Consentimento, coerção e culpabilidade

Consentimento, coerção e culpabilidade: A prostituição é um trabalho estigmatizado ou uma prática violenta e exploradora enraizada na desigualdade sexual, racial e de classe?

Por Rachel Moran e Melissa Farley (aqui e aqui)

Traduzido por Carol Correia.

 

Enquanto pedem por fatos em vez de opinião em seu Target Article, Benoit, Smith, Jansson, Healey e Magnuson (2018) omitiram evidências e cometeram erros conceituais. Eles afirmam erroneamente que aqueles de nós que entendem de prostituição como desigualdade sexual, exploração sexual e violência sexual também ignoram a raça e a desigualdade de classe da prostituição. Nós não ignoramos. Pobreza, a falta de oportunidades/educação racista, direcionado a mulheres racionalizadas marginalizadas, com deficiências, ou que sofreram abuso sexual prévio e negligência emocional e física – todos esses fatores canalizam as mulheres para a prostituição, que é o negócio da exploração sexual. A prostituição existe por causa da demanda masculina por ela, e as desigualdades raciais e econômicas tornam as mulheres vulneráveis a ela. Isso significa que a prostituição é produzida a partir de um entrelaçamento de desigualdades sexuais, raciais e econômicas (Frye, 1983; MacKinnon, 2011). A prostituição também está relacionada com abuso e negligência na infância (Farley, 2018; Moran, 2013). Ainda Benoit et al. erroneamente descreveu as seguintes perspectivas como mutuamente exclusivas: (1) “a prostituição é principalmente uma instituição de relações de gênero hierárquicas que legitimam a exploração sexual de mulheres pelos homens” e (2) “prostituição é uma forma de trabalho explorado onde múltiplas formas de desigualdade social (incluindo classe, gênero e raça) se cruzam nas sociedades capitalistas neoliberais.

“De uma perspectiva feminista abolicionista, a hierarquia sexual da prostituição é uma das várias desigualdades que são intrínsecas à prostituição. A desigualdade econômica e a desigualdade racial/étnica coexistem com a desigualdade sexual. Essas desigualdades foram fundamentais para a lei sueca de 1999 sobre prostituição. Na implementação da lei, a Ministra da Igualdade de Gênero, Margareta Winberg, perguntou: ‘Devemos aceitar o fato de que certas mulheres e crianças, principalmente meninas, muitas vezes aquelas que são marginalizadas economicamente e etnicamente, são tratadas como uma classe baixa, cuja finalidade é servir os homens sexualmente?’ (D’Cunha, 2002). Nós repetidamente abordamos essas desigualdades como elementos estruturais do comércio sexual, por exemplo, ‘A prostituição formaliza a subordinação das mulheres por sexo, raça e classe; assim, a pobreza, o racismo e o sexismo estão inextricavelmente ligados à prostituição’ (Farley, Franzblau, & Kennedy, 2014, p. 111).”

Trechos_ Consentimento, coerção e culpabilidade.png

Ligações entre o tráfico e a prostituição

Benoit et al. (2018) deixam de mencionar estudos empíricos, relatórios e dados do governo que fornecem informações importantes sobre a prostituição. O tráfico e a prostituição são a mesma coisa? Alguns colocam toda a prostituição sob o guarda-chuva do “tráfico” e outros colocam todo o tráfico sob o guarda-chuva da “prostituição”. Nenhuma das perspectivas é precisa. O tráfico é prostituição coagida/não-escolhida/involuntária/cafetinada. Observando a impossibilidade de separar a prostituição do tráfico no mundo real, o Relator Especial das Nações Unidas sobre os Aspectos dos Direitos Humanos das Vítimas do Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças, observou que a prostituição praticada “geralmente satisfaz os elementos legais para a definição de tráfico” (Nações Unidas, 2006, p. 23).

Benoit et al. (2018) não incluem provas convincentes da sobreposição entre prostituição e tráfico. Cho, Dreher e Neumayer (2013) descobriram que em 150 países, quando a prostituição era legal, havia aumento do tráfico. Sobreposições semelhantes entre prostituição legal e tráfico foram relatadas na União Europeia (Jakobsson & Kotsadam, 2013; Leem & Persson, 2013; Osmanaj, 2014) e nos EUA[1][2] (Heiges, 2009). Em uma revisão de relatórios sobre adultos em prostituição, 84% foram traficadas ou estão sob controle de cafetão (Farley et al., 2014).

Trechos_ Consentimento, coerção e culpabilidade(1).png

O número de mulheres que escolhem a prostituição de uma posição de segurança, igualdade e alternativas genuínas é mínimo. O’Connell Davidson (1998, p. 5) observou que apenas uma “pequena minoria de indivíduos” escolhe a prostituição por causa das “qualidades intrínsecas do trabalho sexual”. A prostituição tem a ver com os desejos sexuais de uma pessoa e as necessidades econômicas da outra pessoa. O dinheiro coage a performance do sexo (MacKinnon, 2011). Ter que sorrir enquanto múltiplos homens na idade do seu avô gozam em sua cara não pode ser descrito com precisão como “trabalho sexual livremente escolhido”. Em milhares de entrevistas, ouvimos mulheres, homens e mulheres trans[3] prostituídas descreverem a prostituição como estupro, escravidão voluntária, assinando um contrato para ser estuprado (na prostituição legal), a escolha que não é uma escolha, e como a violência doméstica levada ao extremo. Estas são descrições mais precisas da prostituição do que sexo consentido ou trabalho desagradável. As descrições dos compradores de sexo sobre prostituição espelham as mulheres: “alugando um órgão por dez minutos”, “como uma xícara de café – quando você termina, você joga fora”, “eu uso elas como se eu pudesse usar qualquer outra mercadoria, um restaurante ou uma conveniência pública”,“ Você recebe o que paga sem o ‘não’ ”. 

Estratégias de Redução de Danos não Reduzem a Maioria dos Danos da Prostituição

Pesquisas na década de 1990 reconheceram mais frequentemente as vulnerabilidades sociais que canalizam as mulheres para a prostituição. Pobreza elevada e maior tempo de prostituição foram associadas a mais DSTs e maiores violências (Parriott, 1994; Vanwesenbeeck, 1994). A Organização Mundial da Saúde e os Centros de Controle de Doenças notaram que o principal fator de risco das mulheres para o HIV era a violência (Aral & Mann, 1998; Piot, 1999). Ambos os grupos enfatizaram a importância de abordar os fatores sociais como contribuição para as DST/HIV, notando que desde que as mulheres entram na prostituição como resultado da pobreza, estupro, infertilidade ou divórcio, os programas de saúde públicas devem abordar esses fatores de risco sociais ligados à violência da prostituição. Um risco aumentado de 3-4% de HIV foi anotado para cada mês gasto em um bordel (Silverman et al., 2007).

Em qualquer contexto legal, a prostituição coloca as mulheres em alto risco para o HIV. A ciência atual em relação ao HIV é que as mulheres com múltiplos parceiros estão em maior risco (Coles, 2006; Larson & Narain, 2001). Como as mulheres na prostituição são usadas sexualmente por muitos homens, algumas tendo atendido milhares de homens, elas correm alto risco de contrair o HIV. As mulheres na prostituição são frequentemente estupradas, aumentando o risco de contrair o HIV, entre outros danos (Giobbe, 1991; Jeffreys, 1997; Rossler et al., 2010).

A pobreza das mulheres é uma causa básica do HIV, porque deixa as mulheres vulneráveis à demanda por atos sexuais inseguros. Dada a pobreza e falta de moradia associada à prostituição – 75% das mulheres na prostituição estavam desabrigadas em um estudo realizado em 9 países – as mulheres na prostituição são vulneráveis a serem coagidas por compradores sexuais e cafetões a não usar preservativos (Farley et al. , 2003). Porque os compradores de sexo pagaram mais dinheiro para não usar preservativos, atos sexuais extremamente arriscados “sempre podem ser comprados” (Loff, Overs & Longo, 2003). Uma análise do uso de preservativos na Índia descobriu que, quando as prostitutas insistiam no uso do preservativo, os compradores de sexo lhes pagavam 66-79% menos (Rao, Gupta, Lokshin, & Jana, 2003). Diversos estudos indicam que a maioria dos compradores sexuais não usa preservativos; por exemplo, 89% dos compradores de sexo canadenses recusaram preservativos em um estudo (Cunningham & Christensen, 2001). Os homens se ofereceram para pagar mais por atos sexuais sem preservativo, de acordo com 73% das mulheres em um estudo de vários países (Raymond et al., 2002). Hoje, os bordéis legais alemães anunciam a venda de atos sexuais sem camisinha por um preço mais alto[4]. Apesar das evidências para a associação de pobreza, violência sexual e HIV, um estudo descobriu que menos de 50% dos estudos epidemiológicos sobre risco de HIV entre mulheres na prostituição consideravam determinantes estruturais (Shannon et al., 2015). Argento et al. (2014, p. 2) observaram “… uma escassez surpreendente de pesquisas sobre experiências de violência interpessoal entre populações marginalizadas e estigmatizadas, como profissionais do sexo.” Por que essa falha em abordar os fatores que canalizam as mulheres para a prostituição? Por que o fracasso dos pesquisadores para perguntar sobre a violência do parceiro na prostituição? Quando a única abordagem à prostituição é a redução de danos, e quando a eliminação de danos não é vista como uma opção, então os defensores do trabalho sexual criam uma “toca de coelho” onde a prostituição é considerada desagradável, mas inevitável. “Não seria pelo menos um pouco melhor se fosse legalizada?”, perguntam. “Não haveria menos estigma e as prostitutas não seriam de alguma forma protegidas?” A primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, afirmou que a prostituição é “repugnante”, mas ao mesmo tempo apoiava a lei de descriminalização da prostituição do Partido Trabalhista como forma de reduzir os danos da prostituição (Banks, 2003)[5].

Os defensores do trabalho sexual se concentram em reduzir o estigma social da prostituição. Embora reconheçamos o preconceito social contra a humanidade das prostitutas, que são vistas como mercadorias e não como plenamente humanas, pensamos que existe ênfase excessiva no estigma social como o dano primário da prostituição, geralmente à exclusão de outros danos. Esses outros danos incluem assédio sexual, abuso sexual, agressões e estupros por parte de compradores sexuais, manipulação e controle por cafetões[6]. Quando o estigma social é o único dano a ser enfrentado, parece que o objetivo é obscurecer os danos mais graves e focar nos menos graves, de modo que a prostituição possa ser promovida como trabalho. Alguns profissionais do sexo se defendem ganhando lucros de outros no comércio sexual e não mencionam esse fato. Alguns que se dizem defensores do comércio sexual são, na verdade, cafetões (Bindel, 2017; Farley, 2016).

Trechos_ Consentimento, coerção e culpabilidade(2).png

Prostituição Legal Não Reduz os Danos da Prostituição

Abordagens legais de redução de danos à prostituição originaram-se em abordagens de redução de danos em saúde pública. A redução de danos na prostituição, como distribuição de preservativos femininos e masculinos, é óbvia. Mas a pergunta impossível é feita: como podemos reduzir a exploração sexual e estupro enquanto alguém está na prostituição? A resposta: nós não podemos.

A abordagem de redução de danos teve uma grande influência na legislação de redução de danos, isto é, na prostituição legal ou descriminalizada. A prostituição foi descriminalizada na Nova Zelândia por uma maioria de um voto de seu Parlamento (maio de 2003). Quatro das cinco razões propostas para a descriminalização da prostituição na Nova Zelândia tiveram a ver com a saúde pública. Apesar da falta de evidências, o argumento em favor da descriminalização da prostituição é que ela reduz o HIV reduzindo a violência e aumentando o uso de preservativos. Enquanto todos concordam que a descriminalização da pessoa que está sendo vendida para o sexo é um passo positivo, a maioria não concorda que descriminalizar os proxenetas/traficantes e chamá-los de “gerentes” é uma boa ideia. Violência de compradores de sexo, controle por cafetões e estigma social não diminuem sob a prostituição legal.

Benoit et al. (2018) não citam evidências significativas sobre as consequências negativas da prostituição legal/descriminalizada. Contrariamente às expectativas, a descriminalização ou legalização da prostituição na Holanda, Alemanha e Nova Zelândia não tornou a prostituição mais segura (Rothman, 2017). Após a legalização em Amsterdã, o crime organizado saiu do controle e as mulheres na prostituição não estavam mais seguras do que quando a prostituição era ilegal (Charter, 2008). Explicando que a prostituição legal não reduziu o crime como os holandeses esperavam, o prefeito de Amsterdã, Job Cohen, explicou que era “impossível criar uma zona segura e controlável para as mulheres que não estivesse aberta ao abuso do crime organizado” (Expatica, 2003). Um relatório do governo holandês de 2007 sobre a prostituição legal descobriu que os cafetões ainda eram um “fenômeno comum… o fato de que o número de prostitutas com cafetões não diminuiu é motivo de preocupação” (Daalder, 2007, p. 67, citado por Watson, na imprensa).

Na Alemanha, Paulus (2014) observou que 95% das mulheres na prostituição legal estavam sob o controle de outros, muitas vezes crime organizados. Achados semelhantes em relação à prostituição legal alemã foram relatados por Kavemann, Rabe e Fischer (2007) e também Spiegel (2013, citado por Watson, na imprensa). Concluindo que “a prostituição não deve ser considerada um meio razoável para garantir a vida”, um relatório do governo constatou que a Lei de prostituição de 2002 não havia feito melhorias na proteção das mulheres na prostituição, não reduziu o crime e não ofereceu às mulheres qualquer meio de escapar da prostituição (Ministério Federal Alemão para Assuntos da Família, Idosos, Mulheres e Jovens, 2007).

Sporer (2013) descreveu as consequências da lei alemã de 2002 sobre prostituição. Os cafetões levaram as mulheres pobres para as cidades alemãs da Hungria, Romênia e Bulgária. Enquanto a polícia acusava os proxenetas de extorsão, sequestro e tráfico, as mulheres estavam tão apavoradas com os criminosos que só estavam dispostas a testemunhar depois que os cafetões foram presos. Mesmo antes de 2002, a prostituição era considerada “contra a boa moral e costumes” – “sittenwidrig”. Embora as mulheres prostituídas fossem marginalizadas, elas não eram totalmente desprovidas de direitos. Algumas leis criminais a protegiam; a lei protegia sua liberdade de ação enquanto se prostituía. Se alguém tentasse controlá-la, dizer-lhe que atos sexuais ela tinha que executar, quanto ela tinha que cobrar, quanto tempo ela deveria trabalhar, ou como ela deveria estar vestida, então essa pessoa poderia ser acusada de crimes de prostituição, tráfico, ou o auxílio e a cumplicidade da prostituição e eles arriscaram uma alta sentença de prisão. Sporer explicou ainda:

A nova Lei de prostituição de 2002 transformou as mesmas ações, as mesmas regras estabelecidas por operadores de bordéis e cafetões, de delitos puníveis em práticas legais – da noite para o dia. A nova lei deu-lhes um “direito de direção” [Weisungsrecht, o direito dos empregadores legais de exercer autoridade sobre os empregados e de emitir instruções vinculativas] sobre as mulheres na prostituição. Eles agora podem legalmente dar ordens às mulheres. Apenas o pior tipo de pedidos, por exemplo, que uma mulher tem que se envolver em práticas sexuais específicas com um parceiro específico, permanecer ilegal. Praticamente todas as outras formas de influência estão bem dentro dos limites desta lei. Eles agora são parte do “direito de direção” exercido por aqueles que administram o bordel. As mulheres já não estão suficientemente protegidas dessas pessoas e, por razões legais, a polícia não pode mais intervir.

Isto é precisamente o que tivemos que experimentar no decurso das investigações contra uma operação de bordel em Augsburg há alguns anos atrás. Descobrimos que as mulheres haviam sido submetidas a regras e regulamentos muito rígidos pelos operadores do bordel. Por exemplo, eles tinham que estar à disposição dos compradores sexuais por 13 horas consecutivas, elas não tinham permissão para deixar o bordel mais cedo, elas tinham que andar nuas, elas nem sequer tinham permissão para decidir sobre os preços de seus serviços. Os preços foram unificados e definidos. Elas às vezes tinham que oferecer sexo desprotegido. E elas tiveram que pagar multas ao bordel por violar qualquer uma dessas regras. Essas condições são degradantes e obviamente incompatíveis com a dignidade humana. Mas o tribunal declarou que tudo isso é legal agora, por causa da nova Lei de prostituição. Isso levou a uma erosão maciça dos direitos das mulheres. O que se desenvolveu é uma relação legalmente instituída de superioridade e subordinação que está sendo explorada pelos exploradores do comércio sexual. Você poderia, portanto, dizer que é uma nova forma de escravidão, sob supervisão do Estado.” (Sporer, 2013, pp. 2–3)

A prostituição foi descriminalizada na Nova Zelândia em 2003. Um relatório do governo de 2008 sobre a lei da Nova Zelândia constatou que após a descriminalização da prostituição, a violência e o abuso sexual continuaram como antes (PLRC, 2008, p. 121): “A maioria das profissionais do sexo achava que a lei pouco podia fazer sobre a violência que ocorria” e que era um elemento inevitável do comércio sexual (PLRC, 2008, pp. 14, 57). Mais de um terço das mulheres entrevistadas após a descriminalização relataram que haviam sido coagidas (PLRC, 2008, p. 46). A maior taxa de coerção por parte dos compradores de sexo foi relatada por mulheres controladas por cafetões ou “gerenciadas” em prostituição de massagem. Como na Alemanha e na Holanda, o estigma social da prostituição persistiu após a descriminalização na Nova Zelândia. O número de compradores de sexo nas ruas duplicou após a descriminalização da Nova Zelândia e uma equipe da agência de extensão de Auckland relatou que elas eram mais frequentemente assediadas pelos homens (Farley, 2009). O New Zealand Prostitutes Collective, um lobista pela lei, não ofereceu apoio programático, como treinamento profissionalizante ou promoção de moradia para a grande maioria das pessoas na prostituição que queriam fugir dela. Em vez disso, vendo a prostituição como um trabalho razoável para as mulheres pobres. o Comitê de Revisão da Lei da Prostituição concluiu: “Para pessoas cujas opções de emprego podem ser limitadas, o trabalho sexual e, particularmente, o trabalho sexual baseado na rua, podem oferecer um meio rápido de obter ganhos financeiros …” (PLRC, 2008, p. 121).

Danos Perpetrados por Compradores Sexuais

Pesquisas recentes demonstram ligações entre as atitudes e comportamentos de compradores sexuais, por um lado, e agressão sexual, incluindo comportamento criminoso (Cho, 2018; Farley, Golding, Matthews, Malamuth e Jarrett, 2015; Heilman, Hebert e Paul-Gera, 2014). Heilman et al. (2014) entrevistaram 1000 homens cada no Chile, Croácia, Índia, México e Ruanda. Nos cinco países, os homens que compraram sexo eram mais propensos a cometer estupro. Em outra série de estudos, descobriu-se que os compradores sexuais geralmente preferiam o sexo impessoal ou não relacional, tinham medo de rejeição por mulheres, cometeram atos sexualmente agressivos no passado e tinham uma auto-identificação masculina hostil (Farley et al., 2015). Mais frequentemente do que os homens que optaram por não comprar sexo, os compradores de sexo aprenderam sobre sexo a partir de pornografia. Como outros homens sexualmente agressivos, os compradores de sexo não tinham empatia pelas mulheres na prostituição. Quanto mais os homens compravam sexo, menos empatia tinham pelas mulheres prostituídas (Farley, Macleod, Anderson & Golding, 2011). “Eu não quero saber sobre ela”, disse um comprador de sexo, “eu não quero que ela chore ou isso e aquilo, porque isso estraga a ideia para mim” (Farley, Bindel, & Golding, 2009). Os homens criam uma versão sexualmente excitante do que uma prostituta pensa e sente que tem pouca base na realidade (Jeffreys, 1997). Contra o senso comum, muitos compradores sexuais acreditavam que as mulheres prostitutas eram sexualmente satisfeitas pelas performances sexuais dos homens. Entrevistas com as mulheres, por outro lado, mostram que as mulheres não são sexualmente estimuladas pela prostituição e, com o tempo, a prostituição prejudica a sexualidade das mulheres (Barry, 1995; Funari, 1997; Giobbe, 1991; Høigård & Finstad, 1986).

Coerção

Ne’Cole Moore, membra da SPACE International[7], observou:

Algo a considerar: a maioria das pessoas que estiveram na “vida” sofreram agressão sexual precoce, vieram de sistemas familiares disfuncionais, estavam “no sistema”, ou seja, assistência social e estabelecimentos de correção. Tinha apoio e supervisão inadequado e estava exposta à violência. As pessoas não precisam ser acorrentadas para ficarem presas na prostituição. Fraude, força e coerção. Porque cafetões usam várias táticas para controlar uma mulher ou criança (Moore, 2016).

Trechos_ Consentimento, coerção e culpabilidade(3).png

Sexo prostituído é sexo coagido por sua natureza. O dinheiro é a força coercitiva. Se pensarmos no cenário de uma arma carregada apontada para alguém, não teremos problemas em identificar essa arma como um instrumento de coerção. Por causa da estrutura capitalista do nosso mundo, que nos rodeia com a realidade do dinheiro em tudo que vemos, fazemos e experimentamos, temos muito mais dificuldade em identificar o dinheiro como uma força coercitiva, mas é exatamente isso que o dinheiro é. Isto não é necessariamente uma acusação ao capitalismo; há uma grande diferença entre coagir alguém a fazer um sanduíche e coagi-lo a dar as costas e tolerar sexo indesejado.

Sexo indesejado em qualquer outro cenário concebível é identificado como sexualmente abusivo. É somente na prostituição que a natureza abusiva do sexo é negada, e isso é negado porque a coerção em si não é identificada. A prostituição nunca será reconhecida como abuso sexual até que a transação em dinheiro integral seja identificada como coercitiva por sua natureza.

Além disso, devemos olhar por trás do dinheiro com a intenção intencional da pessoa que o usa como meio de coerção, porque a coerção é uma cadeia que começa com a intenção humana. Na prostituição, os homens estão bem cientes de que o sexo envolvido é indesejado, que deve ser coagido com dinheiro antes que a mulher se renda para ele. O ato físico de entregar dinheiro é evidência em si do entendimento de que a situação sexual não aconteceria de outra forma; é evidência da natureza intencional da coerção. A coerção é projetada para criar rendição. Quando trazemos qualquer forma de força para criar a rendição sexual, essa rendição não deve ser confundida com o consentimento sexual. O “consentimento” aqui não é fazer sexo, mas tolerar isso. Essa realidade remove o sexo prostituído do reino do sexo que pode até ser considerado consensual, porque a própria coerção torna impossível o consentimento sexual.

Culpabilidade

A natureza sexualmente abusiva da prostituição tem um elemento adicional não comumente encontrado em outras formas de abuso sexual. Embora muitos sobreviventes de abuso sexual relatem sentir fortes sentimentos de culpa e vergonha, raramente são aqueles sentimentos enraizados em comportamentos ou realidades materiais que seriam recebidos pela sociedade como evidência concreta de culpabilidade por parte dos que sofreram abuso. No abuso sexual da prostituição, a tolerância do sexo indesejado pelo ganho material é absolutamente aceita como prova de culpabilidade, e as mulheres na prostituição são rotineiramente envergonhadas e rejeitadas por isso. Algum depoimento de sobreviventes do comércio sexual estabelece uma distinção entre as formas de trauma experimentadas na prostituição em comparação com formas socialmente compreendidas de abuso sexual, e alguns afirmam que a angústia psíquica do abuso da prostituição é composta muitas vezes pelo senso de culpabilidade contido nele.

Existe um consenso geral de que quase todas as mulheres, mulheres trans e homens na prostituição querem escapar da prostituição. Por que, então, defensores pró-trabalho sexual, como Vanwesenbeeck (2017) e Benoit et al. (2018) perseguem obstinadamente a prostituição legal/descriminalizada ao invés de responder à preferência declarada de indivíduos prostituídos para escapar da prostituição? Mistificado por um “ressurgimento da rejeição ao trabalho sexual” Vanwesenbeeck (2017, p. 1638) e Benoit et al. (2018) não parecem entender que a prostituição não é trabalho e não é sexo, que quase todo mundo quer sair e quando não podem escapar por causa de sua pobreza e do sexismo, racismo e outras opressões estruturais que os enjaula, depois procuram alguém que possa oferecer-lhes a escolha que procuram: sobreviver sem prostituição. Os serviços de saída baseados na escolha devem ser os mais altos na lista de prioridades tanto para as abolicionistas feministas quanto para os defensores pró-trabalho sexual. No entanto, em locais onde a prostituição legal ainda existe, as opções concretas de fuga são diminuídas, não aumentadas (Bindel, 2017). Walby et al. (2016) documentou uma grave falta de financiamento para os serviços de saída e reabilitação. O Conselho de Imigrantes da Irlanda (2018) recomendou que os estados garantissem financiamento adequado de longo prazo para os programas de saída da prostituição. O pensamento progressista sobre essa questão sugere que esses serviços de saída devem estar disponíveis antes (ou pelo menos coincidentemente) de prisões de compradores sexuais a fim de proporcionar uma existência segura e sustentável para mulheres vulneráveis (M. Baldwin, comunicação pessoal, agosto de 2018).

Alternativas às leis de redução de danos/legalização da prostituição são as leis de eliminação de danos aprovadas por vários países que agora reconhecem a prostituição como exploração sexual: Suécia (1999), Islândia (2008), Noruega (2009), Canadá (2014), Irlanda do Norte (2015), França (2016) e República da Irlanda (2017). Essas leis são baseadas em evidências sobre os danos da prostituição. Este modelo de eliminação/abolição de danos mantém os compradores de sexo e os cafetões responsáveis pelos danos perpetrados contra aqueles que se prostituem, enquanto descriminaliza os que estão na prostituição e oferece às mulheres a opção de sair através da prestação de serviços.

A noção de que “serviços corporais” – isto é, prostituição – pode ser fornecida sob “condições humanas, totalmente consensuais, controladas pelos trabalhadores, livres de discriminação e violência, e não mais exploradoras do que o trabalho médio” (Vanwesenbeeck, 2017, p. 1632) é um mito. “Era uma vez”, escreveu a congressista estadunidense Maloney (2004, p. Xiii), “havia a crença ingênua de que a prostituição legalizada melhoraria a vida das prostitutas, eliminaria a prostituição em áreas onde permanecia ilegal e tiraria o crime organizado dos negócios…. Como todos os contos de fadas, isso acaba sendo pura fantasia.” Sabrinna Vallisce, uma sobrevivente da Nova Zelândia explicou:

Quando a Nova Zelândia passou por uma total descriminalização, as coisas mudaram de formas inesperadas e passei a entender que os mitos de proteção legal, autonomia, aumento de escolha e maior aceitação da comunidade eram infundados. O mito da saúde sendo melhorada foi provado falso em menos de 6 meses da reforma da lei. As mulheres estavam beijando e arriscando herpes, fazendo sexo oral sem preservativos com o risco de verrugas na garganta, fazendo práticas mais ásperas e arriscadas apenas para conseguir os empregos. Eu lidei com os compradores sexuais mudando as expectativas. Eu não tive escolha a não ser lutar contra esse modelo se espalhando para outro país (Vallisce, 2017).

Agradecimentos: Obrigada Inge Kleine e Ingeborg Kraus por informações sobre locais na Alemanha onde o sexo sem camisinha é promovido. Obrigada Katharina Bracher pela ajuda na tradução da Realidade da Prostituição do Detetive Inspetor Helmut Sporer, 2013.

Referências

Aral, S. O., & Mann, J. M. (1998). Commercial sex work and STD: The need for policy interventions to change social patterns. Sexually Transmitted Diseases,25(9), 455–456.

Argento, E., Muldoon, K. A., Duff, P., Simo, A., Deering, K. N., & Shannon, K. (2014). High prevalence and partner correlates of physical and sexual violence by intimate partners among street and off-street sex workers. PLoS ONE, 9(7), e102129. Retrieved from http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.01021 29.

Banks, J. (2003). Comment: City shoulders load of making law work. New Zealand Herald.

Barry, K. (1995). The prostitution of sexuality. New York: New York University Press.

Benoit, C., Smith, M., Jansson, M., Healey, P., & Magnuson, D. (2018). “The prostitution problem”: Claims, evidence, and policy outcomes. Archives of Sexual Behavior. https://doi.org/10.1007/s10508-018-1276-6.

Bindel, J. (2017). The pimping of prostitution. London: Palgrave MacMillan.

Brody, S., Potterat, J. J., Muth, S. Q., & Woodhouse, D. E. (2005). Psychiatric and characterological factors relevant to excess mortality in a long-term cohort of prostitute women. Journal of Sex and Marital Therapy,31(2), 97–112.

Charter, D. (2008). Half of Amsterdam’s red-light windows close. The Times. Retrieved from http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/europe/article540 0641.ece.

Cho, S.-Y. (2018). An analysis of sexual violence: The relationship between sex crimes and prostitution in South Korea. Asian Development Perspectives,9(1), 12–34.

Cho, S.-Y., Dreher, A., & Neumayer, E. (2013). Does legalized prostitution increase human trafficking? World Development,41,67–82.

Coles, T. (2006). Multiple partnerships fueling AIDS epidemic. Reuters U.K.

Cunningham, L. C., & Christensen, C. (2001). Violence against women in Vancouver’s street level sex trade and the police response. Vancouver: PACE Society.

D’Cunha, J. (2002). Legalising prostitution: In search of an alternative from a gender and rights perspective. In Seminar on the effects of legalization of prostitution activities: A critical analysis organized by the Government of Sweden, 5–6 November, Stockholm, Sweden(pp. 28–46).

Daalder, A. L. (2007). Prostitution in the Netherlands since the lifting of the Brothel Ban. Amsterdam: WODC, Ministry of Justice.

Deering, K., Avni, A., Shoveller, J., Nesbitt, A., Garcia-Moreno, C., Duf, P., … Shannon, K. (2014). A systematic review of the correlates of violence against sex workers. American Journal of Public Health,104(5), 42–54.

Expatica.com. (2003). Why street walkers are getting the boot? Retrieved from https://www.expatica.com/nl/news/country-news/Why-street-walkers-are-getting-the-boot_10955 8.html.

Farley, M. (2009). Theory versus reality: Commentary on four articles about trafficking for prostitution. Women’s Studies International Forum,32(4), 311–315.

Farley, M. (2016). Very inconvenient truths: Sex buyers, sexual coercion, and prostitution-harm-denial. Logos: A Journal of Modern Society and Culture. Retrieved from http://logos journ al.com/2016/farle y-2/. (tradução aqui)

Farley, M. (2017). Risks of prostitution: When the person is the product. Journal of the Association for Consumer Research,3(1), 97–108.

Farley, M., Bindel, J., & Golding, J. M. (2009). Men who buy sex: Who they buy and what they know. London: Prostitution Research & Education. Retrievable from http://www.prostitutionresearch.com/Men%20Who %20Buy %20Sex 1-10.pdf.

Farley, M., Cotton, A., Lynne, J., Zumbeck, S., Spiwak, F., Reyes, M. E., … Sezgin, U. (2003). Prostitution and trafficking in 9 countries: Update on violence and posttraumatic stress disorder. In M. Farley (Ed.), Prostitution, trafficking and traumatic stress (pp. 33–74). New York: Routledge.

Farley, M., Franzblau, K., & Kennedy, M. A. (2014). Online prostitution and trafficking. Albany Law Review,77(3), 1039–1094.

Farley, M., Golding, J. M., Matthews, E. S., Malamuth, N. M., & Jarrett, L. (2015). Comparing sex buyers with men who do not buy sex: New data on prostitution and trafficking. Journal of Interpersonal Violence,32(23), 3601–3625.

Farley, M., & Kelly, V. (2000). Prostitution: A critical review of the medical and social sciences. Women & Criminal Justice,11(4), 29–64.

Farley, M., Macleod, J., Anderson, L., & Golding, J. M. (2011). Attitudes and social characteristics of men who buy sex in Scotland. Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy,2, 369–383.

Frye, M. (1983). The politics of reality: Essays in feminist theory. Freedom, CA: The Crossing Press.Funari, V. (1997). Naked, naughty, nasty: Peepshow reflections. In J. Nagle (Ed.), Whores and other feminists (pp. 19–35). New York: Routledge. (trechos em aqui, aqui, aqui e aqui)

German Federal Ministry for Family Affairs, Senior Citizens, Women and Youth. (2007). Report by the Federal Government on the Impact of the Act Regulating the Legal Situation of Prostitutes (Prostitution Act). Retrieved from http://www.bmfsf.de/Redak tionBMFSFJ/Broschuerenstelle/Pdf-Anlagen/bericht-der-br-zum-prostg-englisch,property=pdf,berei ch=bmfsf,sprac he=de,rwb=true.pdf.

Giobbe, E. (1991). Prostitution: Buying the right to rape. In A. W. Burgess (Ed.), Rape and sexual assault III: A research handbook (pp. 143–160). New York: Garland Press.

Green, E. C., Farley, M., & Herling-Ruark, A. (2009). The wisdom of whores: Bureaucracies, brothels and the business of AIDS (Book Review). Journal of the American Medical Association,301(23), 2502–2504.

Heiges, M. (2009). From the inside out: Reforming state and local pros-titution enforcement to combat sex trafficking in the United States and abroad. Minnesota Law Review,94, 428.

Heiliger, A. (2014). On the reality of prostitution and its social consequences. Retrieved from http://www.anita-heiliger.de/htm/Zur%20Realit%E4t%20in%20der%20Prostitution.pdf.

Heilman, B., Hebert, L., & Paul-Gera, N. (2014). The making of sexual violence: How does a boy grow up to commit rape? Evidence from Five IMAGES Countries. Washington, DC: International Center for Research on Women.

Høigård, C., & Finstad, L. (1986). Backstreets: Prostitution, money and love. University Park: Pennsylvania State University Press.

Immigrant Council of Ireland. (2018). Comparative report: Disrupt demand. Dublin: Immigrant Council of Ireland. Retrieved from https://www.immig rantc ounci l.ie/sites /defau lt/files /2018-11/ICI%20AntiTraffi cki ng%20Rep ort20 18-A4-WEBSI TE-FA.pdf.

Jakobsson, N., & Kotsadam, A. (2013). The law and economics of interna-tional sex slavery: Prostitution law and trafficking for sexual exploita-tion. European Journal of Law and Economics,35, 87–107.

Jeffreys, S. (1997). The idea of prostitution. North Melbourne: Spinifex Press.

Kavemann, B., Rabe, H., & Fischer, C. (2007). The act regulating the legal situation of prostitutes–implementation, impact, current developments. Berlin, Germany: SoFFI K. Retrieved from http://www.cahrv.uni-osnabrueck.de/reddot/BroschuereProstGenglisch.pdf.

Larson, H. L., & Narain, J. P. (2001). Beyond 2000: Responding to HIV/AIDS in the new millennium. New Delhi: World Health Organization Regional Office for South-East Asia. Retrieved from http://3w3.whosea.org/EN/Section10/Section18/Section356/Section410.htm.

Leem, S., & Persson, P. (2013). Human trafficking and regulating prostitution. Stockholm, Sweden: Research Institute of Industrial Economics. IFN Working Paper 996. Retieved from: http://www.ifn.se/wfile s/wp/wp996 .pdf.

Ling, D. C., Wong, W. C. W., Holroyd, E. A., & Gray, A. (2007). Silent killers of the night: An exploration of psychological health and suicidality among female street sex workers. Journal of Sex and Marital Therapy,33(4), 281–299.

Loff, B., Overs, C., & Longo, P. (2003). Can health programmes lead to mistreatment of sex workers? Lancet,36, 1982–1983.

MacKinnon, C. A. (2011). Trafficking, prostitution, and inequality. Harvard Civil Rights-Civil Liberties Law Review,46, 271–309.

MacKinnon, C. A., & Dworkin, A. (1997). In harm’s way: The pornog-raphy civil rights hearings. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Maloney, C. (2004). Foreward. In M. Farley (Ed.), Prostitution and trafficking in Nevada: Making the connections (pp. xii–xx). San Francisco: Prostitution Research & Education.

Moore, N. (2016). Testimonial of member of survivors of prostitution and abuse calling for enlightment (SPACE International). Retrieved from http://www.space intl.org/.

Moran, R. (2013). Paid for: My journey through prostitution. London: Doubleday.

O’Connell Davidson, J. (1998). Prostitution, power, and freedom. Ann Arbor: University of Michigan Press.

Oram, S., Stöckl, H., Busza, J., Howard, L. M., & Zimmerman, C. (2012). Prevalence and risk of violence and the physical, mental, and sexual health problems associated with human trafficking: Systematic review. PLoS Medicine,9(5), e1001224. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.10012 24.

Osmanaj, E. (2014). The impact of legalized prostitution on human trafficking. Academic Journal of Interdisciplinary Studies,3(2), 103–110.

Parriott, R. (1994). Health experiences of women used in prostitution: Survey findings and recommendations. Minneapolis: WHISPER. Retreived from http://www.cura.umn.edu/sites/cura.advantagelabs.com/files/publications/PUBS_S9406 .pdf.

Paulus, M. (2014). Out of control: On liberties and criminal developments in the redlight districts of the Federal Republic of Germany. Retrieved from http://ressourcesprostitution.wordpress.com/2014/05/06/m-paulu s-out-of-contr ol-on-liber ties-and-crimi nal-devel opmen ts-in-the-redli ght-distr icts-of-the-feder al-republic-of-germa ny/.

Piot, P. (1999). Remarks at United Nations Commission on the status of women. New York: United Nations Press Release.

Potterat, J. J., Brewer, D. D., Muth, S. Q., Rothenberg, R. B., Woodhouse, D. E., Muth, J. B., … Brody, S. (2004). Mortality in a long-term open cohort of prostitute women. American Journal of Epidemiology,159, 778–785.

Prostitution Law Review Committee. (2008). Report of the Prostitution Law Review Committee on the Operation of the Prostitution Reform Act 2003. Wellington, New Zealand. Retrieved from http://www.justice.govt.nz/prostitution-law-review-commi ttee/publicatio ns/plrc-repor t/index.html.

Rao, V., Gupta, I., Lokshin, M., & Jana, S. (2003). Sex workers and the cost of safe sex: The compensating differential for condom use in Calcutta. Journal of Development Economics,71(2), 585–603.

Raymond, J., D’Cunha, J., Dzuhayatin, S. R., Hynes, H. P., Ramirez Rodriguez, Z., & Santos, A. (2002). A comparative study of women trafficked in the migration process: Patterns, profiles and health consequences of sexual exploitation in five countries (Indonesia, the Philippines, Thailand, Venezuela and the United States). North Amherst, MA: Coalition Against Trafficking in Women (CATW). Retrieved from http://www.catwi ntern ation al.org.

Rossler, W., Koch, U., Lauber, C., Hass, A.-K., Altwegg, M., Ajdacic-Gross, V., & Landolt, K. (2010). The mental health of female sex workers. Acta Psychiatrica Scandinavica,122, 143–152.

Rothman, E. F. (2017). Second thoughts: Should US physicians support the decriminalization of commercial sex? AMA Journal of Ethics, 19(1), 110–121.

Shannon, K., Strathdee, S. A., Goldenberg, S. M., Duf, P., Mwangi, P., Rusakova, M., … Boily, M. C. (2015). Global epidemiology of HIV among female sex workers: Influence of structural determi-nants. Lancet,385(9962), 55–71.

Silverman, J. G., Decker, M. R., Gupta, J., Maheshwari, A., Willis, B. M., & Raj, A. (2007). HIV prevalence and predictors among sex-trafficked Nepalese girls and women. JAMA,298(5), 536–542.

Special Committee on Pornography and Prostitution. (1985). Pornography and prostitution in Canada. Ottawa: Department of Supply and Services.

Spiegel. (2013). How legalizing prostitution has failed. Retrieved from http://www.spieg el.de/international/germany/human-trafficking-persists-despite-legality-of-prostitution-in-germany-a-902533.html.

Sporer, H. (2013). Reality of prostitution. Brussels: European Women’s Lobby. Retrieved from https://www.women lobby.org/IMG/pdf/helmut_sporer_1_oct_2013_english_final.pdf.

United Nations, Committee on Human Rights. (2006). Report of the Special Rapporteur on the Human Rights Aspects of the Victims of Trafficking in Persons, Especially Women and Children.9U.N.Doc.E/CN.4/2006/62.

Vallisce, S. (2017) Testimonial of member of survivors of prostitution and abuse calling for enlightment (SPACE International). Retrieved from http://www.spaceintl.org/.

Vanwesenbeeck, I. (1994). Prostitutes’ well-being and risk. Amsterdam: VU University Press.

Vanwesenbeeck, I. (2017). Sex work criminalization is barking up the wrong tree. Archives of Sexual Behavior,46, 1631–1640.

Walby, S., Apitzsch, B., Armstrong, J., Balderston, S., Follis, K., Francis, B., … Tuntem M. (2016) Study on gender dimensions of trafficking in human beings. Luxembourg: Publications Office of the European Union. Retrieved from https://ec.europa.eu/antitrafficking/sites/antitrafficking/files/study_on_the_gender_dimension_of_trafficking_in_human _beings._final _report.pdf.

Watson, L. (in press). A sex equality approach to prostitution. London: Oxford University Press.

Zimmerman, C., Hossain, M., Yun K., Roche, B., Morison, L., & Watts, C. (2006). Stolen smiles: A summary report on the physical and psychological health consequences of women and adolescents trafficked in Europe. London: The London School of Hygiene and Tropical Medicine & The European Commission’s Daphne Programme. Retrieved from http://www.lshtm .ac.uk/hpu/docs/Stole nSmiles.pdf.


[1] Survivors of Prostitution Abuse Calling for Enlightenment (SPACE International), Dublin, Republic of Ireland

[2] Prostitution Research and Education, P.O. Box 16254, San Francisco, CA 94116-0254, USA

[3] Usamos as palavras escolhidas pelas próprias mulheres para se descreverem.

[4] Os atos sexuais sem camisinha foram publicados em traummaenlein.de e em vários outros sites que anunciam prostituição. Alguns deles foram discutidos por Heiliger (2014).

[5] Uma abordagem apenas de redução de risco rejeita as alternativas para a eliminação de riscos: não entrar na prostituição ou ajudar os indivíduos a evitar completamente esses comportamentos altamente arriscados. Em seu extremo, uma abordagem de redução de danos torna-se uma ideologia de laissez-faire mais preocupada em proteger os direitos individuais de certos comportamentos, não importa o quão arriscados sejam, do que proteger a saúde desses indivíduos e do público (Green, Farley & Herling-Ruark)., 2009).

[6] Esses danos foram documentados em uma extensa literatura global (por exemplo, ver Barry, 1995; Brody, Potterat, Muth e Woodhouse, 2005; Cho, 2018; Deering et al., 2014; Farley, 2017; Farley & Kelly, 2000). Giobbe, 1991; Høigård & Finstad, 1986; Ling, Wong, Holroyd e Gray, 2007; MacKinnon, 2011; MacKinnon & Dworkin, 1997; Moran, 2013; Oram, Stõckl, Busza, Howard e Zimmerman, 2012; Potterat et al., 2004; Rothman, 2017; Comissão Especial de Pornografia e Prostituição, 1985; Walby et al., 2016; Zimmerman et al., 2006).

[7] SPACE International – Sobreviventes da prostituição e do abuso chamando por esclarecimento. O SPACE é uma organização internacional, formada para dar voz às mulheres que sobreviveram à realidade abusiva da prostituição. http://www.space intl.org.

Rosa Cobo: “Falar de escolha na prostituição é sarcasmo”

Entrevista de Laura Martínez para o El Diario

Tradução por Carol Correia. Se houver problema de tradução, me avise em carolcorreia21@yahoo.com.br


Patriarcado, prostituição, desigualdade, comércio, capitalismo e exploração. Estes são os conceitos sobre os quais Rosa Cobo Bedía (Cantabria, 1956) reflete e sobre os quais ela publicou diferentes materiais. Livros, ensaios, artigos na imprensa e centenas de conferências nas quais ele aponta a relação entre o sistema capitalista e a prostituição; do tratamento das mulheres como mercadoria.

Professora de Sociologia do Gênero na Universidade da Corunha e diretora do Centro de Estudos de Gênero e Feministas da mesma instituição, publicou cinco ensaios para analisar (e desmantelar) o patriarcado moderno. A última, publicada em maio passado, é ‘Prostituição no coração do capitalismo’, que é apresentada nesta quinta-feira na Universidade de Valência, uma análise minuciosa da indústria do sexo e do comércio que movimenta milhões de pessoas em todo o mundo.

Pergunta: Há dados sobre quantas mulheres estão envolvidas na prostituição por escolha?

rosa cobo - entrevista el diario(3)

Resposta: A escolha das mulheres na prostituição é muito discutível. A maioria das mulheres que estão na indústria do sexo são estrangeiras. E a maioria delas está em situação irregular. Além disso, são mulheres com poucos recursos econômicos e culturais, muitas das quais vêm de situações de extrema pobreza. E outra parte significativa está sendo traficada. Com este ponto de partida, falar sobre escolha é sarcasmo. Elas estão na prostituição porque dificilmente conseguem encontrar um espaço no mercado de trabalho.

 

Regulamentar a prostituição ajudaria a combater com o tráfico de mulheres?

rosa cobo - entrevista el diario(4)

Não há relação direta entre a regulamentação da prostituição e a redução do tráfico. Pelo contrário, a regulamentação da prostituição tem o efeito de aumentar a indústria do sexo; esse aumento requer um maior número de mulheres para atender a demanda. Nesse processo, o tráfico aparece como um mecanismo fundamental para fornecer mulheres para essa indústria.

 

Você acredita que qual seria o método mais efetivo para combater as máfias?

A proibição da indústria do sexo, a criminalização de compradores sexuais e cafetões e políticas públicas de apoio integral às mulheres na prostituição. Sem comércio não há lucro e sem lucro não há prostituição. Obviamente, não é necessário penalizar as mulheres que estão submetidas a esta indústria.

 

Para aquelas que exercem a prostituição por sua própria vontade. Onde está a fronteira entre dispor de seu próprio corpo e se tornar um objeto sexual?

Não há fronteira. A sexualidade e o corpo das mulheres são uma mercadoria na indústria do sexo. Elas são tratadas como objetos, como mercadorias, para a indústria do sexo, assim como para cafetões e compradores sexuais. As mulheres na prostituição são o centro do comércio que ocupa o terceiro lugar em termos de lucro em escala global de todas as economias ilegais. A prostituição é uma indústria que movimenta bilhões de euros anualmente e serve para ativar economias que não têm tecido produtivo. As mulheres que migram para países com altas taxas de bem-estar enviam remessas de dinheiro para seus países de origem, o que, dessa maneira, reverte para o consumo interno.

 

Como influencia o padrão de vida de uma sociedade e o nível de igualdade nessa mesma sociedade nas cifras do comércio da prostituição?

Os altos níveis de bem-estar em uma sociedade não determinam o tamanho da indústria do sexo. Esta indústria é fundamental para os processos de acumulação capitalista e, além disso, é muito importante para as economias de alguns países com baixas taxas de pobreza, porque a exportação de mulheres para prostituição é o caminho para se ligar à economia global. No entanto, o bem-estar de uma sociedade minimiza o número de mulheres indígenas que se dedicam à prostituição. Essa é a livre escolha: quando há estados de bem-estar social, a prostituição indígena quase desaparece.

 

Você argumenta que não há consentimento na relação que é estabelecido entre uma mulher prostituída e um cliente. Eu gostaria que você explicasse um pouco essa tese… Como o consentimento é concretizado?

rosa cobo - entrevista el diario(5)

Que consentimento pode existir entre duas partes em que uma delas tem uma posição de poder e outra de extrema precariedade? Quando há uma desigualdade tão acentuada, não há legitimidade no contrato de prostituição. Pode haver mulheres que estão na prostituição e se declarem livres, mas isso não muda a natureza do consentimento. A questão é a prostituição como uma instituição, que em si mesma é uma fonte inesgotável de exploração sexual e econômica de mulheres prostituídas.

 

Em um sistema que não seja o capitalista, as mulheres poderiam ser objeto de consumo e propriedade?

A consideração das mulheres como propriedade, como mercadorias e como objetos está intimamente relacionada às estruturas patriarcais, capitalistas e raciais de nossas sociedades. Nas sociedades livres e sem desigualdades econômicas, patriarcais e raciais marcadas, as relações sexuais entre homens e mulheres serão livremente acordadas entre ambos sem preço.

“Trabalho sexual” ou “prostituição”? Escolha de linguagem revela visão sobre dominação masculina

Por Robert Jensen, publicado em 27 de fevereiro de 2017 para o Conatus News. Robert Jensen é professor da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas em Austin. Este ensaio é extraído de seu livro O Fim do Patriarcado: Feminismo Radical para Homens, publicado em janeiro de 2017 pela Spinifex Press. Ele pode ser encontrado em rjensen@austin.utexas.edu ou através de seu website, http://robertwjensen.org/

Traduzido por Carol Correia


Os termos para descrever a compra e venda de corpos para sexo no mundo moderno transmitem muito sobre o debate ideológico subjacente em curso na cultura e no feminismo.

Nos círculos liberais, “trabalhadora do sexo” tornou-se comum, rejeitando a feiura de palavras como “prostituta” que são usadas em uma cultura que gosta de culpar as mulheres pela exploração e abuso das mulheres pelos homens.

Mas como um homem enraizado em uma crítica feminista do domínio masculino institucionalizado – em outras palavras, um crítico do patriarcado, talvez uma palavra antiquada mas que ainda descreve nossa sociedade – não me refiro à compra do sexo como trabalho, mas como prostituição. Refiro-me à prostituição – junto com a pornografia e as atividades em bares de strip-tease, operações sexuais comerciais por telefone/computador e casas de massagem – como as indústrias da exploração sexual.

Qual é o melhor termo para uma mulher em uma das indústrias de exploração sexual? Eu sigo os insights de mulheres como Rachel Moran, autora de Paga: Minha jornada pela prostituição: “Eu não era uma prostituta, eu estava prostituída. Há uma diferença muito grande e significativa”, diz ela. Uma mulher sendo usada por homens para o sexo não é reduzida a “prostituta” como uma identidade; ela continua sendo um ser humano completo, mesmo sendo tratada como menos do que isso por um homem. (Tanto homens quanto mulheres podem ser prostituídos dessa maneira, mas a maioria é de meninas e mulheres e a grande maioria dos compradores são homens.)

Essas escolhas de linguagem sinalizam análises dramaticamente diferentes. Podemos entender essas práticas como parte fundamental de um sistema patriarcal que tenta controlar as mulheres e sua sexualidade, que, portanto, devem ser desafiadas (a posição feminista radical); ou apenas como um tipo de trabalho que as mulheres podem dedicar à sua vantagem potencial, que, portanto, deve ser tratada como qualquer outra forma de trabalho (a posição liberal).

Uma série de perguntas pode ajudar a revelar qual posição é mais consistente com a justiça.

Primeiro, é possível imaginar qualquer sociedade que alcance um nível significativo de justiça se as pessoas de uma classe de sexo/gênero puderem ser rotineiramente compradas e vendidas para serviços sexuais por pessoas de outra classe de sexo/gênero? Se uma classe de pessoas é definida como “disponível para compra e venda de serviços sexuais”, existe alguma forma da classe de pessoas não ser designada como subordinada para a classe dominante que faz a compra? A justiça é possível quando os espaços mais íntimos dos corpos das pessoas de um grupo podem ser comprados por pessoas de outro grupo?

Mesma pergunta feita diferentemente: Se vivêssemos em uma sociedade igualitária com justiça de sexo/gênero, a ideia de comprar e vender pessoas para serviços sexuais surgiria? Se vivêssemos em uma sociedade que colocasse a dignidade de todas as pessoas no centro de sua missão, alguém imaginaria a possibilidade de “trabalho sexual”?

Outra formulação: você está construindo uma sociedade a partir do zero, com o poder não apenas de escrever leis (se decidir que devem existir leis formais), mas também de escrever as histórias que as pessoas contam sobre si mesmas e sobre o mundo vivo. Você escreveria histórias sobre como uma classe de sexo/gênero rotineiramente compra e vende outra classe de sexo/gênero para prazer sexual?

Última pergunta: Você está falando com uma garota que está considerando futuras vocações. Você quer que ela viva em um mundo com justiça sexual/de gênero. Ela pergunta: “O que você acha que eu deveria ser quando crescer?” Você inclui “prostituta” na lista? Se ela inclui isso em sua lista, você responde da mesma maneira que outras possibilidades?

Se a resposta a essas perguntas é não, talvez seja porque, como a socióloga Kathleen Barry expõe sem rodeios em seu livro A Prostituição da Sexualidade: “Quando o ser humano é reduzido a um corpo, objetificado a servir sexualmente a outro, tenha ou não consentimento, violação do ser humano tomou lugar.”

Uma sociedade justa que garanta a dignidade para as mulheres é impossível no patriarcado – seja a versão conservadora ou liberal do domínio masculino institucionalizado. Temos que trabalhar não apenas para desmantelar as estruturas do patriarcado, mas também para imaginar como seria uma sociedade além do patriarcado. Em tal mundo, é difícil imaginar prostitutas, profissionais do sexo ou putas.

O que há de errado com a prostituição?

Escrito pelo Nordic Model Now

Traduzido por Fernanda Aguiar para o AntiPornografia; revisado por Carol Correia.

Algumas imagens foram retiradas para proteger a identidade. (28/02/19)


Este artigo analisa a prostituição e como ela afeta as pessoas, tendo seus vínculos intrínsecos com pornografia, tráfico sexual e exploração sexual infantil, seu racismo inerente e por que devemos responsabilizar os que a conduzem.

 

G.L. ficou na prostituição por 19 anos a partir dos 18 anos de idade. Em sua submissão a um inquérito australiano sobre a regulamentação dos bordeis, ela disse sobre a prostituição: “A prostituição rouba todos os sonhos, objetivos e a essência de uma mulher. Durante meus anos, não conheci uma mulher que gostava do que estava fazendo. Todas estavam tentando sair.”

G.L. mora na Austrália, onde o comércio sexual é descriminalizado em alguns estados. Em sua apresentação ao governo australiano, ela conta como quando ela estava tentando sair, ela continuava pensando: “É legal, então não pode ser tão ruim assim”. Então ela disse a si mesma para lidar com isso e continuou, “apesar de que ser uma vida de completa miséria”.

Ninguém avisou G.L. sobre o que seria e como isso afetaria ela ao longo do tempo. Agora ela fala nas escolas, porque quer que as meninas conheçam a verdade sobre a prostituição e como isso prejudica o bem-estar das mulheres.

nordic model now - prejudicial.png

Ninguém disse a essas mulheres quão prejudicial o trabalho com amianto também seria. Esta foto mostra as mulheres que trabalham em uma fábrica de amianto em 1918, quando poucas pessoas sabiam que o amianto causa doenças pulmonares fatais e uma morte lenta e dolorosa. Agora o dano é incontestável e uma proibição total entrou em vigor no Reino Unido em 1999.

nordic model now - compradores sexuais

Antes de olhar para a realidade da prostituição, vejamos quem compra e quem é comprado e vendido. Quase todos os compradores de prostituição — ou clientes, como às vezes os chamamos — são do sexo masculino.

nordic model now - vítimas

E a grande maioria daqueles que são comprados e vendidos na prostituição são mulheres. Em nenhum lugar do mundo existem prostíbulos cheios de homens para uso exclusivo das mulheres.

Neste artigo, nos referimos àqueles que são comprados e vendidos como mulheres e meninas. Fazemos isso por simplicidade e enfatizamos a natureza de gênero da prostituição — e não sugerimos que seja menos prejudicial para meninos, homens e pessoas transgêneros.

nordic model now - suzzan blac.png

Esta pintura poderosa é de Suzzan Blac, uma sobrevivente da prostituição e do tráfico sexual. Observe que a jovem na foto tem uma arma apontando para sua cabeça.

As meninas geralmente não crescem querendo estar na prostituição. Então, o que aconteceu com as meninas e as mulheres jovens para acabarem nisso?

fato_ escolha é complicado(1)

Os testemunhos de sobreviventes e os estudos de mulheres e meninas na prostituição mostram consistentemente que muitas vezes até um terço, estavam em atendimento de autoridades locais quando crianças; cerca de metade começaram na prostituição antes dos 18 anos, ou quando estavam desabrigadas; cerca de metade foi coagida por alguém a entrar na prostituição; e cerca de três quartos foram abusadas sexualmente ​​como crianças.

nordic model now - cortes de beneficios sociais.png

Nos últimos anos tem havido um enorme aumento na pobreza no Reino Unido, como resultado de políticas de austeridade do governo, baixos salários, contratos de zero horas, taxas de estudantes e cortes e sanções de benefícios. Isso atingiu as mulheres, especialmente as mães solo, mais vulneráveis.

O filme, Eu, Daniel Blake , mostra a mãe solo, Katie, voltando-se para a prostituição como último recurso. As agências que trabalham com mulheres na prostituição informam que estão a ver isso em todo o país: as mulheres desesperadas se voltam para a prostituição para prover seus filhos.

nordic model now - lucros da cafetinagem

Cafetinagem é extremamente lucrativo. Um proxeneta ganha em média £ 70 por hora por mulher. Compare isso com o salário mínimo para adultos. Mas ninguém realmente quer fazer sexo com até 20 estranhos por dia — então o proxeneta invariavelmente usa força e coerção.

Groom (na prostituição) /Groming: O processo pelo qual alguém com maior poder manipula uma criança ou uma jovem adulta a entrar na prostituição.

Então, o que queremos dizer com grooming? Normalmente, um proxeneta começa por brincar com a necessidade de amor e atenção da menina e seu desejo por uma vida melhor e coisas legais. Ele introduz o sexo comercial dizendo que tem uma necessidade urgente de dinheiro, “Se você me ama, você fará isso”, diz. Logo isso muda para: “Você é apenas uma prostituta. Minha prostituta!” Ele continua alternando manipulação emocional e violência, enquanto vive de seus ganhos, enquanto ela aguentar.

Simplesmente, não há nenhuma maneira de que a maioria das meninas e mulheres jovens, especialmente aquelas de origens problemáticas e cuidados das autoridades locais, tenham a experiência de vida e confiança para entender as segundas intenções por trás desse tipo de manipulação e resistir a isso.

nordic model now - caso de exploração sexual em oxford.png

Todos ouvimos falar dos casos de crianças sendo preparadas por gangues de homens — por exemplo, em Oxford, Rotherham e Rochdale. No caso de Oxford, havia uma estimativa de 373 crianças vítimas, a maioria das quais eram meninas, muitas estavam aos cuidados das autoridades locais, algumas jovens de 11 anos. Elas eram vendidas para homens por até £ 600 por hora.

Isso agora é tratado como “exploração sexual infantil” (CSE), o que deixa claro que a criança não é culpada. Infelizmente, no entanto, obscurece o fato de que os homens comuns na comunidade pagam para alugar as meninas para usar e abusar e obscurece os enormes lucros que motivam os proxenetas.

Há evidências de que isso está acontecendo em todo o Reino Unido.

nordic model now - aspectos chave do trafico sexual

O tráfico sexual é uma forma de escravidão moderna. A definição acordada internacionalmente está em um tratado da ONU que é conhecido como Protocolo de Palermo. As principais características da definição são o uso da força ou coerção, ou aproveitando a vulnerabilidade de alguém, para explorar (ou seja, lucrar com) sua prostituição — independentemente da pessoa ser levada de um lugar para outro. Se a pessoa concordou também é irrelevante, assim como acontece com a escravidão e a tortura.

nordic model now - lei de escravidão moderna.png

A legislação relativa ao tráfico sexual na Inglaterra e no País de Gales está na Lei da Escravidão Moderna. Infelizmente, não usa a definição do Protocolo de Palermo. Porque, se o fizesse, seria claro que o tráfico sexual é essencialmente o mesmo que a grande maioria do proxenetismo. E porque a maioria das mulheres e meninas na prostituição é cafetinada, isso significa que a maioria da prostituição realmente atende a definição internacional de tráfico sexual.

nordic model now - catharine mackinnon.png

Ou, como disse a professora de direito, Catharine MacKinnon , “o tráfico sexual é, simplesmente, proxenetismo”. Ela diz que, embora ninguém defenda o tráfico sexual, as pessoas tentam redefini-lo para cobrir o menor número possível de casos, de modo que nada mude, e, como sociedade, não tenhamos que olhar para o papel central da prostituição nele.

O tráfico de seres humanos não é apenas uma violação grotesca dos direitos humanos, é um crime lucrativo. É o terceiro crime mais lucrativo do mundo após o tráfico ilícito de drogas e armas.

nordic model now - principais rotas internacionais de tráfico sexual.png

Este mapa mostra como os traficantes movem mulheres e meninas ao redor do mundo para encontrar os apetites insaciáveis ​​dos homens pela prostituição. Pensando na economia global, podemos ver que os países de origem são os mais pobres e os países de destino são os mais ricos.

nordic model now - racismo na prostituição.png

O racismo é uma característica central da prostituição, com mulheres negras e asiáticas submetidas a algumas das piores brutalidades. Aqui está um anúncio de um bordel de Hong Kong que classifica as mulheres por origem étnica — de modo que a raça está sendo usada como um ponto de venda importante das mulheres, que estão sendo tratadas como um produto ou mercadoria.

nordic model now - ann olivarius

Não é possível separar a prostituição da pornografia — não só porque a pornografia é a própria prostituição filmada e muitas as atrizes foram coagidas a isso e conhecerem a definição de serem traficadas.

Mas também por causa do uso da pornografia na preparação de meninas e mulheres jovens para aceitar prostituição e atos que de outra forma não tolerariam. Na verdade, você poderia dizer que a disponibilidade generalizada de pornografia online prepara todos os nossos jovens para aceitar a prostituição e a objetificação de mulheres e meninas.

Ann Olivarius, uma advogada experiente em casos relacionados à indústria do sexo, diz que algumas das pessoas mais traumatizadas que conheceu são mulheres prostituídas cujos clientes quiserem reencenar as coisas que viram em filmes pornográficos.

nordic model now - realidade da prostituição

Em seguida, vamos analisar a realidade da prostituição, principalmente usando arte gráfica. Você pode achar isso angustiante, mas precisamos enfrentar a realidade, se quisermos entender o que é uma solução apropriada.

nordic model now - esperando.png

A prostituição é, profundamente, baseada em gênero. Aqui está uma foto de mulheres à espera de clientes num bordel de Nevada.

O fluxo de clientes é imprevisível e as mulheres devem manter um estado de prontidão perpétua e competir umas com as outras pela atenção dos homens.

E aqui vemos as mulheres em um bordel parisiense do final do século XIX, alinhadas com suas roupas íntimas para um cliente. Observe que ele está totalmente coberto e ele está as dimensionando como se fossem mercadorias. Observe as expressões nos rostos das mulheres. Compare suas expressões com o cliente.

nordic model now - o que ele compra

Então, o que ele compra?

Ele compra o uso de seu corpo, incluindo sua vagina, ânus, boca e seios. Este é o núcleo da prostituição. Este não é um serviço; ao invés, ele está alugando o uso de seu corpo.

Esta arte autobiográfica, do blog “Brothel Girl” Tumblr, capta brilhantemente a realidade da prostituição. Ao passar, observe a expressão nos rosto dela.

brothergirl - 2

http://brothelgirl.tumblr.com/

Enquanto ele está usando ela, ela tem que fingir que ela está gostando ou ela tem que representar sua fantasia e ela tem que fingir que acha ele ótimo. Não importa o que ela realmente esteja pensando ou sentindo, ela tem que manter esse fingimento.

Isso faz parte do acordo. Parte do que ele está comprando.

brothelgirl 3

Ele compra o “direito” de dizer o que quiser, não importa o quão insultante. Os compradores geralmente as chamam de coisas como “vadia” e “puta”. Isso faz parte do acordo também.

brothelgirl 4

Ele compra o “direito” para estar no controle.

Aqui o vemos se envolver em “reverso oral” ou cunnilingus. Esta é uma parte bastante padrão da prostituição “interno”. Claramente, não se trata dela atingir o clímax; é sobre ele exigindo que ela tenha uma resposta sexual a ele. Talvez isso o ajude a fingir que é um acordo consensual.

brothelgirl 5

O encontro da prostituição ocorre fora das convenções sociais normais. Nas palavras de Julia O’Connell Davidson, ele pode tratá-la como se ela estivesse socialmente morta; como se ela não fosse um ser humano. Ou nas palavras de uma sobrevivente, “como um banheiro público”.

E se pensarmos sobre as expressões das mulheres quando elas estão em uma fila para serem selecionadas, espera-se que ela pareça disposta. E o cliente interpreta isso como uma escolha livre para se envolver no encontro.

nordic model now - tratar pessoas

O que significa para a sociedade se pudermos tratar algumas pessoas como se elas não fossem seres humanos?

nordic model now - o que significa pra ela

E o que significa para ela?

Pense sobre sua própria resposta para um estranho tateando seus seios ou os tocando ou agredindo sua sexualidade. Obviamente, as respostas variam, mas geralmente incluem emoções como alarme, desgosto, medo, raiva, violação.

No entanto, tais atos são a essência da prostituição.

nordic model now - consequências 1

Então, para existir na prostituição, você deve suprimir suas respostas involuntárias e até fingir que está gostando. Isso requer dissociar de seus sentimentos, de seu verdadeiro eu. Isso pode causar dificuldades psicológicas a longo prazo. E muitas mulheres se voltam para drogas ou álcool apenas para suportar isso.

Embora algumas mulheres entrem em prostituição para financiar um hábito de droga, é mais comum recorrer a drogas ou álcool uma vez que você está na prostituição — porque é a única maneira de suportar isso.

nordic model now - citação estupro

Aqui está uma citação de uma sobrevivente da prostituição que ilustra isso: “Eu entorpeci meus sentimentos… Na verdade, eu deixava meu corpo e iria para outro lugar com meus pensamentos e sentimentos até que ele fosse embora e acabou. Não sei como explicar, exceto que parecia um estupro. Foi um estupro para mim”.

nordic model now - alice glass.png

Alice Glass diz que todas as mulheres prostituídas que conheceu durante seus dez anos de prostituição “levaram consigo os mesmos feixes de neurose, vícios e melancolia. Sem exceção”.

nordic model now - consequências 2.png

O PTSD (transtorno de estresse pós traumático) é um transtorno de ansiedade que se desenvolve em resposta a experiências traumáticas ou que ameaçam a vida, como guerra, violência sexual ou acidentes. Os sintomas podem ser fisicamente e emocionalmente paralisantes e às vezes são atrasados ​​por meses ou mesmo anos. E eles geralmente são piores quando o trauma é deliberadamente infligido por um ser humano ou repetido ao longo do tempo.

Em um estudo, 68% das mulheres em prostituição preencheram os critérios de PTSD. Esta é uma prevalência semelhante ao observado nos veteranos de combate.

nordic model now - consequências 3

Um estudo alemão com base em exames médicos de 1.000 mulheres na prostituição encontrou que:

  • A maioria sofre de dor abdominal inferior crônica causada por inflamação e trauma mecânico.
  • A maioria mostra sinais de envelhecimento prematuro, um sintoma de estresse persistente.
  • A maioria teve lesões causadas pelo uso excessivo de seus órgãos e orifícios sexuais sensíveis.
  • A maioria teve lesões deliberadamente infligidas por clientes.

Essas coisas tornam as mulheres mais vulneráveis ​​a infecções. Os preservativos não as protegem de nada disso. Pressões financeiras ou outras significavam que a maioria das mulheres tinham que continuar na prostituição, mesmo que estivesse sofrendo dores físicas severas.

Então, vejamos essa categoria de “ferimentos deliberadamente infligidos por compradores sexuais”.

nordic model now - violência

Neste estudo, as mulheres relataram sofrer uma quantidade impressionante de violência física por parte dos compradores sexuais. Quase dois terços tinham sido ameaçadas com uma arma, quase três quartos tinham sido agredidas fisicamente e mais da metade havia sido estuprada (o que, nesse contexto, significa sexo indesejável para o qual não foram pagos). Das que foram estupradas, quase 60% foram estupradas seis ou mais vezes.

Outros estudos encontraram resultados semelhantes e o testemunho de sobreviventes conta a mesma história.

nordic model now - brenda myers powell.png

Brenda Myers-Powell, que estava na prostituição há 25 anos, foi baleada cinco vezes, esfaqueada mais de 13 vezes, foi espancada até ficar inconsciente várias vezes, teve o braço e o nariz quebrados e dois dentes arrancados aos socos.

As mulheres prostituídas também têm maior probabilidade de serem assassinadas. Principalmente por clientes e proxenetas.

nordic model now - assassinatos na união europeia.jpg

Esta figura mostra os números (em abril de 2016) dos assassinatos registrados conhecidos de mulheres prostituídas em diferentes períodos de tempo em quatro países da UE, três dos quais (Alemanha, Espanha e Holanda) têm alguma forma de prostituição legalizada e um, a Suécia, que tem o modelo nórdico.

Embora o modelo nórdico não faça a prostituição segura — porque nada pode fazê-la segura — reduz a quantidade que ocorre e, portanto, o número de novas mulheres que estão sendo atraídas para dentro dela; e fornece rotas genuínas para aquelas já envolvidas. Se analisarmos as estatísticas de assassinato nesses diferentes países, podemos ver fortes evidências de que essa abordagem funciona.

Mas muitos assassinatos de mulheres prostituídas não são relatados.

nordic model now - rebecca mott

Rebecca Mott, uma sobrevivente da prostituição “interna” e ativista do modelo nórdico, diz:

“É normal que os corpos de mulheres e meninas prostituídas sejam feitos a desaparecer pelos beneficiários do comércio sexual. Eles saem impunes, porque eles assumem que ninguém se preocupa sobre sua segurança. Os prostíbulos são feitos para serem isolados e seus desaparecimentos muitas vezes não são relatados”.

nordic model now - mortalidade de prostituidas

Mas não é apenas um assassinato. As mulheres na prostituição têm uma taxa de mortalidade muito alta. Um estudo no Canadá estimou que a chance era 40 vezes maior do que as mulheres na população em geral. As mulheres em prostituição “interna” em particular têm uma taxa de suicídio muito alta. Em um estudo, 75% das mulheres em prostituição “de acompanhamento” tentaram suicídio.

nordic model now - outras formas de sobrevivencia.png

Isso não deve nos surpreender, porque um estudo depois mostrou que a maioria das mulheres diz que quer abandonar a prostituição, mas não tem outras opções de sobrevivência. Nesse estudo, 89% das mulheres entrevistadas disseram isso.

nordic model now - fatores que dificultam

Na maioria das vezes, as mulheres continuam por causa da ausência de alternativas viáveis. Vejamos por que é tão difícil sair. Fatores comuns incluem: não ter treinamento ou qualificações, ser dependente de drogas ou álcool, estar sendo coagida por um “namorado” ou proxeneta, estar com dívidas e ter antecedentes criminais.

O trabalho de muitas mulheres não qualificadas requer uma verificação de antecedentes criminais. Um registro criminal, portanto, descarta muito trabalho potencial. Esta é uma das razões pelas quais não estamos apenas fazendo campanha para a descriminalização da prostituição, mas também pela remoção de seus antecedentes criminais para solicitação e para serviços de alta qualidade que fornecem uma rota genuína. E o fim da desigualdade estrutural que deixa muitas mulheres em extrema pobreza.

nordic model now - consequências de ter estado na prostituição

E quando as mulheres conseguem sair, os efeitos continuam. Angel, uma sobrevivente da prostituição, diz:

“Eu ainda estou lidando com as consequências de ter estado na prostituição. Eu tenho pesadelos, flashbacks e tenho gatilho por várias coisas. Eu acho difícil confiar nas pessoas, particularmente nos homens, e ainda luto massivamente em torno do sexo. Eu ainda me dissocio e sinto que me separei de mim mesma. Eu ainda me defino por essas experiências e me destrói quando programas como, Diary of a call girl estão na TV. Isso me faz sentir sozinha e completamente miserável pelo barulho do todo poderoso lobby da indústria do sexo”.

Então só temos isso. Para as mulheres envolvidas, a prostituição traz um risco muito elevado de problemas graves de saúde a longo prazo, psicológicos e físicos, desespero suicida, ser espancada, estuprada e até mesmo assassinada. Nenhuma outra ocupação traz riscos tão elevados.

nordic model now - responsabilidade.png

É hora dos perpetradores — os proxenetas e os clientes — serem responsabilizados por esse caos que eles causam.

Então, quem são os clientes?

nordic model now - compradores sexuais 2

Eles são homens de todas as idades, raças, religiões e origens. Eles são ricos e são pobres. Ninguém sabe exatamente quantos homens fazem isso. As estimativas variam de cerca de 10% para cerca de 80% da população masculina adulta.

Para dar um exemplo de suas atitudes, analisaremos algumas citações dos fóruns de clientes onde eles podem inserir suas impressões das mulheres que compram.

nordic model now - quote comprador.png

“Ela era apenas um pedaço de carne… Eu pensei já que eu paguei, então é bom que eu a foda com força! Eu decidi colocar as pernas em meus ombros e eu bombeá-la com força!”

Observe como ele se refere a pernas como se elas não estivem conectadas a um corpo.

nordic model now - comprador sexual.png

Aqui está mais um:

“Quando eu perguntei sobre anal, fui informado que não estava disponível no primeiro encontro! Bem, eu não vou começar um relacionamento com você, querida. Eu só quero te fuder na bunda!”

nordic model now - comprador sexual x não-comprador sexual.png

Estudos sobre compradores sexuais descobriram que eles gostam da falta de envolvimento emocional e veem as mulheres como mercadorias. Um cliente disse:

“A prostituição trata as mulheres como objetos e não seres humanos”.

Os clientes muitas vezes expressavam agressão em relação às mulheres e eram quase oito vezes mais prováveis ​​do que os não-clientes de dizer que iriam estuprar se pudessem não serem presos por isso. Perguntado por que ele comprou sexo, um homem disse que gostava de “bater em mulheres”.

Os clientes cometem mais crimes de todos os tipos do que os não-clientes e cometem todo tipo de violência contra as mulheres.

Vamos pensar nisso por um minuto. Nós vimos anteriormente que a prostituição envolve sexo com uma mulher que na verdade não a quer. Não é essa a essência do estupro? Pagar realmente muda isso?… É realmente surpreendente que a compra da prostituição torna homens mais propensos a estuprar?

nordic model now - estudo da onu.png

Os resultados dos estudos de clientes são confirmados por estudos que começam por olhar homens violentos. Por exemplo, aqui está um gráfico que mostra o significado relativo de diferentes fatores na vida dos estupradores. Quanto maior o círculo, mais importante é o fator.

Não surpreendentemente, o “sexo transacional”, ou seja, a compra de prostituição (que é destacada em amarelo) é o segundo maior fator e anula coisas como homens que foram vítimas de abuso infantil.

Os resultados para homens violentos para seus/suas parceiros/as foram semelhantes.

Como podemos ver, isso mostra uma correlação muito alta entre comprar sexo e estuprar as mulheres — então, isso sugere que a própria compra de prostituição torna os homens mais violentos.

Geralmente, há poucas consequências para os compradores sexuais. Mas, ocasionalmente, os homens no olho público estão expostos. Aqui estão alguns deles. Eles incluem políticos, financiadores, celebridades e esportistas. Estes são os tipos de homens que têm poder, que controlam nossa cultura e leis. Então, talvez não seja surpreendente que a prostituição seja normalizada, trivializada e glamourizada em todos os lugares.

Mito: compradores sexuais respeitam as mulheres que compram

Escrito por Nordic Model Now!

Traduzido por Carol Correia, a fim de desmitificar a prostituição.


“Eu não sei ao certo por que essa ênfase está sendo colocada no ‘respeito’. Quando eu visito uma ‘dama’, respeito é a última coisa em minha mente.” Um comprador sexual.

“Como qualquer homem casado pode permitir que sua esposa trabalhe nessa indústria é algo que eu nunca vou entender… um homem que permite que sua esposa alugue o corpo dela para todo Tom, Dick e Abdul obviamente não tem respeito por ela.”

Uma breve introdução

Punternet.com é um site britânico onde compradores sexuais postam reviews sobre “acompanhantes”[1]; o site também hospeda um fórum de discussão. A palavra “acompanhante” neste contexto refere-se a uma mulher que (de acordo com a Punternet) escolheu livremente o emprego e trabalha como freelancer, não-forçada, em ambientes fechados (casa, bordel, sala de massagens, hotel). Esse é o tipo de prostituição que a maioria das pessoas acha benigna e que os clientes e o Coletivo de Prostitutas Inglês defendem apaixonadamente. Entrei no site em 2009[2], eu li resenhas e escutei as discussões.

Os comentários abaixo foram postados por compradores sexuais. Eles expõem como mentira as alegações que os clientes respeitam as mulheres que compram. Se uma acompanhante não satisfaz o ideal dos compradores sexuais (jovem, magra, obediente e ardente), ela é insultada e chamada de “puta” ou “cadela” e chamada de “coisa” ou similares. Os clientes alegam nunca explorar aquelas que parecem não querer, forçadas ou drogadas, e ainda assim as citações provam que isso não é verdade e revelam que os clientes não se importam com o conforto, bem-estar ou saúde da acompanhante.

Desrespeito relacionado à sua idade e tamanho

As acompanhantes mais desejáveis são as mais jovens da idade permitida por lei, dezoito anos, e com os corpos mais pequenos. Quanto mais uma acompanhante se desvia disso, mais ela é desprezada. Mesmo clientes em seus sessenta anos consideravam uma acompanhante vinte anos mais nova como “velha demais” e merecedora de insultos.

“Eu viajei para ver Sinead. Quem não viajaria para isso? Tamanho 36, 18 anos!!!”

“O corpo dela não é tão firme e estreito como deveria ser para alguém com 22 anos, sem chance, mais para 32 anos”

“Esta moça chegou a sua data de validade” [escrito por ‘Vovôzinho’]

“Acima [do tamanho 42] e eu sentiria que eu estava lutando com uma lutadora de sumô”

“Não a gordas… sentiria como se estivesse me traindo se pagasse por uma gorda”

“Descreve-se como… tamanho 44… Ela deve ser tamanho 48. Tudo o que eu queria era sair de perto dela o mais rápido possível.”

“Ela estava atrasada e dois tamanhos maior”

“Loira de 19 anos… precisa perder um pouco de flacidez ao redor do umbigo”

“Garota legal, mas muito gordinha”

“Parecia mais velha e mais gorda [tamanho 44 em minha opinião comparado ao tamanho 8 da propaganda]. Foi uma simples fraude e, logo, eu nunca mais verei Somaya novamente”

“Essas falsas se safam com isso porque a indústria não é regulada. Não é como ir a uma loja, onde o consumidor tem direitos”

“Se você gosta de transar uma velha enrugada e esquelética, então a visite”

‘Eu tenho 20 e poucos anos e imaginei experimentar uma senhora mais velha… ela estava com 50 e poucos anos, mas eu estava determinado a comer uma buceta mais velha… Quando eu como alguém, eu como MESMO! e dentro de um minuto ela estava me pedindo para pegar leve. Eu comecei a bombear ela novamente, ela me disse que eu realmente sabia como foder uma menina (ou no seu caso uma cadela velha). Não queria envergonhar a puta velha gozando em seus seios ou em seu rosto.

“Ela aparentava estar mais próxima dos 60 que 50 anos, mas eu aproveitei o máximo dela e a chamei de puta chupadora de pinto. Eu disse fique de costas e tome um pau de verdade sua vadia, eu perguntei se eu podia xingar ela antes, pois essa seria a única forma de que eu pudesse manter a ereção com esse tipo de mulher”

Ignorando a aversão óbvia dela

Os proprietários e usuários do site declaram que apoiam, revisam, patrocinam e aprovam apenas as acompanhantes que estão trabalhando na prostituição por vontade própria. No entanto, quando o comportamento de uma acompanhante mostra aversão, até mesmo repugnância, a única preocupação dos clientes é que eles não estão recebendo o que pagaram.

“Ela realmente odeia seu trabalho e está descontando nos homens. Por que se tornar uma profissional se você não puder realizar seus deveres?”

“Ela era distante, desinteressada e bastante fria, não tinha bom desempenho e não se importava nem um pouco com o cliente pagante.”

“Pouco foi oferecido em termos de serviço, entusiasmo, capacidade de resposta ou conversa. Se ela tivesse trabalhado em outro lugar, provavelmente teria sido demitida.”

“Eu poderia ter literalmente transado com o travesseiro e conseguido mais resposta… Eu estou pagando por isso e espero um serviço decente… Eu só posso supor que ela odeia o que ela faz.”

“Uma puta russa… sua mente estava em outro lugar desde o começo. Parecia entediada, sem interesse algum.”

“Eu pensei que ela estava dormindo. Nenhum barulho, olhos fechados… Então meti um pouco mais forte e mais rápido e tudo acabou.”

“Ela obviamente não gosta de fazer isso e nem faz um esforço para fingir que gosta.”

“Ela estava muito desinteressada e claramente não gosta do trabalho dela, ela até me disse, o que não me encheu de confiança.”

“Ela deixou claro que só estava fazendo esse trabalho por necessidade financeira absoluta e não gosta disso”.

“Parecia muito desligada e desinteressada … Um desempenho bem robótico. Era como ser tratado como um carro velho sujo passando pela lavagem do carro. A menos que ela comece a se divertir um pouco mais, não importa o quão jovem ela seja, eu não voltarei.”

“Sua doçura, simpatia e feminilidade diminuem gradualmente para revelar uma personalidade mais fria e desagradável. Talvez elas comecem a desprezar secretamente os homens e começar a vê-los como objetos que entregam dinheiro.”

“[Foi] o tipo de experiência que você tem com sua namorada quando ela não quer uma transa, mas você a incomoda o suficiente para transar.”

“Ela era como um pedaço de carne… então eu achei melhor colocar meu pau na boca dela e ao invés de me dar um boquete ela começou a me masturbar… eu não paguei por uma punheta! Eu coloquei o preservativo e comecei a transar com ela! Eu pensei que já que paguei, então é melhor eu foder com força! Eu decidi colocar as pernas nos meus ombros e estava metendo com força!”

“Estou farto de pagar por sexo, recebendo nada mais do que tratamento robótico e recebendo um sorrido quando saio do lugar.”

“O evento principal foi como transar com um peixe morto (Nenhuma reação dela em tudo).”

“Ela não estava nem um pouco interessada… fria e monossilábica… tão animada quanto um cadáver.”

“A garota [coreana] obviamente não queria se apresentar… Talvez tenha a minha idade (mais de 50 anos) e ela estivesse esperando alguém mais jovem – mas afinal, não é por isso que vamos, imaginar que somos jovens e sexy novamente? Eu posso apreciar o desinteresse físico, mas suas habilidades sociais estavam faltando. Ela não demonstrou desgosto – isso é compreensível… apenas falta de qualquer coisa. Talvez fosse o jeito dela de se cortar [da vida].”

“Eu senti como se estivesse metendo um androide na sua maior parte.”

“Ela estava tão sem vida, silenciosa e sem entusiasmo! Estava imóvel e silenciosa por toda parte, estava feliz por eu gozar para que isso acabasse!”

“Ela me permitiu gozar em seu corpo, mas isso ela claramente odiava e correu para o banheiro para limpar e tomar um banho.”

“Bastante relutante, tenho a sensação de que ela queria se safar fazendo o mínimo possível.”

“Menina do Leste Europeu sem uma palavra de inglês. Sem espírito, atitude forçada e um completo desinteresse desde o começo.”

“Quando pedi um pouco de participação de sua parte, ela disse: ‘Minhas pernas estão abertas, não é o suficiente?'”

“Senti como se ela estivesse passando por algo… precisa aprender um pouco de dedicação ao seu trabalho.”

“O comportamento dela e o serviço eram muito ruins… me deu um boquete completamente desinteressado. De vez em quando ela aparecia para respirar e movia a mandíbula de um lado para o outro, esfregando o rosto e franzindo as sobrancelhas… Eu perguntei se ela lambia as bolas… pelo que ela reagiu como se fingisse estar doente e disse ‘Não’. A essa altura, seu desejo óbvio de terminar o encontro me irritou totalmente… Ela… começou a me contar uma história pessoal extremamente triste… Ela parecia que ia chorar, mas seguiu em frente… Eu me sentia uma merda, como se estivesse abusando da pobre garota. Eu gozei, momentaneamente, ela deixou alguma emoção passar por seu rosto e depois voltou a uma carranca. Eu me vesti e saí, completamente chateado e me sentindo enganado, um bastardo e o mais baixo dos baixos. Garotas assim não deveriam estar trabalhando. É precisamente por isso que a indústria precisa de regulamentação e é necessário introduzir algum tipo de proteção ao cliente… Eu também estou completamente aborrecido. Eu precisava me animar porque a minha vida deu um grande descida, mas os Céus só conseguiu me fazer sentir pior.”

“Nenhum contato visual… gemido falso, nenhum entusiasmo real. Ela realmente precisa desenvolver sua rotina/atitude.”

“Ela não fez nada, nem sequer me tocou… Essa foi uma performance preguiçosa e sem inspiração… ela só está interessada em receber o dinheiro”.

“Ela estava completamente desinteressada e não fez nenhum esforço, um desempenho absolutamente sem brilho… e ela não podia esperar para sair do quarto.”

“Completamente descomunicativa… empurrou um monte de lubrificante na sua bunda… ficou claro que isso só poderia ser uma punheta no corpo da garota.”

“O comportamento dela estava quase catatônico. Sua expressão facial nunca variou. Ela parecia uma colisão entre o tédio e a indiferença. Ela subiu a bordo e começou a se mexer. Expressão facial inalterada e olhos mortos.”

“Ela… me deixou fazer sexo apenas comigo por cima, ela fechou os olhos e foi quase como se ela tivesse adormecido.”

“Completamente desinteressada. Olhos bem abertos e parecendo entediados… Eventualmente pensei, melhor fodê-la e ir embora.”

“Durante o sexo, fiquei realmente impressionada com o silêncio dela, quero dizer, ela realmente estava em outro lugar.”

“Esta garota é uma garota absolutamente frígida… Ela só disse foda-me e vá.”

“Por que essas moças não podem ter um pouco de valor? Fuder era mecânico e sem paixão da parte dela. Tive um vislumbre dessas europeias orientais que querem ganhos ilícitos, mas só dão um espetáculo de 3ª categoria.”

“Eu apenas meti e ejaculei dentro dela, ela podia muito bem ter feito suas unhas.”

“Ela agiu como se não quisesse estar lá. Ela era chata, desinteressada e um desperdício de dinheiro.”

“Ela parecia completamente desinteressada e só abriu as pernas – uma boneca inflável seria melhor e mais barata”.

“Eu fiquei por cima, ela estava evitando contato visual e estava deitada imóvel enquanto eu a fudia [e penso] sobre algo melhor do que a coisa na cama.”

“Fria, clínica, hostil e a ser evitada. Espero que eles a mandem de volta para a Romênia.”

“Tinha a sensação de que ela realmente queria estar em outro lugar… para ser honesto, isso reduziu meu tesão um pouco.”

“Ela chegou parecendo chateada… a falta de entusiasmo mal foi escondida. Ela subiu em cima e eu tenho que dizer que acho que ela deliberadamente tentou me machucar. Ela se apoiou no meu peito com tanta força que tive que admitir e pedir para mudar de posição. Agora, eu sou um cara bem musculoso e ela é muito pequena, então exercer tanta pressão a ponto de machucar deve ser deliberada, se não subconsciente… “

“Morgan simplesmente não queria estar lá. Talvez seja a crise de crédito que a forçou a se vender para pagar a hipoteca.”

“Toda tentativa de intimidade foi bloqueada com uma virada de cabeça.”

“Sentou-se na cama o mais longe possível de mim, sem fazer nenhum movimento para se envolver comigo… Foda negligente. Gozei. Fui embora.”

“Menina do Leste Europeu sem saber uma palavra de inglês. Sem espírito, atitude forçada e completo desinteresse desde o começo.”

“Eu meti em sua buceta enquanto ela tentava dormir um pouco.”

“O inglês dela é muito limitado e ela deixou bem claro através de sua linguagem corporal que ela preferiria estar fazendo outra coisa.”

“Ela parecia boa o suficiente, mas foi prejudicada pela indústria e parece estar passando por uma rotina de robô, sem qualquer apego ao seu cliente.”

“Eu realmente não acho que ela gosta desse trabalho… faz você se sentir um pervertido transando com um cadáver que não para de desviar o olhar.”

“Eu senti como se estivesse movendo um saco de batatas ao redor da cama… foi como enfiar meu pau em um cadáver.”

“Deixou-me fodê-la, mas ela apenas ficou imóvel, eu tirei o preservativo antes de gozar e me masturbei até ejacular no rosto dela.”

“Nenhum contato visual, rígida como uma placa. Queria ter comprado uma boneca de borracha na loja de adultos e provavelmente teria me divertido mais com isso.”

“Sua expressão facial estava completamente envidraçada e desinteressada… ela simplesmente ficou deitada lá”.

“Ela foi fria e distante… [ela] colocou um pouco de lubrificante na buceta dela e abriu as pernas, ela parecia com alguém esperando por algo terrível, eu queria ir embora, mas… só para ter o valor de meu dinheiro, eu passei a fazer sexo, parecia terrível, ela fechou os olhos e pareceu como se estivesse morta.”

“Ela se deitou na cama como um saco imóvel de batatas… Eu estava fazendo o melhor que pude para conseguir o valor do meu dinheiro. Liguei para a agência assim que saí de casa e disse a eles que a atitude dela era horrível.”

“[Garota de Cingapura pequenina] acabou sendo a garota mais indiferente com quem eu já transei. Ela não recuou tanto do meu toque, como congelou, paralisada no local, então eu apenas deixei ela ficar de barriga pra cima para eu ter…. o sexo pelo qual eu paguei… Eu pensei que cachorrinho seria o caminho a percorrer, o bônus adicional sendo que eu não tive que olhar para a expressão mal-humorada dela dessa maneira.”

“Ela realmente odeia esse trabalho e está feliz em lhe contar isso.”

Um cliente avaliou a atitude das muitas acompanhantes que ele havia usado. 80% foram incapazes de esconder sua antipatia.

Ativamente não gostam 5%
Passivamente não gostam ou “eu consigo suportar isso” 10%
Desinteresse em como o cliente está se excitando 45%
Desinteresse, mas com alguma curiosidade no estado do cliente 20%
Atenção em fazer coisas que aumentem o prazer do cliente 15%
Melhor que isso: atenção positiva e ativa 5%

 

Não se importando que ela estivesse drogada

“Pequena, anoréxica, loira drogada… sem peitos e uma morena magra, alta e drogada… ambas hediondas.” [Ele ainda a usou.]

“Quando ela expôs seus braços, a evidência de um hábito de drogas HORRÍVEL era aparente com as marcas em seus braços impossíveis de disfarçar.” [Ele ainda a usou.]

“Minha primeira impressão quando a vi foi ir embora, mas por 10 libras eu pensei em dar uma chance… Ela tinha os olhos fechados, eu poderia dizer que ela estava drogada, definitivamente derrotada… isso me deixou muito bravo.” [Ele ainda a usou.]

“Julgando pelo seu corpo ela está, obviamente, drogada.” [Ele ainda a usou.]

“Seja cuidadoso com essa garota, nem tudo é o que parece, acho que ela é quimicamente assistida” [Ele ainda a usou.]

“Esta COISA é um perigo para a saúde real. Ela estava meio adormecida definitivamente sob o efeito de drogas, vi um cachimbo em sua mesa e ela fedia e parecia suja.” [Ele ainda a usou.]

“Ela tinha cerca de 26 anos, (talvez apenas 19 anos, mas a vida dura envelheceu prematuramente?) e, uma vez que suas roupas estavam fora, as coisas pioraram. Tetas flácidas devido a uma criança, dolorosamente magra com hematomas.” [Ele ainda a usou.]

“Ela realmente não estava afim e claramente não queria estar lá… Sexo era apenas uma transa comum em que Amanda simplesmente não participava.”

Desrespeitando seus desejos, limites e autonomia

“Ser informada sobre o que eu faria pelo meu dinheiro, meio que fez sentir que eu seja um pouco trouxa”.

“Eu escolhi Roxy porque ela faz anal, mas sem chance! Que tal um beijo, então? Ela virou a cabeça constantemente.”

“Sem oral e sem anal. O comentário anterior dizia que ela nunca diz ‘não’, mas descobri que havia muitas vozes perturbadoras de ‘não’ enquanto eu tentava assumir a liderança.”

“O site descreve Alexis como ‘uma senhora muito simpática, com personalidade aberta e que pratica basicamente todos os serviços’. Errr, não! Tudo o que ela disse foi: ‘Não, eu não faço isso ou eu não gosto disso!’”

“[Húngara de 18 anos] aparece… parecendo infeliz… Poderia muito bem ter comprado um manequim, pelo menos o manequim não recusaria 99% do tempo. Sem gozo na boca, sem beijos. Não sorriria ou responderia de qualquer maneira, além do constante bocejo. Completo e total roubo.”

“Ela consistentemente apresentou uma desculpa após a outra, misturada com recusas contundentes para fazer qualquer coisa corretamente ou como pedi a ela. Ela se recusou a ir para onde eu pedi, ela recusou qualquer posição que eu pedisse.”

“Eu pedi a ela para ir para o topo que ela estava relutante em fazer e se recusou a fazer qualquer trabalho e eu fiquei flácido, então no final eu tive que manipular o corpo dela que depois de um tempo era como foder uma garota inconsciente, o que era um pouco desconcertante. Enquanto, eu me vestia, ela gemia de como não gostava de ficar no topo.”

“Tudo o que ela fez foi gemer, gemer e gemer de dor. Não toque nisso, não faça isso, não coloque nenhum peso em mim.”

“Totalmente desinteressante mastigando chiclete… [Ela] mudou-se para uma posição em que ela não podia me tocar nem eu podia tocá-la… Lixo maldito, com os olhos fechados, seguido por uma porra de sua buceta cheia de lubrificante desleixada. Total desperdício de tempo e dinheiro. Há um aviso na porta do quarto – ‘não há reembolso’ – presumivelmente por causa de todos os clientes que se queixaram do serviço de merda. Há um guarda também, presumivelmente pelo mesmo motivo.”

“Quando pedi [oral sem camisinha], ela se ofendeu, dizendo que eu deveria mostrar respeito (eu estava pagando por um serviço!)”

“Quando perguntei sobre anal, disseram-me que não estava disponível no primeiro encontro! Bem, eu não estou começando um relacionamento com você, querida. Eu só quero te foder na bunda!”

“Blaise foi uma grande decepção… bastante dominante e dizendo: ‘Faça isso, não faça isso’ e isso foi um pouco chato.”

“Ela tem uma ideia exata do serviço que presta – ela lhe diz exatamente o que fazer e onde ficar de pé ou sentada (não em uma espécie de dominadora, apenas no caminho de uma velha perniciosa) e não vai deixar você fazer o que você quer. Ela está alheia ao fato do que você está pagando para fazer (dentro da razão e dos limites acordados, é claro) o que você quer, não o que ela quer que você faça.”

“Não poderia levantar as pernas para mais entrada. O que eu tive que aceitar, o que não foi muito agradável.”

“Bailey não me deixou penetrar completamente e deixou a mão dela no meio (insistindo que o preservativo pode rasgar). Isto foi realmente acabou com meu tesão.”

“Ela começou meio bloqueando sua buceta com os dedos e dificultando muito a penetração.”

“Ela insistiu em uma posição desconfortável com uma perna para cima e outra para baixo – obviamente destinada a limitar a penetração – e limitou qualquer prazer também.”

“Típico, como muitas garotas asiáticas britânicas, a menos que elas sintam que estão no controle e no poder e ditando as ordens que eles não querem saber. Evite como a peste.”

“Tetas fantásticas, mas disse que eu não podia tocá-las, pois ela estava esperando a menstruação dela em breve e elas estavam sensíveis (eu já estava começando a me sentir enganado).”

“Eu fui ver Kim [tendo ouvido que] ela era um squirter[3]. No entanto… o squirting não ocorreu, Kim disse que ela tem que “estar no clima”… não vale a pena pagar por meia hora.”

 

A “experiência de namorada” [the girlfriend experience]

Alguns compradores sexuais querem uma “experiência de namorada” (GFE). A acompanhante age como se ela fosse a namorada do comprador, o que significa fazer qualquer coisa sem reclamar e fingir que gosta disso.

“Havia muitos ‘não faça isto ou aquilo’ para que este seja uma ‘experiência de namorada’ agradável.”

“Muitas prostitutas simplesmente não são capazes de apresentar uma ‘experiência de namorada’ convincente, o que dificilmente surpreende quando muitos delas odeiam tudo sobre o trabalho”.

“Comum pra caralho, prostituta húngara mastigando chiclete… Transpareceu que ela tinha sido fudida toda a tarde e aqui estava eu… esperando algum tipo de experiência de namorada. Então eu fudi ela o mais forte que pude na posição cachorrinho, consegui alguns ganidos dela, mas ela estava bem acostumada com isso.”

“Eu só queria passar algum tempo de qualidade com uma moça simpática. Em vez disso, recebi uma prostituta desvergonhada.”

Desrespeitando seu desejo de não se machucar fisicamente

Apesar das alegações de que os clientes estão preocupados com o bem-estar das acompanhantes, as mulheres que demonstram dor são tratadas como um incômodo e falhando em prestar um serviço. Uma queixa frequente é que, depois de especificar que ele quer uma menina pequena, ela não pode aguentar sem sentir dor do pênis ou os dedos de um homem ocidental, nem seu peso corporal ou a penetração. Se ela tentasse se proteger da dor e da lesão, os clientes reclamavam.

“[Asiática bem pequenina] estremeceu e reclamou que meus dedos eram muito grandes… ela começou a perguntar ‘você quer colocar preservativo agora, chefe’… Depois de um tempo eu pedi anal… ‘Não, você é muito grande, chefe’. Inútil.”

“Perguntei se ela queria ficar por cima primeiro, o que ela fez com a cabeça virada para baixo no meu pescoço… Quando perguntei se ela podia se sentar, me disse que não, você é muito grande.”

“De brincadeira, dei-lhe uma pequena palmada. Ela respondeu rapidamente dizendo: ‘Não me espanque. Eu sou um tamanho 36 com quase nenhuma gordura, então dói’”.

“Ela não queria ficar em cima de mim… e, quando eu tentei ficar em cima, ela reclamou do meu tamanho, me dizendo a besteira de que eu sou muito grande.”

“Jovem puta de Portugal… reclamou que eu tinha um ‘pau grosso’ e que era um problema para ela! Eu pensei: bem, se você não lidar com isso, encontre outro emprego!”

“Sua buceta estava inchada e dolorida… Ela me disse que estava muito cansada e que a agência fazia com que ela trabalhasse o tempo todo.”

“Peitos doloridos demais para chupar… tentei transar com ela, mas novamente as pernas costumavam impedir a penetração total, tentavam empurrar com mais força, disse “não tão forte”… Se eu pagar por uma trepada eu espero trepar.”

“Sem chupar peitos e sem tocar nos seios dela por causa de seus peitos que a fizeram sentir dor.”

“Eu não poderia fazer isso, eu não poderia fazer aquilo. Havia muito pouco que eu era capaz de fazer… reclamei que ela estava dolorida.”

“[Ela disse] Acabei de terminar uma consulta de 2 horas e minha telula está realmente dolorida.”

“Continuou dizendo e gemendo de dor que eu estava machucando ela! Continuei não tão fundo em muitas posições (ela ainda gemeu de dor).”

“A pele flácida no estômago foi o suficiente para me afastar, mas a dor óbvia em que ela estava enquanto transava acabou me arrematando.”

“Ela começou a sangrar muito e cobriu minha toalha, lençóis, travesseiros, etc. com sangue. Absolutamente repugnante… ela se desculpou e disse que não esperava que isso acontecesse, já que sua menstruação não desce há tempos. Eu dei a ela o rolo de papel higiênico e ela estava usando o rolo para tentar conter o sangramento. Foi uma experiência doentia que eu prefiro esquecer.”

“Essa garota [chinesa] não falava muito inglês e parecia muito distante e desinteressada… sangue na camisinha, sangue na minha região pública… Eu não podia acreditar nisso… agora vou ter que fazer uma visita à clínica… ótimo! No geral, muito pouco tempo, o dinheiro foi desperdiçado.”

Nojo, ela está fazendo pelo dinheiro.

Apesar de que clientes fazem bem claro que eles ‘contratam’ acompanhantes apenas por sexo, mas eles ficam ofendidos se eles sentem que ela está transando apenas pelo dinheiro.

“Ela aparenta estar fazendo apenas por dinheiro”

“Garota boa o suficiente, mas ela não está na linha certa de trabalho, ela apenas está tentando fazer algum dinheiro…”

“Ela contou seu dinheiro duas vezes, isso é tudo que importa [para ela]”

“A cada metida do meu pau, ela está lá deitada pensando ‘“£5, £10, £15, £20’ … uma vez que você atingiu o que pagou… ela perde o interesse”

“Ela estava completamente desinteressada, tirando a parte de tirar meu dinheiro”

“Você consegue ver que ela não aprecia seu trabalho e apenas o faz pelo dinheiro”

“Ela foi indiferente e distante, desatenta, interessada apenas no dinheiro”

“Muitas garotas de programa amam o dinheiro, mas odeiam o trabalho e deveriam fazer outra coisa”

“Eu aposto que ela estava aqui apenas pelo dinheiro!”

“Aparentou ser completamente orientada pelo dinheiro”

“Ela é muito materialista”

“Eu perguntei a ela porque ela fazia esse trabalho. Ela respondeu: ‘O que você acha? Eu tenho um monte de dinheiro, então irei me tornar uma prostituta (?)’”

“Ela… não se moveu, os olhos dela fecharam como se ela desejasse estar em uma escola ministrando aula ou fazendo anotações em um escritório… Supostamente, um cliente deveria estar se divertindo, mas não pela atitude dela. Você deve estar no jogo errado, querida, não é adequado fazer isso apenas pelo dinheiro”.

“Típica de acompanhante ruim que está fazendo apenas pelo dinheiro”.

Abusando mulheres traficadas e obviamente forçadas

A Punternet pede que os clientes reportem à polícia caso suspeitem que uma mulher possa ser traficada ou coagida[4]. Uma pesquisa realizada no fórum em 2007 perguntou: Você reportaria à polícia se você acha que a garota foi traficada? 84% disseram que sim, mas 16% disseram que não. Dois clientes que votaram ‘não’ adicionaram:

“Eu acho que devemos nos concentrar em sermos clientes ao invés de ativistas de direitos das mulheres. Você sabia que, independentemente de encontrar ou não a chamada mulher traficada (o que quer que isso signifique), o ato de comprar sexo contribui para a exploração das mulheres, embora você pessoalmente não possa enfrentar o impacto de imediato. Vergonhoso. Eu desistiria de comprar sexo imediatamente se eu fosse uma pessoa moral.”

“É apenas uma transação comercial para mim, eu não me preocupo com a forma como a garota em Tesco tem que estar nesse trabalho, eu não poderia me importar menos e o mesmo vale para as garotas que eu vejo em salões ou nas ruas. Ou em férias, elas vendem um serviço e eu estou comprando, só isso.”

Ficou claro, a partir de alguns comentários, que os clientes tinham encontrado mulheres traficadas, prostituídas ou forçadas, mas passaram a usá-las, independentemente disso.

“[Menina húngara de 18 anos]. Meu palpite é que ela foi forçada a isso e eu duvido de sua idade… Não fico impressionada com húngaras, nenhum pouco.” [Ele ainda a usou.]

“[Uma menina tailandesa muito pequena] virou a cabeça para um lado e fechou os olhos com força. Eu perguntei se ela estava bem? Eu estava machucando ela? Ela disse que era okay continuar apenas que eu gozasse rápido! … Eu saí de dentro dela. Ela então ficou preocupada que ‘o que você não gosta de mim’, ‘você não me acha sexy’ … eu disse para não se preocupar que eu simplesmente ia embora. Mas ela parecia estar preocupada com se ia estar em apuros, eu estava então preocupado se ela tinha um cafetão ruim que descontaria nela se eu saísse cedo, então eu deixei ela tentar me fazer gozar com as mãos… Então, eu saí sem dizer muito; e nem ela.”

“Visitei… uma menina japonesa que não parecia muito boa e durante minha visita me mostrou um pedaço de papel escrito ‘eu não tenho escolha’ várias vezes. A pergunta é: ela está livre ou está presa, incapaz de fugir por criminosos que a estão usando?” [Ele ainda a usou.]

“A primeira vez que me senti mal com toda a experiência de comprar sexo. Muito no ‘lado escuro’ de comprar sexo, como às vezes é descrito nos jornais… Não recomendado, a menos que você queira fazer algumas perguntas difíceis sobre você mesmo depois.”

“A porta de entrada do apartamento foi trancada em duas voltas e o guarda [isto é, o cafetão] manteve a chave. Definitivamente, um risco de incêndio e uma empregada seria preferível…. Eu só voltaria para uma garota diferente e de preferência sem o músculo. As fechaduras das portas são perigosas (e ilegais!)”

“A última gota desta visita foi encontrar o guarda de segurança do lado de fora da porta do quarto esperando por mim quando eu saí.”


[1] Entre 1999 e 2009, os membros do Punternet publicaram mais de 90.000 avaliações de acompanhantes. Catherine Bennett escreveu que os homens do Punternet “submetem seus relatórios com o mesmo tom justo e facilmente ofendido que os inspetores amadores do Good Food Guide”. The Observer, 20 de outubro de 2005.

[2] Eu sou um homem que há muito tempo se preocupa com o abuso de mulheres na prostituição.

[3] Nota de tradução: squirter é a mulher que faz squirting.

[4] Os proprietários do site afirmam que eles são contra o tráfico ou o proxenetismo.

FATO: Tráfico humano significa comércio de seres humanos

Escrito pelo Nordic Model Now!

Traduzido por Carol Correia


“Nos meus trinta anos como jornalista, fiquei cara a cara com escândalos, corrupção, ganância e crimes de todos os tipos. Eu vi uma tragédia de proporções monumentais – o desespero da fome, os estragos da guerra. Eu testemunhei a perda de vidas e esperanças no Oriente Médio e na África – no Afeganistão, na Etiópia, na Somália e no Irã. No entanto, nunca antes fiquei tão impressionado com o desrespeito insensato à dignidade humana quanto nesses últimos dois anos, enquanto pesquisava este livro [sobre o novo comércio sexual global].”

– Victor Malarek

 

O que é tráfico humano?

“Traficar” é um verbo. De acordo com o Oxford English Dictionary, ele tem um e apenas um significado: “negociar ou trocar algo ilegal”.

“Tráfico humano” significa, portanto, negociar ou trocar seres humanos. Você só pode negociar ou trocar as coisas sobre as quais possui o poder de propriedade. Portanto, o tráfico de pessoas é sobre o poder de propriedade sobre outro ser humano, tratando-a como uma mercadoria, para ganho pessoal, seja financeiro ou material ou prazer sádico. A posse de outro ser humano é escravidão.

Como substantivo, “tráfico” tem vários significados, um dos quais é “a ação de negociar ou comercializar algo ilegal”. Esse é o significado que se aplica quando dizemos, por exemplo, “o tráfico de seres humanos”.

Os outros significados do substantivo, tráfico – aqueles que se relacionam com transporte e veículos – são usados com mais frequência. Provavelmente é por isso que há tanta confusão sobre o significado de “tráfico de seres humanos” e porque é tão frequentemente confundido com pessoas em movimento, contrabando de pessoas (em que é feito um pagamento para transferir uma pessoa através de uma fronteira internacional ilegalmente) e migração (o que significa que uma pessoa se desloca de um país para outro por meios legais ou ilegais).

Sob o direito internacional, o tráfico de pessoas é um crime grave e uma violação grosseira dos direitos humanos e não uma questão de imigração.

Definição das Nações Unidas sobre o tráfico de seres humanos

A definição internacionalmente acordada de tráfico de pessoas está estabelecida no Artigo 3 do “Protocolo das Nações Unidas para Prevenir, Suprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, especialmente Mulheres e Crianças” (Protocolo de Palermo). Este tratado de direitos humanos da ONU foi ratificado pelo Reino Unido em 2006, o que significa que temos uma obrigação obrigatória de implementar seus termos.

O seguinte infográfico fornece um resumo da definição. Existem três elementos: atos, meios e propósito. Qualquer um dos atos listados é suficiente para se enquadrar na definição, se qualquer um dos meios for utilizado para fins de exploração.

nordic model now - elementos do tráfico humano

 Os elementos da definição internacional de tráfico de seres humanos

 

Tráfico sexual

Observe que existem quatro tipos diferentes de exploração. O primeiro tipo é a “exploração da prostituição de outras pessoas ou outras formas de exploração sexual”. Isso é claramente separado do trabalho forçado, o que implica que a prostituição não pode ser considerada uma forma de trabalho e que os danos são de natureza diferente. É este o primeiro tipo de exploração com que nos preocupamos aqui. Por conveniência e simplicidade, nos referimos ao tráfico humano para este tipo de exploração como tráfico sexual.

Vejamos o que significa “exploração da prostituição de outras pessoas ou outras formas de exploração sexual” com mais detalhes, porque percebemos também alguma confusão sobre isso.

A palavra-chave aqui é “exploração”. Aqui está a definição do Oxford English Dictionary:

A expressão “exploração da prostituição de outros” usa o segundo significado do termo: “A ação de se aproveitar e se beneficiar de recursos” – os recursos são a prostituição de outra pessoa. Em outras palavras, simplesmente lucrar com a prostituição de uma mulher é suficiente para atender à definição desse tipo de exploração.

Exemplos de tráfico sexual

Uma menina de 14 anos é amiga de um menino mais velho ou homem. Ele começa a enchê-la de presentes e atenção, então ela se apaixona por ele. Ele a encoraja a dizer a seus pais que ela ficará hospedada com um amigo e a faltar aula. Ele pode lhe dar cigarros, álcool ou drogas, esperando que ela fique viciada. Ele pode usar pornografia para facilitar o sexo explorador. Ele inicia o contato sexual. Se ela está relutante, ele a lembra que ela deve a ele os presentes que ele lhe deu. Logo ele começa a exigir que ela realize atos sexuais para outros. Se ela resistir, ele a ameaça – talvez usando violência física, talvez por ameaçar divulgar fotos tiradas dela durante atos sexuais ou dizer a escola ou aos pais que ela não está indo a escola. Ela pode ou não estar ciente de que o dinheiro muda de mãos para os atos sexuais. É improvável que ela esteja vendo algo disso.

Vamos comparar isso com a definição internacional. Ela tem menos de 18 anos e, portanto, não é necessário mostrar que ele usou qualquer um dos “meios” definidos, embora claramente o tenha feito. Ele abusou de seu poder e de sua vulnerabilidade como criança e ele coagiu e a ameaçou. Ele a recrutou para explorar sua prostituição – para se beneficiar sobre ela. Ela pode considerá-lo como seu namorado. Mas podemos ver que ele é de fato seu cafetão – e sob a definição internacional ele é um traficante de seres humanos.

Agora, suponha que ela consiga se libertar e se afastar dele. Ele vai procurar outra forma de continuar vivendo assim. Ele encontra uma jovem de 18 anos e que acabou de sair da comunidade local. Ele repete o roteiro. Mesmo que ela seja mais velha, a solidão e a falta de apoio familiar a tornam fácil de aliciar. Ele rapidamente começa um relacionamento sexual com ela e logo a coage a prostituição e vive de seus ganhos.

Ele a recrutou, abusou de seu poder e de sua vulnerabilidade e usou coerção, tudo para que pudesse se beneficiar de sua prostituição. Isso novamente se encaixa na definição internacional de tráfico sexual.

 

“O tráfico sexual é, simplesmente, proxenetismo”

nordic model now - catharine mackinnon

Um argumento comum daqueles que se opõem ao Modelo Nórdico é que seus proponentes confundem a prostituição com o tráfico. Mas, a partir desses exemplos, fica claro que a maioria do proxenetismo se encaixa na definição internacional de tráfico sexual. Como Catharine MacKinnon colocou de forma memorável, “o tráfico sexual é, simplesmente, proxenetismo”.

Quando nós consideramos que a maioria das mulheres na prostituição tem um cafetão, não é surpresa que Sigma Huda, Relatora Especial da ONU para o Tráfico de 2004–2008, tenha observado que “a prostituição praticada no mundo geralmente satisfaz os elementos do tráfico”.

É, portanto; uma preocupação das mais graves que algumas organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, façam lobby pela descriminalização do proxenetismo. Eles geralmente ofuscam isso mudando o nome de cafetões para “gerentes”, “organizadores” ou até “profissionais do sexo” e referindo à “descriminalização do trabalho sexual”. A maioria das pessoas supõe que isso significa que somente as pessoas prostituídas deveriam ser descriminalizadas, quando na verdade, significam todos os atores (pessoas prostituídas, compradores sexuais, cafetões, donos de bordeis etc.).

Tráfico sexual internacional

Houve relatórios na mídia sobre mulheres sendo leiloadas em pubs e aeroportos na chegada ao Reino Unido; sua propriedade sendo transferida de um criminoso para outro. Os criminosos que a trouxeram para esse país e a venderam ao maior lance são geralmente reconhecidos como traficantes sexuais, mas aqueles que a compram são pouco usualmente reconhecidos da mesma forma. Deveria estar claro agora que tanto o comprador quanto o vendedor em tal leilão se encaixariam na definição internacional de traficantes sexuais.

Na chegada a este país, o traficante dela (seja ele quem a trouxe para cá ou outro lugar) costuma dizer-lhe que ela lhe deve uma dívida para cobrir o passaporte, visto e transporte. Na prática, a dívida tem pouca relação com os custos reais e é invariavelmente vastamente inflacionada. Seu passaporte é confiscado e é dito a ela que precisa “trabalhar” para pagar a dívida. Ela não pode recusar clientes, atos sexuais ou sexo sem camisinha. Ela deve “trabalhar” longas horas, ter 20 ou mais compradores por dia, muitas vezes sete dias por semana. É improvável que consiga manter algum do dinheiro que ganhar. O traficante pode arbitrariamente aumentar a dívida a qualquer momento como punição por resistência. Isso é servidão por dívida, uma forma reconhecida de escravidão, proibida pelo direito internacional.

Note que ela está sendo traficada e seu traficante lucra muito com a exploração de sua prostituição. Seria incorreto descrever sua situação como tendo sido traficada para a prostituição – porque ela continua em estado de ser traficada.

Consentimento

A cláusula da definição internacional sobre consentimento é importante porque é um equívoco comum que, se a mulher soubesse que ela estava entrando na prostituição (ou concordou com sua incapacidade de ver uma alternativa), ela consentiu implicitamente e, portanto, não foi traficada. Mas se os elementos da definição de tráfico forem atendidos, não é relevante se ela consentiu. Assim como não é relevante se alguém consentiu com qualquer outra forma de abuso dos direitos humanos.

A fraude pode ser sobre as condições assim como sobre o tipo de trabalho. Ela pode ter tido conhecimento que estaria envolvida na prostituição, mas esperava viver em um bom apartamento, ganhar um bom dinheiro, ter dois dias de folga por semana e trabalhar em um bar onde pudesse escolher seus clientes. Ela não esperava ter seu passaporte confiscado e ser forçada a trabalhar sete dias por semana, mesmo quando está menstruada ou doente.

Inadequações da lei do tráfico sexual na Inglaterra e no País de Gales

A legislação sobre tráfico humano em Inglaterra e no País de Gales é definido pela Lei de Escravidão Moderna de 2015 [em inglês, Modern Slavery Act 2015]. Vergonhosamente, não utiliza a definição de tráfico humano do Protocolo de Palermo e redefine tráfico como “viagem”. Substitui a frase clara e sem ambiguidade “exploração de prostituição de outros ou outras formas de exploração sexual” com a frase vaga “exploração sexual”, que é então definida como algo que envolve um delito conforme a Seção 1(1)a da Lei de Proteção à Crianças de 1978 [em inglês, Protection of Children Act] ou Parte 1 da Lei de Delitos Sexuais de 2003 [em inglês, Sexual Offences Act 2003]. Isso é totalmente inadequado.

A Lei substitui a requintadamente simples frase “o abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade” na definição do Protocolo de Palermo com uma cláusula mais limitada que requer uma comparação direta com alguém sem a vulnerabilidade específica. Isso obscurece as desigualdades de poder estrutural e cultural dentro da sociedade que tornam tão fácil para aqueles em posições mais favoráveis dentro dessas hierarquias (por exemplo, homens adultos) tirar vantagem daqueles em posições menos favoráveis (por exemplo, jovens mulheres pobres). Isso dificulta a obtenção de condenações e para as autoridades e a mídia reconhecerem a verdadeira extensão e natureza do problema.

Enquanto aplaudimos a Parte 6 da Lei, que exige que as empresas maiores façam uma auditoria em suas cadeias de suprimentos, nós lamentamos a falta de qualquer menção de que a demanda masculina por prostituição atua como o condutor do tráfico sexual; ou do papel que enraizou a pobreza e a desigualdade tem em tornar as meninas e mulheres jovens, em particular, vulneráveis a ela; ou da nossa obrigação vinculativa sob o Protocolo de Palermo para combater essas causas subjacentes.

É particularmente repreensível que a lei seja mais fraca em relação ao tráfico sexual, uma vez que é amplamente reconhecido que é a forma mais comum de tráfico de seres humanos, particularmente na Europa e que mulheres e meninas representam cerca de 96% das vítimas. Solicitamos ao governo do Reino Unido que resolva essas deficiências com urgência.

nordic model now - tráfico sexual

Estatísticas estimadas do tráfico sexual em todo o mundo

Acreditamos que o National Referral Mechanism (NRM) – a estrutura para identificar e apoiar as vítimas do tráfico humano – também precisa urgentemente de revisão. Ele também precisa ser alinhado com nossas obrigações internacionais vinculantes e estar firmemente separado das autoridades de imigração.

Resultados de pesquisa enganosos

Dado que mesmo os legisladores de Westminster parecem não entender a definição internacional de tráfico de seres humanos, não é de surpreender que muitos pesquisadores sofram de equívocos semelhantes.

Muitos dos que defendem a descriminalização generalizada do comércio sexual (incluindo os proxenetas) no Reino Unido frequentemente citam pesquisas do professor Nicola Mai, que descobriu que apenas 6% dos “profissionais do sexo” que ele entrevistou “sentiam que eram explorados e traficados.” Esta pesquisa é usada para apoiar alegações de que o tráfico sexual é um problema insignificante no Reino Unido.

Ele parece ter tomado o que as mulheres disseram e não ter feito nenhum esforço para medir suas experiências através das lentes da definição internacional, nem mesmo ter explicado o que o tráfico realmente significa antes de perguntar se elas achavam que se aplicava a elas.

A noção de “abuso de poder ou posição de vulnerabilidade” na definição é um reconhecimento de que o tráfico pode tomar a forma de aproveitar a vulnerabilidade das pessoas dentro de estruturas de desigualdade baseadas em aspectos como idade, sexo, raça, casta, status de imigração e pobreza. Isso pode não ser aparente para a pessoa que está sendo aproveitada. Não reconhecer a verdadeira extensão da falta de opções é um mecanismo psicológico normal daqueles que são oprimidos. Ajuda a manter a esperança e o senso de controle sem os quais a vida se torna intolerável ou mesmo impossível.

À luz disto, os resultados do professor Mai não podem ser tomados como uma medida realista do tráfico sexual no Reino Unido.

 

Assista Catharine MacKinnon sobre Tráfico, Prostituição e Desigualdade

 

Leitura complementar:

Tráfico, Prostituição e Desigualdade por Catharine MacKinnon

Mentiras, malditas mentiras e ignorando estatísticas: como a descriminalização da prostituição não é uma resposta

Fato: é ilegal na Inglaterra e no País de Gales comprar sexo de alguém que foi coagido

Prostituição: Sob o controle de um sociopata

A Verdadeira História da Artista Suzzan Blac sobre Ser Traficada Sexual: A Tragédia Divina

Capítulo 7 de “Vagina Industrial” por Sheila Jeffreys

Capítulo 7: Fornecendo a demanda – o tráfico de mulheres

Escrito por Sheila Jeffreys, traduzido por Carol Correia.

 

Na última década, governos de todo o mundo tem reconhecido a seriedade do problema do tráfico para a prostituição. Apesar do tráfico para diversos fins toma espaço, tráfico de mulheres e crianças para exploração sexual conta com 87% das vítimas reportadas (UNODC, 2006, p. 33). Mulheres e meninas são traficadas para todas as formas da indústria do sexo, bordeis, prostituição de escolta e de rua, clubes de strip, pornografia, prostituição militar e locais de prostituição de turismo. Tráfico de mulheres e meninas em servidão por dívidas está se tornando o principal método para fornecer as indústrias do sexo nacional e internacional. Vale US$ 31 bilhões anualmente de acordo com estimativas da ONU (correspondentes em Viena, 2008). Isso criou um problema de imagem para a indústria global do sexo. À medida que a escala e a brutalidade deste sistema de abastecimento se tornaram mais conhecidas na última década através do trabalho de ONGs femininas, como Coalizão Contra Tráfico de Mulheres e a exposição de mídia, tornou-se mais difícil promover a prostituição como um trabalho como qualquer outro e um setor de mercado respeitável. A nova preocupação resultou no Protocolo sobre o Tráfico de Pessoas da Convenção das Nações Unidas de 2000 contra a Criminalidade Organizada Transnacional, conhecido como Protocolo de Palermo e a grande quantidade de trabalho foi criando legislação nacional, regional, programas de treinamento, sistemas de documentação e pesquisas. Muito menos dinheiro foi colocado em serviços de apoio para mulheres que foram traficadas, no entanto (Zimmerman, 2003). O interesse do governo tende a prejudicar o tráfico como um problema de “crime organizado”, segurança e controle de imigração, enquanto as feministas o consideraram um problema de violência contra mulheres. Nada disso levou a qualquer redução no problema, que está, por todas as contas, aumentando rapidamente (Ribeiro e Sacramento, 2005; Savona e Stefanizzi, 2007). A investigação sobre o tráfico e a prostituição na Europa sugere que o problema do tráfico continua perfeitamente na prostituição, com a maioria das mulheres prostituídas em cidades da Europa Ocidental, como Amsterdã que agora foi traficada (Agustin, 2002). Alguns governos europeus, como a da Bulgária, os Estados Bálticos e a República Checa, estão rejeitando a legalização da prostituição especificamente com base na nova consciência de que isso promove o tráfico e a Noruega prometeu apresentar o modelo sueco, no qual os clientes masculinos são penalizados pela “compra de serviços sexuais”, em 2008 para combater o tráfico (Cook, 2007; Aftenposten, 2007).

Esta mudança de eventos cria desafios para o lobby do “trabalho sexual”, aqueles que querem que a prostituição seja vista como trabalho comum e legalizada/descriminalizada. Várias técnicas estão sendo usadas agora para falar sobre essa dificuldade. Organizações de trabalho sexual, como a Rede Internacional de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP) e apologistas acadêmicos, estão envolvidas na minimização do tráfico, argumentando que poucas mulheres são realmente forçadas ou enganadas a prostituição e mesmo aquelas que são obviamente “traficadas” podem se recuperar com bastante facilidade e têm uma boa carreira na prostituição (O’Connell Davidson, 2006). Eles estão sendo forçados a se envolver em mudar de idioma e procurar embelezar o tráfico. Na nova língua, o tráfico de prostituição tornou-se “migração para o trabalho” (Jeffreys, 2006). As mulheres traficadas em servidão por dívidas tornaram-se “trabalhadoras contratadas” ou mesmo, com hipérbole pós-moderna, “cruzadores de fronteiras ousados” e “cosmopolitas” (Agustin, 2002).

A história do tráfico

O tráfico tem uma longa história como um sistema de fornecimento de prostituição. Como vimos no Capítulo 1, meninas japonesas estavam sendo traficadas desde meados do século XIX até destinos no sul da Ásia e no Pacífico, incluindo a Austrália (Frances, 2007; Tanaka, 2002). O tráfico também foi usado para abastecer o sistema de “conforto” das mulheres japonesas. No final do século XIX e início do século XX, a preocupação internacional com a prostituição e o tráfico levou a uma série de acordos internacionais, muito trabalho de ONGs nacionais e internacionais e, após a Primeira Guerra Mundial, um comitê especial da Liga das Nações através do qual as feministas trabalharam para acabar com o tráfico de pessoas (veja Jeffreys, 1997). O trabalho deles levou à Convenção das Nações Unidas de 1949 sobre o tráfico de pessoas e à exploração da prostituição de outras pessoas. A história do tráfico mostra o quanto sobre a prática, como métodos de recrutamento e controle, permanece inalterada hoje. As mulheres que eram vulneráveis neste período anterior, como mulheres judias que estavam escapando do massacre[1] e foram traficadas em rolos de tapete por Londres para Buenos Aires e mulheres russas que escapavam da fome de 1921 que foram traficadas para dentro e pela China, compartilhavam características com as mulheres vulneráveis de hoje. Elas sofreram uma devastação econômica em seus países, guerra civil e perseguição que as faziam fugir. Os métodos utilizados para adquiri-las eram semelhantes também, como o engano em que lhes foi dito que iriam obter empregos como garçonetes ou dançarinas, sequestro, sendo vendidas por seus pais e, em alguns casos, elas já eram prostituídas e vulneráveis a promessas enganosas de melhor rendimentos e condições. Seja qual for o método usado para recrutá-las, naquele tempo, como hoje, as mulheres acabaram em servidão por dívidas, controladas por proxenetas e obrigadas a atender compradores masculinos por meses ou anos com pouco ou nenhum pagamento. A escravidão da dívida é a característica determinante do tráfico porque é a maneira como os traficantes conseguem seus lucros.

Esta onda anterior de tráfico surgiu de mudanças no transporte, como o desenvolvimento do navio a vapor, o que facilitou a viagem e da globalização e fluxos da migração humana da época, o que significava que as mulheres eram enviadas para os locais onde seus co-nacionais estavam trabalhando, em São Francisco ou Hong Kong, por exemplo. Isso foi interrompido pela atenção internacional que levou à Convenção de 1949. No período pós-Segunda Guerra Mundial, os governos, tanto os que se inscreveram na Convenção como aqueles que não o fizeram, aprovaram legislação que tornava ilegais os bordeis que tinham tolerado anteriormente. A Convenção foi fundada na premissa de que os bordeis tolerados atuavam como “empreendimentos” para o comércio. Mulheres eram armazenadas neles e traficadas. Era uma convenção firmemente antiprostituição e afirmava no prefácio que a prostituição era “contra a dignidade e o valor da pessoa humana”. Uma vez que o tráfico foi entendido para abastecer o negócio da prostituição, a realização de lucros de terceiros, a exploração da prostituição, foi proibida para acabar com a demanda por mulheres traficadas.

O tráfico de prostituição voltou com uma vingança. A atual onda de tráfico está ocorrendo em um ambiente ideológico, econômico e político muito alterado. Mais uma vez, as mudanças tecnológicas, como o avião e, agora, a internet, facilitam o tráfico. As políticas econômicas neoliberais promulgadas através do Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio estão criando problemas de subsistência para as pessoas a nível internacional. À medida que os programas de ajuste estrutural são implementados, as mulheres sofrem particularmente e menos formas alternativas de emprego estão disponíveis para elas à medida que as economias de subsistência são destruídas. A destruição do comunismo na Europa Oriental e agora na China e no Vietnã, conduziu imediatamente ao crescimento das indústrias de sexo enormes nesses países e expor mulheres a agrados de traficantes para seduzi-las em grande escala. O estágio atual do desenvolvimento capitalista, com o seu apego aos mercados sem restrições, combinado com o liberalismo sexual desencadeado na “revolução sexual”, permitiu que as indústrias do sexo se desenvolvessem como oportunidades de mercado e se legitimaram deliberadamente e até promovidos por estados. Este é um ambiente político muito diferente daquele em que o mundo pós-Segunda Guerra Mundial proibiu a manutenção de bordeis. Mesmo algumas organizações de direitos humanos agora decidiram que a prostituição “livre” deveria ser vista como um trabalho comum e legalizado. Assim, a Anti-Slavery International, que identificou a prostituição e o tráfico como formas de escravidão que deveria ser abolida até o final do século XX, adotou uma posição no final dos anos 1990 de que a prostituição deveria ser legalizada e sindicalizada para proteger as condições de trabalho e separada firmemente do “tráfico forçado” (Bindman, 1998).

Todas essas mudanças levaram a um grande problema de tráfico para o qual, até agora, poucas soluções propostas foram efetivas. Isso ocorre porque a maioria dos governos, ONGs e pesquisadores procuram agir contra o “tráfico”, a cadeia de abastecimento para a prostituição, deixando a própria indústria do sexo intacta, como se as duas pudessem ser separadas. Esta é uma situação muito diferente daquela em que surgiu a convenção de 1949 sobre o tráfico, quando a prostituição foi entendida como a base para o tráfico. Esta estrutura de separação tenta aliviar o problema.

Estimativa de números de tráfico

Não é possível fazer estimativas firmes do número de mulheres, meninas e até alguns homens jovens (Kelly, 2005) que são traficados para a prostituição anualmente. Muitos trabalhos acadêmicos são escritos sobre as dificuldades e a utilidade de diferentes metodologias envolvidas na obtenção de estimativas (Savona e Stefanizzi, 2007, Laczko e Gozdiak, 2005). Os números geralmente dependem do número de pessoas traficadas encontradas pela polícia, autoridades de imigração e/ou ONGs e a compreensão de uma pessoa “traficada” ou em extrapolações desse número. Essas extrapolações são feitas com base na compreensão da pequena porcentagem de mulheres que relatam crimes sexuais à polícia, cerca de 1 em cada 5 em uma pesquisa do Reino Unido, usada por um par de pesquisadores de tráfico para fazer estimativas (Di Nicola e Cauduro, 2007). Esses pesquisadores reconhecem que existem variáveis particulares que tornam possível que ainda menos vítimas de tráfico reportem à polícia. Estes incluem falta de confiança nas autoridades, seu status ilegal no país de destino, seu isolamento, sua subjugação aos traficantes e a natureza secreta do tráfico. Assim, eles consideram que o número relatado de vítimas poderia representar entre 5 e 10% do total. O “tráfico” não é facilmente distinguível do “contrabando”. Normalmente, os traficantes de pessoas obtêm lucros com as taxas pagas pelos clientes. Eles não têm contato com as pessoas contrabandeadas uma vez que as deixam no destino. Os traficantes, por outro lado, são pagos para entregar suas vítimas a pessoas que se beneficiarão de mantê-las em servidão por dívidas. Mas os pesquisadores estão agora descobrindo que algumas mulheres que aceitam a ajuda de “contrabandistas” acham que foram enganadas e são traficadas em servidão por dívidas ao chegarem ao destino (Savona e Stefanizzi, 2007).

O número de relatórios para a polícia também dependerá se a polícia lida com a questão a sério. Alguns países podem ter números extremamente baixos ou ainda nenhum porque não estão sendo mantidos. Mas há outros fatores complicados envolvidos na denúncia do tráfico que o torna bastante diferente de outras formas de violência sexual. As mulheres traficadas que participaram do processo de sua própria vontade, como resultado de uma penúria miserável e porque estavam desesperadas por ganhar dinheiro para si e suas famílias, talvez não estejam dispostas a ir à polícia, por mais pobres que sejam suas condições e mesmo assim elas estão sujeitas a violência. O relatório significa o fim da chance de ganhar dinheiro (Harrington, 2005). Elas ainda podem estar presas por dívidas e esperando que, em algum momento do futuro, algum dinheiro venha a aparecer e não terão que retornar às suas famílias sem qualquer dinheiro. Se elas relatam, elas perdem essa chance.

Os que negam o tráfico, aqueles que minimizam o significado do tráfico (ver Jeffreys, 2006), às vezes argumentam que o pequeno número dessas mulheres que reportam à polícia ou buscam aproveitar os serviços de apoio oferecidos por ONGs para mulheres traficadas mostram que o fenômeno é muito exagerado e, de fato, há poucas mulheres “traficadas” que precisam de ajuda. Eles também apontam que algumas mulheres que são “resgatadas” dos bordeis, embora correspondam ao perfil das mulheres traficadas, talvez não sejam gratas por serem “resgatadas”. Isso não é difícil de entender. Se elas optarem por não retornar aos países de origem ou se forem repatriadas, elas podem ser retraficadas. Elas podem ter sido vendidas por seus pais em primeiro lugar, o que significa que elas não têm nada para retornar (Melrose e Barrett, 2006). Elas podem ser vistas como tendo sido desonradas e podem ser sujeitas a violência de suas famílias e comunidades se forçadas a retornar. O desespero de obter algum dinheiro, mais o estigma que torna o retorno ao “lar” depois de ter sido prostituída, todas levam a uma falta de gratidão no caso de algumas mulheres traficadas de estados recentemente independentes na Bósnia e no Kosovo, por exemplo (Harrington, 2005). Um relatório sobre o tráfico na Bulgária explica que a experiência de tráfico pode levar a vínculos traumáticos, o que significa que a vítima provavelmente não deverá trair o agressor (Stateva e Kozhouharova, 2004). O relatório descobriu que 22% das clientes vistos pela ONG foram vendidas por seus parentes, maridos ou namorados, 50% tinham entre 14 e 21 anos de idade (ibid.). Os métodos de coerção que foram usados neles incluíam a lavagem cerebral através da violência e estupros coletivos, testemunho de violência e até assassinatos e execuções e ameaças de violência contra mulheres prostituídas, suas famílias e seus parentes. O seu senso de autonomia foi destruído através do isolamento ou da negação de contato com pessoas externas, por meio de debilitamento psicológico e insultos, além do controle financeiro. Elas sofreram envolvimento forçado em crimes e/ou violência e relações abusivas (ibid., p. 113). Todos esses fatores, bem como a adoção de uma autoimagem de prostituição, medo e incapacidade de formar relacionamentos de confiança, escapam muito e significam que não há conforto imediato a partir do “resgate”.

Apesar de todas essas dificuldades, algumas estimativas são feitas. O Escritório do Departamento de Estado dos EUA para Monitorar e Combater o Tráfico de Pessoas estimou que o número de pessoas traficadas entre as fronteiras internacionais entre 2003 e 2004 variou entre 700.000 e 900.000 por ano (Albanese, 2007). No mesmo período, estima-se que o número de traficantes para os EUA tenha diminuído de 45.000 a 50.000 por ano para 14.500-17.500. No entanto, como Savona e Stefanizzi comentam, sobre a questão dos números, “embora ainda seja difícil estimar o valor do comércio de seres humanos… todos os especialistas confirmam que o volume do tráfico nunca foi tão grande, nem aumentou a uma taxa tão gigantesca” (Savona e Stefanizzi, 2007, p. 2). No Reino Unido, por exemplo, os três quartos de mulheres prostituídas são estimadas pelo governo a serem dos países bálticos, da África e do Sudeste Asiático (Townsend, 2005). Em 2006, o Crown Prosecution Service no Reino Unido revelou que os “leilões de escravos” de mulheres traficadas estavam ocorrendo nos concursos de aeroportos britânicos (Weaver, 2007).

A base de dados do UNODC em 2006 mostrou que as vítimas de tráfico foram recrutadas em 127 países, com 98 países como países de trânsito e 137 países de destino (Kangaspunta, 2007). Em alguns casos, um país pode ter os três papeis. Os países de origem mais divulgados estão na Comunidade de Estados Independentes, Europa Central e do Sudeste, África Ocidental e Sudeste Asiático. Os países de destino são principalmente na Europa Ocidental, América do Norte e Ásia. Deve-se notar que a legalização da prostituição não faz parte da redução desse problema, já que tanto a Alemanha como a Holanda, que estão nos dez melhores países de destino, legalizaram suas indústrias de prostituição apenas alguns anos antes desses rankings serem criados e de fato legalizar.

Os governos tendem a abordar o tráfico de um ângulo diferente das ONGs e teóricos feministas. Eles estão preocupados com a proteção das fronteiras e a imigração ilegal, em vez do bem-estar das mulheres. Assim, as agências de aplicação da lei e de migração provavelmente verão as mulheres que tomaram a decisão de serem traficadas – embora geralmente não conheçam as condições que enfrentaram, como confisco de documentos, confinamento, ameaças ou violência real, dívidas enormes e a exigência de servir 800 ou mais compradores masculinos sem pagamento – como não vítimas “inocentes” e não dignas de seus serviços ou preocupação. O problema desta distinção entre o tráfico “consentido” e “forçado” era evidente para as feministas que trabalharam através da Liga das Nações sobre a questão do tráfico de prostituição entre as duas guerras mundiais. Assim, a convenção que saiu de seu trabalho, a Convenção sobre o tráfico de pessoas e a exploração da prostituição de outros de 1949, determinou o consentimento irrelevante para sua definição de tráfico (veja Jeffreys, 1997). O Protocolo sobre Tráfico de 2000 também diz que o consentimento é irrelevante desde que qualquer das formas de força detalhadas seja exercida. No entanto, as agências estatais que lidam com o tráfico e, às vezes, as ONGs também, tendem a fazer uma distinção entre mulheres boas e más, aquelas que “escolheram” e aquelas que não o escolheram (O’Connell Davidson, 2006).

Tráfico no direito internacional

O último instrumento internacional para definir o tráfico, o Protocolo sobre Tráfico de Pessoas de 2000 da Convenção da ONU sobre Crime Organizado Transnacional, tem uma definição destinada a capturar a variedade de métodos que podem ser usados para controlar as mulheres, tanto as que utilizam violência aberta, quanto aquelas que não usam violência. Ele deliberadamente torna o consentimento irrelevante. A definição é a seguinte:

Por “tráfico de pessoas” entende-se o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o recebimento de pessoas, através da ameaça ou do uso da força ou de outras formas de coerção, de abdução, de fraude, de engano, abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou de receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha controle sobre outra pessoa, para fins de exploração. (Nações Unidas, 2000, artigo 3.º-A)

A definição deixa certo que, além da força violenta ou da fraude, podem ser empregados outros métodos, como a exploração de uma posição de poder ou a concessão de pagamentos a outros, como pais ou parentes de uma vítima. Quanto à questão do consentimento, o Protocolo é inequivocamente evidente: “O consentimento de uma vítima de tráfico de pessoas para a exploração pretendida estabelecida na alínea (a) deste artigo será irrelevante quando algum dos meios estabelecidos no parágrafo (a) forem utilizados” (ibid., Artigo 3.º-B).

A redação desta definição foi objeto de fervorosos lobbies e argumentos, com representantes do lobby do trabalho sexual e as ONGs que assumem cargos semelhantes, defendendo fortemente a separação do tráfico “forçado” da prostituição “livre” legítima e até mesmo tentar garantir que não foi mencionada a prostituição na definição. Como a Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres (CATW), que desempenhou um papel importante na elaboração do documento, comenta: “Durante essas negociações, algumas ONGs e governos queriam excluir a prostituição e a exploração sexual de qualquer menção na definição de tráfico. Esses esforços não foram bem sucedidos” (Coalização Contra o Tráfico de Mulheres, 2006). A CATW ressalta que os defensores da posição de trabalho sexual trabalharam desde 2000 para deturpar a definição, deixando para fora os pedaços que eles não gostam em publicações e declarações, como o conceito de “abuso de posição de vulnerabilidade”, porque isso não requer força óbvia e o fato de que o consentimento é irrelevante (ibid.). O Grupo de Trabalho sobre Formas Contemporâneas de Escravidão, que supervisiona a Convenção de Tráfico de 1949, pode notar, contudo, “com satisfação” em seu relatório de 2003, que “a definição de tráfico adotada no Protocolo de 2000 é consistente com a Convenção de 1949 em que não incorpora uma distinção entre forçada/livre” (Nações Unidas, 2003, p. 17). O relatório “reconhece” que o tráfico sexual e a prostituição são “partes interconectadas da indústria mundial do sexo e devem ser abordados juntos”, uma vez que “a demanda por prostituição e todas as outras formas de exploração sexual desempenham um papel crítico no crescimento e expansão do tráfico de mulheres e de crianças”.

Danos do tráfico na prostituição

Vagina Industrial - citações(5).jpg

O tráfico para a prostituição não é a única forma de tráfico que ocorre no mundo no momento. A maioria das mulheres traficadas está destinada à prostituição (UNODC, 2006), mas o tráfico de mulheres para o trabalho doméstico, que envolve a servidão da dívida, ocorre também (Surtees, 2003). Esta última forma de tráfico é habilitada pelo governo da Indonésia com programas de treinamento que futuras trabalhadoras domésticas “migram” para o Oriente Médio devem tomar (ibid.). As condições das centenas de milhares de mulheres do Sudeste Asiático que vão para Hong Kong e Cingapura e das mulheres sul-americanas que vão para os EUA, para o trabalho doméstico ou para o trabalho de cuidador a idosos ou deficientes, podem ser muito exploradoras e envolvem abuso físico e psicológico e, frequentemente, violência sexual dos empregadores ou familiares. Há abusos consideráveis de direitos humanos envolvidos, mas existem diferenças entre essas práticas e o tráfico de pessoas na prostituição que precisam ser reconhecidas. As outras formas de trabalho podem ser formas de trabalho legítimas que não são necessariamente geradas devido ao gênero e podem ser realizadas em setores industriais respeitáveis sem abusos dos direitos humanos. Em tais indústrias, uma concentração na melhoria das condições de trabalho é razoável. Este não é o caso da prostituição. A prostituição é uma prática que é realizada diretamente nos e com os corpos das mulheres. Não há como tornar isso seguro, uma vez que a transmissão de doenças, gravidez indesejada, dor e abrasão não pode ser evitada no próprio trabalho cotidiano comum (M. Sullivan, 2007). A desvinculação emocional do corpo é necessária para sobreviver à prostituição, mas causa sérios danos aos sentimentos das mulheres em relação a si mesmas, seus corpos e sua sexualidade (Jeffreys, 1997). Alguns comentaristas que ocupam uma posição profissional de trabalho sexual ridicularizam a preocupação particular que muitas ONGs e ativistas feministas sentem para o tráfico de prostituição, atacando-o como um “pânico moral” (Doezema, 2001; Agustin, 2007), por exemplo. Isso ocorre porque eles não veem a prostituição como diferente do trabalho doméstico ou a colheita de tomate.

Vagina Industrial - citações(6)

O tráfico de prostituição prejudica mulheres e meninas através dos abusos psicológicos e físicos que sofrem (Barwise et al., 2006). Como um relatório europeu sobre a saúde das mulheres traficadas aponta, estes se assemelham aos sofridos por outras mulheres na prostituição, na violência doméstica, tortura e abuso sexual e aquelas sofridas por outras pessoas traficadas e migrantes (Zimmerman, 2003). Mas também há danos graves que as mulheres vítimas de tráfico são extremamente semelhantes aos que sofrem as mulheres prostituídas em geral, mas mais extremas no “nível de exploração e violência” (ibid., p. 27). Estudos de mulheres na prostituição, sejam eles considerados “traficadas” ou não, demonstram que elas sofrem problemas psicológicos e de saúde física, como sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, problemas de saúde reprodutiva, doenças sexualmente transmissíveis, marcas de violência física, incluindo desfigurações permanentes e deficiências (Farley, 2003, 2006).

O estudo europeu descobriu que as mulheres vítimas de tráfico sofrem violência nos estágios de recrutamento, transporte e destino. Na fase de viagem ou de trânsito, é provável que sofram de ameaças ou violência real e sofrem condições graves e que ameaçam a vida. Elas podem ser forçadas a nadar em rios com corridas rápidas durante a noite e ver um companheiro se afogar ou ter que se deitar no painel do teto de um trem (Zimmerman, 2003). Elas sofrem os prejuízos psicológicos de serem vendidas. Algumas são vendidas várias vezes antes de chegarem ao seu destino. Três mulheres de 28 no estudo foram “compradas” em ambientes parecidos com os de leilão, onde potenciais proxenetas vieram selecionar nova “mercadoria” (ibid., p. 40). Durante o estágio de trânsito, elas são rotineiramente estupradas por seus traficantes, seja pelo proxeneta que comprou a mulher ou por um grupo. Quatorze das 28 mulheres relataram ser “confinadas, estupradas ou batidas uma ou várias vezes durante esta fase, antes de começar a trabalhar” (ibid., p. 41). Três que eram virgens foram estupradas nesta fase. O relatório explica que essas técnicas são usadas para estabelecer controle psicológico sobre as vítimas. No local, 25 mulheres relataram sofrer violência, como serem “socadas, chutadas, perfuradas, atingidas com objetos, queimadas, cortadas com facas e estupradas” (ibid., p. 46). O assassinato não é incomum e serve para aterrorizar outras mulheres que estão sendo traficadas. Na Itália, 168 mulheres estrangeiras prostituídas foram denunciadas pelo Ministério do Interior em 2000. A maioria era albanesa ou nigeriana que foram assassinadas por seus proxenetas (ibid., p. 46). As mulheres ficaram famintas em seus destinos, recebendo rações extremamente insalubres e inadequadas pelos proxenetas e mantiveram-se em condições muito difíceis, não só incapazes de deixar as instalações onde moravam e trabalhavam, mas ter que compartilhar camas ou dormir no chão e sendo presas individualmente em salas pequenas durante todo o dia antes de serem levadas para serem prostituídas (ibid.).

Elas foram estupradas, muitas vezes diariamente, pelos proxenetas e seus amigos e conhecidos. Das violações por proxenetas e pelo uso sexual comum por clientes sofreram infecções, lágrimas e traumas no revestimento vaginal, que eram dolorosas e levaram a uma infecção mais fácil pelo HIV. As doenças sexualmente transmissíveis (DST), geralmente não tratadas, já que o acesso à provisão de saúde era extremamente difícil e muitas vezes impossível para essas mulheres, levava a doenças inflamatórias pélvicas, danos duradouros ao trato reprodutivo, rim e bexiga, infertilidade, aborto espontâneo, morbidade e mortalidade infantil e câncer cervical. Esperava-se que as mulheres traficadas aceitassem muito mais prostituidores por dia e com uma taxa mais barata do que outras mulheres prostituídas. As mulheres relataram que os homens que elas chamavam de “seus donos” controlavam o “uso de preservativo” e às vezes proibiam o preservativo. As mulheres poderiam ser cobradas até US$ 10 por preservativo por proxenetas e as somas foram adicionadas às dívidas que lhes eram devidas. Era provável que as mulheres tentassem se lavar com um spray de algo para ficarem limpas, chamada douche. Essa prática de limpeza, douching, por si só pode causar problemas de saúde, alterando o equilíbrio na vagina, mas essas mulheres estavam usando produtos muito prejudiciais em alguns casos, como desinfetantes inadequados para uso interno. Algumas mulheres prostituídas, como observa o relatório, usam ervas ou outras misturas na vagina para torná-la seca ou apertada, avaliada por prostituidores de culturas particulares, mas que cria lesões nas mulheres. Elas também sofrem de dor aguda ou crônica durante o sexo; rasgando e danificando no trato vaginal” (ibid., p. 240). Os danos que as mulheres traficadas na prostituição sofrem são muito similares, onde quer que sejam traficadas de ou para. Um estudo de 49 mulheres traficadas nas Filipinas, que incluiu quatro mulheres que foram traficadas localmente e quatro noivas por correspondência, descobriram que a metade das mulheres sofreu sangramento vaginal (Raymond et al., 2002, p.121). Quase 70% sofreram ossos quebrados e 62% sofreram lesões na boca e nos dentes. O relatório observa que uma subnotificação é provável, uma vez que algumas mulheres ficaram agitadas quando perguntadas sobre a violência que sofreram e disseram que não queriam falar sobre isso porque estavam tentando esquecer. Os danos psicológicos incluíram 82% relatando depressão, 75% raiva e 40% pensamentos suicidas (ibid.).

Gravidez e aborto, que eram comuns no estudo europeu, uma vez que, mesmo nos casos em que as camisinhas são usadas, os homens as danificam ou as destroem, podendo criar problemas de saúde consideráveis. No caso de Elena, traficado da Ucrânia para os Emirados Árabes Unidos, que teve um aborto aos 14 anos por um médico, mas ilegalmente, foi injetada nela água com sabão e foi levada para o hospital americano. Trabalhadores de divulgação na Itália e no Reino Unido informaram que algumas mulheres traficadas estavam tendo até 12 abortos e às vezes foram forçadas de volta à prostituição, o que poderia levar à infecção (Zimmerman, 2003).

Os danos que as mulheres vítimas de tráfico são submetidos são revelados nas folhas de aconselhamento publicadas especificamente para as mulheres prostituídas nigerianas na Itália pela organização Tampep, que adota uma abordagem do “trabalho sexual” para a prostituição (Wallman, 2001). Elas são aconselhadas a verificar carros procurando facas, armas, almofadas ou travesseiros, cintos ou cordas, porque tudo isso pode ser usado como arma. Se elas encontrarem esses objetos, é aconselhável “bloquear o cliente nas botas”. Elas são informadas de que devem estar preparadas para “pegar um cliente pelas bolas” e não devem usar saias longas ou apertadas ou sapatos de salto alto. Apesar da gravidade desses riscos, o autor de um artigo sobre o conselho de Tampep argumenta que “capacita” as mulheres traficadas, porque “conhecer as estratégias que ela pode optar por usar, contra o perigo, no entanto, muda sua relação com ela” (Wallman, 2001, p. 81). O conselho converte a situação de “não negociável para negociável” e de “rígido para vago”. O autor explica que “em termos da lógica que tenho explorado, a capacitação é a prevenção. A capacidade de uma pessoa em arenas de risco começa com a convicção de que o perigo presente é – ou poderia estar – sujeito a controle pessoal” (ibid., p. 86). Infelizmente, não é verdade que o perigo está sob o controle da mulher traficada e pode ser visto como altamente irresponsável fazê-la acreditar que é assim e talvez se culpar quando é atacada. As mulheres prostituídas de rua são as mais vulneráveis de todas as mulheres prostituídas e é improvável que possam negociar com os homens que as compram das maneiras sugeridas.

Os problemas psicológicos que as mulheres traficadas sofrem são complexos. Uma coisa descreve o estudo europeu é a ambiguidade que as mulheres experimentaram em relação a seus proxenetas e manipuladores (Zimmerman, 2003). Elas tiveram problemas em nomeá-los e falaram sobre eles sendo “traficante-namorado-proxeneta”. Elas tinham “ligação traumática” com os homens, sendo espancadas e estupradas por eles, mas também completamente dependentes deles para qualquer presente, comprado com o dinheiro que as mulheres ganharam ou ainda atos de bondade. Outro nome para este “vínculo traumático” é a síndrome de Estocolmo, um termo desenvolvido para descrever a forma como reféns se vincula com seus sequestradores para sobreviver e adaptado de forma útil por teóricas feministas para descrever a experiência das mulheres em relação aos homens sob regimes de medo e violência (Graham et al., 1994). Essa ambivalência pode criar dificuldades para que as mulheres os denunciem ou denunciem seus abusos.

A normalização do tráfico

As mesmas organizações de trabalho sexual que, como resultado de serem tratadas como especialistas e financiadas pelos governos estaduais em resposta à crise da AIDS na década de 1980, conseguiram pressionar com algum sucesso para eufemizar a prostituição como “trabalho sexual” e trabalhar para a normalização transferindo suas atenções na década de 1990 para o cenário internacional e a questão do tráfico de mulheres. A sua organização máxima, a Rede de Projetos de Trabalho Sexual, liderou a campanha para normalizar o tráfico de mulheres como “migração para o trabalho”. Sua abordagem assumiu várias formas. Um era mudar o idioma; assim, o “tráfico” deveria se tornar “migração para o trabalho”, as mulheres traficadas se tornariam “profissionais do sexo migrantes”, os traficantes se tornariam agentes e corretores ou “organizadores de imigração” (Fawkes, 2003; Agustin, 2002). A escravidão da dívida, reconhecida no direito internacional como uma “forma moderna de escravidão”, foi tornada em “trabalho contratado”. Outro foi negar ou minimizar o tráfico, fazendo o argumento de que apenas aquelas que eram especificamente “forçadas” ou “enganadas” deveriam ser reconhecidas como traficadas e esses números eram infimamente pequenos e insignificantes. Outro foi atacar as ONGs, ativistas e pesquisadores envolvidos no combate ao tráfico como colonialistas e racistas que “vitimazaram” as mulheres migrantes e se recusaram a reconhecer sua “agência” (Kempadoo, 1998). O único prejuízo para as mulheres prostituídas e traficadas que os que negam o tráfico reconhecem provêm de “traficantes de drogas” que estão prontos demais para entrar em prostíbulos e remover as mulheres que preferem ficar e cumprir seu “contrato” ou da polícia, autoridades de imigração e o “estigma da prostituição”, isto é, atitudes sociais negativas em relação à prostituição (Agustin, 2007).

Os eufemismos e a prática de minimização são evidentes na submissão que a organização pró-trabalho sexual australiana, Scarlet Alliance, fez um inquérito parlamentar sobre o “tráfico de mulheres para servidão sexual” que ocorreu em 2003 (Fawkes, 2003). Na submissão, o tráfico quase desapareceu sob uma série de termos eufemísticos. As mulheres traficadas são descritas como mulheres “contratadas”. Em vez do tráfico, Janelle Fawkes da Scarlet Alliance fala sobre “mulheres que trabalharam sob um sistema de contrato” e “trabalhadoras contratadas”. Ela minimiza o problema ao dizer que menos de 400 “trabalhadoras do sexo” entram na Austrália “em um contrato” todos os anos, dos quais a maioria “consente conscientemente” e não são, na definição da Ala Scarlet, traficadas. Fawkes diz que as organizações associadas à Scarlet Alliance tiveram contato com menos de 10 mulheres que foram “recrutadas enganosamente”. Scarlet Alliance como um órgão responsável por aconselhar os governos federais e estaduais sobre questões de prostituição, desempenhou um papel significativo na minimização do tráfico e permitindo ao governo dizer, até 2003, que não havia tráfico na Austrália porque todos os “trabalhadores do sexo migrante” escolheram “e sabiam no que estavam se metendo”.

A submissão descreve as mulheres traficadas como “pessoas que estão migrando para o trabalho”. A escravidão da dívida em sua conta também desapareceu. Eles dizem que “esses profissionais do sexo geralmente concordaram em pagar uma taxa para serem “traficadas” (Fawkes, 2003, p.10). Eles explicam a escravidão de dívida como resultado da ignorância das mulheres. As mulheres traficadas têm uma falta de familiaridade com as taxas de câmbio: “muitas vezes elas não entendem a taxa de câmbio com a Austrália, então acabam pagando mais do que esperavam” (Fawkes, 2003, p.10). Scarlet Alliance caracteriza a identificação das mulheres como traficadas como uma espécie de insulto a essas mulheres: “Ver pessoas sob contrato como ‘traficadas’ nega que as pessoas têm agência pessoal quando desejam trabalhar na Austrália e então optam por entrar em um contrato para seguir essa vontade” (Fawkes, 2003, p.10).

A Scarlet Alliance na Austrália faz parte de uma rede de organizações de trabalho sexual internacional que divulga o mesmo idioma e ideias. Europap e Tampep na Europa também negam a importância do tráfico como questão e redefinem as mulheres traficadas como “profissionais do sexo migrantes”. Como resultado do seu financiamento e do seu status como órgãos de peritos da UE sobre a prostituição, eles têm uma influência considerável. Ambos estão comprometidos com a descriminalização da prostituição. Um relatório de Tampep no site Europap, por exemplo, sobre “Modelos de Intervenção para Trabalhadores do Sexo Migrante na Europa” de Licia Brussa, reconhece que cada vez mais mulheres na prostituição na Europa são de outros países: “Uma mudança importante na cena da prostituição resultou dos enormes fluxos migratórios da Europa Central e Oriental para a Europa Ocidental” (Brussa, n.d., p. 5). Mas a Tampep não faz qualquer ligação entre essa circunstância e o tráfico. Brussa diz que é hora de reconhecer a prostituição como uma “realidade social” e “que os recursos oferecidos pelo mercado de prostituição representam uma possibilidade real de recursos econômicos para uma parte relevante da população estrangeira feminina” e, portanto, pode ser o caminho certo para considerar os objetivos da normalização da prostituição e da proteção dos direitos humanos (Brussa, n.d., p. 6). Uma grande coleção sobre prostituição internacional, Transnational Prostitution. Changing Global Patterns (2002) (em português, Prostituição Transnacional. Alterar Padrões Globais), usa o novo idioma e a compreensão do tráfico. Susanne Thorbek explica que ela considera que a palavra “tráfico” deve ser aplicada em uma escala muito ampla quando o termo “trabalhadores sexuais migrantes” é mais apropriado: “É comum no mundo rico hoje definir alguém que organiza uma prostituta para viajar para trabalhar em um país mais rico como traficante, independentemente da prostituta ter escolhido viajar ou se ela foi forçada ou atraída para a situação” (Thorbek, 2002, p. 5). Pataya Ruenkaew escreve que a “prostituição transnacional” deve ser entendida como “um tipo de migração trabalhista transnacional” (Ruenkaw, 2002, p. 69).

Talvez a transformação mais notável da linguagem em relação ao tráfico provenha de Laura Agustin, cuja pesquisa sobre “profissionais do sexo migrante” contribuiu para normalizar o tráfico de mulheres na prostituição em estudos de migração. Agustin explica que as mulheres traficadas ganham vantagens positivas. Uma delas é que elas podem ganhar bem para que “uma migrante possa pagar as dívidas empreendidas para migrar bastante cedo”, ou seja, ela poderá se comprar da escravidão por dívidas (Agustin, 2004, p. 90). Mas ela também tem um ambiente de trabalho fascinante:

ela trabalha em clubes multiculturais, multilíngues, bordeis, apartamentos e bares… Para aquelas que vendem serviços sexuais, milieux são locais de trabalho onde muitas horas são dedicadas a socializar, falar e beber, entre si, com clientes e outros trabalhadores como cozinheiros, garçons, caixas e seguranças. No caso dos apartamentos, algumas pessoas vivem neles enquanto outras chegam dos outros turnos. A experiência de passar a maior parte do tempo em tais ambientes, se as pessoas se adaptarem a elas, produz assuntos cosmopolitas, que podem considerar o mundo a sua ostra e não a sua casa (Agustin, 2004, p. 91).

Mas, é claro, as mulheres não podem “adaptar-se a elas” e podem encontrar-se no contexto da exploração sexual, um mundo em que os homens socializam e se ligam entre eles através dos corpos das mulheres, assustadas e alienadas. Este não é um mundo de mulheres, mas um dos homens. Ela apoia as descobertas de outros pesquisadores do Reino Unido e da Europa continental que as mulheres traficadas são vendidas entre homens nos clubes de comunidades de imigrantes que provavelmente serão clubes masculinos, estritamente segregados das vidas de outras mulheres. O estudo do Poppy Project sobre os sites e a organização da prostituição em Londres descobriram que uma mulher tinha sido traficada para um clube social turco, por exemplo (Dickson, 2004, p.16). As mulheres se tornam “assuntos cosmopolitas” porque são movidas por proxenetas/traficantes para diferentes países e cidades para manter os prostituidores interessados e desorientar as mulheres para que não consigam ganhar força através da aprendizagem de uma língua e descobrir onde elas estão. Agustin é positiva sobre esta prática: “É fácil encontrar profissionais do sexo migrante que viveram em várias cidades europeias: Turim, Amsterdã, Lyon. Elas conheceram pessoas de dezenas de países e podem falar um pouco de várias línguas; elas estão orgulhosas de ter aprendido a serem flexíveis e tolerantes com as diferenças das pessoas” (Agustin, 2004, p. 91). As mulheres traficadas se tornam, nas suas palavras, a “esperança do mundo” porque é improvável que sejam nacionalistas e se juntaram a um grupo de pessoas que julga outros em suas ações e pensamentos e não baseado na aparência ou de onde são. “Isto”, diz ela, “é a força do cosmopolita” (Agustin, 2004, p. 91). Em sua análise, as mulheres traficadas, que são, como observa, a maioria das “vendedoras de sexo na Europa”, tornam-se o próprio modelo de cidadania a que outros podem aspirar.

Estigma

Os danos físicos e psicológicos da prostituição e do tráfico são tão notórios, mesmo para os pesquisadores que adotaram uma abordagem de trabalho sexual, que precisam ser explicados. Isso levou à criação de um outro eufemismo interessante, o conceito de estigma (veja Pheterson, 1996). Essa ideia é usada para sugerir que os danos são criados, não pela prática comum da prostituição, mas pelas atitudes sociais negativas que levam à estigmatização da prostituição e das mulheres prostituídas. Sophie Day e Helen Ward usam esse conceito em suas pesquisas sobre prostituição e saúde na Europa (Day e Ward, 2004). A maioria das mulheres prostituídas entrevistadas (56%) eram “migrantes”, o que significa que elas provavelmente foram traficadas por dívidas. Eles explicam os sérios problemas de saúde que as mulheres prostituídas entrevistadas experimentaram como resultado da prostituição, mas atribuem todos os males que as mulheres relatam ao estigma. Eles consideram que a aceitação social completa da prostituição, com a remoção do estigma, eliminará os problemas e permitirá que a prostituição seja apenas um trabalho comum. No entanto, os danos que eles relatam parecem decorrer do que os prostituidores fazem com elas, em vez do “estigma”. Como eles explicam: “O HIV não era o único ou mesmo o mais grave problema de saúde para as mulheres. Muito das participantes se preocupavam principalmente com a violência no trabalho”, que era principalmente de “clientes” (ibid., p. 148). As mulheres falavam de “efeitos psicológicos”, “falta de respeito”, “degradação” e “humilhação” do trabalho. As mulheres também falaram sobre o quanto odiavam ser prostituídas, dizendo: “Eu não tenho muito sentimento restante”, “é um trabalho pesado para a mente”, e “é algo vil” (ibid., p. 150). Quando as mulheres foram perguntadas sobre os piores aspectos do seu trabalho, elas “reclamaram de clientes sujos, abusivos, bêbados e exploradores” (ibid., p. 150). Das 40 entrevistadas em Lisboa, 20 mulheres “declararam explicitamente” que não havia “coisas boas sobre a prostituição” (ibid., p. 150).

Day e Ward encontraram o seguinte em suas entrevistadas, “uma série de problemas psicológicos, incluindo estresse e depressão, insônia, flashbacks, ataques de pânico e receios de divulgação, problema de uso de álcool e drogas, crises nervosas, anorexia, bulimia, depressão maníaca e graves transtornos de personalidade” (ibid., p. 171), mas os atribuem ao “estigma “. Eles comentam que observaram “a ligação entre os problemas de saúde mental e a sensação de estigma e lesão no trabalho sexual que persistiram na mudança de empregos” (ibid., p. 171). Eles descobriram que as mulheres ficaram mais infelizes quanto mais elas foram prostituídas e concluíram que isso também é resultado do estigma. No entanto, as questões que as mulheres falaram não se relacionam muito com o estigma, uma vez que o “tema mais proeminente nesta discussão dizia respeito aos clientes”, era difícil minimizar a exposição a homens violentos ou difíceis “e elas estavam preocupadas com a “segurança” (Ibid., p. 169). Mesmo os clientes regulares eram difíceis porque “eles poderiam bater em você quando não conseguia uma ereção”, por exemplo. Day e Ward retorna também ao “estigma”, dizendo: “Enquanto a conversa variou em muitas dimensões do estigma, foram os efeitos a longo prazo do preconceito que perturbou essas mulheres mais” (ibid.).

Day e Ward não pode interpretar os dados sobre a angústia das mulheres de uma maneira que respeite o que elas realmente diziam, que é a violência e a degradação dos prostituidores é a principal fonte de danos, sem desacreditar sua abordagem de trabalho sexual. Assim, são forçados a fazer ginástica mental destinados a atribuir os danos ao “estigma”. As mulheres prostituídas, é claro, sofrem danos adicionais pelo modo como são tratadas socialmente, pela polícia e pelo sistema legal e por não conseguir retornar às famílias ou explicar-lhes o que aconteceu com elas. Estes danos podem razoavelmente ser atribuídos ao “estigma”. Day e Ward, no entanto, esperam com confiança que todos os problemas que descrevem desaparecerão quando o “estigma” for tratado, confundindo assim um estigma não razoável, que é o preconceito dirigido às mulheres prostituídas, do que é realmente um “estigma” muito razoável, ou seja, desaprovação de uma prática que causa prejuízos às mulheres.

 A questão da demanda

Legislação e política sobre o tráfico de mulheres concentrou-se em lidar com os traficantes e as traficadas. Não houve muita atenção para abordar as causas profundas do tráfico ou, de fato, concordar com o que são. Os fatores de pressão que tornam as mulheres e as meninas vulneráveis ao tráfico, como a destruição de subsistência e a desigualdade global, foram reconhecidos como importantes e os governos e as ONGs do mundo rico financiam programas de educação para meninas em áreas de alto tráfico como o norte da Tailândia ou o Nepal de forma a reduzir a vulnerabilidade de meninas. Infelizmente, isso pode não ser muito eficaz porque, na Tailândia pelo menos, há pesquisas para mostrar que as meninas cujos pais as mantiveram na escola são as que mais provavelmente serão convidadas a pagar o investimento entrando na prostituição (Taylor, 2005). Os fatores de “atração”, ou seja, aqueles que criam a demanda nos países de destino, raramente são abordados, porque, no caso do tráfico para a prostituição, significa abordar a própria indústria do sexo e formas de comportamento masculino privilegiado, como o consumo de pornografia, o uso de clubes de strip, a compra de mulheres, que são importantes para a masculinidade e a dominação masculina. Na verdade, mesmo os comentaristas feministas que reconhecem que a prostituição não é uma prática excelente para mulheres provavelmente tomarão uma abordagem “após a revolução” para o tráfico e a prostituição, que é que essas práticas acabarão quando a pobreza das mulheres acabar, de modo que seja a pobreza que deve ser abordada e não a prostituição (Kempadoo, 2004). Mas esta não é a abordagem adotada para lidar com outras formas de violência contra as mulheres, como o casamento forçado e a violência doméstica, mesmo que essas práticas prejudiciais sejam exacerbadas pela pobreza. Nesses casos, é mais provável que seja reconhecido que a legislação e a educação podem desempenhar um papel no fim das práticas.

O Protocolo sobre Tráfico de 2000 trouxe a questão da “demanda” para um foco mais evidente. Ele exige o fim da “demanda” que alimenta o tráfico de mulheres. Artigo 9, cláusula 5 é a seguinte:

Os Estados Partes devem tomar ou fortalecer medidas legislativas ou outras, tais como medidas educacionais, sociais ou culturais, inclusive através de cooperação bilateral e multilateral, para desencorajar a demanda que promove todas as formas de exploração de pessoas, especialmente mulheres e crianças, que levem ao tráfico.

Esta abordagem baseia-se no entendimento de que o comportamento da prostituição dos homens é socialmente construído (Jeffreys, 1997). É um comportamento aprendido e em sociedades onde é socialmente desencorajado ou criminalizado é possível diminuir esse comportamento. O fato do número de mulheres prostituídas escalar em países onde os governos mostram a aprovação social da prostituição, legalizando-a e é muito baixo em países onde os compradores são penalizados é uma boa indicação da utilidade da criminalização. Assim, na Alemanha, onde a prostituição é legalizada, estima-se que 400 mil mulheres prostituídas, que é uma taxa de 3,8 por 1.000 habitantes, enquanto que na Suécia, que penalizou os compradores de serviços sexuais em 1999, a fim de reduzir a demanda, é estimada que existam 2.500 mulheres prostituídas, uma taxa de 0,3 por 1.000 da população (Ward e Day, 2004).

Alguns formuladores de políticas escolheram uma abordagem diferente da abordagem da Suécia, no entanto. Eles têm a ideia fixa de que a indústria da prostituição não é o problema e buscam abordar a demanda por mulheres “traficadas” em particular, deixando a demanda dos homens para usar as mulheres em outras formas de prostituição intactas. Eles promoveram ou criaram legislação que punia os compradores masculinos que usam mulheres traficadas, vendo isso como uma forma de estupro porque as mulheres eram “forçadas” ao invés de exercitar livre escolha. Em 2005, o ministro do Ministério do Interior, Tony McNulty, no Reino Unido, disse ao jornal Observer que os homens que fazem sexo com prostitutas traficadas devem ser acusados de estupro como forma de reduzir o tráfico (Townsend, 2005). No ambiente legalizado da Alemanha, o governo decidiu que os prostituidores deveriam ser alistados na luta contra o tráfico. O espaço de publicidade foi comprado em um site da indústria do sexo em que os compradores holandeses se uniram em rede, para um aviso público pedindo que os homens relatassem se descobriram mulheres traficadas enquanto compravam mulheres para sexo. Os sinais pelos quais as mulheres traficadas poderiam ser reconhecidas eram considerados pouca responsividade ao cliente, contusões e medo (Expatica, 2006). As contusões e a relutância são muito prováveis de encontrar em “prostitutas livres” também e é improvável que seja um guia confiável. CATW comenta nesta abordagem: “Qual melhor maneira de dignificar a demanda masculina pelo sexo da prostituição do que recrutar esses homens ao serviço da identificação de vítimas, as próprias vítimas que eles ajudam a criar!” (Coalizão Contra o Tráfico de Mulheres, 2006). Uma dificuldade com a ideia é que a pesquisa não apoia a visão de que homens que compram mulheres se preocupam se foram traficados ou não. Na verdade, um estudo de 2007 sobre prostituidores em Londres descobriu que eles não foram impedidos de usar as mulheres pela possibilidade de serem vítimas de tráfico (Coy et al., 2007). Isso não deve causar surpresa, já que o mesmo estudo descobriu que mais de três salas viram mulheres que vendiam o sexo como sujas (89%) e inferiores (77%) (Coy et al., 2007). Esse desprezo não é uma boa base para o comportamento ético do consumidor.

Conclusão

Embora possa parecer contra-intuitivo, alguns comentaristas sugerem que a legalização da indústria da prostituição pode ser uma estratégia para acabar com o tráfico de mulheres. Bridget Anderson e Julia O’Connell Davidson, em seu trabalho sobre o fator de demanda no tráfico, permitem a possibilidade de que a regulamentação da indústria do sexo, ao invés de movimentos para abolição, possam inibir a parte da demanda que vem de terceiros (proxenetas) que exploram mulheres traficadas. Eles explicam: “A expansão contínua de qualquer mercado não regulamentado é susceptível de exigir e facilitar a exploração de trabalho vulnerável” e, portanto, um caso pode ser feito “a trazer o setor… do sexo” visível e “regulando-o como qualquer outro setor econômico” (Anderson e O’Connell Davidson, 2003, p. 46). No Capítulo 8, consideraremos se a legalização da prostituição é um meio útil para acabar com os prejuízos da prostituição que foram esboçados até agora neste livro.


[1] Nota da tradução: no original é utilizada o termo “pogrom” que foi traduzido simplesmente como “massacre” de modo a colaborar a fluidez da leitura. No entanto, pogrom significa um pouco mais: o termo implica em um massacre organizado a grupo étnico particular, como é o caso de judeus na Rússia e no leste Europeu.