construída para confirmar sua masculinidade através de práticas de objetificação e agressão (Jeffreys, 1997). A expressão mais evidente dessa sexualidade de domínio reside na existência da indústria do sexo que reflete e ajuda a moldá-la. A sexualidade das mulheres, construída a partir de uma posição de impotência, tende a ser expressa de maneiras muito diferentes. Não há prostituição de rua ou prostituição de homens e meninos para acesso sexual para mulheres em qualquer destino turístico sexual. Isso pode sugerir que, enquanto o turismo sexual masculino é simplesmente a extensão dos sistemas de prostituição já existentes que existem para que os homens acessem os outros prostituídos, o “turismo sexual” das mulheres é um fenômeno completamente diferente, com poucas relações com a prostituição.

Um princípio que distingue a sexualidade da prostituição é que as mulheres prostituídas atendem os homens sexualmente sem qualquer prazer sexual de sua parte e com os homens firmemente no controle da ação. É notável que os turistas sexuais femininos também acabem atendendo a sexualidade masculina. Um garoto da praia de Barbados entrevistado para o estudo de Joan Phillip explicou seu entusiasmo sexual pelas mulheres turistas, assim: “As mulheres de Bajan não podem fuder e elas até se esquivam. Você deve implorar que ela faça isso e ainda assim ela não pode fazê-lo e se ela fizer isso, ela age como se ela fizesse um favor. Agora, uma mulher branca, você deve implorar para que ela pare!” (Phillip, 1999, p. 192). Neste caso, a “turista sexual” está atendendo o homem local e não o contrário. A dinâmica do poder do domínio masculino parece bem preservada. O sexo oral é, de fato, a prática que os homens tradicionalmente visitam mulheres prostituídas para se envolverem (McLeod, 1982) por causa da relutância de suas esposas. Os homens locais mantêm o controle da interação sexual como seriam com qualquer mulher, turista ou não, em virtude do privilégio masculino e da construção da sexualidade dominante masculina.

Outra diferença muito significativa entre o turismo sexual “feminino” e “masculino” reside no grau de dano causado pelo comportamento. Em relação ao turismo de prostituição masculina, os danos causados são os danos regulares que resultam para as mulheres do comportamento de prostituição masculina, seja no ocidente ou em destinos turísticos (Farley et al., 1998). A automutilação está fortemente relacionada à experiência da violência sexual, na infância, no estupro e na prostituição (Jeffreys, 2000b). Um turista sexual britânico para a Tailândia que falou com Julia O’Connell Davidson encontrou a automutilação envolvida pelas mulheres que ele estava se envolvendo na prostituição difícil de aguentar:

Elas se cortam com uma faca. Elas ficam bêbadas e apenas se cortam. Acho que é terrível. Quando vejo uma garota, quando procuro comprá-la, sempre olho para os braços para ver o que ela tem feito sozinha. (O’Connell Davidson, 1995, p. 42)

No caso de “turismo sexual feminino”, não parece haver evidência do dano traumático de violações sexuais repetidas. Na verdade, os pesquisadores concordam que, porque os homens ganham status masculino superior nas sociedades do Caribe entre seus pares de acordo com o número de suas conquistas sexuais e mulheres brancas contam como mais pontos, os “meninos da praia” podem ganhar socialmente com o envolvimento sexual com mulheres turistas (Kempadoo, 1999b). O sexo que acontece, afinal, é o sexo tradicional da supremacia masculina, no qual os homens fazem a penetração e não precisam se desassociar para sobreviver enquanto seus corpos são usados como objetos.

Em um estudo sobre a experiência das mulheres prostituídas por turistas sexuais masculinos na Jamaica (Campbell et al., 1999), as descrições gráficas da violência e do perigo em que estão expostas criam um forte contraste com o que acontece com os “meninos da praia”, mas se encaixam bem com relatos de prostituição do ocidente (Hoigard e Finstad, 1992). As mulheres no estudo jamaicano descrevem como suas melhores experiências são aquelas em que elas podem evitar ser realmente penetradas, ao invés, serem solicitadas a urinar no cliente ou caminhar sobre ele em sapatos de salto alto. As piores experiências variaram entre um cliente atacando uma trabalhadora com uma faca do mato por causa da insatisfação com o trabalho; concordar em fazer sexo com um cliente que, em seguida, apareceu com seis homens em um quarto de hotel” (Campbell et al., 1999, p. 140). As mulheres disseram que nunca sabem se um cliente seria perigoso e, como se dizia, ela estava “cheia de medo porque você não sabe o que pode acontecer. Você sempre tem algum medo porque você não sabe quem é ruim e quem é bom” (ibid., p. 142). As mulheres falaram de ter que beber tequila ou estarem sob o efeito de maconha para que não tivessem que ver o homem que as estava usando. Como uma mulher diz: “Eu amo meu trabalho, mas eu odeio isso pelo sexo. Estamos falando com um cara, ele me faz sentir doente, mas ele está pagando o preço. Você fez sexo com ele. Isso realmente dói. Isso faz seu coração ficar doente também, você sabe… Ele é realmente feio, ele é muito branco, ele é tão suave e você só quer gritar” (ibid., p.150).

O poder masculino que resulta no abuso de mulheres prostituídas pode levar à violência dos “meninos da praia” contra seus parceiros turísticos se os relacionamentos progridem além do período de férias, como muitos fazem. Para incluir as mulheres nas fileiras de turistas sexuais, elas são descritas como tendo poder econômico sobre os homens locais. Mas esse poder econômico parece ser o único poder que elas têm e pode não necessariamente superar o poder que os “meninos da praia” têm sobre eles como resultado de sua posição superior na hierarquia de gênero. Sanchez Taylor diz que várias mulheres em seu estudo que migraram para se casar ou viver com seus namorados locais encontraram-se em “relacionamentos extremamente abusivos” e que, quando relataram isso à polícia, nenhuma ação foi tomada (Sanchez Taylor, 2001, p. 761). Assim, como ela ressalta, “o privilégio branco pode ser comprometido pela entrada em relações permanentes ou semipermanentes” com homens negros (ibid.). O privilégio econômico e de raça das mulheres só conseguiu conter temporariamente o privilégio da classe sexual masculina em contextos bastante específicos.

As diferenças entre o comportamento dos turistas sexuais masculinos e femininos em termos de seu contexto, significados e efeitos são consideráveis e resultam das diferentes posições de homens e mulheres sob o domínio masculino. Por que, então, alguns comentadores colocam as mulheres de maneira determinada nas fileiras dos turistas sexuais? A decisão de incluir as mulheres decorre das diferentes posições teóricas que esses escritores mantêm na prostituição. Kempadoo usa a inclusão de mulheres como turistas sexuais para argumentar que os entendimentos feministas da prostituição como resultantes do domínio masculino são inválidos. Ela explica que a existência de turistas sexuais masculinos e femininos no Caribe “ressalta o fato de que os relatos feministas que se concentram exclusivamente nas operações da hegemonia masculina para explicar a prostituição e o trabalho sexual podem não ser totalmente apropriadas” (ibid., p. 57). O “turismo sexual feminino” permite que ela vá além das “noções essencialistas de ‘a prostituta’ e ‘o cliente’ para nos lembrar que essas categorias não são fixas, universais ou trans-históricas, mas estão sujeitas a transformação e mudança de formas específicas” (ibid.). A prostituição, portanto, não precisa necessariamente estar ligada ao domínio masculino e poderia ser potencialmente sobre mulheres e homens usando mulheres e homens no futuro.

O’Connell Davidson usa o fenômeno de turistas do sexo feminino para provar que o patriarcado não é primário. Ela diz que os argumentos feministas sobre a prostituição que constituem “direitos patriarcais de acesso aos corpos das mulheres” e uma “forma de opressão sexual” (ibid., p. 61) desviam a atenção de outras “relações econômicas e sociais”.

Conclusão

Vagina Industrial - citações(3)

Enquanto os estudiosos dos estudos de lazer legitimarem a prostituição como trabalho para mulheres e lazer para homens com pouca compunção, as estudiosas feministas acham o turismo de prostituição preocupante, porque ele sofre de colonialismo e racismo e pode ser visto como uma forma de apoiar o capitalismo corporativo. O turismo de prostituição é, de fato, alimentado pelo racismo e o colonialismo e precisa ser analisado em termos de seu papel na economia política internacional e fluxos globais de desigualdade, mas é fundamentalmente sobre a comercialização da subordinação das mulheres. Os turistas da prostituição procuram comprar subordinação quando viajam. Eles expressam claramente seus desejos de comprar servas sexuais para compensar o aumento irritante da igualdade das mulheres em muitos países ricos. Mas, o mais importante, o turismo de prostituição é, predominantemente, um comportamento dos homens que permite que o vínculo masculino mantenha seu domínio, particularmente na área de negócio e as vítimas são esmagadoramente mulheres. À medida que o turismo de prostituição aumenta como uma indústria em desenvolvimento, é a vida das mulheres e muitas vezes garotas muito jovens que continuarão a ser prejudicadas por danos físicos e psicológicos à medida que procuram sobreviver a uma indústria brutal e violenta para o número de anos geralmente curto em que elas poderão atrair compradores masculinos. O tráfico de mulheres é um dos danos nítidos que está envolvido, pois este é um mecanismo de abastecimento comum para o turismo de prostituição em muitos destinos, bem como para outras formas da indústria, como veremos no Capítulo 7.

Vagina Industrial - citações(4)


[1] Nota da tradução: no original “cat’s craddle” que é um jogo de tabuleiro destinado para crianças em que um loop de corda é colocado ao redor e entre os dedos e padrões complexos são formados.

Podemos erotizar a igualdade? Sobre a política do desejo sexual

Uma ética sexual verdadeiramente feminista precisa propor um modelo ético de sexualidade que, em última instância, não terá que envolver a negociação da ameaça de violência como a única maneira de alcançar o prazer.


Por Meagan Tyler para o ABC Religion and Ethics. Esse texto foi desenvolvido devido as ideias de Selling Sex Short: The Pornographic and Sexological Construction of Women’s Sexuality in the West.

Traduzido por Carol Correia


Sexo não é um ato natural. Parece radical afirmar isso em um clima cultural em que o determinismo biológico está novamente ganhando ascendência.

A noção de que há uma pulsão sexual inata – algo profundamente fisiológico e imutável sobre nosso desejo humano por sexo – está profundamente enraizada nos discursos dominantes no Ocidente.

Mas sexo não existe fora do contexto social em qual estamos transando. Devemos lutar contra o retorno do determinismo e perguntar se é possível praticar nossa sexualidade de forma ética.

O retorno à biologia se desenvolveu em várias frentes diferentes. O argumento promovido pelos primeiros libertadores gays e lésbicas – de que não há nada de moralmente errado com a homossexualidade, então não deveria ser importante se ela é escolhida ou pré-determinada – tornou-se cada vez mais obscurecida pela confiança nas narrativas “eu nasci assim”. Nós estamos testemunhando o ressurgimento de reivindicações sobre cérebros inerentemente masculinos e femininos. E, numa era pós-Viagra, em que os fármacos superam a psicoterapia ao lidar com ansiedades sexuais, a crença de que nossos corpos controlam nossos desejos parece mais proeminente do que nunca.

Assim foi refrescante ler o recente ensaio de Amia Srinivasan na London Review of Books, “Alguém tem o direito ao sexo?” É raro encontrar a natureza política do desejo aceito e interrogado de uma maneira tão interessante.

Mas foi impressionante ver que, em uma peça que, em última análise, determina que não temos direito ao sexo, as ideias do feminismo radical e lésbico recebem tão pouca atenção e os sistemas de prostituição são enquadrados com aprovação como “trabalho sexual”.

Srinivasan cita as feministas radicais como cruciais para aprofundar a discussão em torno da construção social da sexualidade, especialmente no que diz respeito ao direito sexual masculino e à objetificação sexual. E nisso nós certamente concordamos. Mas ela continua afirmando que “até agora [o feminismo radical] falou pouco sobre o desejo: o desejo dos homens, o desejo das mulheres e a modelagem ideológica de ambos”. O que é um tanto estranho, pois as feministas radicais certamente responderiam que suas críticas à natureza política do direito sexual dos homens e à subordinação sexual das mulheres vão diretamente a questões sobre o desejo sexual de homens e mulheres. Que não podemos separar a incorporação do desejo sexual dos contextos sociais nos quais ele ocorre.

Durante a vez pós-moderna na academia, tornou-se lugar-comum afirmar que a sexualidade é socialmente construída, mas Catharine MacKinnon afirma que a análise permaneceu basicamente superficial:

“Raras vezes especificado é o que, socialmente, é construído… Construído parece significar influenciado por, dirigido, canalizado, como uma rodovia constrói padrões de trânsito. Não: Por que carros? Quem está dirigindo? Aonde todo mundo está indo? O que faz a mobilidade ser importante? Quem pode ter um carro? Existe um padrão que faz com que todos esses acidentes não pareçam muito acidentais?”

Feministas radicais, no entanto, fazem essas perguntas. A análise não termina simplesmente afirmando que a sexualidade é construída, ela se estende para permitir julgamentos a serem feitos sobre diferentes modelos de sexualidade. Isto é particularmente importante quando se tenta avaliar se um sistema é ou não prejudicial para as mulheres.

Prazer, poder e “comível”

A abordagem feminista radical é a antítese de um libertarianismo sexual mais popular, que geralmente sustenta que toda expressão sexual, inclusive sob condições de opressão, pode ser boa – ou mesmo libertadora – e que o julgamento deve ser evitado. Como muitos antes dela, Srinivasan descreve essa perspectiva como “positividade sexual”. Embora ela evite rotular abordagens feministas radicais de “sexo negativo”, a comparação é clara o suficiente e bem estabelecida nos debates feministas.

Vale a pena revisitar a caracterização “anti-sexo” ou “sexo negativo” do feminismo radical, porque vai ao centro das discordâncias sobre o desejo sexual das mulheres sob o patriarcado. O rótulo “anti-sexo” é geralmente empregado pelos críticos como uma maneira de rejeitar completamente a análise radical, como se estar contra o sexo fosse tão obviamente absurdo que enfraquecesse todo o corpo da teoria. Como notou Dorchen Leidholdt, também se baseia no uso mais comum do anti-sexo como uma “gíria anti-mulher antiga” [age-old antiwoman slur] usada para silenciar as mulheres que resistem às expectativas culturais dominantes de como as mulheres devem se comportar sexualmente.

Havia mulheres individuais, e até grupos, dentro do movimento feminista nas décadas de 1970 e 1980, que defendiam abertamente a resistência à interação sexual e o “desmantelamento da prática da sexualidade” (veja, por exemplo, Women Against Sex). Mas o rótulo de “sexo negativo” não é aplicado apenas a essas ativistas. Pelo contrário, visa mais amplamente aquelas que criticam as práticas sexuais heterossexuais, sadomasoquismo, pornografia e prostituição. Essa deturpação resulta do fracasso dos teóricos opositores, chamados de “sexo positivo”, ou libertários sexuais, de interrogar suas próprias definições do que constitui “sexo”.

Em outras palavras, rotular uma crítica das construções dominantes e existentes de sexo e sexualidade como uma crítica a todo sexo mostra uma incapacidade de imaginar como o sexo pode ser mudado para se tornar algo que não é atualmente prescrito pelos modelos dominantes.

É precisamente porque as feministas radicais querem imaginar, e lutar por alguma forma positiva de expressão sexual, que estão engajadas em criticar a construção patriarcal do sexo em primeiro lugar. A caracterização preguiçosa das feministas radicais – e das feministas lésbicas radicais, em particular – como “anti-sexo” ou “sexo negativo” não consegue engajar não apenas a profundidade da crítica que essas feministas fazem da heterossexualidade, mas também a visão utópica que geralmente espera por algo melhor. O feminismo radical só pode ser “anti-sexo” se você acredita que o único sexo que existe, e o único sexo que pode existir, é o sexo da desigualdade erotizada oferecida sob o patriarcado capitalista da supremacia branca.

Uma reclamação semelhante, muitas vezes elogiada sob o pretexto de “positividade sexual”, é que as feministas radicais se concentram demais na violência e no abuso sexual dos homens e não no potencial do prazer das mulheres. Essa foi uma tensão central das chamadas “guerras sexuais feministas” dos anos 1980 e, como observa Srinivasan, ainda vemos ecos dela hoje.

Tomemos, por exemplo, as alegações de que #MeToo, ao destacar a frequência e a gravidade do abuso sexual de mulheres por homens, está transformando mulheres em vítimas. A natureza falsa de afirmar que, nomeando o problema, são as feministas – e não os autores da violência sexual – que transformam as mulheres em vítimas, deveriam ser óbvias. Mas essa distração frequentemente ganha força. Naturalmente, seria mais fácil simplesmente celebrar um desejo sexual não problemático, como se estivesse livre das restrições da opressão, mas essa celebração seria uma negação da realidade. Embora a “positividade sexual” possa soar como um mundo brilhante de orgasmos e arco-íris, ela realmente mostra, como as feministas radicais têm argumentado frequentemente, “uma insensibilidade brutal e indiferença à situação material real da vida das mulheres”.

O mesmo poderia ser dito sobre a noção de que o pior aspecto da sexualidade sob condições de opressão deve ser visto como “não comível”. Não há dúvida de que “não ser comível” – para usar o termo de Srinivasan – é vista como um insulto sob o patriarcado, e isso é um insulto mais provável de ser lançado em alguns grupos de mulheres que em outros. Mas é também o lado menos importante das ameaças de violência sexual. Não é separado delas, mas faz parte do mesmo continuum da tentativa misógina de privar as mulheres da autonomia sexual. Por exemplo, não é incomum que as mulheres no Twitter sejam informadas, às vezes no mesmo dia, que merecem ser estupradas, mas também que elas não são “comíveis”. Sendo “comíveis” neste contexto, não parece ser a melhor opção.

De fato, a ideia de que a “comibilidade” é uma medida de privilégio sob o patriarcado parece extremamente falha quando um senso mais holístico da situação material da vida das mulheres é levado em conta. Srinivasan nos pede para “considerar a suprema comibilidade das ‘putas loiras gostosas’ e das mulheres do leste asiático” e “a falta de ‘comibilidade’ das mulheres negras e dos homens asiáticos”. Se acompanharmos representações em grande parte da cultura popular no Ocidente, é possível seguir esse raciocínio. Mas se olharmos para uma das influências mais significativas na construção cultural da sexualidade hoje – a saber, a pornografia – torna-se difícil fazer as mesmas afirmações. Na pornografia, todas as mulheres se tornam fetichizadas e tornadas comíveis, embora de maneiras diferentes.

Uma parte significativa da minha pesquisa até hoje tem se concentrado na violência dos homens contra as mulheres na indústria do sexo: na pornografia, nos sistemas de prostituição e através do tráfico para exploração sexual. As mulheres mais marginalizadas – sobreviventes de abuso sexual, mulheres em situação de pobreza, mulheres indígenas, mulheres migrantes e refugiadas, mulheres de grupos minoritários culturais e étnicos, mulheres dependentes de drogas – estão super-representadas nessas formas de exploração sexual. Sua (não) conformidade a padrões dominantes de beleza branca, ou desejabilidade, não determina sua “comibilidade”. É o desequilíbrio de poder entre elas e os homens que compram acesso sexual a elas que determina isso. ‘Comibilidade’, neste contexto, dificilmente é um privilégio.

Nem uma abordagem interseccional necessariamente nos leva, como sugere Srinivasan, a endossar ou aceitar a “auto-objetificação” quando adotada por mulheres não rotineiramente objetificadas na grande mídia. Pensar sobre “como a opressão patriarcal é influenciada por raça e classe” pode levar, em vez disso, a questionar os sistemas coloniais e patriarcais que perpetuam a exploração sexual das mulheres no capitalismo. O que é exatamente o que grupos feministas como a Asian Women Coalition Against Prostitution, Indigenous Women Against the Sex Industry e Af3rim destacam em seu trabalho.

 A contribuição do feminismo radical lésbico

O foco na violência dos homens contra as mulheres e nomear a realidade material da vida das mulheres a esse respeito, tem sido, portanto, extremamente importante. Seria justo dizer que, em comparação, uma visão feminista potencial da sexualidade é subteorizada. Mas isso não significa que não tenha havido teorização de alternativas e as feministas lésbicas radicais têm frequentemente aberto o caminho para esse pensamento, para o benefício das mulheres heterossexuais e lésbicas. Como bell hooks profere em Feminismo é para Todos:

“Sem uma contribuição lésbica radical, a teoria e a prática feminista nunca ousaria empurrar as fronteiras do heterossexismo para criar espaços onde as mulheres, todas as mulheres, independentemente de sua identidade sexual e/ou preferência sexual, poderiam e podem ser tão livres quanto quisessem ser. Este legado deve ser continuamente reconhecido e celebrado”.

Essas contribuições assumiram diferentes formas. Sheila Jeffreys apresentou o conceito de erotização da equidade e semelhança em Anticlimax. Da mesma forma, Marilyn Frye discutiu os limites da heterossexualidade e a exclusão da experiência lésbica na estreita definição do que é considerado “sexo” sob o patriarcado. Em última análise, ela argumenta que o termo “sexo” pode ter que ser abandonado por completo e propõe, em vez disso, uma nova e expandida percepção de “transa”, que coloca o prazer das mulheres no centro:

“Que seja um conceito aberto, generoso e conveniente, englobando todos os atos e atividades pelos quais geramos uns com os outros prazeres e emoções, ternura e êxtase, passagens de carnalidade apaixonada de qualquer duração ou profundidade.”

A “Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lésbica” de Adrienne Rich não é apenas uma acusação da maneira pela qual estruturas de poder e normas culturais eliminam a experiência lésbica e coagem as mulheres em relações heterossexuais – variando do insípido e insatisfatório ao abusivo e violento. É também um chamado para reconhecer e celebrar o potencial dos laços eróticos entre as mulheres como, entre outras coisas, uma forma de resistência sob o patriarcado. Através do conceito do contínuo lésbico, ela inclui uma ampla gama de “experiências de mulheres que se identificam com mulheres, não simplesmente o fato de que uma mulher teve ou conscientemente desejou a experiência sexual genital com outra mulher”. Ela lamenta que:

“A amizade e a camaradagem feminina foram separadas do erótico, limitando assim o próprio erótico. Mas à medida que aprofundamos e ampliamos o alcance do que definimos como existência lésbica, enquanto delineamos o continuum lésbico, começamos a descobrir o erótico em termos femininos: como aquilo que é confinado a qualquer parte do corpo ou unicamente ao próprio corpo… “

Rich ecoa as palavras de Audre Lorde sobre a necessidade de expandir o erótico e repensar o potencial radical do amor feminino em uma cultura misógina.

Em “Os usos do erótico: o erótico como poder“, Lorde derruba ideias estreitas sobre desejo e erotismo, condenando a pornografia, por exemplo, como o oposto de um poder feminino erótico que pode “fornecer energia para a mudança”. Ela lamenta que o erótico é “relegado ao quarto” e defende o erótico como:

“Uma afirmação da força vital das mulheres; dessa energia criativa fortalecida, cujo conhecimento e uso estamos reivindicando em nossa linguagem, nossa história, nossa dança, nosso amor, nosso trabalho, nossas vidas.”

Essas obras permanecem inspiradoras e em movimento. E elas não poderiam estar mais longe da dura “autodisciplina de desejo exigida pelo lesbianismo político”, como descrito por Srinivasan.

Em contraste com o trabalho inovador das feministas lésbicas, há poucas projeções de uma nova visão da heterossexualidade. Uma exceção notável pode ser encontrada no trabalho de Andrea Dworkin. A indolência com a qual algumas feministas são deixadas de lado como “anti-sexo” é ecoada na superficialidade da caracterização frequente de Dworkin como um “inimigo dos homens”. De fato, Dworkin frequentemente defendia o potencial da humanidade dos homens. No sempre poderoso “eu quero uma trégua de 24 horas sem estupro“, disse ela:

“Eu vim aqui hoje porque não acredito que o estupro seja inevitável ou natural. Se o fizesse, não teria motivos para estar aqui. Se o fizesse, minha prática política seria diferente. Você já se perguntou por que não estamos apenas em combate armado contra vocês? Não é porque há uma falta de facas de cozinha neste país. É porque acreditamos em sua humanidade, contra todas as evidências.”

Ela não acreditava que o modelo dominante de heterossexualidade, fundado como é na supremacia masculina e na violência dos homens contra as mulheres, seja fixo ou baseado na biologia. E, no Intercourse, Dworkin descreve o que ela vê como o apelo apaixonado das mulheres por um novo modelo de heterossexualidade:

“Uma experiência de equidade e paixão, sensualidade e intimidade. As mulheres têm uma visão de amor que inclui os homens como humanos também… essas visões de uma sensualidade humana baseada na igualdade são as aspirações das mulheres… Elas são uma resistência clandestina para tanto inferioridade e brutalidade, visões que sustentam a vida e adicionam resistência”.

Uma imaginação moral utópica é um aspecto fundamental do pensamento feminista radical, mas atualmente muito pouco está sendo produzido sobre a previsão de uma sexualidade nova e não-opressora para as mulheres, da mesma forma como estava sendo produzida nas décadas de 1980 e 1990. Pode haver pouca dúvida de que essas ideias são urgentemente necessárias novamente. A influência da pornografia nas normas culturais da sexualidade não pode mais ser ignorada. E a normalização do sexo comercial como “apenas mais um trabalho” diz muito sobre a maneira como a mercantilização e a objetificação e a sexualidade de mulheres são consideradas inevitáveis.

A disseminação do movimento #MeToo abriu discussões abertas sobre as conexões entre encontros heterossexuais cotidianos, coerção e violência. E, quando começamos a reconhecer que o status quo deve mudar, também precisamos pensar além da mera aquiescência ou consentimento como o árbitro do sexo aceitável ou bom. Devemos, pelo menos, poder imaginar algo mais para as mulheres do que isso.

Ética sexual feminista?

Um conceito que frequentemente se cruzou com o meu próprio trabalho tem sido o de uma sexualidade baseada na ética feminista – isto é, uma sexualidade que inclui o que tantas feministas argumentam ser imperativa: uma rejeição do dano e da desigualdade. De certa forma, temo que a simples ideia de uma sexualidade ética pareça fraca, quase tão evidentemente fundamental, que não vale a pena ser afirmada, mas no contexto atual de uma florescente indústria pornográfica e a primazia do modelo biologicamente determinista da sexualidade, também pode parecer revolucionário. Simplesmente colocar a sexualidade no campo da ética e da política é uma afronta à crença popular e científica bem estabelecida de que a sexualidade deriva da biologia imutável.

Uma ética sexual feminista reconhece que a sexualidade não é fixa e, portanto, pode estar sujeita a mudanças. Além disso, afirma que decisões podem ser tomadas sobre o que é certo e errado em relação à sexualidade, o que contradiz diretamente as noções libertárias populares de que toda expressão sexual é um bem em si mesma. Uma ética sexual feminista reconhece que a expressão sexual ou o prazer, que é contingente em cima de desigualdade ou ao dano, deve ser chamado de opressão e não de libertação.

Isso não sugere que a sexualidade possa ser facilmente alterada. Dizer que a sexualidade é socialmente construída não significa que ela seja meramente imaginada ou determinada apenas no nível da escolha de um indivíduo. Como Srinivasan observa: “o fato é que nossas preferências sexuais podem e, de fato, mudam, algumas vezes sob a operação de nossas próprias vontades – não automaticamente, mas não impossivelmente também”. Sob os sistemas de dominação masculina, há, é claro, questões de poder estrutural e desigualdade em jogo, o que torna particularmente difícil para as mulheres criar uma sexualidade autônoma que erotiza a igualdade, sem falar em superar a socialização em uma classe sexual subordinada. Mas isso não significa que seja impossível.

O potencial para uma noção de sexo baseada na ética feminista rompe com grande parte da literatura existente que lida com a ética sexual. Muito decorre da tradição religiosa ou é baseado em estruturas altamente individualistas. Para dar dois exemplos díspares: Sexualethik de Aurel Kolnai, publicado originalmente em 1930, mostra a crença no impulso sexual determinado pela natureza e na primazia do intercurso e casamento heterossexuais como as formas mais normais e éticas da sexualidade.

Pulando para este século, Moira Carmody empregou a teoria foucaultiana como uma forma de compreender a importância dos indivíduos serem capazes de determinar sua própria ética sexual em relacionamentos íntimos. Carmody sugere que os indivíduos podem determinar por si mesmos quais são as práticas certas e erradas e podem negociar eticamente entre “prazer e perigo”. A análise separa em grande parte as experiências individuais das desigualdades estruturais de poder e também separa as práticas sexuais individuais de seus significados políticos e sociais. A “negociação” entre prazer e perigo, por exemplo, é deixada relativamente sem exame, como se a ameaça da violência masculina existisse inevitavelmente e, assim, as formas de negociar prazer, apesar dessa ameaça, fossem propostas como o único caminho a seguir.

Uma ética sexual verdadeiramente feminista, no entanto, precisa ser capaz de propor um modelo ético de sexualidade que, em última instância, não terá que envolver a negociação da ameaça de violência como a única maneira de alcançar o prazer. Como Adrienne Rich argumentou, quase quarenta anos atrás, o feminismo é mais do que apenas um “rótulo frívolo” – é “uma ética, uma metodologia, um modo mais complexo de pensar, agindo de maneira mais responsável sobre as condições da vida humana”. Para alcançar uma mudança ética, a partir de uma perspectiva feminista radical, é imperativo ser capaz de rotular práticas sexuais específicas – por exemplo, estupro, sexo coercitivo, prostituição e pornografia – como opressivas e profundamente prejudiciais, em vez de reduzir tais atos a questões de preferência individual.

Srinivasan afirma que essa abordagem equivale a dizer às mulheres que quaisquer experiências positivas que elas tenham sob condições de opressão são “erradas” ou evidências de “auto-engano”. Mas certamente podemos reconhecer que os sentimentos íntimos e a análise estrutural são dois campos separados, nem sempre de acordo, sem ter que caracterizar a falsa consciência como algum tipo de falha pessoal.

Talvez, como Marilyn Frye sugere, nosso conceito de sexualidade seja tão reduzido sob a dominação masculina que, imaginando algo novo, também seja necessária uma nova terminologia. Talvez pudéssemos passar de uma sexualidade ética para um dia alcançar a noção de sensualidade humana de Dworkin. Esses assuntos não são triviais, e continuar a discussão sobre o que é possível continua sendo vital, já que de fato são essas visões para o futuro que “sustentam a vida e a perseverança”. Na luta feminista em curso pela libertação das mulheres, a sexualidade é uma questão que atinge o coração da subordinação das mulheres, mas, em última análise, também a liberdade das mulheres.

Prostituição e supremacia masculina, por Andrea Dworkin

Este discurso foi feito no simpósio “Prostituição: da academia ao ativismo”, patrocinado por Michigan Journal of Gender and Law na Universidade de Michigan Law School, em 31 de outubro de 1992


Eu sou muito honrada de estar aqui com minhas amigas e minhas iguais, minhas irmãs deste movimento.

Eu também sinto uma quantidade terrível de conflito relativo a estar aqui, porque é muito duro pensar a respeito de falar sobre prostituição em um ambiente acadêmico. É realmente difícil.

As suposições da academia mal podem começar a imaginar a realidade da vida para mulheres na prostituição. A vida acadêmica é estabelecida na noção preexistente que há um amanhã e o próximo dia e um dia seguinte; ou que alguém pode vir para dentro, longe do frio, para estudar; ou que há algum tipo de discussão de ideias e um ano de liberdade no qual você pode ter discordâncias que não lhe custarão sua vida. Estas são premissas que aqueles que são estudantes ou que lecionam aqui influenciam diariamente. Elas são antiéticas para as vidas de mulheres que estão ou que estiveram na prostituição.

Se você esteve na prostituição, você não tem amanhã em sua mente, porque amanhã é um tempo muito distante. Você não pode supor que viverá de um minuto a outro. Você não pode e você não faz. Se você faz, então você é tola, e ser tola no mundo da prostituição é ser danificada, é ser morta. Nenhuma mulher que é prostituída pode se permitir ser tão tola, de modo que ela verdadeiramente acreditaria que o amanhã virá.

Eu não posso reconciliar estas diferentes premissas. Eu apenas posso dizer que as premissas da mulher prostituída são minhas premissas. Minhas ações são provenientes delas. São nelas que meu trabalho esteve baseado todos estes anos. Eu não posso aceitar – porque eu não posso acreditar – as premissas do feminismo que sai da academia: o feminismo que diz que nós ouviremos todos estes lados ano após ano, e então, algum dia, no futuro, por meio de algum processo que nós ainda não descobrimos, nós decidiremos o que é certo e o que é verdade. Isso não faz sentido para mim. Eu compreendo que para muitos de vocês isso faz sentido. Eu estou falando através do maior divisor cultural em minha própria vida. Eu tenho tentado falar através dele por vinte anos com o que eu consideraria sucesso marginal.

Eu quero trazer-nos de volta aos fundamentos. Prostituição: o que é ela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, ele paga dinheiro, ele faz o que quer. O minuto que você se move para fora do que ela realmente é, você se move para longe da prostituição no mundo das ideias. Você se sentirá melhor; você terá um tempo melhor; é mais divertido; há o bastante para se discutir, mas você estará discutindo ideias, não prostituição. Prostituição não é uma ideia. É a boca, a vagina, o reto, penetrado geralmente por um pênis, às vezes por mãos, às vezes por objetos, por um homem e então outro e então outro e então outro e então outro. É isso o que ela é.

Eu peço que vocês pensem sobre seus próprios corpos – se vocês podem fazer de tal modo fora do mundo que os pornógrafos criaram em suas mentes, as bocas e vaginas e ânus flutuantes, lisos e mortos, de mulheres. Eu peço que vocês pensem concretamente sobre seus próprios corpos usados dessa maneira. Quão sexy é isto? É divertido? As pessoas que defendem prostituição e pornografia querem que vocês sintam uma pequena excitação excêntrica toda vez que vocês pensarem em algo enfiado em uma mulher. Eu quero que vocês sintam os delicados tecidos em seu corpo que estão sendo abusados. Eu quero que você sinta qual é a sensação quando isso acontece novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez: porque é isso que a prostituição é.

Por esse motivo que – da perspectiva de uma mulher na prostituição ou de uma mulher que esteve na prostituição – as distinções que outras pessoas fazem entre se o evento aconteceu no Hotel Plaza ou em algum lugar mais deselegante não são as distinções que importam. Estas são percepções irreconciliáveis, com premissas irreconciliáveis. Naturalmente as circunstâncias devem importar, vocês dizem. Não, elas não importam, porque nós estamos falando sobre o uso da boca, da vagina, e do reto. As circunstâncias não abrandam ou modificam o que a prostituição é.

E assim, muitas de nós estamos dizendo que a prostituição é intrinsecamente abusiva. Deixe-me ser clara. Eu estou lhes falando sobre a prostituição por si mesma, sem mais violência, sem violência extra, sem uma mulher ser golpeada, sem uma mulher ser empurrada. Prostituição em si mesma é um abuso do corpo de uma mulher. Aquelas de nós que dizem isto são acusadas de serem simplórias. Mas prostituição é muito simples. E se você não é simplória, você nunca a compreenderá. Quanto mais complexa você conduz a ser, mais distante da realidade você estará – estará mais prudente, estará mais feliz, mais diversão você terá discutindo o problema da prostituição. Na prostituição, nenhuma mulher permanece inteira. É impossível usar um corpo humano do modo que os corpos das mulheres são usados em prostituição e ter um ser humano inteiro no fim dela, ou no meio dela, ou perto do começo dela. É impossível. E nenhuma mulher fica inteira de novo mais tarde, depois. Mulheres que foram abusadas na prostituição têm algumas escolhas a fazer. Vocês viram aqui mulheres muito corajosas fazerem algumas escolhas muito importantes: usar o que elas sabem; tentar comunicar-lhes o que elas sabem. Mas ninguém fica inteira, porque muito é levado embora quando a invasão é dentro de você, quando a brutalidade é dentro da sua pele. Nós tentamos tão duramente comunicar, cada uma de nós, a dor. Nós pleiteamos, nós fazemos analogias. A única analogia que eu posso pensar a respeito da prostituição é que ela é mais como violação múltipla do que ela é como qualquer outra coisa.

Oh, você diz, a violação múltipla é completamente diferente. Uma mulher inocente está andando pela rua e ela é tomada de surpresa. Toda mulher é a mesma mulher inocente. Toda mulher é tomada de surpresa. Na vida de uma prostituta, ela é tomada de surpresa novamente e novamente e novamente e novamente e mais uma vez. A violação múltipla é interrompida por uma troca de dinheiro. Isso é tudo. Essa é a única diferença. Mas o dinheiro tem uma qualidade mágica, não é? Você dá a uma mulher dinheiro e tudo o que você lhe fez ela quis, ela mereceu. Agora, nós compreendemos a respeito do trabalho masculino. Nós compreendemos que os homens fazem coisas que não gostam de fazer a fim de ganhar um salário. Quando homens fazem trabalho alienado em uma fábrica nós não dizemos que o dinheiro transforma a experiência para eles de tal maneira que eles a amaram, tiveram um bom divertimento, e de fato, aspiraram a mais nada. Nós olhamos para o enfado, a ausência de saída; nós dizemos, certamente a qualidade de vida de um homem deveria ser melhor que essa.

A função mágica do dinheiro é engendrada; o que é dizer, mulheres não são pretensas a terem dinheiro, porque quando mulheres têm dinheiro, presumivelmente mulheres podem fazer escolhas, e uma das escolhas que mulheres podem fazer é não estar com homens. E se mulheres escolhem não estar com homens, os homens então serão privados do sexo que homens sentem que têm um direito. E se é necessário que uma classe inteira de pessoas seja tratada com crueldade e indignidade e humilhação, colocada em uma condição de servidão, de modo que os homens possam ter o sexo que eles pensam que têm direito, então é o que acontecerá. Essa é a essência e o significado da dominação masculina. Dominação masculina é um sistema político.

É sempre extraordinário, quando olhando para esta troca de dinheiro, entender que nas mentes da maioria das pessoas o dinheiro vale mais do que a mulher é. Os dez dólares, os trinta dólares, os cinquenta dólares, valem mais do que toda a sua vida. O dinheiro é real, mais real do que ela é. Com o dinheiro ele pode comprar uma vida humana e apagar sua importância de cada aspecto da consciência civil e social e consciência e sociedade, das proteções da lei, de todo direito de cidadania, de qualquer conceito de dignidade humana e soberania humana. Por malditos cinquenta dólares qualquer homem pode fazer isso. Se você fosse pensar em uma maneira de punir mulheres por serem mulheres, pobreza seria o bastante. Pobreza é dura. Fere. As cadelas estariam arrependidas de serem mulheres. É duro estar com fome. É duro não ter um lugar agradável para viver. Você se sente realmente desesperada. Pobreza é muito punitiva. Mas pobreza não é o bastante, porque a pobreza sozinha não abastece o reservatório de mulheres para homens foderem em demanda. Pobreza é insuficiente para criar esse reservatório de mulheres, não importa quão famintas as mulheres fiquem. Assim, em diferentes culturas, as sociedades são organizadas diferentemente para alcançar o mesmo resultado: não somente as mulheres são pobres, mas a única coisa de valor que uma mulher tem é sua assim chamada sexualidade, que, junto com o seu corpo, tem sido transformada em um produto vendável. Sua assim chamada sexualidade torna-se a única coisa que importa; seu corpo se torna a única coisa que qualquer um quer comprar. Então uma suposição pode ser feita: se ela é pobre e precisa de dinheiro, ela estará vendendo sexo. A suposição pode estar errada. A suposição não cria o reservatório de mulheres que são prostituídas. Ele toma mais que isso. Em nossa sociedade, por exemplo, na população de mulheres que são prostituídas agora, nós temos mulheres que são pobres, que tem vindo de famílias pobres; elas também são vítimas de abuso sexual infantil, especialmente incesto; e elas tornaram-se desabrigadas.

Incesto é o campo de treinamento. O incesto é onde você envia a garota para aprender como fazer. Assim você, obviamente, não tem de enviá-la para lugar nenhum, ela já está lá e ela não tem nenhum outro lugar para ir. Ela é treinada. E o treino é específico e é importante: não ter limites reais ao seu próprio corpo; saber que ela é valiosa somente para o sexo; aprender sobre homens o que o ofensor, o ofensor sexual, lhe está ensinando. Mas mesmo isso não é o bastante, porque depois ela foge e ela está fora nas ruas e desabrigada. Para a maioria das mulheres, alguma versão de todos estes tipos de destituição precisa ocorrer.

Eu tenho pensado muito nos últimos dois anos sobre o significado da falta de lar para mulheres. Eu penso que é, em um sentido literal, uma condição prévia, junto com o incesto e a pobreza nos Estados Unidos, para criar a população de mulheres que podem ser prostituídas. Mas isso tem um significado mais extenso, também. Pense sobre onde alguma mulher realmente tem um lar. Nenhuma criança está segura em uma sociedade na qual uma de cada três garotas será abusada sexualmente antes de ter dezoito anos. Nenhuma esposa está segura em uma sociedade em que figuras aparecem para dizer que uma de duas mulheres casadas foi ou é espancada. Nós somos as donas de casa; nós fazemos estes lares, mas não temos direitos a eles. Eu penso que nós estávamos erradas ao dizer que prostituição é a metáfora para o que acontece a todas as mulheres. Eu penso que a falta de um lar é realmente essa metáfora. Eu penso que as mulheres estão expropriadas de um lugar para viver que seja seguro, que pertença à própria mulher, um lugar em que ela tenha não apenas a soberania sobre seu corpo, mas a soberania sobre a sua vida social real, quer ela seja a vida em uma família ou entre amigos. Na prostituição, uma mulher permanece desabrigada.

Mas há algo muito específico sobre a condição de prostituição que eu gostaria de tentar falar a respeito com vocês.

Eu quero enfatizar que nestas conversas, estas discussões sobre a prostituição, nós estamos todas procurando por uma linguagem. Nós todas estamos tentando encontrar maneiras de dizer o que nós sabemos e também descobrir o que nós não sabemos. Há uma presunção da classe media que a mesma sabe tudo o que vale a pena saber. É uma presunção da maioria das mulheres prostituídas que ela sabe nada que vale a pena saber. De fato, nenhuma das duas coisas é verdadeira. O que importa aqui é tentar aprender o que a mulher prostituída sabe, porque é de imenso valor. É verdadeiro e tem sido escondido. Tem sido escondido por uma razão política: sabê-lo é chegar mais perto de saber como desfazer o sistema de dominação masculina que está assentado sobre todas nós.

Eu penso que as prostitutas experimentam uma inferioridade específica. Mulheres em geral são consideradas sujas. A maioria de nós experimenta isto como uma metáfora, e, sim, quando as coisas ficam muito ruins, quando coisas terríveis acontecem, quando uma mulher é estuprada, quando uma mulher é golpeada, sim, então você reconhece que embaixo da sua vida de classe média existem suposições que porque você é uma mulher você é suja. Mas uma prostituta vive a realidade literal de ser a mulher suja. Não há metáfora. Ela é a mulher coberta de sujeira, o que é dizer que cada homem que esteve alguma vez sobre ela deixou uma parte de si mesmo para trás; e ela é também a mulher que tem uma função puramente sexual sob o domínio masculino de modo que à extensão que as pessoas acreditam que sexo é sujo, as pessoas acreditam que mulheres prostituídas são sujas.

A mulher prostituída não é, entretanto, estática nesta sujeira. Ela é contagiosa. Ela é contagiosa porque um homem após o outro avança sobre ela e então ele parte. Por exemplo, em discussões sobre AIDS, a mulher prostituída é vista como a fonte da infecção. Esse é um exemplo específico. Geralmente, a mulher prostituída é vista como a fonte geradora de tudo que é ruim e errado e podre relacionado a sexo, com o homem, com mulheres. Ela é vista como alguém que é merecedora de punição, não apenas por causa do que ela “faz” – e eu ponho faz entre aspas, visto que na maioria das vezes isso lhe é feito – mas por causa do que ela é.

Ela é, naturalmente, a mulher anônima perfeita. Os homens amam isso. Enquanto ela estiver em seu vigésimo quarto nome falso – boneca, bebê, gracinha, torta de cereja, o que quer que os pornógrafos estejam preparando esta semana como uma invenção mercadológica – seu anonimato diz ao homem, ela não é ninguém real, eu não tenho que ocupar-me com ela, ela não tem um último nome de qualquer modo, eu não tenho de lembrar quem ela é, ela não é alguém específica para mim, ela é uma incorporação genérica da mulher. Ela é percebida como, tratada como – e eu quero que você lembre disto, isto é real – muco vaginal. Ela é suja; muitos homens estiveram lá. Muito sêmen, muito lubrificante vaginal. Isto é visceral, isto é real, isto é o que acontece. Seu ânus é frequentemente rasgado por causa do intercurso anal, ele sangra. Sua boca é um receptáculo para sêmen, deste modo que ela é percebida e tratada. Todas as mulheres são consideradas sujas por causa do sangue menstrual, mas ela sangra outras vezes, em outros lugares. Ela sangra porque ela foi ferida, ela sangra e tem ferimentos.

Quando homens usam mulheres na prostituição, eles estão expressando um ódio puro ao corpo feminino. É tão puro como qualquer coisa nesta terra jamais foi ou é. É um desprezo tão profundo, tão profundo, que uma vida humana inteira é reduzida a alguns orifícios sexuais, e ele pode fazer qualquer coisa que ele quiser. Outras mulheres nesta conferência disseram-lhes isso. Eu quero compreender, acreditar nelas. É verdade. Ele pode fazer qualquer coisa que quiser. Ela não tem nenhum lugar para ir. Não há nenhum policial para se queixar; o policial pode bem ser o indivíduo que está fazendo isso. O advogado que ela encontra vai querer pagamento na mesma moeda. Quando ela precisa de ajuda médica, verifica-se que ele é apenas um outro freguês. Você compreende? Ela não é literalmente nada. Agora, muitas de nós temos experiências nas quais nos sentimos como nada, ou nós sabemos que alguém nos considera como nada ou menos que nada, sem valor, mas para uma mulher na prostituição, esta é a experiência de vida diária, dia a dia.

Ele, entretanto, o campeão aqui, o herói, o homem, ele está ocupado ligando-se com outros homens através do uso do corpo dela. Uma das razões que ele está lá é porque algum homem esteve lá antes e algum homem estará lá depois dele. Isto não é teoria. Quando você vive isso, você vê é verdade. Homens usam os corpos de mulheres em prostituição e em violação múltipla para comunicarem-se uns com os outros, para expressar o que eles têm em comum. E o que eles têm em comum é que eles não são ela. Assim ela torna-se o veículo de sua masculinidade e seu homoerotismo, e ele usa as palavras para dizer-lhe isso. Ele compartilha a sexualidade das palavras, assim como dos atos, dirigidos a ela, com outros homens. Todas esses palavrões são apenas as palavras que ele usa para dizer-lhe o que ela é. (E do ponto de vista de qualquer mulher que foi prostituída – se fosse pra ela expressar esse ponto de vista, o que é provável que ela não expresse – a luta que artistas masculinos travam pelo direito de usar palavrões é uma das chacotas mais doentias e desprezíveis na face desta terra, porque não há nenhuma lei, nenhuma regra, nenhuma etiqueta, nenhuma cortesia que interrompa qualquer homem de usar cada uma daquelas palavras em qualquer mulher prostituída; e as palavras têm o ferrão que é pretendido terem porque de fato, a estão descrevendo.) Ela é consumível. Engraçado, ela não tem nome. Ela é uma boca, uma vagina, e um ânus, quem precisa dela em particular quando existem tantas outras? Quando ela morre, quem sente sua falta? Quem lamenta por ela? Ela está ausente, alguém vai procurá-la? Eu quero dizer, quem é ela? Ela não é ninguém. Não metaforicamente ninguém. Literalmente, ninguém.

Agora, na história do genocídio, por exemplo, os Nazistas se referiram aos Judeus como piolhos e eles disseram, nós vamos exterminá-los. Na história do massacre dos povos indígenas das Américas, aqueles que fizeram a política disseram, eles são piolhos, mate-os. Catharine MacKinnon falou mais cedo sobre a limpeza de gênero: assassinando prostitutas. Ela está certa. Mulheres prostituídas são as mulheres que estão aí, disponíveis para a matança ginocida. E as mulheres prostituídas estão sendo assassinadas a cada dia, e nós não pensamos que estamos encarando qualquer coisa semelhante a uma emergência. Por que nós deveríamos? Elas não são ninguém. Quando um homem mata uma prostituta, ele se sente íntegro. É uma matança justa. Ele apenas se livrou de um pedaço de sujeira, e a sociedade lhe diz que ele está certo.

Há também um tipo específico de desumanização experimentado por mulheres que são prostituídas. Sim, todas as mulheres experimentam serem objetos, serem tratadas como objetos. Mas as mulheres prostituídas são tratadas como um determinado tipo de objeto, que é dizer, um alvo. Um alvo não é qualquer objeto velho. Você pode cuidar consideravelmente bem de alguns objetos que você tem em torno da casa. Mas você vai atrás de um alvo. Você põe o dardo no buraco. Para isso que a prostituta existe. O que isso deveria lhe dizer é quanta agressão entra no que um homem faz quando ele procura, encontra, e usa uma mulher prostituída.

Um dos conflitos que eu sinto a respeito de falar aqui, estar aqui, é que eu estou receosa que qualquer coisa que eu diga que é mesmo levemente abstrata afastará imediatamente a mente de todo mundo do problema fundamental. E o problema fundamental é o que é feito às mulheres que estão na prostituição, o que exatamente a prostituição é. Mas eu tenho que correr esse risco porque eu quero lhes dizer que vocês não podem pensar sobre a prostituição a menos que você se disponha a pensar sobre o homem que precisa foder a prostituta. Quem é ele? O que ele está fazendo? O que ele quer? Do que ele precisa?

Ele é todos. Eu quero que você tome uma hora, na Segunda-feira. Eu quero que você ande pela sua escola, e eu quero que você olhe para cada homem. Eu quero que você retire as roupas dele com seus olhos. Eu quero que você o veja com um pau duro. Eu quero que na sua mente você o coloque em cima de uma mulher com dinheiro sobre a mesa próxima a eles. Todos. O reitor desta escola de direito, os professores, os estudantes masculinos, todos. Se você está indo à sala de emergência, eu quero que você faça isso. Se você tem um ataque cardíaco, eu quero que você faça isso com o médico que está cuidando de você. Porque este é o mundo em que as mulheres prostituídas vivem. É um mundo em que não importa o que lhe acontece, há um outro homem que queira uma parte de você. E se você precisa de algo dele, você tem que dar-lhe essa parte.

Os homens que usam prostitutas pensam que são realmente grandes e realmente corajosos. Eles estão muito orgulhosos de si mesmos – eles vangloriam-se muito. Eles escrevem romances, escrevem canções, escrevem leis – povo produtivo – e têm uma percepção que eles são muito aventureiros e heroicos, e por que eles pensam isso? Porque eles são predadores que saem e perturbam as mulheres – eles se esfregam contra uma mulher que seja suja e vivem para contar sobre isso. Maldição. Eles vivem para contar sobre isso. Infelizmente. Virtualmente todo o tempo, não importa o que fizeram, não importa que dano eles tenham feito a ela – eles vivem para contar sobre isso, cantar a respeito disso, escrever sobre isso, fazer programas televisivos sobre isso, fazer filmes sobre isso. Eu gostaria de lhes dizer que estes homens são covardes, que estes homens são brutos, que estes homens são tolos, que estes homens são capazes de fazer o que eles fazem porque eles têm o poder dos homens como uma classe atrás deles, que eles alcançam porque os homens usam força contra as mulheres. Se você quer uma definição do que é um covarde, é necessitar empurrar uma classe inteira de pessoas para baixo de modo que você possa andar sobre elas. As sociedade são organizadas de modo que os homens tenham o poder que precisem, para usar as mulheres da maneira que quiserem. As sociedades podem ser organizadas de maneiras diferentes e ainda criar uma população de mulheres que são prostituídas. Por exemplo, nos Estados Unidos as mulheres são pobres, as mulheres são a maioria das vezes vítimas de incesto, as mulheres são desabrigadas. Em partes da Ásia, elas são vendidas para a escravidão na idade de seis meses porque elas são fêmeas. Isso é como o fazem lá. Não tem que ser feito da mesma maneira em cada lugar para ser a mesma coisa.

Dominação masculina significa que a sociedade cria um reservatório de prostitutas por todos os meios necessários de modo que os homens tenham o que eles precisem para permanecer no topo, se sentirem grandes, literalmente, metaforicamente, em cada maneira; no entanto os homens são nosso padrão para seres humanos. Nós dizemos que queremos ser humanas. Nós dizemos que queremos que eles nos tratem como seres humanos. Numa sociedade de domínio masculino, homens são os seres humanos. Eu quero apontar-lhes que nós usamos a palavra humano metaforicamente. Nós não estamos falando sobre como os homens agem. Nós estamos falando sobre uma ideia, um sonho, uma visão que nós tenhamos, do que é um ser humano. Nós estamos dizendo que nós não os queremos pisando sobre nós; nós também estamos dizendo implicitamente que eles não são um bom padrão para o que é ser humano, porque olha o que nos estão fazendo. Nós não podemos querer ser como eles, porque ser como eles significa usar pessoas da maneira que eles usam pessoas – para o estabelecimento de sua importância ou de sua identidade. Eu estou dizendo que homens são em parte figuras mitológicas para nós quando falamos sobre eles como seres humanos. Nós não estamos falando sobre como os homens realmente se comportam. Nós estamos falando sobre a mitologia dos homens como os árbitros da civilização. Este movimento político envolve compreender que as qualidades humanas que nós queremos na vida um com o outro não são qualidades que caracterizam a maneira como os homens se comportam realmente.

O que a prostituição faz numa sociedade de dominação masculina é que ela estabelece a parte social abaixo de que não há nenhuma parte inferior. É o fundo. Mulheres prostituídas estão todas na parte mais baixa. E todos os homens estão acima dela. Eles podem não estar muito acima, mas até os homens que são prostituídos estão acima da parte inferior que é formada por mulheres e meninas que são prostituídas. Cada homem nesta sociedade tira proveito do fato de que as mulheres são prostituídas quer cada homem use uma mulher na prostituição ou não. Isto não deveria ter que ser dito, mas isso tem de ser dito: a prostituição vem do domínio masculino, não da natureza feminina. É uma realidade política que existe porque um grupo de pessoas tem e mantém poder sobre um outro grupo de pessoas. Eu sublinho isso porque eu quero lhes dizer que a dominação masculina é cruel. Eu quero lhes dizer que a dominação masculina deve ser destruída. A dominação masculina precisa ser terminada, não simplesmente reformada, não feita um pouco mais agradável, e não feita um pouco mais agradável para algumas mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens –olhar realmente para ele, estudá-lo, compreendê-lo – em manter mulheres pobres, em manter mulheres sem abrigo, em manter meninas prostituídas, o que é dizer, em criar prostitutas, uma população de mulheres que serão usadas na prostituição. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em romantizar prostituição, em fazer seus custos a mulheres culturalmente invisíveis, em usar o poder desta sociedade, o poder econômico, o poder cultural, o poder social, para criar o silêncio, criar o silêncio entre aquelas que foram feridas, o silêncio das mulheres que foram usadas.

Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar um ódio às mulheres, em criar discriminação contra as mulheres, em usar a cultura para sustentar, promover, advogar, celebrar agressão contra as mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar uma ideia política de liberdade que somente eles podem realmente ter. Isso não é engraçado? O que é liberdade? Dois mil anos de discurso e de algum modo ele conduz a nos deixar de fora. É um monólogo surpreendentemente servido que eles tenham vindo aqui. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar sistemas políticos que subordinam mulheres; e isso significa que nós temos de olhar para o papel dos homens em criar a prostituição, em proteger a prostituição – como a aplicação da lei faz isso, como o jornalismo faz isso, como os advogados fazem isso. Nós precisamos saber as maneiras em que todos esses homens usam prostitutas e em fazê-lo eles destroem a dignidade humana das mulheres.

A cura para este problema é política. Isso significa tomar o poder para longe dos homens. Isto é material real; é material sério. Eles têm muito disto. Eles não o usam direito. Eles são brigões. Eles não têm um direito ao que eles têm; e isso significa que tem que ser tomado deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos usar para longe deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nos ferir para longe deles. Nós temos que tomar o dinheiro deles. Eles têm demasiado dele. Qualquer homem que tenha bastante dinheiro para gastar degradando a vida de uma mulher na prostituição tem demasiado dinheiro. Ele não precisa do que ele tem em seu bolso. Mas há uma mulher que precisa.

Nós precisamos levar embora seu domínio social – sobre nós. Nós vivemos em uma tirania de mentirosos e hipócritas e sádicos.

Agora, isso lhes custará lutar contra eles. Eles têm que ser descolados das mulheres, você me compreende? Eles precisam ser suspendidos para cima e para fora. O que é intratável sobre prostituição é domínio masculino. E é o domínio masculino que tem de ser terminado de modo que as mulheres não serão prostituídas.

Você, você – você tem que enfraquecer e destruir cada instituição que é parte de como os homens governam as mulheres. E não pergunte se você deveria. A pergunta é como, não se. Como? Faça uma coisa, ao invés de gastar suas vidas debatendo se vocês deveriam fazer isso ou se deveriam fazer aquilo e eles realmente merecem isso e é realmente justo? Justo? Isso é realmente justo? Queridas, nós poderíamos tomar as metralhadoras hoje à noite. Justo? Nós quebramos nossos próprios corações com estas perguntas. Isso é justo? Não respeite as leis deles. Não. Não respeite as leis deles. Mulheres precisam fazer leis. Eu espero que Catharine MacKinnon e eu tenhamos dado um exemplo. Nós tentamos. Não há nenhuma razão para nenhuma mulher, nenhuma mulher no mundo, realizar basicamente felação no sistema legal corrente. Mas na maior parte é o que alguém na escola de direito aprende a fazer.

O que eu espero que vocês levem daqui é isto: que todo e qualquer vestígio de hierarquia sexual significará que algumas mulheres em algum lugar estão sendo prostituídas. Se vocês olharem em torno de si e verem a supremacia masculina, vocês sabem que em algum lugar onde vocês não podem ver, uma mulher está sendo prostituída, porque toda hierarquia precisa de uma parte mais baixa e a prostituição é a parte mais baixa do domínio masculino. Assim, quando você se acomoda, quando concilia, quando se recusa propositadamente a saber, você está colaborando. Sim, eu sei que sua vida também está em cheque, mas sim, você está colaborando, as duas coisas são verdadeiras, na destruição da vida de uma outra mulher.

Eu estou pedindo que vocês façam a si mesmas inimigas do domínio masculino, porque ele tem que ser destruído para o crime da prostituição acabar – o crime contra a mulher, o crime da prostituição dos direitos humanos: e tudo mais é além do ponto, uma mentira, uma desculpa, uma apologia, uma justificação, e todas as palavras abstratas são mentiras, justiça, liberdade, igualdade, elas são mentiras. Contanto que as mulheres estejam sendo prostituídas elas são mentiras. Vocês podem dizer a mentira e nesta instituição você será ensinada como contar a mentira; ou vocês podem usar suas vidas para desmantelar o sistema que cria e então protege este abuso. Você, uma pessoa bem treinada, pode estar com o abusador ou com a rebelde, a que resiste, a revolucionária. Você pode estar com a irmã a quem ele está fazendo isto; e se você é muito corajosa você pode tentar ficar entre eles de modo que ele tenha que passar através de você para chegar até ela. Esse, de qualquer maneira, é o significado da palavra escolha frequentemente mal empregada. Estas são escolhas. Eu estou lhe pedindo que faça uma escolha.

andrea dworkin - prostituição e supremacia masculina

“Prostituição : não, não é um trabalho, não é uma profissão!” por Tania Navarro Swain

 

Escrito por Tania Navarro Swain para a revista Labrys


A quem interessa a manutenção da prostituição com uma fachada legal, transformada em uma “profissão”? A quem interessa, de fato, a existência de corpos disponíveis à compra e à venda, em um mercado em expansão? A questão crucial é a demanda, é a lei da falocracia que se impõe mais uma vez, pois os benefícios são apenas para os homens, enquanto proxenetas ou clientes.

As mulheres em estado de prostituição não terão um melhor status social com uma legalização enquanto “profissão”. Mas o opróbrio indelével que acompanha a prostituição não se derrama sobre os clientes. Estão ao abrigo da condescendência social, fruto de um pacto “entre homens”, que transforma as mulheres em presa e objeto sexual.

A prostituição é um dos elementos do sistema de controle e de dominação das mulheres. Quando uma parte da população feminina é destinada à utilização sexual pelos homens e institucionalizada enquanto “trabalho”, o destino das mulheres em geral é reafirmado: submetidas e assujeitadas, em seu conjunto, à ordem do pênis, do pai, do patriarcado.

A prostituição não se refere portanto a uma problemática individual, mas diz respeito a um  sistema que impõe a vontade do masculino sobre o conjunto da sociedade. A prostituição é uma questão de controle, onde o binário heterossexual se constrói, se afirma e se enraíza.

Há uma proposição simplista, ingênua ou de má fé que apresenta a prostituição como resultado de uma escolha, de um exercício de liberdade. Apaga-se assim todo o mecanismo de exploração e redução das mulheres à seus corpos,  cavidades a serem preenchidas pelo assujeitamento  ou pela força; assim desaparece toda uma literatura feministas que analisa os aspectos materiais e simbólicos que dá aos homens o direito de possuir e transformar as mulheres em objeto de desfrute.

A liberdade na prostituição é simplesmente a liberdade dos homens de exercer seu poder sobre as mulheres, de impor seu sexo e sua lei. A prostituição das mulheres é, no imaginário patriarcal, um dado “natural”, da mesma maneira que a maternidade seria um destino “natural”, proposições que conduzem, ambas, à elementar transformação de seres humanos em instrumentos para benefício dos homens: elas terão SEUS FILHOS e lhes darão SEU prazer.

A imagem da mulher em estado de prostituição derrama-se sobre todas as mulheres como corpos disponíveis ao desejo sexual e ao desejo de dominação que habita os homens. É assim que as guerras trazem o estupro como recompensa aos guerreiros triunfantes; também, uma mulher sem a companhia de um homem não pode ser livre de seus movimentos e da escolha de seus caminhos sem ter sobre ela a ameaça do estupro.

“A mais velha profissão do mundo” [1]é uma frase tantas vezes repetida porém qualquer resíduo histórico; tem entretanto, em sua propagação, o papel de justificativa para a existência da venda e da compra de mulheres, como algo que “sempre foi assim”.  Mas em história, nada é dado de modo universal, pois a multiplicidade do humano torna tudo possível, nada fixo, permanente, incontornável.

Assim, a venda de mulheres com fins sexuais é construída historicamente e não é um dado de “natureza”, antinômico com a dinâmica do social.[2]. Mas tudo se passa no discurso e nas análises recorrentes como se a prostituição fosse um “mal necessário”, condenada mas tolerada, tendo em vista as “necessidades” dos homens. Deste modo, os “clientes” não são nunca postos em questão, pois considera-se que tem o direito implícito e inalienável sobre os corpos das mulheres.

Liberdade

É interessante observar a contradição de um masculino que se arvora o detentor exclusivo da “razão” e entretanto, quando é de seu interesse, se declara possuído pelas injunções do “instinto sexual” e suas “necessidades”.

“Haverá sempre a prostituição”, dizem eles, para mais uma vez justificar suas pulsões sob o pretexto de liberdade de escolha das mulheres. É preciso ser muito ingênua(o) para não perceber uma inversão de termos: não é a liberdade das mulheres para se prostituir da qual de fala, mas da liberdade dos homens de prostituí-las.

Que liberdade é esta, das mulheres em estado de prostituição? Seus corpos não tem mais integridade, são decompostas em partes mais ou menos desejáveis; seu psiquismo não existe, tudo se passa como se estas mulheres estivessem ausentes de sua materialidade para suportar a invasão de seus corpos.

Esta ‘liberdade” de escolha pode – tudo é possível – ser exercida por mulheres, extremamente raras, que consentem em ser tratadas como dejetos ou vasos sanitários Ou que apenas afirmam sua escolha e deseja a denominação “profissão” pretende criar um semblante da dignidade que lhes é negada no simbolismo e na materialidade social.

Deste modo, quando uma mulher em estado de prostituição se vangloria de sua “profissão” pergunto-me em que abismo de infortúnio ela se encontra para reivindicar o “direito” de ser uma latrina. Não há necessidade de ser Freud para compreender que tenta constituir uma importância, uma afirmação psicológica para não cair ainda mais baixo na escala das coisas, da mercadoria mais desvalorizada simbolicamente. Pois o humano finda quando se torna apenas uma cavidade para satisfazer a bestialidade de outrem.

Mas não se pode utilizar  este argumento – a escolha – para defender a prostituição enquanto “trabalho” já que não passa de uma instituição da sociedade patriarcal, criada exclusivamente para o deleite sexual dos homens. De fato, há uma falsa polêmica neste sentido, e o que a provoca é a profunda incompetência de se imaginar as condições de vida das mulheres em estado de prostituição e de compreender as estruturas do patriarcado que aí se constroem e perpetuam.

Não se pode ser feministas e apoiar a prostituição, pois os feminismos agem e lutam para a promoção das mulheres, para aumentar sua auto-estima, sua independência, para assegurar que se tornem sujeitos políticos.

Não se pode, sobretudo, confundir a profissionalização da prostituição com esta promoção. Ao contrário, isto é um estímulo para o tráfico das mulheres e meninas – nossas filhas – para satisfazer os desejos infectos e sobretudo o desejo de poder masculino, sobre a metade da humanidade. Pois, como sabemos “não se nasce mulher” e da mesma maneira não se escolhe o estado de prostituição, mas sim a ele se é levada pela força, pela violência ou pelo assujeitamento às injunções sociais perversas, como o incesto, o abuso, a droga, o estupro, a pobreza, a ameaça, o assédio, a impotência diante de um sistema esmagador.

Há como uma espécie de aura em torno da prostituição, como uma atração em relação à decadência, à abjeção quando feministas afirmam “ é uma profissão”. É uma das formas mais insidiosas do assujeitamento, esta que  aprova e encoraja a prostituição das mulheres sob o pretexto de “liberdade”. Como se pode justificar a compra e a venda de corpos humanos si não estamos falando de escravidão?

As mulheres em estado de prostituição tornam-se simplesmente sexos, não seres humanos. É esta a definição deste “trabalho”, desta “profissão”? Abandonar a totalidade de seu corpo para tornar-se dele apenas uma parte? É no sexo que o patriarcado pretende definir as mulheres, é no sexo que decide manter um contingente de mulheres para utiliza-las a seu bel prazer.

Qual o progresso na situação das mulheres no social quando se aceita o direito dos “clientes” sobre aqueles que prostituem?

Nos matadouros, assim chamados os bordeis de Marselha, Jeanne Cordelier, ali prostituída, denuncia aponta uma média obrigatória de 80 “clientes” por dia. [3] Como classificar a sordidez destes homens que fazem fila para penetrar um corpo tantas vezes maltratado, ultrajado, doente de aviltamento? Como classificar estes homens que se juntam em três, seis, dez para estuprar mulheres, meninas, adolescentes? Não é bestialidade pois os animais não fazem isto.

A prostituição é de fato um sistema criado para  entregar aos homens e às suas perversões e violências, mulheres que se tornam apenas corpos materiais, sem sentimentos, sem emoções, sem dignidade, sem nada que possa sugerir a ideia de um ser livre.

Liberdade, o bem mais precioso do humano , não pode conter uma submissão a todos os desejos de outrem por um pagamento, pois os corpos não são bens à serem vendidos, alugado, consumidos. Salvo em caso de escravidão.

A reivindicação “meu corpo me pertence”, adágio básico da agenda  feminista é assim desviada, com efeito, para servir à Ordem do Pênis, do macho;  em vez de libertar, a prostituição acorrenta as mulheres a um corpo-buraco, a humores,  torna-as mercadoria, materialidade bruta para satisfazer o desejo do poder masculino.Pois comprar e chafurdar sobre o corpo de alguém não é um prazer sexual, é um prazer de dominação, um ato que marca a superioridade e o poder. Se eles tem uma mulher em face, a transformam em coisa, em carne a ser consumida.

Auxiliar as mulheres em estado de prostituição a dele sair é um dos primeiros pontos de ação feminista, mas defender e sustentar o sistema prostitucional é , de fato, se tornar cúmplice da exploração e da abjeção do feminino. Que não venham me dizer – e é preciso expor com todas as letras – que fazer felações ou abrir as pernas para qualquer indivíduo é um trabalho, uma profissão. Poderiam , senhoras “feministas” recomendar esta promissora “carreira” a suas filhas?

A aceitação da prostituição enquanto dado da sociedade e não como uma extremização masculina é fazer uma aliança com os proxenetas e os traficantes, aliança que esconde a violência das relações sociais, quando há a compra de um corpo de mulher. Quando estas “feministas engajadas” passarão a receber dividendos do sistema prostitucional, já que o incentivam?

São as correntes da vida num sistema implacável que levaram as mulheres ao estado de prostituição; em sua absoluta maioria, estas mulheres em estado de prostituição foram a ele conduzidas pelos estupros familiares, pelo abandono social, pelas violências repetidas, pela droga, por uma pobreza sem perspectivas, pelo abuso e a brutalidade . Não é “profissionalizando” que estas mulheres poderão quebrar os grilhões deste mecanismo perverso de decomposição de seres humanos em partes desfrutáveis. Não procurem convencer, senhoras, que uma menina que se vende na beira da estrada escolheu este caminho, de perigo e aviltamento. Isto é ridículo, insensível, desumano.

É bem mais cômodo  simplesmente aventar a “escolha”, a “liberdade” e fechar os olhos para o sistema patriarcal que cria a prostituta e faz dela um ser execrável socialmente.

Por outro lado, existem milhões de mulheres e meninas que foram traficadas, compradas, violentadas dezenas de vezes antes de se dobrar à prostituição. Contra sua vontade, muito além de sequer um sopro de liberdade. A escolha aí seja talvez a submissão ou a morte. Tudo isto parece ser esquecido na “polêmica” sobre a prostituição. De fato, as “feministas” que se declaram pró-prostituição são partícipes deste grande bazar de carne humana.

Assim, a prostituição é uma questão de liberdade, mas dos homens, de usar mulheres como lhes apetece, em qualquer circunstância e em suas fantasias brutais. O perigo desta atividade é evidente, pois as mulheres em estados de prostituição são as presas por excelência à todos os excessos e crimes e arriscam diariamente suas vidas.

A prostituição- trabalho – e nunca é demais repeti-lo – é o direito concedido aos homens de dispor das mulheres sob o beneplácito social da agora denominada “profissão” e sob a bandeira da “liberdade” de escolha.

Clientes

Comprar alguém é um ato desprezível.

Por oportuno, é preciso assinalar a falta de estudos e análises sobre o “cliente”, que de fato, é todo e qualquer homem, o pai, o irmão, o vizinho, o primo, o namorado, o marido de todas as “femininas” de plantão para defender a prostituição. O manifesto dos “343 salauds” [4] publicado em 2013 na França para defender o direito dos homens de usufruir da prostituição não deixa nenhuma ambiguidade: “não mexa com minha puta” dizem eles, minha propriedade, meu DIREITO de macho de evacuar meus humores e minhas perversidades sobre outrem.

O “cliente” faz parte do grupo dominante, portanto, seu papel na constituição do mercado de corpos não é posto em questão. É seu DIREITO, é SUA liberdade de dispor das mulheres segundo seu desejo. A Suécia ousou desmontar o jogo: os “clientes” passaram a ser penalizados em sua busca por sexo comprável e a prostituição deste país caiu bruscamente.

A França, após uma áspera polêmica gerada pelos mídia sobre os direitos dos “clientes” adotou, em fins 2013 uma multa a ser aplicada aos “clientes” no mercado do sexo. Se a demanda encolhe é claro que a oferta e logo, o tráfico de mulheres será reduzido ou finalizado.

Ainda uma vez, à quem interessa a prostituição? A quem interessa o aviltamento, o infortúnio, o abuso, os estupros, a carne oferecida aos pagantes, seja qual for sua aparência, sua higiene, suas perversões?

Os homens ousam dizer até que “elas poderiam até gostar disto”! O que espanta é que este tipo de discurso não seja despejado no lixo da sociedade, mas que ainda faça manchetes!

O sub-entendido é que os clientes não tem nenhuma responsabilidade sobre o mercado de oferta e procura dos corpos das mulheres, é evidente, não? O que impede o estupro coletivo ou individual de uma jovem mulher já que isto pode fazer dela uma boa prostituta, e talvez, “gostar disto”? Ouve-se muitas vezes que em caso de estupro, o melhor é “relaxar e gozar”! No Brasil quase 5 estupros por hora foram registrados em 2014![5]

É uma fantasia recorrente dos homens e pode-se isto constatar naa mídia: elas gostam “disto”, elas gostam de ser maltratadas, surradas, elas gostam da violência, da brutalidade, da rudeza, elas adoram se prostituir! As jovens que se contorcionam nuas nas telas, que se enrolam em postes, patéticos símbolos de virilidade, que se arrastam pelas calçadas, com sorrisos amarelos e corpos fatigados, é esta a imagem da liberdade dos homens à produzi-las enquanto prostitutas.

De fato, no imaginário masculino, o pênis é o centro do universo e quem ousaria negar-lhe sua importância? Quem ousaria negar-lhes a liberdade de comprar, vender, possuir, tomar, se a sociedade lhes oferece corpos e interina suas pulsões? Os bordeis para os “clientes” são locais de relaxamento, de delícias lascivas, de corpos oferecidos à vontade, do exercício irrestrito de sua liberdade masculina. E é assim que a literatura, o cinema, a televisão, os mídia em geral retomam o tema (ver por ex. Jorge Amado). É sempre o ponto de vista do “cliente” que interessa, pois, é claro, as mulheres estão lá por “adorar isto” ou em todo caso, foram feitas para “isto’.

E tudo gira em volta do sexo, e as mulheres são transformadas em sexo e o gênero feminino reduzido à abjeção, em proveito da lei do pênis, do pai incestuoso, do patriarcado vitorios sobre  as cinzas de um feminismo cúmplice, feito de ignorância e servilismo às injunções masculinas.

Colette Guilaumin (1992) [6] explicita que nas sociedades patriarcais as mulheres não tem um sexo, elas SÃO um sexo e um sexo não pode possuir a si mesmo. Logo, são os homens, que possuem um sexo – o verdadeiro – de domina-las a seu serviço.

Foucault (1976) analisou os mecanismos de valorização e construção do sexo enquanto eixo da vida, fonte de identidade maior. Mostra como se cria uma representação histórica do sexo e da sexualidade que adquire um núcleo de materialidade em sua repetição infatigável. Diz ele:

De fato, trata-se da própria produção da sexualidade. Esta, não deve ser concebida como uma espécie de dado da natureza que o poder tentaria domar, ou como um domínio obscuro que o saber tentaria, aos poucos desvendar. É o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não realidade profunda sobre a qual se exerceriam posições difíceis, mas uma grande rede de superfície onde a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação das consciências, o reforço dos controles e das resistências se encadeariam uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. [7]

É o dispositivo da sexualidade em ação que mostra, em sua historicidade, a constituição da importância e do valor desmesurados outorgados ao sexo e à sexualidade – novos eixos do universo. A noção de dispositivo da sexualidade explicita a historicidade dos fatos e gestos humanos, portanto da multiplicidade das relações humanas que não tem leis universais, nem essência ou natureza incontornáveis.

O humano se constrói e se desfaz e assim tudo que é humano pode igualmente ser desconstruído. A “natureza” e suas leis são categorias criadas para melhor justificar a dominação e seu único ponto de apoio é uma crença fanática em divindades, verdades positivistas, afirmações cuja substancia se encontra unicamente em sua enunciação e repetição. Ou seja, vazias.

Assim como o dispositivo cria o sexo, o patriarcado cria os gêneros, o binário hierárquico, a inferioridade das mulheres, a existência de uma pulsão sexual masculina que necessita ter à sua disposição um contingente variável de mulheres. Este “mal necessário” se implanta e se naturaliza na prostituição das mulheres, canal de absorção da lubricidade e perversões masculinas. Criada, porém execrável socialmente, a prostituição é desejável e aceitável neste mecanismo apodrecido de justificação que sustenta o “cliente”. Finalmente, é sua “natureza”, seu DIREITO.

Ouve-se com frequência que o casamento é também uma espécie de prostituição. São, evidentemente duas instituições patriarcais, submetidas porém à historicidade na amplitude de suas significações sociais e de seus limites/deveres/restrições/normas reguladoras, práticas sociais.

O casamento é uma instituição restritiva no ocidente, é uma violação dos direitos das mulheres nos países onde as uniões são forçadas ou as mulheres vendidas, geralmente meninas. É um dos pilares do patriarcado e seu objetivo confesso é a procriação, em um quadro normativo de heterossexualidade compulsória. [8]

Por outro lado, a prostituição é igualmente um dos fundamentos do patriarcado, que divide o feminino em “verdadeiras mulheres” – esposas e mães – e as outras, ligadas à depravação e à LIBERDADE DOS HOMENS

Entre casamento e prostituição o paralelo é sua característica básica de sustentar as bases do patriarcado, logo, de servir ao masculino, de estar à sua disposição. Se o casamento permite toda forma de violência no âmbito privado, a prostituição carrega além disto,  o opróbrio que nenhuma legalização poderá apagar.

Está claro que a existência de um não justifica a outra, ao contrário, ambas deveriam desaparecer para uma transformação das relações sociais, solapando assim os fundamentos de dominação masculina.

A prostituição, tal como é significa hoje é a compra de um corpo para uma finalidade sexual, mas há pouco tempo qualquer mulher que trabalhasse fora de casa ou fosse independente era considerada uma prostituta; os sentidos são assim variáveis segundo a época ou a formação social. Resta, entretanto que o epíteto “prostituta” entrega as mulheres à todas as fantasias e caprichos masculinos, da imposição desregrada de seu sexo e sexualidade aos corpos das mulheres, sem nenhuma sanção social.O estupro é seu corolário: porque não violentar, já que as mulheres “gostam disto”? Porque não trafica-las se as autoridades fecham os olhos para também usufruir desta carne a eles oferecida?

Uma longa luta foi travada pelos feminismos e ainda o é para estabelecer a compreensão de que quando uma mulher dia “não” ela não quer dizer “sim”. Mas a prostituição derrama sobre todas as mulheres a possibilidade ilimitada de posse, pois a condescendência social criada pelo pacto entre os homens faz com que possam imaginar que “se posso compra uma, posso também tomar uma outra, se ela não estiver acompanhada por outro homem”. O respeito em relação às mulheres é portanto um negócio entre homens: se ela não pertence a um macho, pertence a todos. Assim, a existência da prostituição é fator que autoriza e torna exequível o poder exercido sobre todas as mulheres.

O mito da liberdade das prostitutas esconde os grilhões que aprisionam todas as mulheres na imagem de um corpo disponível para o sexo.

tania navarro - abolir a prostituição

Abolir a prostituição é bloquear este imenso mercado que expõe as mulheres como carne a ser consumida. Abolir a prostituição é tirar aos homens o poder de dispor de corpos femininos à vontade. Abolir a prostituição é criar um novo imaginário onde as mulheres não seriam mais sujeitas à Ordem do pênis. Onde a liberdade para as mulheres não seria mais a de se vender, mas a de se constituir em sujeitos, sujeitos políticos, sujeitos de ação, onde a liberdade seria a de criar um destino, traçar um caminho e não de se arrastar pelas ruas, mendigas de sua própria existência ao serviço de um sexo aviltado.


[1] Ver livro de Merlin Stone, http://matricien.org/essais/merlin-stone/

Texto completo.

[2] Voir, par exemple, Jacques Rossiaud 1988.La prostitution médiévale, Paris, Flammarion,.

[3] Jeanne Cordelier, 1976. 76 : La Dérobade : Hachette

[4] dans une pathétique parodie des 343 femmes qui ont signé un texte affirmant avoir fait un avortement pour appuyer la loi qui garantissait  l´avortement, en France, Interruption volontaire de grossesse, défendue par Simone Veil e adopté dès lors.

[5] http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/11/numero-de-estupros-no-pais-supera-o-de-homicidios-dolosos-diz-estudo.html

[6] Colette Guillaumin1992. Sexe, Race et Pratique du pouvoir. L’idée de Nature, Paris : Côté-femmes,

[7] Michel Foucault, 1976. História da sexualidade, vol 1. Paris: Gallimarc

[8] Voir Adrienne Rich, 1981, http://www.feministes-radicales.org/wp-content/uploads/2012/03/Adrienne-Rich-La-contrainte-%C3%A0-lh%C3%A9t%C3%A9rosexualit%C3%A9-et-lexistence-lesbienne.pdf

Não acredite no que os lobistas dizem — a prostituição pode e será abolida

Escrito pela Julie Bindel para o Independent

Traduzido pela Fernanda Aguiar para o QG Feminista


 

Um dos mitos mais perniciosos sobre o comércio sexual, propagado pelo lobby pró-prostituição, é que ela não pode ser abolida. Se eu tivesse um dólar por cada vez que ouvi dizer que “a prostituição sempre esteve conosco e sempre estará”, as organizações feministas nunca ficariam sem financiamento.

Esta política de pessimismo define o consenso liberal de que a prostituição deve ser regularizada e não abolida. Essa atitude é a antítese do feminismo. “Nós não dizemos, a pobreza sempre existirá, vamos construir casas mais pobres”, disse um ativista sobrevivente da prostituição, durante a pesquisa do meu livro sobre o comércio sexual mundial. Ou “sempre haverá estupro, então vamos nos concentrar em acolher as vítimas, mas dizemos isso sobre a prostituição”.

A política e as crenças do lobby pró-prostituição são as mais pessimistas e fatalistas de qualquer movimento que encontrei. “É a profissão mais antiga”, continua o mantra, “a prostituição sempre esteve aqui e sempre estará”. Ou, como acreditou a acadêmica Catherine Hakim, os homens querem mais sexo do que as mulheres e, portanto, é inevitável que os homens paguem por sexo.

Alguns ativistas dos direitos do trabalhador sexual mesmo afirmam que os homens “precisam” fazer sexo conforme sua vontade ou que serão “forçados” a estuprar. “A prostituição é o último recurso para desejos sexuais não cumpridos. O estupro seria menos seguro ou se você for forçado a machucar alguém ou se estiver tão frustrado se você se masturbasse o dia todo”, como disse um cliente durante uma entrevista sobre por que ele paga por sexo. Existe alguma visão mais pessimista sobre homens e sexualidade masculina do que isso?

O movimento abolicionista é o mais otimista de todos. Ele se atreve a ser utópico. Como o brilhante Gary Younge argumenta, o idealismo é crucial para aqueles que desejam mudar o mundo para melhor. Sem idealismo e visão utópica, diz Younge, não é possível imaginar o tipo de mundo que desejamos habitar no futuro. Eu concordo — um mundo sem prostituição não só é possível; é inevitável. Se o feminismo for bem sucedido e o patriarcado for derrubado para abrir caminho a uma sociedade verdadeiramente igualitária, a prostituição, um sistema dependente da opressão e do abuso de mulheres e meninas pelos homens, não poderia existir.

Os governos que legalizaram seu comércio sexual há muito tempo suprimiram qualquer visão crítica, mas o movimento abolicionista está encontrando sua voz em vários desses países. Renate van der Zee, uma jornalista que vive na Holanda, é uma das novas ondas de abolicionistas que se recusam a aceitar uma violação comercial generalizada de mulheres desesperadas. Van der Zee acreditava que a legalização era a única opção para controlar o mercado do sexo, mas mudou de ideia após pesquisar a indústria.

Em 2013, o livro de Van der Zee, De Waarheid Achter de Wallen, foi publicado e Van der Zee está agora envolvida no pequeno mas crescente movimento abolicionista na Holanda. “Cinco anos atrás, teria sido impensável ter um movimento abolicionista neste país, mas hoje está crescendo e a caminho de prosperar”, disse Van der Zee.

A Alemanha, que também tem um comércio legal de sexo, foi recentemente exposta como um poço de abuso, graças às feministas que se atrevem a criticar publicamente a cafetinização sancionado pelo Estado.

No ano passado, participei da primeira conferência abolicionista em Melbourne, na Austrália, intitulada “A opressão mais antiga do mundo”. Melbourne é uma cidade onde muitos restaurantes banem “quentinhas” por causa da segurança alimentar, mas cujo governo defende bordeis legais. Entrevistei um grupo de sobreviventes do comércio sexual que estão fazendo campanha para revogar a lei e passaram um tempo com abolicionistas que estão fazendo campanha contra a venda legalmente sancionada de mulheres e meninas.

Enquanto os ativistas dos direitos do trabalhador sexual desejam colocar o proxeneta como empresário, abolicionistas desejam vê-lo a margem na história.

Um número cada vez maior de países em todo o mundo está buscando um modelo abolicionista (anteriormente chamado de modelo nórdico, mas agora adotado por outras nações, incluindo a França e a Irlanda) como forma de lidar com o comércio sexual, em vez do modelo de legalização desacreditada. O modelo de descriminalização da Nova Zelândia foi exposto por abolicionistas como benéficos apenas para empresários e clientes. As organizações feministas lideradas por sobreviventes do comércio sexual, como o Space International, asseguram que falam a verdade, não exploradores e propagandistas, que elas expõem a prostituição como a violação de direitos humanos que realmente é.

Como a grande escritora feminista Andrea Dworkin perguntou uma vez: “Certamente, a liberdade das mulheres deve significar mais para nós do que a liberdade dos cafetões”. O surgimento do movimento abolicionista assegurará que aqueles que falam sobre o comércio sexual sejam ouvidos e acreditados. Na mesma tradição orgulhosa de mulheres que se recusam a ser silenciadas sobre a violência doméstica, estupro e abuso sexual infantil, os sobreviventes do comércio sexual serão eventualmente reconhecidos como especialistas, ao invés de beneficiarem ou se beneficiarem da venda de carne feminina

Por que a esquerda não aceita que a base da prostituição é um racismo brutal?

Tradução do texto de Julie Bindel para o The Independent

Traduzido por Mariana Amaral para o QG Feminista

Um entrevistado admitiu abertamente que seu uso de mulheres chinesas na prostituição é para satisfazer uma fantasia que ele tinha sobre elas. “Você pode fazer muito mais coisas com mulheres orientais…”

compradores de sexo que entrevistei me contaram que eles geralmente escolhem mulheres específicas com base em estereótipos racistas

Não é segredo que o mercado do sexo é dominado pela misoginia. A esquerda liberal e outros setores chamados “progressistas”, geralmente esquecem de seus princípios para apoiar uma indústria global e multibilionária, criada a partir do sofrimento e opressão de mulheres e meninas. Essa posição não surpreende, uma vez que se leve em consideração o sexismo da esquerda, mas esses mesmo apologistas da legalização se mantém silenciosos sobre o fato incontestável de que mulheres e meninas negras, mestiças e indígenas ao redor do mundo estão na linha de frente para serem vendidas e compradas na prostituição.

Durante a extensa pesquisa que realizei para meu livro sobre o mercado do sexo, eu encontrei e entrevistei mulheres e homens que resistem à normalização do racismo dentro da prostituição.

Eu conheci Ne’cole Daniels, uma sobrevivente afro-americana do mercado do sexo, e membra da organização abolicionista SPACE International, em 2015 em uma conferência nos EUA. Daniels é clara sobre o racismo em que se baseiam os sistemas de prostituição nos Estados Unidos. “O mercado do sexo é como o próprio racismo. Ele diz que algumas de nós valem menos que outras”

Pala Molisa, um acadêmico do Pacífico, que faz campanha contra a violência masculina na Nova Zelândia, é constantemente acusada de ser “putofóbica” por ter escrito sobre a prostituição como uma forma de opressão. Molisa já foi ameaçado de perder seu emprego, alvo de bullying online e campanhas de difamação, e pelos propagandistas do mercado sexual, foi chamado de “queer sexualmente reprimida”.

Molisa diz que aprendeu com sua mãe e outras “irmãs indígenas” sobre a supremacia branca e o alicerce colonial da prostituição. “Nós não queremos apenas responsabilizar os homens por reduzirem mulheres a um status de mobília sexual — nós queremos que a instituição da prostituição — que é a base da cultura do estupro patriarcal e colonial — destruída” diz Molisa. “O modelo dominante de masculinidade dentro da cultura de supremacia masculina também é moldado por raça e classe, pelo capitalismo e pela supremacia branca”

Bridget Perrier é uma ativista indígena do Canadá e sobrevivente do mercado do sexo. Em 2015, Perrier apareceu na televisão do Reino Unido para debater com uma associada (branca) do Coletivo Inglês de Prostitutas (ECP). Perrier, que criou dois filhos de uma vítima do serial killer Robert Pickton, ouviu da membra do ECP que ela tinha “sangue nas mãos” por conta de suas campanhas para criminalizar cafetões e clientes. “Merda colonialista” disse Perrier. “Estou farta de ouvir que a prostituição é boa para mim e para minhas irmãs indígenas quando isso obviamente não faz bem a elas”

frase - courtney

Courtney, também indígena e sobrevivente da prostituição no Canadá, me contou: “O mercado do sexo é construído no racismo e colonialismo assim como a misoginia. Para mulheres indígenas e afro-americanas, e todas as mulheres e garotas racializadas, a prostituição é mais uma forma que o homem branco tem de pegar o que quiser de nossas comunidades, nossa cultura e nossa alma”.

Um bom número de compradores de sexo que entrevistei me contou que eles geralmente escolhem mulheres específicas com base em estereótipos racistas e colonialistas. A própria etnicidade é erotizada na prostituição. Um homem disse: “Eu tinha uma lista mental em termos de raças; eu já tentei todas as raças nos últimos cinco anos, mas no fim das contas elas são todas iguais.” Outro entrevistado admitiu abertamente que seu uso de mulheres chinesas prostitutas é para satisfazer uma fantasia própria sobre elas. “Você pode fazer bem mais coisas com garotas orientais, como sexo oral sem camisinha, você pode gozar na boca delas… Eu as vejo como sujas.”

Propagandas de serviços sexuais também se baseiam em estereótipos racistas e colonialistas. Em uma reunião com Sociedade de Mulheres Asiáticas pela Igualdade em Montreal, fui apresentada a uma pesquisa envolvendo a análise de 1.500 propagandas de prostituição online. Noventa por cento do conteúdo foi identificado como usando de estereótipos racistas como tática de venda, como por exemplo, mulheres asiáticas sendo descritas como “submissas”, “exóticas”, “imigrantes recentes”, “saídas do barco”, e “jovens experientes”. “É isso que homens estão procurando em mulheres asiáticas”, um dos coletivos afirmou.

No principal distrito da “luz vermelha” em Amsterdã, em que a maioria das mulheres prostituídas expostas como carne de açougue nas vitrines dos bordeis são da Romênia e do oeste da África, existem tão poucas mulheres holandesas que vendem sexo, que cafetões colocam selos de “NL” (Netherlands – [Holanda]) e bandeiras holandesas nas vitrines para fins publicitários. Mulheres brancas holandesas se tornaram uma raridade.

O tráfico de escravos está vivo e passa bem, mas foi repaginado dentro do capitalismo neoliberal. Durante o ato da prostituição, os corpos de mulheres e garotas são colonizados pelo homem que as usa. Como a esquerda pode ignorar isso, enquanto afirma estar lutando por uma sociedade igualitária livre de opressões, é algo além do que posso compreender. Muito da esquerda masculina não se importa o suficiente com a opressão feminina dentro da prostituição, mas eles poderiam ao menos reconhecer quando se afirma que o sistema da prostituição é em parte construído por um racismo brutal?


O livro de Julie Bindel, ‘A Cafetinagem da Prostituição: Abolindo o mito do trabalho sexual” será publicado pela Palgrave Macmillan em 27 de Setembro. Detalhes sobre o lançamento do livro e o debate acerca do tema podem ser acessados aqui.