Consentimento, coerção e culpabilidade

Consentimento, coerção e culpabilidade: A prostituição é um trabalho estigmatizado ou uma prática violenta e exploradora enraizada na desigualdade sexual, racial e de classe?

Por Rachel Moran e Melissa Farley (aqui e aqui)

Traduzido por Carol Correia.

 

Enquanto pedem por fatos em vez de opinião em seu Target Article, Benoit, Smith, Jansson, Healey e Magnuson (2018) omitiram evidências e cometeram erros conceituais. Eles afirmam erroneamente que aqueles de nós que entendem de prostituição como desigualdade sexual, exploração sexual e violência sexual também ignoram a raça e a desigualdade de classe da prostituição. Nós não ignoramos. Pobreza, a falta de oportunidades/educação racista, direcionado a mulheres racionalizadas marginalizadas, com deficiências, ou que sofreram abuso sexual prévio e negligência emocional e física – todos esses fatores canalizam as mulheres para a prostituição, que é o negócio da exploração sexual. A prostituição existe por causa da demanda masculina por ela, e as desigualdades raciais e econômicas tornam as mulheres vulneráveis a ela. Isso significa que a prostituição é produzida a partir de um entrelaçamento de desigualdades sexuais, raciais e econômicas (Frye, 1983; MacKinnon, 2011). A prostituição também está relacionada com abuso e negligência na infância (Farley, 2018; Moran, 2013). Ainda Benoit et al. erroneamente descreveu as seguintes perspectivas como mutuamente exclusivas: (1) “a prostituição é principalmente uma instituição de relações de gênero hierárquicas que legitimam a exploração sexual de mulheres pelos homens” e (2) “prostituição é uma forma de trabalho explorado onde múltiplas formas de desigualdade social (incluindo classe, gênero e raça) se cruzam nas sociedades capitalistas neoliberais.

“De uma perspectiva feminista abolicionista, a hierarquia sexual da prostituição é uma das várias desigualdades que são intrínsecas à prostituição. A desigualdade econômica e a desigualdade racial/étnica coexistem com a desigualdade sexual. Essas desigualdades foram fundamentais para a lei sueca de 1999 sobre prostituição. Na implementação da lei, a Ministra da Igualdade de Gênero, Margareta Winberg, perguntou: ‘Devemos aceitar o fato de que certas mulheres e crianças, principalmente meninas, muitas vezes aquelas que são marginalizadas economicamente e etnicamente, são tratadas como uma classe baixa, cuja finalidade é servir os homens sexualmente?’ (D’Cunha, 2002). Nós repetidamente abordamos essas desigualdades como elementos estruturais do comércio sexual, por exemplo, ‘A prostituição formaliza a subordinação das mulheres por sexo, raça e classe; assim, a pobreza, o racismo e o sexismo estão inextricavelmente ligados à prostituição’ (Farley, Franzblau, & Kennedy, 2014, p. 111).”

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Ligações entre o tráfico e a prostituição

Benoit et al. (2018) deixam de mencionar estudos empíricos, relatórios e dados do governo que fornecem informações importantes sobre a prostituição. O tráfico e a prostituição são a mesma coisa? Alguns colocam toda a prostituição sob o guarda-chuva do “tráfico” e outros colocam todo o tráfico sob o guarda-chuva da “prostituição”. Nenhuma das perspectivas é precisa. O tráfico é prostituição coagida/não-escolhida/involuntária/cafetinada. Observando a impossibilidade de separar a prostituição do tráfico no mundo real, o Relator Especial das Nações Unidas sobre os Aspectos dos Direitos Humanos das Vítimas do Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças, observou que a prostituição praticada “geralmente satisfaz os elementos legais para a definição de tráfico” (Nações Unidas, 2006, p. 23).

Benoit et al. (2018) não incluem provas convincentes da sobreposição entre prostituição e tráfico. Cho, Dreher e Neumayer (2013) descobriram que em 150 países, quando a prostituição era legal, havia aumento do tráfico. Sobreposições semelhantes entre prostituição legal e tráfico foram relatadas na União Europeia (Jakobsson & Kotsadam, 2013; Leem & Persson, 2013; Osmanaj, 2014) e nos EUA[1][2] (Heiges, 2009). Em uma revisão de relatórios sobre adultos em prostituição, 84% foram traficadas ou estão sob controle de cafetão (Farley et al., 2014).

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O número de mulheres que escolhem a prostituição de uma posição de segurança, igualdade e alternativas genuínas é mínimo. O’Connell Davidson (1998, p. 5) observou que apenas uma “pequena minoria de indivíduos” escolhe a prostituição por causa das “qualidades intrínsecas do trabalho sexual”. A prostituição tem a ver com os desejos sexuais de uma pessoa e as necessidades econômicas da outra pessoa. O dinheiro coage a performance do sexo (MacKinnon, 2011). Ter que sorrir enquanto múltiplos homens na idade do seu avô gozam em sua cara não pode ser descrito com precisão como “trabalho sexual livremente escolhido”. Em milhares de entrevistas, ouvimos mulheres, homens e mulheres trans[3] prostituídas descreverem a prostituição como estupro, escravidão voluntária, assinando um contrato para ser estuprado (na prostituição legal), a escolha que não é uma escolha, e como a violência doméstica levada ao extremo. Estas são descrições mais precisas da prostituição do que sexo consentido ou trabalho desagradável. As descrições dos compradores de sexo sobre prostituição espelham as mulheres: “alugando um órgão por dez minutos”, “como uma xícara de café – quando você termina, você joga fora”, “eu uso elas como se eu pudesse usar qualquer outra mercadoria, um restaurante ou uma conveniência pública”,“ Você recebe o que paga sem o ‘não’ ”. 

Estratégias de Redução de Danos não Reduzem a Maioria dos Danos da Prostituição

Pesquisas na década de 1990 reconheceram mais frequentemente as vulnerabilidades sociais que canalizam as mulheres para a prostituição. Pobreza elevada e maior tempo de prostituição foram associadas a mais DSTs e maiores violências (Parriott, 1994; Vanwesenbeeck, 1994). A Organização Mundial da Saúde e os Centros de Controle de Doenças notaram que o principal fator de risco das mulheres para o HIV era a violência (Aral & Mann, 1998; Piot, 1999). Ambos os grupos enfatizaram a importância de abordar os fatores sociais como contribuição para as DST/HIV, notando que desde que as mulheres entram na prostituição como resultado da pobreza, estupro, infertilidade ou divórcio, os programas de saúde públicas devem abordar esses fatores de risco sociais ligados à violência da prostituição. Um risco aumentado de 3-4% de HIV foi anotado para cada mês gasto em um bordel (Silverman et al., 2007).

Em qualquer contexto legal, a prostituição coloca as mulheres em alto risco para o HIV. A ciência atual em relação ao HIV é que as mulheres com múltiplos parceiros estão em maior risco (Coles, 2006; Larson & Narain, 2001). Como as mulheres na prostituição são usadas sexualmente por muitos homens, algumas tendo atendido milhares de homens, elas correm alto risco de contrair o HIV. As mulheres na prostituição são frequentemente estupradas, aumentando o risco de contrair o HIV, entre outros danos (Giobbe, 1991; Jeffreys, 1997; Rossler et al., 2010).

A pobreza das mulheres é uma causa básica do HIV, porque deixa as mulheres vulneráveis à demanda por atos sexuais inseguros. Dada a pobreza e falta de moradia associada à prostituição – 75% das mulheres na prostituição estavam desabrigadas em um estudo realizado em 9 países – as mulheres na prostituição são vulneráveis a serem coagidas por compradores sexuais e cafetões a não usar preservativos (Farley et al. , 2003). Porque os compradores de sexo pagaram mais dinheiro para não usar preservativos, atos sexuais extremamente arriscados “sempre podem ser comprados” (Loff, Overs & Longo, 2003). Uma análise do uso de preservativos na Índia descobriu que, quando as prostitutas insistiam no uso do preservativo, os compradores de sexo lhes pagavam 66-79% menos (Rao, Gupta, Lokshin, & Jana, 2003). Diversos estudos indicam que a maioria dos compradores sexuais não usa preservativos; por exemplo, 89% dos compradores de sexo canadenses recusaram preservativos em um estudo (Cunningham & Christensen, 2001). Os homens se ofereceram para pagar mais por atos sexuais sem preservativo, de acordo com 73% das mulheres em um estudo de vários países (Raymond et al., 2002). Hoje, os bordéis legais alemães anunciam a venda de atos sexuais sem camisinha por um preço mais alto[4]. Apesar das evidências para a associação de pobreza, violência sexual e HIV, um estudo descobriu que menos de 50% dos estudos epidemiológicos sobre risco de HIV entre mulheres na prostituição consideravam determinantes estruturais (Shannon et al., 2015). Argento et al. (2014, p. 2) observaram “… uma escassez surpreendente de pesquisas sobre experiências de violência interpessoal entre populações marginalizadas e estigmatizadas, como profissionais do sexo.” Por que essa falha em abordar os fatores que canalizam as mulheres para a prostituição? Por que o fracasso dos pesquisadores para perguntar sobre a violência do parceiro na prostituição? Quando a única abordagem à prostituição é a redução de danos, e quando a eliminação de danos não é vista como uma opção, então os defensores do trabalho sexual criam uma “toca de coelho” onde a prostituição é considerada desagradável, mas inevitável. “Não seria pelo menos um pouco melhor se fosse legalizada?”, perguntam. “Não haveria menos estigma e as prostitutas não seriam de alguma forma protegidas?” A primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, afirmou que a prostituição é “repugnante”, mas ao mesmo tempo apoiava a lei de descriminalização da prostituição do Partido Trabalhista como forma de reduzir os danos da prostituição (Banks, 2003)[5].

Os defensores do trabalho sexual se concentram em reduzir o estigma social da prostituição. Embora reconheçamos o preconceito social contra a humanidade das prostitutas, que são vistas como mercadorias e não como plenamente humanas, pensamos que existe ênfase excessiva no estigma social como o dano primário da prostituição, geralmente à exclusão de outros danos. Esses outros danos incluem assédio sexual, abuso sexual, agressões e estupros por parte de compradores sexuais, manipulação e controle por cafetões[6]. Quando o estigma social é o único dano a ser enfrentado, parece que o objetivo é obscurecer os danos mais graves e focar nos menos graves, de modo que a prostituição possa ser promovida como trabalho. Alguns profissionais do sexo se defendem ganhando lucros de outros no comércio sexual e não mencionam esse fato. Alguns que se dizem defensores do comércio sexual são, na verdade, cafetões (Bindel, 2017; Farley, 2016).

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Prostituição Legal Não Reduz os Danos da Prostituição

Abordagens legais de redução de danos à prostituição originaram-se em abordagens de redução de danos em saúde pública. A redução de danos na prostituição, como distribuição de preservativos femininos e masculinos, é óbvia. Mas a pergunta impossível é feita: como podemos reduzir a exploração sexual e estupro enquanto alguém está na prostituição? A resposta: nós não podemos.

A abordagem de redução de danos teve uma grande influência na legislação de redução de danos, isto é, na prostituição legal ou descriminalizada. A prostituição foi descriminalizada na Nova Zelândia por uma maioria de um voto de seu Parlamento (maio de 2003). Quatro das cinco razões propostas para a descriminalização da prostituição na Nova Zelândia tiveram a ver com a saúde pública. Apesar da falta de evidências, o argumento em favor da descriminalização da prostituição é que ela reduz o HIV reduzindo a violência e aumentando o uso de preservativos. Enquanto todos concordam que a descriminalização da pessoa que está sendo vendida para o sexo é um passo positivo, a maioria não concorda que descriminalizar os proxenetas/traficantes e chamá-los de “gerentes” é uma boa ideia. Violência de compradores de sexo, controle por cafetões e estigma social não diminuem sob a prostituição legal.

Benoit et al. (2018) não citam evidências significativas sobre as consequências negativas da prostituição legal/descriminalizada. Contrariamente às expectativas, a descriminalização ou legalização da prostituição na Holanda, Alemanha e Nova Zelândia não tornou a prostituição mais segura (Rothman, 2017). Após a legalização em Amsterdã, o crime organizado saiu do controle e as mulheres na prostituição não estavam mais seguras do que quando a prostituição era ilegal (Charter, 2008). Explicando que a prostituição legal não reduziu o crime como os holandeses esperavam, o prefeito de Amsterdã, Job Cohen, explicou que era “impossível criar uma zona segura e controlável para as mulheres que não estivesse aberta ao abuso do crime organizado” (Expatica, 2003). Um relatório do governo holandês de 2007 sobre a prostituição legal descobriu que os cafetões ainda eram um “fenômeno comum… o fato de que o número de prostitutas com cafetões não diminuiu é motivo de preocupação” (Daalder, 2007, p. 67, citado por Watson, na imprensa).

Na Alemanha, Paulus (2014) observou que 95% das mulheres na prostituição legal estavam sob o controle de outros, muitas vezes crime organizados. Achados semelhantes em relação à prostituição legal alemã foram relatados por Kavemann, Rabe e Fischer (2007) e também Spiegel (2013, citado por Watson, na imprensa). Concluindo que “a prostituição não deve ser considerada um meio razoável para garantir a vida”, um relatório do governo constatou que a Lei de prostituição de 2002 não havia feito melhorias na proteção das mulheres na prostituição, não reduziu o crime e não ofereceu às mulheres qualquer meio de escapar da prostituição (Ministério Federal Alemão para Assuntos da Família, Idosos, Mulheres e Jovens, 2007).

Sporer (2013) descreveu as consequências da lei alemã de 2002 sobre prostituição. Os cafetões levaram as mulheres pobres para as cidades alemãs da Hungria, Romênia e Bulgária. Enquanto a polícia acusava os proxenetas de extorsão, sequestro e tráfico, as mulheres estavam tão apavoradas com os criminosos que só estavam dispostas a testemunhar depois que os cafetões foram presos. Mesmo antes de 2002, a prostituição era considerada “contra a boa moral e costumes” – “sittenwidrig”. Embora as mulheres prostituídas fossem marginalizadas, elas não eram totalmente desprovidas de direitos. Algumas leis criminais a protegiam; a lei protegia sua liberdade de ação enquanto se prostituía. Se alguém tentasse controlá-la, dizer-lhe que atos sexuais ela tinha que executar, quanto ela tinha que cobrar, quanto tempo ela deveria trabalhar, ou como ela deveria estar vestida, então essa pessoa poderia ser acusada de crimes de prostituição, tráfico, ou o auxílio e a cumplicidade da prostituição e eles arriscaram uma alta sentença de prisão. Sporer explicou ainda:

A nova Lei de prostituição de 2002 transformou as mesmas ações, as mesmas regras estabelecidas por operadores de bordéis e cafetões, de delitos puníveis em práticas legais – da noite para o dia. A nova lei deu-lhes um “direito de direção” [Weisungsrecht, o direito dos empregadores legais de exercer autoridade sobre os empregados e de emitir instruções vinculativas] sobre as mulheres na prostituição. Eles agora podem legalmente dar ordens às mulheres. Apenas o pior tipo de pedidos, por exemplo, que uma mulher tem que se envolver em práticas sexuais específicas com um parceiro específico, permanecer ilegal. Praticamente todas as outras formas de influência estão bem dentro dos limites desta lei. Eles agora são parte do “direito de direção” exercido por aqueles que administram o bordel. As mulheres já não estão suficientemente protegidas dessas pessoas e, por razões legais, a polícia não pode mais intervir.

Isto é precisamente o que tivemos que experimentar no decurso das investigações contra uma operação de bordel em Augsburg há alguns anos atrás. Descobrimos que as mulheres haviam sido submetidas a regras e regulamentos muito rígidos pelos operadores do bordel. Por exemplo, eles tinham que estar à disposição dos compradores sexuais por 13 horas consecutivas, elas não tinham permissão para deixar o bordel mais cedo, elas tinham que andar nuas, elas nem sequer tinham permissão para decidir sobre os preços de seus serviços. Os preços foram unificados e definidos. Elas às vezes tinham que oferecer sexo desprotegido. E elas tiveram que pagar multas ao bordel por violar qualquer uma dessas regras. Essas condições são degradantes e obviamente incompatíveis com a dignidade humana. Mas o tribunal declarou que tudo isso é legal agora, por causa da nova Lei de prostituição. Isso levou a uma erosão maciça dos direitos das mulheres. O que se desenvolveu é uma relação legalmente instituída de superioridade e subordinação que está sendo explorada pelos exploradores do comércio sexual. Você poderia, portanto, dizer que é uma nova forma de escravidão, sob supervisão do Estado.” (Sporer, 2013, pp. 2–3)

A prostituição foi descriminalizada na Nova Zelândia em 2003. Um relatório do governo de 2008 sobre a lei da Nova Zelândia constatou que após a descriminalização da prostituição, a violência e o abuso sexual continuaram como antes (PLRC, 2008, p. 121): “A maioria das profissionais do sexo achava que a lei pouco podia fazer sobre a violência que ocorria” e que era um elemento inevitável do comércio sexual (PLRC, 2008, pp. 14, 57). Mais de um terço das mulheres entrevistadas após a descriminalização relataram que haviam sido coagidas (PLRC, 2008, p. 46). A maior taxa de coerção por parte dos compradores de sexo foi relatada por mulheres controladas por cafetões ou “gerenciadas” em prostituição de massagem. Como na Alemanha e na Holanda, o estigma social da prostituição persistiu após a descriminalização na Nova Zelândia. O número de compradores de sexo nas ruas duplicou após a descriminalização da Nova Zelândia e uma equipe da agência de extensão de Auckland relatou que elas eram mais frequentemente assediadas pelos homens (Farley, 2009). O New Zealand Prostitutes Collective, um lobista pela lei, não ofereceu apoio programático, como treinamento profissionalizante ou promoção de moradia para a grande maioria das pessoas na prostituição que queriam fugir dela. Em vez disso, vendo a prostituição como um trabalho razoável para as mulheres pobres. o Comitê de Revisão da Lei da Prostituição concluiu: “Para pessoas cujas opções de emprego podem ser limitadas, o trabalho sexual e, particularmente, o trabalho sexual baseado na rua, podem oferecer um meio rápido de obter ganhos financeiros …” (PLRC, 2008, p. 121).

Danos Perpetrados por Compradores Sexuais

Pesquisas recentes demonstram ligações entre as atitudes e comportamentos de compradores sexuais, por um lado, e agressão sexual, incluindo comportamento criminoso (Cho, 2018; Farley, Golding, Matthews, Malamuth e Jarrett, 2015; Heilman, Hebert e Paul-Gera, 2014). Heilman et al. (2014) entrevistaram 1000 homens cada no Chile, Croácia, Índia, México e Ruanda. Nos cinco países, os homens que compraram sexo eram mais propensos a cometer estupro. Em outra série de estudos, descobriu-se que os compradores sexuais geralmente preferiam o sexo impessoal ou não relacional, tinham medo de rejeição por mulheres, cometeram atos sexualmente agressivos no passado e tinham uma auto-identificação masculina hostil (Farley et al., 2015). Mais frequentemente do que os homens que optaram por não comprar sexo, os compradores de sexo aprenderam sobre sexo a partir de pornografia. Como outros homens sexualmente agressivos, os compradores de sexo não tinham empatia pelas mulheres na prostituição. Quanto mais os homens compravam sexo, menos empatia tinham pelas mulheres prostituídas (Farley, Macleod, Anderson & Golding, 2011). “Eu não quero saber sobre ela”, disse um comprador de sexo, “eu não quero que ela chore ou isso e aquilo, porque isso estraga a ideia para mim” (Farley, Bindel, & Golding, 2009). Os homens criam uma versão sexualmente excitante do que uma prostituta pensa e sente que tem pouca base na realidade (Jeffreys, 1997). Contra o senso comum, muitos compradores sexuais acreditavam que as mulheres prostitutas eram sexualmente satisfeitas pelas performances sexuais dos homens. Entrevistas com as mulheres, por outro lado, mostram que as mulheres não são sexualmente estimuladas pela prostituição e, com o tempo, a prostituição prejudica a sexualidade das mulheres (Barry, 1995; Funari, 1997; Giobbe, 1991; Høigård & Finstad, 1986).

Coerção

Ne’Cole Moore, membra da SPACE International[7], observou:

Algo a considerar: a maioria das pessoas que estiveram na “vida” sofreram agressão sexual precoce, vieram de sistemas familiares disfuncionais, estavam “no sistema”, ou seja, assistência social e estabelecimentos de correção. Tinha apoio e supervisão inadequado e estava exposta à violência. As pessoas não precisam ser acorrentadas para ficarem presas na prostituição. Fraude, força e coerção. Porque cafetões usam várias táticas para controlar uma mulher ou criança (Moore, 2016).

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Sexo prostituído é sexo coagido por sua natureza. O dinheiro é a força coercitiva. Se pensarmos no cenário de uma arma carregada apontada para alguém, não teremos problemas em identificar essa arma como um instrumento de coerção. Por causa da estrutura capitalista do nosso mundo, que nos rodeia com a realidade do dinheiro em tudo que vemos, fazemos e experimentamos, temos muito mais dificuldade em identificar o dinheiro como uma força coercitiva, mas é exatamente isso que o dinheiro é. Isto não é necessariamente uma acusação ao capitalismo; há uma grande diferença entre coagir alguém a fazer um sanduíche e coagi-lo a dar as costas e tolerar sexo indesejado.

Sexo indesejado em qualquer outro cenário concebível é identificado como sexualmente abusivo. É somente na prostituição que a natureza abusiva do sexo é negada, e isso é negado porque a coerção em si não é identificada. A prostituição nunca será reconhecida como abuso sexual até que a transação em dinheiro integral seja identificada como coercitiva por sua natureza.

Além disso, devemos olhar por trás do dinheiro com a intenção intencional da pessoa que o usa como meio de coerção, porque a coerção é uma cadeia que começa com a intenção humana. Na prostituição, os homens estão bem cientes de que o sexo envolvido é indesejado, que deve ser coagido com dinheiro antes que a mulher se renda para ele. O ato físico de entregar dinheiro é evidência em si do entendimento de que a situação sexual não aconteceria de outra forma; é evidência da natureza intencional da coerção. A coerção é projetada para criar rendição. Quando trazemos qualquer forma de força para criar a rendição sexual, essa rendição não deve ser confundida com o consentimento sexual. O “consentimento” aqui não é fazer sexo, mas tolerar isso. Essa realidade remove o sexo prostituído do reino do sexo que pode até ser considerado consensual, porque a própria coerção torna impossível o consentimento sexual.

Culpabilidade

A natureza sexualmente abusiva da prostituição tem um elemento adicional não comumente encontrado em outras formas de abuso sexual. Embora muitos sobreviventes de abuso sexual relatem sentir fortes sentimentos de culpa e vergonha, raramente são aqueles sentimentos enraizados em comportamentos ou realidades materiais que seriam recebidos pela sociedade como evidência concreta de culpabilidade por parte dos que sofreram abuso. No abuso sexual da prostituição, a tolerância do sexo indesejado pelo ganho material é absolutamente aceita como prova de culpabilidade, e as mulheres na prostituição são rotineiramente envergonhadas e rejeitadas por isso. Algum depoimento de sobreviventes do comércio sexual estabelece uma distinção entre as formas de trauma experimentadas na prostituição em comparação com formas socialmente compreendidas de abuso sexual, e alguns afirmam que a angústia psíquica do abuso da prostituição é composta muitas vezes pelo senso de culpabilidade contido nele.

Existe um consenso geral de que quase todas as mulheres, mulheres trans e homens na prostituição querem escapar da prostituição. Por que, então, defensores pró-trabalho sexual, como Vanwesenbeeck (2017) e Benoit et al. (2018) perseguem obstinadamente a prostituição legal/descriminalizada ao invés de responder à preferência declarada de indivíduos prostituídos para escapar da prostituição? Mistificado por um “ressurgimento da rejeição ao trabalho sexual” Vanwesenbeeck (2017, p. 1638) e Benoit et al. (2018) não parecem entender que a prostituição não é trabalho e não é sexo, que quase todo mundo quer sair e quando não podem escapar por causa de sua pobreza e do sexismo, racismo e outras opressões estruturais que os enjaula, depois procuram alguém que possa oferecer-lhes a escolha que procuram: sobreviver sem prostituição. Os serviços de saída baseados na escolha devem ser os mais altos na lista de prioridades tanto para as abolicionistas feministas quanto para os defensores pró-trabalho sexual. No entanto, em locais onde a prostituição legal ainda existe, as opções concretas de fuga são diminuídas, não aumentadas (Bindel, 2017). Walby et al. (2016) documentou uma grave falta de financiamento para os serviços de saída e reabilitação. O Conselho de Imigrantes da Irlanda (2018) recomendou que os estados garantissem financiamento adequado de longo prazo para os programas de saída da prostituição. O pensamento progressista sobre essa questão sugere que esses serviços de saída devem estar disponíveis antes (ou pelo menos coincidentemente) de prisões de compradores sexuais a fim de proporcionar uma existência segura e sustentável para mulheres vulneráveis (M. Baldwin, comunicação pessoal, agosto de 2018).

Alternativas às leis de redução de danos/legalização da prostituição são as leis de eliminação de danos aprovadas por vários países que agora reconhecem a prostituição como exploração sexual: Suécia (1999), Islândia (2008), Noruega (2009), Canadá (2014), Irlanda do Norte (2015), França (2016) e República da Irlanda (2017). Essas leis são baseadas em evidências sobre os danos da prostituição. Este modelo de eliminação/abolição de danos mantém os compradores de sexo e os cafetões responsáveis pelos danos perpetrados contra aqueles que se prostituem, enquanto descriminaliza os que estão na prostituição e oferece às mulheres a opção de sair através da prestação de serviços.

A noção de que “serviços corporais” – isto é, prostituição – pode ser fornecida sob “condições humanas, totalmente consensuais, controladas pelos trabalhadores, livres de discriminação e violência, e não mais exploradoras do que o trabalho médio” (Vanwesenbeeck, 2017, p. 1632) é um mito. “Era uma vez”, escreveu a congressista estadunidense Maloney (2004, p. Xiii), “havia a crença ingênua de que a prostituição legalizada melhoraria a vida das prostitutas, eliminaria a prostituição em áreas onde permanecia ilegal e tiraria o crime organizado dos negócios…. Como todos os contos de fadas, isso acaba sendo pura fantasia.” Sabrinna Vallisce, uma sobrevivente da Nova Zelândia explicou:

Quando a Nova Zelândia passou por uma total descriminalização, as coisas mudaram de formas inesperadas e passei a entender que os mitos de proteção legal, autonomia, aumento de escolha e maior aceitação da comunidade eram infundados. O mito da saúde sendo melhorada foi provado falso em menos de 6 meses da reforma da lei. As mulheres estavam beijando e arriscando herpes, fazendo sexo oral sem preservativos com o risco de verrugas na garganta, fazendo práticas mais ásperas e arriscadas apenas para conseguir os empregos. Eu lidei com os compradores sexuais mudando as expectativas. Eu não tive escolha a não ser lutar contra esse modelo se espalhando para outro país (Vallisce, 2017).

Agradecimentos: Obrigada Inge Kleine e Ingeborg Kraus por informações sobre locais na Alemanha onde o sexo sem camisinha é promovido. Obrigada Katharina Bracher pela ajuda na tradução da Realidade da Prostituição do Detetive Inspetor Helmut Sporer, 2013.

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[1] Survivors of Prostitution Abuse Calling for Enlightenment (SPACE International), Dublin, Republic of Ireland

[2] Prostitution Research and Education, P.O. Box 16254, San Francisco, CA 94116-0254, USA

[3] Usamos as palavras escolhidas pelas próprias mulheres para se descreverem.

[4] Os atos sexuais sem camisinha foram publicados em traummaenlein.de e em vários outros sites que anunciam prostituição. Alguns deles foram discutidos por Heiliger (2014).

[5] Uma abordagem apenas de redução de risco rejeita as alternativas para a eliminação de riscos: não entrar na prostituição ou ajudar os indivíduos a evitar completamente esses comportamentos altamente arriscados. Em seu extremo, uma abordagem de redução de danos torna-se uma ideologia de laissez-faire mais preocupada em proteger os direitos individuais de certos comportamentos, não importa o quão arriscados sejam, do que proteger a saúde desses indivíduos e do público (Green, Farley & Herling-Ruark)., 2009).

[6] Esses danos foram documentados em uma extensa literatura global (por exemplo, ver Barry, 1995; Brody, Potterat, Muth e Woodhouse, 2005; Cho, 2018; Deering et al., 2014; Farley, 2017; Farley & Kelly, 2000). Giobbe, 1991; Høigård & Finstad, 1986; Ling, Wong, Holroyd e Gray, 2007; MacKinnon, 2011; MacKinnon & Dworkin, 1997; Moran, 2013; Oram, Stõckl, Busza, Howard e Zimmerman, 2012; Potterat et al., 2004; Rothman, 2017; Comissão Especial de Pornografia e Prostituição, 1985; Walby et al., 2016; Zimmerman et al., 2006).

[7] SPACE International – Sobreviventes da prostituição e do abuso chamando por esclarecimento. O SPACE é uma organização internacional, formada para dar voz às mulheres que sobreviveram à realidade abusiva da prostituição. http://www.space intl.org.

O que há de errado com a prostituição?

Escrito pelo Nordic Model Now

Traduzido por Fernanda Aguiar para o AntiPornografia; revisado por Carol Correia.

Algumas imagens foram retiradas para proteger a identidade. (28/02/19)


Este artigo analisa a prostituição e como ela afeta as pessoas, tendo seus vínculos intrínsecos com pornografia, tráfico sexual e exploração sexual infantil, seu racismo inerente e por que devemos responsabilizar os que a conduzem.

 

G.L. ficou na prostituição por 19 anos a partir dos 18 anos de idade. Em sua submissão a um inquérito australiano sobre a regulamentação dos bordeis, ela disse sobre a prostituição: “A prostituição rouba todos os sonhos, objetivos e a essência de uma mulher. Durante meus anos, não conheci uma mulher que gostava do que estava fazendo. Todas estavam tentando sair.”

G.L. mora na Austrália, onde o comércio sexual é descriminalizado em alguns estados. Em sua apresentação ao governo australiano, ela conta como quando ela estava tentando sair, ela continuava pensando: “É legal, então não pode ser tão ruim assim”. Então ela disse a si mesma para lidar com isso e continuou, “apesar de que ser uma vida de completa miséria”.

Ninguém avisou G.L. sobre o que seria e como isso afetaria ela ao longo do tempo. Agora ela fala nas escolas, porque quer que as meninas conheçam a verdade sobre a prostituição e como isso prejudica o bem-estar das mulheres.

nordic model now - prejudicial.png

Ninguém disse a essas mulheres quão prejudicial o trabalho com amianto também seria. Esta foto mostra as mulheres que trabalham em uma fábrica de amianto em 1918, quando poucas pessoas sabiam que o amianto causa doenças pulmonares fatais e uma morte lenta e dolorosa. Agora o dano é incontestável e uma proibição total entrou em vigor no Reino Unido em 1999.

nordic model now - compradores sexuais

Antes de olhar para a realidade da prostituição, vejamos quem compra e quem é comprado e vendido. Quase todos os compradores de prostituição — ou clientes, como às vezes os chamamos — são do sexo masculino.

nordic model now - vítimas

E a grande maioria daqueles que são comprados e vendidos na prostituição são mulheres. Em nenhum lugar do mundo existem prostíbulos cheios de homens para uso exclusivo das mulheres.

Neste artigo, nos referimos àqueles que são comprados e vendidos como mulheres e meninas. Fazemos isso por simplicidade e enfatizamos a natureza de gênero da prostituição — e não sugerimos que seja menos prejudicial para meninos, homens e pessoas transgêneros.

nordic model now - suzzan blac.png

Esta pintura poderosa é de Suzzan Blac, uma sobrevivente da prostituição e do tráfico sexual. Observe que a jovem na foto tem uma arma apontando para sua cabeça.

As meninas geralmente não crescem querendo estar na prostituição. Então, o que aconteceu com as meninas e as mulheres jovens para acabarem nisso?

fato_ escolha é complicado(1)

Os testemunhos de sobreviventes e os estudos de mulheres e meninas na prostituição mostram consistentemente que muitas vezes até um terço, estavam em atendimento de autoridades locais quando crianças; cerca de metade começaram na prostituição antes dos 18 anos, ou quando estavam desabrigadas; cerca de metade foi coagida por alguém a entrar na prostituição; e cerca de três quartos foram abusadas sexualmente ​​como crianças.

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Nos últimos anos tem havido um enorme aumento na pobreza no Reino Unido, como resultado de políticas de austeridade do governo, baixos salários, contratos de zero horas, taxas de estudantes e cortes e sanções de benefícios. Isso atingiu as mulheres, especialmente as mães solo, mais vulneráveis.

O filme, Eu, Daniel Blake , mostra a mãe solo, Katie, voltando-se para a prostituição como último recurso. As agências que trabalham com mulheres na prostituição informam que estão a ver isso em todo o país: as mulheres desesperadas se voltam para a prostituição para prover seus filhos.

nordic model now - lucros da cafetinagem

Cafetinagem é extremamente lucrativo. Um proxeneta ganha em média £ 70 por hora por mulher. Compare isso com o salário mínimo para adultos. Mas ninguém realmente quer fazer sexo com até 20 estranhos por dia — então o proxeneta invariavelmente usa força e coerção.

Groom (na prostituição) /Groming: O processo pelo qual alguém com maior poder manipula uma criança ou uma jovem adulta a entrar na prostituição.

Então, o que queremos dizer com grooming? Normalmente, um proxeneta começa por brincar com a necessidade de amor e atenção da menina e seu desejo por uma vida melhor e coisas legais. Ele introduz o sexo comercial dizendo que tem uma necessidade urgente de dinheiro, “Se você me ama, você fará isso”, diz. Logo isso muda para: “Você é apenas uma prostituta. Minha prostituta!” Ele continua alternando manipulação emocional e violência, enquanto vive de seus ganhos, enquanto ela aguentar.

Simplesmente, não há nenhuma maneira de que a maioria das meninas e mulheres jovens, especialmente aquelas de origens problemáticas e cuidados das autoridades locais, tenham a experiência de vida e confiança para entender as segundas intenções por trás desse tipo de manipulação e resistir a isso.

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Todos ouvimos falar dos casos de crianças sendo preparadas por gangues de homens — por exemplo, em Oxford, Rotherham e Rochdale. No caso de Oxford, havia uma estimativa de 373 crianças vítimas, a maioria das quais eram meninas, muitas estavam aos cuidados das autoridades locais, algumas jovens de 11 anos. Elas eram vendidas para homens por até £ 600 por hora.

Isso agora é tratado como “exploração sexual infantil” (CSE), o que deixa claro que a criança não é culpada. Infelizmente, no entanto, obscurece o fato de que os homens comuns na comunidade pagam para alugar as meninas para usar e abusar e obscurece os enormes lucros que motivam os proxenetas.

Há evidências de que isso está acontecendo em todo o Reino Unido.

nordic model now - aspectos chave do trafico sexual

O tráfico sexual é uma forma de escravidão moderna. A definição acordada internacionalmente está em um tratado da ONU que é conhecido como Protocolo de Palermo. As principais características da definição são o uso da força ou coerção, ou aproveitando a vulnerabilidade de alguém, para explorar (ou seja, lucrar com) sua prostituição — independentemente da pessoa ser levada de um lugar para outro. Se a pessoa concordou também é irrelevante, assim como acontece com a escravidão e a tortura.

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A legislação relativa ao tráfico sexual na Inglaterra e no País de Gales está na Lei da Escravidão Moderna. Infelizmente, não usa a definição do Protocolo de Palermo. Porque, se o fizesse, seria claro que o tráfico sexual é essencialmente o mesmo que a grande maioria do proxenetismo. E porque a maioria das mulheres e meninas na prostituição é cafetinada, isso significa que a maioria da prostituição realmente atende a definição internacional de tráfico sexual.

nordic model now - catharine mackinnon.png

Ou, como disse a professora de direito, Catharine MacKinnon , “o tráfico sexual é, simplesmente, proxenetismo”. Ela diz que, embora ninguém defenda o tráfico sexual, as pessoas tentam redefini-lo para cobrir o menor número possível de casos, de modo que nada mude, e, como sociedade, não tenhamos que olhar para o papel central da prostituição nele.

O tráfico de seres humanos não é apenas uma violação grotesca dos direitos humanos, é um crime lucrativo. É o terceiro crime mais lucrativo do mundo após o tráfico ilícito de drogas e armas.

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Este mapa mostra como os traficantes movem mulheres e meninas ao redor do mundo para encontrar os apetites insaciáveis ​​dos homens pela prostituição. Pensando na economia global, podemos ver que os países de origem são os mais pobres e os países de destino são os mais ricos.

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O racismo é uma característica central da prostituição, com mulheres negras e asiáticas submetidas a algumas das piores brutalidades. Aqui está um anúncio de um bordel de Hong Kong que classifica as mulheres por origem étnica — de modo que a raça está sendo usada como um ponto de venda importante das mulheres, que estão sendo tratadas como um produto ou mercadoria.

nordic model now - ann olivarius

Não é possível separar a prostituição da pornografia — não só porque a pornografia é a própria prostituição filmada e muitas as atrizes foram coagidas a isso e conhecerem a definição de serem traficadas.

Mas também por causa do uso da pornografia na preparação de meninas e mulheres jovens para aceitar prostituição e atos que de outra forma não tolerariam. Na verdade, você poderia dizer que a disponibilidade generalizada de pornografia online prepara todos os nossos jovens para aceitar a prostituição e a objetificação de mulheres e meninas.

Ann Olivarius, uma advogada experiente em casos relacionados à indústria do sexo, diz que algumas das pessoas mais traumatizadas que conheceu são mulheres prostituídas cujos clientes quiserem reencenar as coisas que viram em filmes pornográficos.

nordic model now - realidade da prostituição

Em seguida, vamos analisar a realidade da prostituição, principalmente usando arte gráfica. Você pode achar isso angustiante, mas precisamos enfrentar a realidade, se quisermos entender o que é uma solução apropriada.

nordic model now - esperando.png

A prostituição é, profundamente, baseada em gênero. Aqui está uma foto de mulheres à espera de clientes num bordel de Nevada.

O fluxo de clientes é imprevisível e as mulheres devem manter um estado de prontidão perpétua e competir umas com as outras pela atenção dos homens.

E aqui vemos as mulheres em um bordel parisiense do final do século XIX, alinhadas com suas roupas íntimas para um cliente. Observe que ele está totalmente coberto e ele está as dimensionando como se fossem mercadorias. Observe as expressões nos rostos das mulheres. Compare suas expressões com o cliente.

nordic model now - o que ele compra

Então, o que ele compra?

Ele compra o uso de seu corpo, incluindo sua vagina, ânus, boca e seios. Este é o núcleo da prostituição. Este não é um serviço; ao invés, ele está alugando o uso de seu corpo.

Esta arte autobiográfica, do blog “Brothel Girl” Tumblr, capta brilhantemente a realidade da prostituição. Ao passar, observe a expressão nos rosto dela.

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http://brothelgirl.tumblr.com/

Enquanto ele está usando ela, ela tem que fingir que ela está gostando ou ela tem que representar sua fantasia e ela tem que fingir que acha ele ótimo. Não importa o que ela realmente esteja pensando ou sentindo, ela tem que manter esse fingimento.

Isso faz parte do acordo. Parte do que ele está comprando.

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Ele compra o “direito” de dizer o que quiser, não importa o quão insultante. Os compradores geralmente as chamam de coisas como “vadia” e “puta”. Isso faz parte do acordo também.

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Ele compra o “direito” para estar no controle.

Aqui o vemos se envolver em “reverso oral” ou cunnilingus. Esta é uma parte bastante padrão da prostituição “interno”. Claramente, não se trata dela atingir o clímax; é sobre ele exigindo que ela tenha uma resposta sexual a ele. Talvez isso o ajude a fingir que é um acordo consensual.

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O encontro da prostituição ocorre fora das convenções sociais normais. Nas palavras de Julia O’Connell Davidson, ele pode tratá-la como se ela estivesse socialmente morta; como se ela não fosse um ser humano. Ou nas palavras de uma sobrevivente, “como um banheiro público”.

E se pensarmos sobre as expressões das mulheres quando elas estão em uma fila para serem selecionadas, espera-se que ela pareça disposta. E o cliente interpreta isso como uma escolha livre para se envolver no encontro.

nordic model now - tratar pessoas

O que significa para a sociedade se pudermos tratar algumas pessoas como se elas não fossem seres humanos?

nordic model now - o que significa pra ela

E o que significa para ela?

Pense sobre sua própria resposta para um estranho tateando seus seios ou os tocando ou agredindo sua sexualidade. Obviamente, as respostas variam, mas geralmente incluem emoções como alarme, desgosto, medo, raiva, violação.

No entanto, tais atos são a essência da prostituição.

nordic model now - consequências 1

Então, para existir na prostituição, você deve suprimir suas respostas involuntárias e até fingir que está gostando. Isso requer dissociar de seus sentimentos, de seu verdadeiro eu. Isso pode causar dificuldades psicológicas a longo prazo. E muitas mulheres se voltam para drogas ou álcool apenas para suportar isso.

Embora algumas mulheres entrem em prostituição para financiar um hábito de droga, é mais comum recorrer a drogas ou álcool uma vez que você está na prostituição — porque é a única maneira de suportar isso.

nordic model now - citação estupro

Aqui está uma citação de uma sobrevivente da prostituição que ilustra isso: “Eu entorpeci meus sentimentos… Na verdade, eu deixava meu corpo e iria para outro lugar com meus pensamentos e sentimentos até que ele fosse embora e acabou. Não sei como explicar, exceto que parecia um estupro. Foi um estupro para mim”.

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Alice Glass diz que todas as mulheres prostituídas que conheceu durante seus dez anos de prostituição “levaram consigo os mesmos feixes de neurose, vícios e melancolia. Sem exceção”.

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O PTSD (transtorno de estresse pós traumático) é um transtorno de ansiedade que se desenvolve em resposta a experiências traumáticas ou que ameaçam a vida, como guerra, violência sexual ou acidentes. Os sintomas podem ser fisicamente e emocionalmente paralisantes e às vezes são atrasados ​​por meses ou mesmo anos. E eles geralmente são piores quando o trauma é deliberadamente infligido por um ser humano ou repetido ao longo do tempo.

Em um estudo, 68% das mulheres em prostituição preencheram os critérios de PTSD. Esta é uma prevalência semelhante ao observado nos veteranos de combate.

nordic model now - consequências 3

Um estudo alemão com base em exames médicos de 1.000 mulheres na prostituição encontrou que:

  • A maioria sofre de dor abdominal inferior crônica causada por inflamação e trauma mecânico.
  • A maioria mostra sinais de envelhecimento prematuro, um sintoma de estresse persistente.
  • A maioria teve lesões causadas pelo uso excessivo de seus órgãos e orifícios sexuais sensíveis.
  • A maioria teve lesões deliberadamente infligidas por clientes.

Essas coisas tornam as mulheres mais vulneráveis ​​a infecções. Os preservativos não as protegem de nada disso. Pressões financeiras ou outras significavam que a maioria das mulheres tinham que continuar na prostituição, mesmo que estivesse sofrendo dores físicas severas.

Então, vejamos essa categoria de “ferimentos deliberadamente infligidos por compradores sexuais”.

nordic model now - violência

Neste estudo, as mulheres relataram sofrer uma quantidade impressionante de violência física por parte dos compradores sexuais. Quase dois terços tinham sido ameaçadas com uma arma, quase três quartos tinham sido agredidas fisicamente e mais da metade havia sido estuprada (o que, nesse contexto, significa sexo indesejável para o qual não foram pagos). Das que foram estupradas, quase 60% foram estupradas seis ou mais vezes.

Outros estudos encontraram resultados semelhantes e o testemunho de sobreviventes conta a mesma história.

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Brenda Myers-Powell, que estava na prostituição há 25 anos, foi baleada cinco vezes, esfaqueada mais de 13 vezes, foi espancada até ficar inconsciente várias vezes, teve o braço e o nariz quebrados e dois dentes arrancados aos socos.

As mulheres prostituídas também têm maior probabilidade de serem assassinadas. Principalmente por clientes e proxenetas.

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Esta figura mostra os números (em abril de 2016) dos assassinatos registrados conhecidos de mulheres prostituídas em diferentes períodos de tempo em quatro países da UE, três dos quais (Alemanha, Espanha e Holanda) têm alguma forma de prostituição legalizada e um, a Suécia, que tem o modelo nórdico.

Embora o modelo nórdico não faça a prostituição segura — porque nada pode fazê-la segura — reduz a quantidade que ocorre e, portanto, o número de novas mulheres que estão sendo atraídas para dentro dela; e fornece rotas genuínas para aquelas já envolvidas. Se analisarmos as estatísticas de assassinato nesses diferentes países, podemos ver fortes evidências de que essa abordagem funciona.

Mas muitos assassinatos de mulheres prostituídas não são relatados.

nordic model now - rebecca mott

Rebecca Mott, uma sobrevivente da prostituição “interna” e ativista do modelo nórdico, diz:

“É normal que os corpos de mulheres e meninas prostituídas sejam feitos a desaparecer pelos beneficiários do comércio sexual. Eles saem impunes, porque eles assumem que ninguém se preocupa sobre sua segurança. Os prostíbulos são feitos para serem isolados e seus desaparecimentos muitas vezes não são relatados”.

nordic model now - mortalidade de prostituidas

Mas não é apenas um assassinato. As mulheres na prostituição têm uma taxa de mortalidade muito alta. Um estudo no Canadá estimou que a chance era 40 vezes maior do que as mulheres na população em geral. As mulheres em prostituição “interna” em particular têm uma taxa de suicídio muito alta. Em um estudo, 75% das mulheres em prostituição “de acompanhamento” tentaram suicídio.

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Isso não deve nos surpreender, porque um estudo depois mostrou que a maioria das mulheres diz que quer abandonar a prostituição, mas não tem outras opções de sobrevivência. Nesse estudo, 89% das mulheres entrevistadas disseram isso.

nordic model now - fatores que dificultam

Na maioria das vezes, as mulheres continuam por causa da ausência de alternativas viáveis. Vejamos por que é tão difícil sair. Fatores comuns incluem: não ter treinamento ou qualificações, ser dependente de drogas ou álcool, estar sendo coagida por um “namorado” ou proxeneta, estar com dívidas e ter antecedentes criminais.

O trabalho de muitas mulheres não qualificadas requer uma verificação de antecedentes criminais. Um registro criminal, portanto, descarta muito trabalho potencial. Esta é uma das razões pelas quais não estamos apenas fazendo campanha para a descriminalização da prostituição, mas também pela remoção de seus antecedentes criminais para solicitação e para serviços de alta qualidade que fornecem uma rota genuína. E o fim da desigualdade estrutural que deixa muitas mulheres em extrema pobreza.

nordic model now - consequências de ter estado na prostituição

E quando as mulheres conseguem sair, os efeitos continuam. Angel, uma sobrevivente da prostituição, diz:

“Eu ainda estou lidando com as consequências de ter estado na prostituição. Eu tenho pesadelos, flashbacks e tenho gatilho por várias coisas. Eu acho difícil confiar nas pessoas, particularmente nos homens, e ainda luto massivamente em torno do sexo. Eu ainda me dissocio e sinto que me separei de mim mesma. Eu ainda me defino por essas experiências e me destrói quando programas como, Diary of a call girl estão na TV. Isso me faz sentir sozinha e completamente miserável pelo barulho do todo poderoso lobby da indústria do sexo”.

Então só temos isso. Para as mulheres envolvidas, a prostituição traz um risco muito elevado de problemas graves de saúde a longo prazo, psicológicos e físicos, desespero suicida, ser espancada, estuprada e até mesmo assassinada. Nenhuma outra ocupação traz riscos tão elevados.

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É hora dos perpetradores — os proxenetas e os clientes — serem responsabilizados por esse caos que eles causam.

Então, quem são os clientes?

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Eles são homens de todas as idades, raças, religiões e origens. Eles são ricos e são pobres. Ninguém sabe exatamente quantos homens fazem isso. As estimativas variam de cerca de 10% para cerca de 80% da população masculina adulta.

Para dar um exemplo de suas atitudes, analisaremos algumas citações dos fóruns de clientes onde eles podem inserir suas impressões das mulheres que compram.

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“Ela era apenas um pedaço de carne… Eu pensei já que eu paguei, então é bom que eu a foda com força! Eu decidi colocar as pernas em meus ombros e eu bombeá-la com força!”

Observe como ele se refere a pernas como se elas não estivem conectadas a um corpo.

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Aqui está mais um:

“Quando eu perguntei sobre anal, fui informado que não estava disponível no primeiro encontro! Bem, eu não vou começar um relacionamento com você, querida. Eu só quero te fuder na bunda!”

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Estudos sobre compradores sexuais descobriram que eles gostam da falta de envolvimento emocional e veem as mulheres como mercadorias. Um cliente disse:

“A prostituição trata as mulheres como objetos e não seres humanos”.

Os clientes muitas vezes expressavam agressão em relação às mulheres e eram quase oito vezes mais prováveis ​​do que os não-clientes de dizer que iriam estuprar se pudessem não serem presos por isso. Perguntado por que ele comprou sexo, um homem disse que gostava de “bater em mulheres”.

Os clientes cometem mais crimes de todos os tipos do que os não-clientes e cometem todo tipo de violência contra as mulheres.

Vamos pensar nisso por um minuto. Nós vimos anteriormente que a prostituição envolve sexo com uma mulher que na verdade não a quer. Não é essa a essência do estupro? Pagar realmente muda isso?… É realmente surpreendente que a compra da prostituição torna homens mais propensos a estuprar?

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Os resultados dos estudos de clientes são confirmados por estudos que começam por olhar homens violentos. Por exemplo, aqui está um gráfico que mostra o significado relativo de diferentes fatores na vida dos estupradores. Quanto maior o círculo, mais importante é o fator.

Não surpreendentemente, o “sexo transacional”, ou seja, a compra de prostituição (que é destacada em amarelo) é o segundo maior fator e anula coisas como homens que foram vítimas de abuso infantil.

Os resultados para homens violentos para seus/suas parceiros/as foram semelhantes.

Como podemos ver, isso mostra uma correlação muito alta entre comprar sexo e estuprar as mulheres — então, isso sugere que a própria compra de prostituição torna os homens mais violentos.

Geralmente, há poucas consequências para os compradores sexuais. Mas, ocasionalmente, os homens no olho público estão expostos. Aqui estão alguns deles. Eles incluem políticos, financiadores, celebridades e esportistas. Estes são os tipos de homens que têm poder, que controlam nossa cultura e leis. Então, talvez não seja surpreendente que a prostituição seja normalizada, trivializada e glamourizada em todos os lugares.

Mecanismos de sobrevivência e ligação traumática na prostituição

Escrito por Manuela Schon

Traduzido por Winnie Lo para o QG Feminista

Exceto onde um link indique o contrário, todas as citações de sobreviventes são do livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade [Narrativas da Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio Sexual], editado por Caroline Norma e Melinda Tankard Reist, Spinifex Press: 2017.


você é
Detalhe de “Self-esteem” [Auto-estima], de Kiran Foster: ”Você é… talentosa, única, não é um erro, creativa, importante, amada, valorosa, excelente, querida, especial, inestimável, aceita, maravilhosa, linda, uma estrela”

Esse artigo, de uma ativista feminista alemã, Manuela Schon, foi primeiro publicado em alemão no site Abolition 2014 e depois traduzido para inglês por Elisabeth Lauer.

Salvo onde um link indique de outra forma, todas as citações de sobreviventes são do livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade [Narrativas da Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio Sexual], editado por Caroline Norma e Melinda Tankard Reist.

 

Ela foi obrigada ou escolheu?

“Fomos quebradas. Fomos dilaceradas. Fomos de $20 a $5,000 e a sensação é a mesma. A gente se sente como $2. Não existe diferença: classe alta, classe baixa. Já fiz de tudo e ainda me sinto a mesma coisa.” – Ne’cole Daniels

“Eu fui uma acompanhante de luxo, e dizíamos a nós mesmas que o que estávamos fazendo era tão melhor que o que prostitutas faziam nas ruas e em bordéis sórdidos. Mas o fato é que fazíamos exatamente a mesma coisa: sexo de mentira em troca de dinheiro de mentira. Não fazia diferença se os lençóis eram limpos.” – Tanja Rahm

Nos debates em torno da prostituição, as mulheres muitas vezes são divididas em dois grupos: aquelas que foram obrigadas a se prostituir e aquelas que “escolheram” isso. A definição de “força” ou “coerção” pode variar, mas a lógica é sempre a mesma. Há mulheres forçadas a se prostituir por meio da violência ou da coerção econômica e elas merecem a nossa compaixão. Depois há aquelas que “livremente” escolheram isso, mesmo que tenham alternativas – por exemplo, se são nativas em um país como a Alemanha e têm acesso ao serviço social e a benefícios de desemprego – diferente da mulher romena pobre, que não recebe qualquer apoio do estado e vive numa favela em seu país de origem. Ou elas possuem um diploma universitário ou aprenderam algum tipo de comércio “decente”. Aos olhos de alguns, essas mulheres são responsáveis pela sua própria situação e não merecem a nossa simpatia.

“A realidade é que as Feministas Radicais estão no lado certo da história aqui, e elas são as únicas feministas que têm a visão de conjunto dos motivos pelos quais isso [a prostituição] existe. As Feministas Socialistas têm meu respeito, mas elas não têm o quadro completo aqui. A prostituição não existe como consequência da privação econômica das mulheres. A pobreza é um fator de apoio. Não um motivo. Os fatores de apoio não são motivos. Eles são simplesmente fatores de apoio. A prostituição existe por um único motivo; aquele motivo é a demanda masculina. Nenhuma pobreza seria capaz de criar a prostituição se não fosse pela demanda masculina” – Rachel Moran

Ao debater essa questão, nós negligenciamos o fato de que mesmo mulheres brancas, que estudam em universidades podem viver na pobreza. Elas, também, podem vir de famílias disfuncionais, ter vivenciado violência sexual, física ou emocional e podem estar encenando aquele trauma dentro da prostituição. Como Rachel Moran nos mostra – olhar para a prostituição puramente da perspectiva econômica nos faz perder de vista fatores corroboradores vitais.

“Andrea Dworkin uma vez disse que o incesto é o campo de treinamento para a prostituição. Nas minhas entranhas, eu sabia ser isso verdadeiro. […] Fazer meu primeiro truque foi nada mais do que ser estuprada pelo [meu padrasto].” – Jacqueline Lynne

“Situações traumáticas podem ser viciantes pois causam uma liberação maciça de adrenalina – e isso vicia. Além do mais, uma situação violenta é algo bem reconhecido para pessoas que vivenciaram o tanto de violência que há na prostituição. Aprendi desde a primeira infância: o lugar onde sinto medo, sou machucada e sou degradada é o lugar aonde pertenço. Esse é o lar. Por isso até hoje ainda tenho que lutar em situações que me colocam em perigo e decidir dizer não ao perigo e ir embora. As situações são uma bosta, mas familiares; eu as conheço. Situações sob as quais as pessoas são gentis comigo, não gritam, não espancam, não abusam de mim, são assustadores para mim. Prontamente me sinto inferior. Minha alma dá o sinal: ‘Algo está errado aqui. Isso é estranho.’ A prostituição é como automutilação. Não, a prostituição É uma automutilação.” – Huschke Mau

De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu o corpo serve como um auxílio de memória para qualquer ordem social: “O que o corpo aprendeu não nos pertence da mesma forma que o conhecimento sobre o qual se pode refletir, mas se torna literalmente nós mesmos”. Decorre disso que as estruturas de desigualdade social ou as as hierarquias sexuais não necessariamente precisam ser aplicadas por meio da violência ou da força física, mas que são internalizadas individual e coletivamente de forma inconsciente.

“Toda vez que um homem entrava no bordel, me pagando para satisfazê-lo, eu sentia que tinha algum valor. Não por causa dele, mas por causa do que estava acontecendo, por causa do dinheiro. O dinheiro me seduziu por muito tempo. Sentia que eu de fato valia alguma coisa.” – Tanja Rahm

“Você pode imaginar o quão viciante é o dinheiro e como um emprego normal como faxineira, enfermeira ou mesmo recepcionista seria pouco atraente para alguém que tenta deixar a indústria do sexo mas não consegue se ajustar a uma renda comparativamente baixa. Também algumas mulheres são viciadas na atenção. Eu sei que eu era. Eu amava ser a escolhida entre todas as outras quando eu era jovem e operada.” – Linda

“Deixei o quarto com dinheiro na minha mão. Achei que fosse dinheiro ‘fácil’. Eu me sentia livre, sem amarras. Eu tinha uma sensação de pseudo-empoderamento sexual. Ao menos eu não tinha que fingir que estava apaixonada. Eu não estava presa em um relacionamento abusivo em curso, ou foi assim que achava.” – Jacqueline Lynne

Para uma pessoa que nunca vivenciou abuso, isso pode a princípio parecer estranho, mas é uma causa recorrente para que mulheres sobreviventes tenham uma sensação de empoderamento por causa da prostituição – com a mentalidade de “já que os homens tiram de mim o que eles querem mesmo, eu vou exercer algum grau de poder e pelo menos fazer com que paguem por isso”.

É verdade que as mulheres empobrecidas perfazem uma proporção maior daqueles em situação de prostituição do que mulheres de famílias abastadas. Contudo, nem toda mulher pobre possui a mesma propensão de acabar na prostituição. Os estudos têm demonstrado que mesmo as mulheres traficadas das favelas do Leste Europeu têm maior probabilidade de serem oriundas de uma experiência familiar disfuncional.

Hoje o mercado de prostituição alemão está saturado de mulheres pobres e estrangeiras. Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1990 a maioria das mulheres prostituídas eram alemãs. Mas as mulheres estrangeiras, que enfrentam opressão tanto de raça quanto de classe, são bem mais fáceis de chantagear e por isso a gama de etnias em oferta nos bordéis se expandiu ao longo dos últimos anos – sem dúvida auxiliado pelo impacto de temas racistas na pornografia sobre as demandas sexuais dos compradores de sexo. Já que as mulheres alemãs em comparação possuem mais opções para ganhar a vida (embora o seguro desemprego não garanta isso necessariamente), elas não mais perfazem a maioria das mulheres em situação de prostituição.

Prostituição como o re-encenação de trauma anterior

Se começarmos a reconhecer a prostituição como comportamento de automutilação e re-encenação do trauma vivenciado por mulheres prostituídas, também precisamos indagar se as mulheres alemãs de classe média não vivenciam também abuso em áreas da sociedade (por exemplo a promiscuidade via sites de namoro; sem recompensa monetária dentro do BDSM; ao buscar validação em reality shows ou redes sociais etc.).

“É difícil se valorizar quando você já foi vendida pelo preço de um maço de cigarros.” – Jade

“Na época eu não entendia o mal que os homens faziam a mim, à minha sexualidade, à minha confiança, à minha autoestima e em última análise a minha alma. […] A consequência pesada de ser prostituída e abusada sexualmente era que eu não podia confiar nas pessoas e eu não podia exercitar uma forma saudável de intimidade.” – Kat

A sensação de empoderamento ou agência é, entretanto, uma ilusão. Uma ilusão, que necessita ser mantida viva a qualquer custo, a fim de sobreviver a realidade cotidiana da prostituição.

“Quando você está na prostituição, você internaliza a violência. Você escuta as mesmas coisas repulsivas de novo e de novo quando a chamam de puta, vadia, burra ou nojenta. Mas ainda assim você defende a sua ‘livre escolha’ e diz que a prostituição é só um trabalho comum, porque perceber a verdade é esgotante demais. Você se dissocia dos homens e das ações deles, porque ninguém possui o psique para estar presente nos atos de violência da prostituição.” – Tanja Rahm

A longo prazo sua auto-estima é destruída e a sua autopercepção se transforma gradualmente no que os compradores de sexo estão projetando nela.

“A palavra ‘prostituta’ não implica numa ‘identidade mais profunda’: é a ausência de uma identidade: o roubo e subsequente abandono de si.” – Evelina Giobbe

A pessoa prostituída – por meio dos compradores de sexo – é transformada numa “não-pessoa”. A personalidade dela é irrelevante, ela é objetificada e convertida em ferramenta para a masturbação dele, sobre a qual ele se descarrega. Não importa se ele paga a noite com um maço de cigarro ou cinco mil euros. Também não importa se ela está rodando a bolsinha na rua ou é uma “acompanhante de luxo”. A natureza do ato permanece inalterada.

“Cada menina tem um nome de trabalho. […] Esses nomes são alter egos, não um nome falso para proteger a própria identidade como eu pensava no início. Era como nomes de palco para ajudá-las a se encaixar na personagem e fugir de si mesmas.” – Jacqueline Gwynne

“Nos quartos, você precisa fingir que gosta do sexo. […] Para que os clientes voltem, cada menina precisa não apenas fazer sexo, mas realmente fingir que gosta da experiência toda. […] Eu sabia como fingir, pois me sentir entorpecida e morta sexualmente perto de homens. […] Eu aprendi a fazer sexo assistindo ao pornô. […] Eu sabia que as mulheres do pornô estavam atuando porque a penetração sempre tinha sido dolorosa para mim.” – Linda

“Acho mesmo que nossas visões são legitimadas pelo fato de que não temos mais necessidade emocional de defender a indústria. Eu tive muita dissonância cognitiva quando estava no ramo.” – Rae Story

As mulheres prostituídas têm de fazer de conta para se proteger. Os compradores de sexo esperam que ela os faça como se ela gostasse daquilo. O orgasmo feminino é parte do jogo de poder masculino ou como Bourdieu dizia: “O prazer masculino é, em parte, o poder de dar prazer”. Além disso pode-se supor que os compradores de sexo precisam disso a fim de acalmar os ânimos sobre as próprias ações deles, para que eles possam se enganar de que o outro lado deseja a interação sexual tanto quanto eles desejam – e que eles não estão em lugar disso cometendo estupro. Como mostram as pesquisas (por exemplo, nessa de Farley et al): os compradores de sexo sabem exatamente o que estão na verdade fazendo às mulheres prostituídas quando eles compram acesso a elas.

“[A prostituição] é o uso do corpo de uma mulher por um homem para sexo, ele paga dinheiro, ele faz o que ele quer. O minuto em que você se afastar do que realmente é, você se afasta da prostituição em direção ao mundo das ideias. Você se sentirá melhor; você se divertirá mais; há muito a se discutir, mas você discutirá ideias, não a prostituição. A prostituição não é uma ideia. É o uso do corpo de uma mulher por um homem para sexo, ele paga dinheiro, ele faz o que ele quer…É a boca, a vagina, o reto, penetrados em geral por um pênis, às vezes mãos, às vezes objetos, por um homem e depois outro e depois outro e depois outro. É isso que é.” – Andrea Dworkin

Mudando o foco para o comprador de sexo

No debate sobre quanta “escolha” ou “agência” as mulheres prostituídas realmente possuem, sempre se ignora que a natureza da prostituição não muda a partir da posição do comprador de sexo — independentemente do grau real ou percebido de consentimento da parte da pessoa prostituída: a compra de atos sexuais que não aconteceriam em 99,9% dos casos sem a recompensa material (ou de outro tipo). É por isso que a prostituição sempre é a encenação de atos sexuais que não são verdadeiramente desejados e precisam ser classificados como violência sexual. A compra dos atos sexuais está inteiramente centrada no desejo da pessoa compradora ao qual a pessoa prostituída tem de se submeter (mesmo que ela seja uma dominatrix).

Por que mesmo concordamos com esse debate sobre escolha ou força e os graus em que qualquer uma delas pode se aplicar para a pessoa prostituída? Por que em vez disso não apontamos para o fato de que 100% dos compradores de sexo livremente escolhem comprar acesso sexual a pessoas prostituídas?

“Quando falamos sobre prostituição, são principalmente as meninas e mulheres que são colocadas no centro das atenções, e espera-se que justifiquem por que nós fomos parar na prostituição. Não se pede que homens expliquem por que eles prejudicam as meninas e por que eles usam os corpos de meninas e mulheres em situação de prostituição. […] Agora eu sei que não preciso de qualquer justificativa pela maneira como os homens me trataram. Eles me molestaram, eles me assediaram sexualmente, não foi a minha responsabilidade e eu não preciso explicar por que eles prostituíram e machucaram sexualmente uma menina. Nunca a culpa é da menina e sempre são as circunstâncias da menina que a levaram a ser prostituída. […] Não devemos jamais julgar ou apontar o dedo para as mulheres que estão no comércio sexual, qualquer que seja a análise delas sobre a indústria e seus impactos.” – Kat

Em vez disso, colocamos as mulheres prostituídas numa situação em que esperamos que ela nos explique por que ela está se prostituindo. Esperamos que ela revele a história de vida dela, para que possamos julgar se ela merece a nossa compaixão e solidariedade, ou não. Para que possamos julgar se ela teve outras opções, ou não.

Quem se beneficia quando apontamos dedos para mulheres (que foram condicionadas desde a infância a se submeter aos privilégios sexuais dos homens) e dizemos “eu tenho todo esse amor próprio e jamais me prostituiria”? O que estamos comunicando a ela quando afirmamos que preferiríamos heroicamente morrer de fome a dar aos homens acesso sexual aos nossos corpos quando estamos em estado de desespero? Não é compreensível que as mulheres, estigmatizadas socialmente dessa maneira, desenvolvam uma postura desafiadora e tentem criar uma autoimagem de “puta forte e empoderada”, que “não abre as pernas de graça” a fim de proteger a autoestima dela?

Não são as mulheres em situação de prostituição que se rebaixam, mas os homens que compram mulheres e não as veem como seres humanos inteiras e completas de igual valor.

Dissociação e Estresse Pós-Traumático

“Eu tive que contar a mim mesma muitas mentiras, para que minha cabeça não quebrasse em mil pedaços e eu me enlouquecesse por conta do abuso contínuo que estava acontecendo de novo e de novo e de novo, e a violência e tudo o mais que vinha junto com a prostituição.” – Autumn Burris

“Mentalmente, a sua identidade fica bagunçada, você recebe outro nome, você vira outra pessoa na prostituição. Você muda da versão verdadeira para falsificada. Eu estava dissociada da realidade. Eu tinha estresse pós-traumático, andava por aí como se fosse sonâmbula.” – Jade

“A primeira coisa que nós seres humanos fazemos em qualquer situação intolerável e inescapável é apagar a nossa realidade subjetiva. Evadimos e evitamos aceitar a natureza da própria situação. […] Com o advento dessa nova ideologia [do trabalho sexual], entregaram às mulheres todo um novo conjunto de ferramentas com as quais enganar a si e aos outros.” – Rachel Moran

Quando você não vê escapatória, a única estratégia é minimizar o que está acontecendo com você. Como mencionado anteriormente, essa visão positiva forçada sobre a prostituição por si só não leva a qualquer auto-empoderamento material palpável, mas sim aprofunda a destruição do eu.

“Sinto como se eu tivesse tão pouco de ‘mim’ sobrando porque passei tanto tempo da minha vida fingindo ser outra pessoa. Anos depois ainda me sinto como uma acompanhante por dentro, one that hasn’t turned a trick in a while. […] O mundo real não parece real. Sinto que a qualquer momento eu poderia desmoronar e eu estarei de volta num bordel com homem atrás de homem formando filas para deixar mais cicatrizes em mim.” – Kendra Chase

“O problema da dissociação é que uma vez que você sai de uma vida de exploração sexual você não volta simplesmente ao normal. A dissociação se torna parte de como você opera na vida cotidiana.” – Autumn Burris

Isso leva a uma conexão com o sistema de prostituição, que persiste mesmo depois que alguém conseguiu enxergar os mecanismos psicológicos (geralmente com ajuda de terapia) e refletiu sobre o tempo que passou na prostituição.

“Eu me sinto bem-vinda na indústria do sexo, em casa em meio a uma irmandade de desajeitadas. Todo mundo tinha uma história de vida parecida com a minha. Eu não era mais a deslocada. […] Quanto mais tempo eu ficava, mais eu me tornava socialmente isolada. O mundo convencional virou assustador: um lugar onde eu podia ser exposta e humilhada […] Meu coração gritava por ir embora, mas da mesma forma que as mulheres dentro de relacionamentos violentos que se sentem perdidas e despedaçadas por dentro, eu voltaria de novo e mais uma vez. Muitas vezes eu retornava por pura solidão. Eu me sentia mais próxima dos clientes e das mulheres como eu cujos nomes verdadeiros eu raramente sabia do que a qualquer outra pessoa do mundo. Afastar-se era perder essa conexão. Voltar era como o regresso ao lar pelo qual eu ansiava e nunca tive na minha família. Dentro de dias e horas, eu estaria planejando a minha fuga seguinte.” – Christie

“Simplesmente andar pela área ao redor da Estação Central de Frankfurt onde bordéis se erguem de parede a parede me dá uma estranha sensação de estar no lugar errado. Olhando para acima para os ‘puteiros’ e suas fileiras de janelas, sinto uma necessidade irresistível de retornar: lá pelo menos eu saberia como agir, lá eu sei o procedimento, o programa, o que preciso dizer, mas desse jeito como uma espectadora no distrito de luz vermelha… Esquisito. Estar aqui é como voltar ao seu ex que é agressor: é como chegar em casa, tudo é familiar mas ainda assim parece tudo errado.” – Huschke Mau

Os desafios de deixar a prostituição

A prostituição dá às mulheres prostituídas uma sensação de “estar entre as suas”. As mulheres encontram mulheres com histórias de vida semelhantes, tanto antes como dentro da prostituição, embora a divisão social de santa e puta cumpra o seu papel. Por mais estranho que possa soar, a interação social com os compradores de sexo abusivos às vezes pode ser a única da rotina.

“Minha família tinha ouvido falar que eu já trabalhei num bordel e eu ganhei a reputação de ser ‘puta’ mesmo quando estava estudando na universidade. Aquela primeira experiência me maculou aos olhos dos outros.” – Linda

“Quando eu choro hoje é de cura, é de superação, é a vítima que está chorando, é a sobrevivente que está chorando. Estou pensando, ‘É isso mesmo? Eu? Caí fora? E estou aqui? E estou apoiando 150 pessoas que estão saindo?’ Eu jamais teria pensado em estar aqui.” – Ne’cole Daniels

Deixar a prostituição não é apenas difícil por causa da perda do próprio círculo social, mas também porque mulheres desistentes, também, ainda vivem sob risco de terem dedos apontados para elas publicamente e serem tachadas de “putas”. Ex-compradores de sexo, que não são estigmatizados pela sociedade, gabam-se publicamente de “ter pegado umas por aí”. Também há sempre o risco de que gravações de vídeo de uma mulher em situação de prostituição serem publicizadas a qualquer momento após a saída dela.

Não é suficiente satisfazer as necessidades puramente materiais, tais como dar a ela um teto sobre a cabeça ou um emprego. Sair da prostituição com sucesso também envolve um processo psicológico complicado de cortar o cordão de uma vida de comércio sexual.

“A autopercepção desordenada e a autoestima extremamente baixa isolam a maioria das prostitutas dos seus entornos não prostituídos. Depois de passar anos nesse ambiente, a maioria das mulheres simplesmente só conhecem outras que estão nessa vida. É como um mundo paralelo. E às vezes apenas parece ser ‘o mundo verdadeiro’ para você. Pois você não sente qualquer confiança nos outros seres humanos, e sobretudo não nos homens. Você agora sabe e já vivenciou o que são capazes de fazer com o teu próprio corpo, e portanto sabe o que pensar sobre a fachada burguesa que está ‘por aí’. Pois os compradores de sexo não apenas desfilam no ‘submundo’, mas também ‘por aí’, no ‘mundo normal’. Só que lá o que acontece é que você está sendo humilhada como a (ex-)prostituta não somente por eles, mas pelos outros, enquanto os compradores de sexo de fato não sentem vergonha nem cobranças de responsabilidade. Então você pode muito bem permanecer na prostituição: em comparação esse lugar parece um tanto honesto pelo menos, violência em troca de dinheiro, todo mundo sabe o que você está fazendo, faz o mesmo, as regras são claras, assim como os mecanismos.” – Huschke Mau

A idade de ingresso na prostituição é em média de 14 anos. Quando uma menina entra no mundo do comércio sexual e cresce dentro dele, ela tem pouca chance de se orientar fora daquele meio social. O mesmo vale para mulheres que passaram a grande parte da sua vida adulta dentro da prostituição.

Isso significa que uma mulher que deixa a prostituição muitos anos depois não apenas precisa encontrar uma nova forma de garantir uma renda estável, mas também tem de se adaptar à vida e aos desafios cotidianos fora do comércio sexual. Ela pode precisar reconstruir a sua rede social do zero.

“Quando deixamos a prostituição, é só o começo de uma longa batalha de volta para a humanidade, de volta à dignidade, de volta ao autorrespeito e de volta a uma vida que pode se tornar segura. É um renascer, e como um recém nascido não sabemos ou entendemos as regras do mundo ‘real’. Lembro que não sabia como fazer compras, porque os compradores de sexo traziam tantas coisas. Eu não fazia ideia de como pagar as contas, como procurar um lugar seguro para morar, como procurar emprego. Eu não fazia ideia de como ser uma pessoa adulta, pois eu ainda trazia dentro de mim a criança e a adolescente machucadas. Eu estava me afogando, mas não recebia socorro nem apoio – tive que lutar a cada passo do caminho para voltar a algum tipo de vida real.” – Rebecca Mott

“Uma pessoa que tem seus limites violados diariamente e de hora em hora pode não ser capaz de permanecer no meio de outras pessoas, pois o seu sistema interno de alarme irá ficar em alerta direto: ‘Isso é um homem, perigo!’ Eu nem quero começar a falar aqui sobre o que significa estar do lado de fora e ficar engatilhada, ter retrospectivas. Pesadelos e transtornos do sono são exaustivos. É quase impossível manter as aparências e passar para uma ‘vida normal’. E você se sente ‘diferente’ das outras, inferior, mais machucada. Estragada. As pessoas parecem assustadoras, as ‘normais’ mais do que as outras, porque elas a fazem enxergar o que você mesma não é mais: sem preocupações, sem machucados, sem medos. Inteira. Gentil. Bem-humorada.

“Para aguentar a prostituição, você precisa dividir a sua consciência do seu corpo, dissociar. O problema é que você não consegue simplesmente colocar de volta depois. O corpo permanece sem contato com a sua alma, sua psiquê. Você simplesmente não sente mais a si mesma. Levei vários anos para aprender que o que às vezes sinto é a fome. E que isso significa que se deve comer algo. Ou que há uma sensação que quer dizer que estou com frio. E que devo me agasalhar.

“É esgotante aprender ou reaprender que o seu corpo tem as suas necessidades, sentir essas necessidades, e é mais esgotante ainda praticar o ‘autocuidado’. Não mais se tratar como lixo. Dormir quando você está cansada – porque você não está sentada num bordel 24 horas obrigada a receber o próximo comprador de sexo. Que você não precisa mais passar frio porque está se prostituindo na rua com temperatura abaixo do zero. Que você pode mudar as situações que causam dor em vez de eliminar a dor por meio da dissociação, das drogas ou do álcool.

“Mas o trauma não vai te deixar tão facilmente: você se acostumou. Esse fenômeno se chama ‘ligação traumática’ e o motivo pelo qual as mulheres agredidas pelos seus parceiros voltam para eles de novo e de novo.” – Huschke Mau

O que é normal para outras pessoas precisa ser reaprendida, como uma criança que aprende a caminhar. Aquele desafio deve ser enfrentado – sem contar a batalha diária para sobreviver e processar o trauma.

“Desistir da prostituição é diariamente criar a coragem de saber de onde você veio, e usar aquele conhecimento para recusar a automutilação que faz parecer mais fácil voltar à morte que é a prostituição. Diariamente fico atordoada e maravilhada pelas mulheres desistentes que fizeram essa viagem sem terapia com especialista, sem ajuda com habitação, sem saber se poderão ficar com as suas crianças, sem um emprego aonde ir, e geralmente com questões de saúde física e mental via de regra. As mulheres desistentes são as pessoas mais corajosas que eu conheço – pois o mundo dá a elas pouco ou nada, mas elas têm a dignidade e autorrespeito de querer ensinar a verdadeira liberdade e transformação para todas as pessoas prostituídas.” – Rebecca Mott

Sair do sistema de prostituição é um longo processo e realizar isso não é de todo um dado e merece o nosso maior respeito. Quando uma organização como Talita na Suécia consegue oferecer programas de desistência e reabilitação com duração de um ano – é algo a ser comemorado. Mas na maioria dos países aqueles programas de apoio não existem.

Considerando isso, não deveria nos surpreender que muitas mulheres não encontram a porta de saída da prostituição. Ou que muitas vezes são necessárias várias tentativas e muitos contratempos até chegar até o fim do caminho.

Isso é algo que temos que considerar seriamente quando olhamos para mulheres que mudam para o lado dos cafetões – os prostituidores.

Tornando-se uma madame

Mulheres que são traficadas para outros países e vivem sob uma escravidão por dívida podem às vezes se livrar recrutando “a próxima geração” do seu país de origem. Algumas são de fato dispensadas de suas dívidas, mas não outras que são obrigadas a seguir se prostituindo.

“Eu construí um bordel sozinha. Via aquilo como uma maneira de escapar do controle e da direção de outras madames e como uma forma de fornecer um lugar seguro e feliz para as mulheres conduzirem seus negócios. Tentei me convencer de que meu bordel seria diferente. Logo descobri que não era nada diferente.” – Kendra Chase

“Permaneci na indústria do sexo por mais cinco anos. Durante esse tempo eu mesma até virei madame. Isso aconteceu naturalmente pois eu tinha ficado no jogo tempo suficiente para conhecer bem os truques da profissão dos dois lados. Consegui convencer mulheres jovens a começar as suas carreiras como prostitutas. […] Eu me odeio por isso. Não demorou muito para que eu voltasse a trabalhar, a atração do dinheiro para comprar drogas era demais.” – Jade

O ramo da prostituição é autônomo com suas próprias regras e leis. Esse “milieu” [meio social] é uma sociedade paralela em que as instituições comuns não são aquelas que “ditam as regras”. Mulheres pagam para ficar em certos pontos na rua, bordéis e apartamentos de bordéis são mantidos com o objetivo de lucrar. Estudos definitivamente mostram que quem fatura mais não são as mulheres prostituídas, a maioria das quais são dependentes de algum tipo de benefício mesmo durante o tempo em que estão ativas na prostituição.

Mulheres que (parcial ou completamente) mudaram para o lado dos cafetões e começam a ganhar dinheiro prostituindo outras pessoas podem ser capazes de elas mesmas limitar ou desistir da prostituição. Na hierarquia do comércio, entretanto, elas não subiram de degrau substancialmente. Elas são a casta mais baixa da cafetinagem – elas não ganham nem perto do que ganham os “peixes grandes”.

A vantagem de se tornar uma cafetina – em comparação a desistir – é que obviamente a identidade da mulher, que está ligada ao comércio sexual, não está em si ameaçada. Ela não precisa abrir mão da ideia da prostituição como “um trabalho como outro qualquer” e ela permanece no seu entorno familiar, sem ter que aprender a navegar um ordem social inteiramente nova.

Jacqueline Gwynne veio do lado de fora e começou a trabalhar como um recepcionista num bordel, pois a normalização da prostituição na sociedade havia deixado ela sem escrúpulos sobre o “trabalho sexual” e sobre participar desse comércio. Apenas com o tempo ela percebeu que tinha sido de fato uma cafetina. Ela teve de primeiro refletir sobre o que havia acontecido, para entender o seu próprio papel na indústria do sexo.

A importância de respeitar as mulheres prostituídas que discordam de nós

“Ela ficou em pé sobre uma cadeira, imponente over uma audiência que queria me escutar; vaiando, interrompendo e berrando. Eu não sentia raiva ou mesmo incômodo. Estranhamente me identificava com ela. [Pensei que] ela estava com medo. Eu posso enxergar isso porque já senti essa defensividade. ‘Não tire o meu meio de sobrevivência. Não tenho mais nada. Não tenho a quem recorrer.’” – Sabrinna Valisce

Mulheres que estão em situação de prostituição muitas vezes reagem fortemente a mulheres que falam a verdade sobre a prostituição, porque isso ameaça os seus mecanismos de autodefesa e a sua identidade dolorosamente adquiridos.

É por isso que é importante sempre lembrar: as mulheres prostituídas não nos devem nada. Elas podem se denominar da forma como quiserem e interpretar a sua situação de vida como quiserem. Elas não precisam estar sujeitas à nossa opinião sobre a prostituição e elas merecem o nosso respeito independente de se elas partilham do nosso posicionamento político. Estar do lado de fora do comércio sexual e dizer a uma mulher prostituída que ela não está percebendo estado terrível em que está e que ela está minimizando e enfeitando a situação, não a ajuda a lidar com isso – muito pelo contrário: em vez disso ela está sendo humilhada de uma maneira verdadeiramente paternalista.

Todas as mulheres prostituídas têm o direito de participar do debate público sobre a prostituição e as suas vozes são relevantes, mesmo que não necessariamente concordemos com elas – novamente independente de se ela está se prostituindo na rua ou em um estúdio dominatrix. Mesmo com aquelas que não partilham das nossas visões políticas podemos aprender sobre a realidade e o sistema da prostituição.

“Todo marco legal que eu e muitas outras mulheres ao redor do mundo que estão lutando pela legislação alcançarmos, precisamos pagar por isso nos tornando vítimas de uma campanha organizada de abuso e intimidação. Aqueles que fazem campanha contra as leis pelas quais eu luto já têm o meu endereço residencial, dados bancários e e-mail pessoal. Agora o abuso cai direto na minha caixa de correio, além do meu blog, e eu já tive parte do meu endereço residencial tuitado para mim numa ameaça estilo ‘sabemos onde encontrá-la’ […] As pessoas ativamente engajadas nesse comportamento se descrevem como ativistas pelos direitos das ‘trabalhadoras sexuais’. A maioria são mulheres e muitas nunca estiveram em situação de prostituição elas mesmas.” – Rachel Moran

Mas se uma pessoa humilha as mulheres prostituídas que não partilham da visão dela de que prostituição é exploração, que as insulta ou ameaça ou sugere que o que os homens fazem com as mulheres prostituídas é culpa delas, ela merece a nossa mais dura crítica – mesmo que essa pessoa esteja atual ou anteriormente prostituída.

Uma mulher que avança para o posto de madame (sem ter sido contra a sua vontade expressa) deveria obviamente enfrentar consequências legais como qualquer pessoa que se aproveita da prostituição alheia. Eximi-la de toda responsabilidade seria injusto com todas aquelas que decidiram não ir por esse caminho. Ela, contudo, não deve ser colocada no mesmo nível que os homens, que nunca se prostituíram.

O papel da prostituição na manutenção do status de segunda classe de todas as mulheres

Quando a prostituição cumpre a sua função social – ou seja, dar continuidade ao status de cidadã de segunda classe de todas as mulheres sob a hierarquia entre os sexos – nenhuma mulher se aproveita disso socialmente, nem mesmo quando ela está tomando parte do lucro econômico.

“A prostituição não está à parte da sociedade, mas sim precede e é necessário para cimentar o papel tradicional [das mulheres e dos homens] sucessivamente.” – Huschke Mau

A prostituição não é apenas um problema, por conta da exploração de mulheres marginalizadas, desfavorecidas pela sua condição de sexo, raça e classe. Isso também é um problema, pois traz efeitos adversos a TODAS as mulheres, aquelas que se prostituem e aquelas que não. Não apenas em nível individual (infecção por doenças sexualmente transmissíveis, extorsão para favores sexuais etc.), mas também em nível social. Em 1981 Kate Millet rotulou a prostituição como “o exemplo para a situação social das mulheres, uma vez que ela fundamentalmente ainda existe.”

Os rituais sociais assumem a função de separar as mulheres e os homens entre si. Por meio desses rituais os homens travam batalhas simbólicas, que servem ao processo de “desfeminização” ou de maioridade dos homens. O habitus masculino é formado dentro de espaços reservados para homens, onde eles provam a sua masculinidade uns aos outros e reafirmam mutuamente que eles pertencem à classe de “homens verdadeiros”. O corpo feminino é um objeto, circulado entre homens, que serve para aumentar o seu próprio capital simbólico [da masculinidade]. A prostituição é, portanto, uma prática coletiva, tanto quanto individual, que garante a supremacia e o privilégio masculinos (sejam eles compradores de sexo ou não).

O sociólogo Michael Meuser resumiu isso nas seguintes palavras: “A homossocialidade descreve a reserva de certos espaços como esferas restritas aos homens, criando, assim, espaços de onde as mulheres estão excluídas. As sociedades dos homens homossociais são lugares que existem para que homens se assegurem da normalidade e da adequação da dinâmica social deles mesmos. […] Em uma época em que a supremacia masculina está sendo cada vez mais questionada, tais espaços se tornam ainda mais significativas do que eram antes para garantir a hegemonia masculina.”

“Primeira ela precisa provar que possui as visões corretas – só então ela está autorizada a falar – na revista, na TV, nos grupos políticos.” – Andrea Dworkin

Quando nos perguntamos por que é concedido mais tempo de transmissão àquelas [mulheres prostituídas] que defendem a preservação da prostituição, o simples motivo é que isso serve à continuação do status quo. Responsabilizar [essas mulheres] pela existência da prostituição significa transferir a culpa daqueles que possuem poder social e proeminência cultural para aquelas que mal são levadas a sério e são meras fantoches dos poderosos.

Obviamente, nem todas as mulheres são afetadas pela prostituição no mesmo grau, já que é naturalmente faz diferença se uma mulher tem o seu corpo usado sexualmente pelos homens.

Ainda assim é importante notar que a existência da prostituição possui efeitos adversos para todas as mulheres e que por isso todas as mulheres são (principal ou secundariamente) afetadas. O coletivo masculino pode, por meio da prostituição, obter acesso ilimitado ao corpo feminino. Temos que entender que as mulheres prostituídas não são “outro tipo de mulher”, mas sim que QUALQUER UMA de nós poderia estar no lugar dela.

Em vez de sermos paternalistas com as mulheres prostituídas, esperando que elas justifiquem a própria situação e humilhando-as – nosso foco deveria ser diretamente sobre aqueles que são a razão pela qual a prostituição existe: os compradores de sexo e todos os homens que não se posicionam abertamente contra eles, porque estes, também, são beneficiários dos sistema de prostituição – diferente das mulheres.

Políticas quanto à prostituição e o Direito: quais são as opções?

Este artigo, o segundo de uma série de duas partes, investiga abordagens políticas e legais à prostituição e por que o Modelo Nórdico é a abordagem de direitos humanos e baseada em equidade. Para ler a primeira parte da série, veja “O que há de errado com a prostituição?”.

Escrito por Nordic Model Now!

Traduzido originalmente para o QG Feminista

Alguns nomes foram alterados para proteger sua identidade. (28/02/19)


Vamos ver cinco possibilidades; duas das quais — Saúde e segurança e Redução de danos — são abordagens de políticas públicas, e três — Legalização, descriminalização total e o Modelo Nórdico — são modelos legais.

Comecemos com Saúde e Segurança.

 

Saúde e Segurança?

Muitas pessoas argumentam que a prostituição seria mais segura se fosse praticada sob condições saudáveis e seguras. Mas em todas as outras profissões em que há risco de exposição a fluidos corporais, você deve usar máscaras, luvas, óculos especiais e roupas de proteção.

Camisinhas podem sair e estourar e os consumidores de prostituição se recusam a utilizá-la. E elas não protegem contra saliva, suor e outros fluidos corporais. Ou contra lesões e inflamação causados por fricção e por pressão pesada e prolongada. Ou contra os danos psicológicos ou contra violência física proposital.

 

A abordagem de “saúde e segurança”

Padrões de saúde e de segurança requerem que empregadores repensem práticas laborais para eliminar riscos desnecessários. Considerando o nível de danos para as pessoas em situação de prostituição, isso significaria requerer que participantes usassem roupas de proteção completas, além de proibir contato íntimo. Isso, naturalmente, mudaria a natureza da prostituição em si.

Quando não é possível tornar o trabalho seguro, indústrias que não são essenciais fecham — como as indústrias de amianto foram fechadas.

Agora, olhemos para a legalização.

 

Legalização?

Esta foto mostra Eddie Hayson, um dono de bordel da Austrália, que é a favor da legalização, porque isso o redefiniria de cafetão para um homem de negócios respeitável.

Vamos usar a Alemanha como estudo de caso, onde a prostituição é legalizada desde 2002.

A prostituição agora é um grande negócio e gera uma receita gorda em impostos para o governo. Há em torno de 3.500 bordeis registrados e enormes números de bordeis menores em bairros e não registrados pelo país afora.

A propaganda está em quase todo lugar. Apesar de ser proibida em algumas áreas, isso não impede que caminhões de propaganda dirijam e estacionem por aí.

Os preços despencaram. Agora a média é de €30 para sexo em um bordel e €5 na rua. As mulheres devem pagar em torno de €160 por dia por um quarto em um bordel, além de €25 em impostos. Isso significa que elas devem servir 6 homens antes de começar a ganhar dinheiro para elas mesmas.

As práticas estão se tornando mais perigosas e com menos proteção para as mulheres. Existem “menus” em que os homens podem escolher o que querem a partir de uma longa lista, que inclui práticas como o fisting anal (prática de colocar o punho inteiro no ânus), sexo grupal, evacuação (o homem evacuar na mulher), dois homens e uma mulher e pacotes baratíssimos de “tudo o que puder comer” — apesar de mudanças recentes na lei terem banido algumas das práticas mais extremas.

Agora há uma demanda cada vez maior por mulheres grávidas, que devem servir a 40 homens por dia, até o momento de parir.

Megabordeis atendem até 1000 homens de uma só vez e em torno de 1.2 milhões de homens pagam por sexo todos os dias. A Alemanha agora é uma destinação de turismo sexual. Ônibus transportam homens do aeroporto diretamente aos megabordeis, como este mostrado acima.

A polícia estima que exista meio milhão de mulheres em situação de prostituição na Alemanha, das quais apenas 44 mil são registradas. A maioria das mulheres vêm de comunidades pobres da Europa oriental, muitas vindas do tráfico.

Mulheres são transportadas de cidade a cidade, porque homens querem “carne fresca”. Elas vivem nos bordeis, comem e dormem nos mesmos quartos em que servem aos compradores.

Elas vivem em constante medo: de clientes violentos, de não ganharem dinheiro suficiente para pagar os custos diários fixados, de ficarem doentes, de engravidarem, da polícia, dos cafetões, da competitividade…

Um inspetor de polícia diz que a lei tornou a Alemanha num Eldorado para traficantes, cafetões e donos de bordéis.

Essa é uma foto de um bordel na Alemanha ao lado de um McDonalds. Notem as fotos maiores do que o tamanho real de mulheres seminuas — com seios cirurgicamente modificados — em poses pornificadas. Ninguém pode evitar vê-las.

Pense no que isso significa para meninas que estão crescendo, ver essas imagens. E quanto aos meninos? Como isso os afetaria?

É possível equidade entre os sexos num ambiente desses? É possível a própria ideia de equidade?

Ellen Templin, uma dominatrix, explica como a legalização mudou as coisas:

Desde a reforma, as propagandas são mais desinibidas; os compradores, mais brutais. Se você disser, “eu não faço isso”, eles dizem “vamos lá, não seja tão difícil, é seu trabalho”.

Antes, sexo sem proteção era proibido. Agora, eles querem mijar na sua cara, transar sem proteção, fazer sexo oral ou anal. Antes, os compradores ainda tinham a consciência pesada. Isso não existe mais.

 

Resultados da legalização na Alemanha: “O modelo germânico está produzindo o inferno na terra” — Dra Ingeborg Kraus

Dra Ingeborg Kraus, uma psicóloga clínica especialista em trauma, diz:

O modelo germânico está produzindo o inferno na terra. As vidas e os direitos das mulheres são sacrificados, mas pelo quê? É a nossa democracia que está sendo defendida? É para proteger nossa terra da invasão ou de terrorismo? Não, essas mulheres são sacrificadas para que alguns homens possam fazer sexo quando quiserem.

Dois jornalistas concluíram que a intenção de melhorar a situação das prostitutas por meio da legalização na verdade alcançou o contrário.

Mulheres se tornaram um recurso, para serem usadas tão eficientemente quanto for possível para se obter lucro.

Muitas pessoas dizem que “é claro que não queremos o que aconteceu na Alemanha. Lá, a prostituição foi legalizada — o que significa que esteja sujeita a regulamentações. A solução”, eles dizem, “é a total descriminalização, como o que foi feito na Nova Zelândia”.

 

Total descriminalização? Isso inclui a descriminalização de todo o comércio sexual, incluindo a cafetinagem, a manutenção de bordeis e a compra de sexo.

A total descriminalização significa que o comércio sexual, incluindo seus cafetões, donos de bordeis e acionistas, são descriminalizados e tirados da regulamentação — mais ou menos.

E cafetões e donos de bordeis, como John e Michael Chow, acima, são considerados empresários respeitáveis.

 

Nova Zelândia: descriminalização total desde 2003

Primeiro, vamos observar a posição geográfica da Nova Zelândia. Ao contrário da Alemanha, que está no coração da Europa, a Nova Zelândia, um país cuja população é de apenas 4.5 milhões, é peculiarmente isolada. Sua vizinha mais próxima é a Austrália e nos outros três lados há a vastidão do Oceano Pacífico.

Desde que a lei mudou, a Nova Zelândia também se tornou um destino de turismo sexual. Entretanto, seu isolamento e os altos custos para se chegar lá significam números relativamente baixos. Se a Nova Zelândia ficasse na Europa, sem dúvida os números seriam mais próximos aos da Alemanha.

A Nova Zelândia mudou a lei no meio de 2003, quando o Ato de Reforma da Prostituição (conhecido como PRA) foi aprovado. Antes disso, solicitar sexo era ilegal, assim como a cafetinagem e a manutenção de bordeis; e violência policial e corrupção eram comuns. Mas dentro desse cenário as mulheres eram capazes de acertarem os termos elas mesmas com os consumidores e mantinham limites bem definidos, incluindo a proibição de beijos e de sexo sem proteção.

Tudo isso mudou depois da PRA. Bordeis definiram os preços por meio de pacotes de “tudo incluso” e os preços caíram. Os homens começaram a esperar mais, inclusive anal, beijos, e sexo sem proteção. Se antes os homens pagavam pelo ato — diretamente às mulheres — agora eles pagam ao bordel, pela hora ou pela meia hora, e esperam pelo que quiserem quantas vezes for possível dentro daquele tempo.

Apesar de a violência policial ser agora menos comum, mulheres frequentemente denunciam violência por parte dos cafetões e dos consumidores.

As pessoas que faziam campanha pelo PRA queriam melhorar as coisas para as mulheres — dar-lhes mais poder. Mas, assim como na Alemanha, isso não tem acontecido; e, na verdade, teve o efeito oposto. Mais poder foi dado aos cafetões e aos consumidores.

Autoridades locais têm algum poder sobre onde os bordeis maiores são localizados, mas não sobre os bordeis menores, classificados como “Bordeis Operados por Pequenos Proprietários” (da sigla em inglês SOOBs). Isso significa que moradoras e moradores de uma área não podem dizer nada sobre sua abertura em determinado local.

Pense no impacto de ter um bordel na sua rua ou do outro lado da parede compartilhada de seu bloco de apartamentos. Você ia querer consumidores em sua rua ou nos degraus em comum de seu quarteirão enquanto meninas voltam da escola?

Tem havido uma expansão no número de SOOBs, e na prática muitos são administrados por cafetões.

SOOBs são excluídos dos dados oficiais de bordéis, o que portanto fornece uma visão distorcida da realidade.

Desde a mudança na lei houve um aumento significativo de denúncias de estupro, assédio sexual e outras violências masculinas contra mulheres e contra meninas na população em geral. Isso não é uma surpresa, uma vez que houve um aumento na quantidade de prostituição e o que temos visto sobre ela torna os homens mais inclinados à violência sexual.

Aquele gráfico mostra as estatísticas do governo disponíveis ao público sobre crimes quanto ao número de estupros denunciados e de ofensas sexuais sérias. Ele mostra uma tendência de aumento significante em um período em que a maioria dos outros crimes estava diminuindo.

 

Conexões coloniais: a prostituição foi introduzida na Nova Zelândia por homens brancos

A prostituição não existia na Nova Zelândia antes da chegada de homens brancos no meio do século XVII. Os europeus levavam a prostituição consigo a todos os lugares a que iam do mundo. Era uma parte intrínseca ao processo de colonização — separar os homens nativos das mulheres nativas e dificultar que se unam para resistir.

Mulheres e crianças Maori e das ilhas do oceano Pacífico continuam desproporcionalmente representadas na prostituição da Nova Zelândia, muitas como vítimas de tráfico humano. A PRA falhou em acabar com isso.

 

Crianças

“Pelo menos a lei antiga controlava os números, mas sem lei nas ruas, cafetões e gangues tomaram conta do negócio.”

– Mama Tere Strickland, trabalhadora de comunidade na Nova Zelândia.

A lei também falhou em acabar com a prostituição de crianças, o que continua como um grande problema. Mantenhamos a razão para isso firme em nossas mentes: isso acontece porque homens estão dispostos a pagar para alugar crianças para usar e abusar sexualmente.

Mama Tere Strickland, uma trabalhadora de comunidade, disse: “Pelo menos a lei antiga controlava os números, mas sem lei nas ruas, cafetões e gangues tomaram conta do negócio.”

As crianças tipicamente têm um histórico na família de violência e de abuso sexual.

Rachel Moran esteve em situação de prostituição na Irlanda por sete anos, começando aos 15. Ela tem escrito sobre sua experiência, incluindo um livro de memórias best-seller, “Paid for” (“Comprada”, em tradução livre).

Ela passava o tempo atendendo a telefones de bordeis e diz que uma das perguntas mais comuns era, “qual é a idade da menina mais jovem que você tem?”. Isso foi confirmado por outras mulheres, como Jacqueline Gwynne, que foi recepcionista em um bordel na Austrália.

Rachel diz:

Quando eu tinha 15 anos eu era MUITO mais requerida do que quando eu tinha 22 anos, apesar de aos 22 eu ter sido uma mulher magra, bonita e extremamente jovial; mas ali residia o problema. Eu era uma mulher.

A legalização ou a total descriminalização não muda o fato de que o que os consumidores mais valorizam são as meninas mais jovens e inexperientes.

 

O abuso sexual de crianças como treinamento para a prostituição

Tomemos alguns momentos para olhar para as conexões entre abuso sexual infantil e prostituição.

Vimos anteriormente que estudos de mulheres em prostituição invariavelmente descobrem que uma grande proporção foi abusada sexualmente quando criança. Rebecca Mott já falou sobre o clube em que ela foi prostituída aos 14 anos. Havia muitas meninas menores de idade, mas os cafetões procuravam por um tipo específico de menina: o tipo que se odeia, o tipo que já estava em cacos por dentro; o tipo que acha que só presta para agradar aos outros.

Mas a questão é: também funciona no outro sentido. A dinâmica da prostituição imita a dinâmica do abuso infantil.

Rebecca Mott diz:

Consumidores não acham que a violência que eles praticam é real — porque eles veem as mulheres como sub-humanas. Então é um nada acontecendo com outro nada.

As ciências neurológicas demonstram que experiências repetitivas mudam a organização do cérebro. Quanto mais fazemos algo, mais forte é o efeito. Isso significa que quanto mais um homem compra uma mulher em prostituição, mais seu senso de propriedade é reforçado e mais sua empatia por mulheres e por crianças é destruída. Então eventualmente essas atitudes caracterizam todas as suas interações com mulheres e com meninas. E isso diminui as barreiras mentais que o impedem de abusar de crianças.

Para resumir, o que acontece quando um país legaliza ou descriminaliza completamente o comércio sexual? Na prática, há mais semelhanças do que diferenças entre as duas abordagens. Ambas legitimam e normalizam a prostituição, o que invariavelmente leva a um aumento no número de compradores de sexo e de mulheres e meninas prostituídas e de lucros para os cafetões. Isso leva a mais tráfico sexual.

O poder tende a se afastar das mulheres e se concentrar nos cafetões e nos consumidores, então os preços caem e comportamentos perigosos e desprotegidos aumentam.

A situação de todas as mulheres é piorada e há tipicamente um aumento nos estupros e nas violências masculinas contra mulheres e contra meninas na população em geral.

Página inicial do site de uma organização que visa “eliminar a violência contra ‘trabalhadoras do sexo’” (sic)

Agora olhemos para a abordagem de redução de danos. É baseada na ideia de que a prostituição é inevitável e só precisa de algumas medidas para reduzir os danos envolvidos.

A organização National Ugly Mugs é um exemplo perfeito dessa abordagem. Ela mantém um registro de ataques de consumidores e o circula com o objetivo de ajudar mulheres a identificar e a evitar os maus consumidores (os “ugly mugs”). Ela também ajuda mulheres a denunciarem incidentes à polícia.

Obviamente há mérito nisso. Entretanto, a abordagem é baseada na teoria da “maçã podre” — de que não há nada de errado, no sistema em si, há apenas algumas maçãs podres. Mas, como temos visto, a prostituição é inerentemente violenta, coercitiva e desumanizadora, e nunca pode ser segura.

É digno de nota que Steve Wright, um consumidor que matou cinco prostitutas em Ipswich há onze anos, não seria reconhecido como um “ugly mug” — porque as mulheres não viveram para denunciá-lo.

Outra abordagem de “redução de danos” é dar dicas de segurança, como essas.

Observe a dica de amarrar cabelos longos. Inúmeras ocupações fazem com que você faça isso — por exemplo, trabalhos na cozinha. Mas qual profissão faz com que você tenha de amarrar os cabelos para que homens não o usem para te puxar?

À primeira vista, a “redução de danos” é louvável. Mas quanto mais você olha para essas dicas, mais elas começam a se parecer com perpetuação de danos. Elas usam recursos que poderiam ser usados para sair [da situação de prostituição] e para programas de educação. Ao fazer as coisas parecerem melhores, essa abordagem aceita tacitamente a continuidade de uma prática inerentemente danosa. As pessoas do setor raramente, se não nunca, questionam o direito de um homem a comprar o acesso sexual a mulheres — não importa o custo para as mulheres e para a comunidade.

A maioria das organizações de “redução de danos” no Reino Unido estão fazendo campanha para a total descriminalização como há na Nova Zelândia.

E como há na zona descriminalizada de Holbeck em Leeds, onde a prostituição pode operar sem medo de atenção policial entre algumas horas.

A prostituição ganhou passe para seguir indefinidamente em 2016, apesar da impopularidade generalizada com residentes locais e proprietários de negócios e do fato de que um consumidor assassinou Daria Pionko na zona durante o período de testes.

Essa é a abordagem trazida pela National Ugly Mugs, que tem defendendo-a perante a polícia como um modelo para o resto do país. Pensamos que isso é um erro.

Essa imagem mostra um protesto em 1976 sobre os perigos do amianto. Os riscos de saúde já haviam aumentado em 1918 quando esta foto foi tirada; e nos anos 50, já eram indubitáveis. Ainda assim, o banimento completo não se deu no Reino Unido até décadas depois.

O site MosaicScience.com explica por que o banimento demorou tanto:

Traição e decepção científicas, ganância, conluio político, o poder da propaganda e, acima de tudo, disposição a sujeitar centenas de milhares de pessoas vulneráveis a doenças severas e até à morte, em busca do lucro.

Além disso, tirava-se vantagem do fato de que as vítimas eram majoritariamente pobres e da classe trabalhadora.

Nós vemos táticas similares sendo usadas pelo lobby do comércio sexual. Eles redefinem as coisas para obscurecer a realidade e montam grupos de lobby sob nomes que soam neutros. Olharemos para essas táticas em um minuto.

O assédio e a difamação de pessoas que fazem campanha contra o comércio sexual, particularmente contra sobreviventes da prostituição, é generalizada.

Há muitos exemplos de acadêmicos/as que tiram vantagem do fato de que a vasta maioria das pessoas em situação de prostituição são tão marginalizadas que dificilmente têm oportunidade para fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

O lobby do comércio sexual redefiniu a prostituição como “trabalho sexual” e prostitutas como “trabalhadoras/profissionais do sexo” e atuaram para que esses termos se tornassem de uso padrão. Muitas pessoas inocentemente pensam que esses termos são respeitosos. Mas esses subentendem que a prostituição é inócua e que é como qualquer outro tipo de trabalho, quando nada mais poderia ser mais distante da verdade do que isso. Como vimos com o depoimento de G.L., foi essa ideia que a fez pensar que havia algo de errado com ela se ela não gostasse.

Separar o “voluntário” do “forçado” em prostituição é uma tática semelhante, porque subentende que só a prostituição “forçada” é um problema — quando, como temos visto, toda prostituição é danosa e raramente (se não nunca) é uma escolha real e livre para as mulheres que estão nela.

Outro exemplo é redefinir o problema como o “estigma”. Isso sugere que não há nada de errado com a prostituição em si e que o problema é simplesmente as atitudes das pessoas quanto à prostituição.

E assim como o lobby do amianto, há organizações com nomes que soam neutros, como a União Internacional de Trabalhadoras Sexuais, que dá a impressão de que estão lutando por melhores condições para aquelas em situação de prostituição, quando na verdade seu foco é o lobby para que a prostituição seja aceita como trabalho e a favor da total descriminalização.

Alguns desses grupos inclusive são administrados por cafetões e se infiltraram em grandes organizações de direitos humanos. Por exemplo, a Global Network of Sex Work Projects (NSWP — Rede global de projetos de trabalho sexual, em tradução livre), por meio de sua vice-presidente, Alejandra Gil, que agora foi presa por tráfico sexual, foi apontada como co-presidente de um grupo de conselho das Nações Unidas e foi bem-sucedida em elaborar uma política da UNAIDS promovendo a descriminalização tlta.

Douglas Fox, figura central na União Internacional de Trabalhadoras Sexuais, que também já foi preso por cafetinagem, iniciou o movimento, também bem-sucedido, para conseguir que a Anistia Internacional desenvolvesse uma política em favor da total descriminalização.

Os interesses econômicos por trás da indústria do sexo são mais numerosos e interligados do que da indústria de amianto.

Há, é claro, toda a indústria da exploração sexual, que vale bilhões de libras. Mas também há muitos negócios e indivíduos que a sustentam, como as indústrias bancária e de tecnologia da informação, taxistas, seguranças, cafetões, traficantes, recepcionistas, lavanderias. ONGs que ganham doações para o combate ao HIV e para trabalhos de redução de danos; prostitutas de luxo que montam um nicho para si mesmas e glamorizam a realidade; intelectuais da academia e da pesquisa que produzem os estudos que insistem ser a prostituição uma forma de empoderamento. Os governos que aproveitam os pagamentos de impostos, o aumento do PIB e a forma como o papel que a prostituição desempenha como “última opção” para mulheres desamparadas o exime de prover os devidos programas sociais.

E então há os homens. Sabemos que nem todos os homens são compradores. Mas todos os homens sabem que a prostituição está disponível para eles a qualquer momento em que precisarem alimentar seu ego ou descontar suas frustrações.

E, em algum nível, eles sabem que a prostituição sustenta a desigualdade entre homens e mulheres, da qual eles obtêm esse benefício — assim como o predomínio de estupro e de abuso sexual também sustentam.

Mas há outra forma de olhar pra isso tudo: a prostituição, em última análise, torna os homens menos felizes.

Estudo de Harvard: “O aconchego de relacionamentos ao longo da vida tem o maior impacto positivo possível na satisfação de vida”. Dr Robert Waldinger, diretor do estudo

Harvard recentemente completou o estudo mais longo sobre satisfação de vida dos homens que já foi feito. Sua conclusão esmagadora foi que é a qualidade e a proximidade de relacionamentos pessoais, familiares e sociais ao longo de suas vidas que atua como fator mais importante na determinação da satisfação do homem com sua vida, e até de sua saúde física e de sua estabilidade financeira.

A prostituição mina a qualidade e a proximidade desses relacionamentos. É hora de acabar com ela.

Agora, chegamos ao Modelo Nórdico. Como estudo de caso, vamos olhar pra Suécia, que o introduziu pela primeira vez — em 1999.

O Modelo Nórdico (que também é conhecido como “Lei do Comprador de Sexo” — Sex Buyer Law) é uma abordagem à prostituição que começou na Suécia e agora também tem sido adotada por Noruega, Islândia, Irlanda do Norte, Canadá, França e, mais recentemente, pela República da Irlanda. Além de criminalizar cafetões e traficantes, o modelo se apoia em três elementos-chave:

  1. Descriminalização das pessoas prostituídas.
  2. Fornecimento de serviços para ajudá-las a sair da prostituição.
  3. A compra da prostituição se torna crime — com o objetivo de desencorajar os homens.

O Modelo Nórdico foi introduzido na Suécia após uma extensa pesquisa, que incluiu entrevistas bem elaboradas com mulheres prostituídas. Apesar de os pesquisadores serem cientistas sociais com bastante experiência, ficaram em choque com o que as mulheres lhes disseram: ter de dissociar quando os “clientes” as usavam, e como isso se tornava cada vez mais difícil com o tempo; então, eventualmente, elas acabavam se sentindo sem valor, sujas e nojentas.

As pessoas responsáveis pela pesquisa se sentiram aflitas pelo sofrimento das mulheres e pela falta de compreensão, por parte dos “clientes”, das consequências de suas ações.

Compreendeu-se, então, que não faria sentido criminalizar as mulheres que invariavelmente vinham de um histórico de sofrimento e de dificuldades. E então alguém teve a ideia de tornar a compra da prostituição uma ofensa criminal para desestimular os homens. Houve muita oposição à ideia num primeiro momento, mas, aos poucos, reconheceu-se que, combinando-se serviços de alta qualidade para ajudar as mulheres a reconstruírem suas vidas, a lei tinha o potencial de mudar radicalmente as normas sociais.

O objetivo principal de qualquer lei é ajudar a moldar as normas sociais. As leis esclarecem o que a sociedade considera inaceitável e desencoraja as pessoas de fazerem tais coisas. O Modelo Nórdico não é diferente. Ele torna claro que a compra de prostituição é errada e existem sanções que desencorajam as pessoas de fazê-lo.

Os valores de uma sociedade mudam de acordo com o tempo. Nós pensávamos, por exemplo, que fumar era inofensivo, mas então aprendemos que até fumar passivamente é nocivo; e eventualmente mudamos a lei para banir o fumo em locais de trabalho [no Brasil, em qualquer lugar fechado, por exemplo].

No caminho até a mudança, houve resistência. Mas chegou o dia em que todas as pessoas que quisessem fumar num pub iam pra fora [ao ar livre]. No final das contas, até as pessoas que fumam admitiram o quão melhor o pub estava agora que não estava mais cheio de fumaça, e nós nos perguntamos por que não mudamos essa lei antes.

Então como isso foi feito na Suécia? Vamos ver como a lei foi implementada:

Simon Häggström, um inspetor sueco que trabalha com a implementação da lei na Suécia, fala sobre isso em seu novo livro.

E quais têm sido os resultados? Bom, isso é o que avaliações independentes têm descoberto:

 

Resultados na Suécia — #1

  • Diminuições significativas na quantidade de ocorrências de prostituição — durante o mesmo período, acontecia o contrário na maioria dos outros países da Europa;
  • Nenhuma evidência de que a prostituição se deslocou para o “submundo” como os lobistas da indústria do sexo afirmam. Afinal, a prostituição depende dos compradores conseguirem encontrar as mulheres; e se eles conseguem encontrá-las, os pesquisadores também conseguiriam;
  • A Suécia agora é considerada como um destino hostil por traficantes sexuais internacionais;
  • Apesar da resistência inicial, a lei agora tem apoio popular generalizado.

E diferentemente do que vimos na Alemanha e na Nova Zelândia, a balança do poder pende do lado das mulheres, agora. Os compradores sabem que as mulheres podem reportá-los, então é menos provável que eles sejam violentos ou que saiam sem pagar e é mais provável que usem camisinha e que permaneçam dentro dos limites estabelecidos.

 

Resultados na Suécia — #2

  • Redução de danos: “A lei sueca é ruim para os negócios, mas boa para minha segurança” — mulher prostituída na Suécia

Essa frase é de uma conversa que Simon Häggström teve na Câmara dos Comuns [do Reino Unido — é a câmara baixa do Parlamento] em 2016. Como mencionado, ele é um policial que prende compradores. Em uma prisão, um policial conversa com a mulher para verificar se ela está bem, deixando bem claro que ela não vai ser presa e seu dinheiro não vai ser confiscado. Simon disse que essa frase é recorrente entre as mulheres prostituídas: que a lei sueca é ruim para seus negócios, mas é boa para sua segurança.

E se os negócios vão mal, os serviços sociais providenciam outras opções.

 

Resultados na Suécia — #3

  • “A chegada da mulher é um sinal de que ela começa a considerar que ela, afinal, precisa de alguma coisa. Quando se está tão acostumada a ser usada, esse é um sinal importante” — parteira em uma unidade de serviço à prostituição em Estocolmo

Todas as pessoas em situação de prostituição na Suécia têm acesso a unidades especializadas que as ajudam com moradia, profissionalização, assistência financeira e apoio psicossocial. Esses serviços são acolhedores, livres de julgamentos, gratuitos e providenciados pelo tempo que forem necessários e não há obrigatoriedade — legal ou de qualquer outra forma — em utilizar os serviços ou em sair da prostituição.

Uma parteira que trabalha em uma unidade em Estocolmo fala que quando as mulheres vêm pela primeira vez, elas não estão familiarizadas com a ideia de colocar suas necessidades em primeiro lugar, porque estão muito acostumadas a serem usadas.

Pare por um momento para digerir essa informação.

De qualquer forma, você deve estar pensando — tudo isso é muito legal e bonito, mas qual o custo disso tudo?

Para falar disso, vamos examinar a realidade econômica do que aconteceu em Ipswich, onde dentro do espaço de tempo de algumas semanas, no fim de 2006, um comprador de sexo assassinou cinco mulheres prostituídas. No final das contas, as pessoas da comunidade estavam determinadas a não permitir que isso acontecesse nunca mais, e perceberam que isso significava que teriam de acabar com a prostituição de rua naquela área.

A polícia usou leis destinadas a pessoas que solicitam sexo em locais conhecidos de prostituição para reprimir os compradores/clientes. Ao invés de prender as mulheres, a polícia as direcionava a agências locais que davam suporte e assistência para sair da prostituição. Essa estratégia corresponde aos três pontos centrais do Modelo Nórdico.

Uma avaliação independente concluiu que o modelo é bem-sucedido em alcançar suas metas e que para cada uma libra gasta, duas libras eram economizadas de dinheiro público, porque diminuem-se os gastos com a justiça criminal e com assistência social.

Você talvez esteja se sentindo sufocada pela realidade pavorosa da prostituição, e talvez esteja se perguntando o que fazer a respeito. Nós acreditamos que, juntas, podemos fazer a mudança acontecer. Mas, para isso, precisamos trabalhar pela conscientização dos problemas da prostituição e pelo fato de que o Modelo Nórdico propõe uma solução baseada em equidade e em direitos humanos.

Eis aqui algumas ideias do que você pode fazer:

  • Conscientize: converse com seus amigos e com suas amigas e colegas. Faça uma apresentação pública sobre o Modelo Nórdico para sua comunidade local, sua igreja, seu grupo de ativistas, seu coletivo ou seu partido. Se você não se sente confortável em apresentar isso por você mesma, entre em contato com ativistas antiprostituição que possam fazer isso por você.
  • Você pode escrever para a Prefeitura ou para a Câmara de Vereadores da sua cidade, ou até para o governo do Estado e para o governo Federal (se tiver os meios, pode até solicitar uma audiência ou possibilidade de apresentação).
  • Você pode propor uma moção em seu partido político ou outra organização para demonstrar apoio ao Modelo Nórdico.

 

Levante sua voz contra o Estado Cafetão [parte 1]

Dossiê do El Partido Feminista de España, “Por la abolición de la prostituición”, escrito por Nerea Sanchís Rodríguez e Margarita Morales

Traduzido para o inglês por Ben Riddick para o RadFem in Translation

Traduzido para o português por Carol Correia para o Mulheres Contra o Estupro Pago; com a permissão do Partido Feminista de España.


partido espanha
Retirado do dossiê “Por la abolición de la prostitución”

O QUE É A PROSTITUIÇÃO?

A prostituição é a exploração sexual de corpos de mulheres e de crianças. Ela existe para servir aos homens, cujos desejos são considerados “necessidades” naturais e inevitáveis, que até atingem o status de “direitos” nas sociedades sexistas. De acordo com a teórica feminista e política inglesa Carol Pateman, a prostituição legitima os direitos sexuais dos homens e seu reconhecimento público como proprietários de mulheres (1995, p.287). Portanto, é uma das formas mais brutais de violência masculina e, nas palavras da fundadora do Partido Feminista da Espanha, Lidia Falcón, é “o maior sucesso do patriarcado”. A prostituição é um fenômeno universal, porque faz parte do sistema patriarcal que prevalece em todo o mundo.

A prostituição é a escravidão do século XXI, tendo criado um mercado para as escravas sexuais, que em breve superaria em número os escravos africanos vendidos dos anos 1500 ao século XIX. Hoje, 1,39 milhões de pessoas em todo o mundo são submetidas a escravidão sexual a cada ano, 85% das quais são mulheres e crianças (Cacho, L, 2010, pp.3). Mais de 500.000 mulheres são traficadas a cada ano na Espanha, um país que detém o triste recorde de ter o maior número de compradores de sexo e pornógrafos na Europa. O sucesso da prostituição está na firme e poderosa aliança entre duas instituições: patriarcado e capitalismo. A prostituição atende ao mandato patriarcal de conceder aos homens o poder de dominar o corpo das mulheres, onde e quando quiserem; através da coerção, abuso de poder, humilhação, ódio e estupro. Ao mesmo tempo, a prostituição enriquece o sistema capitalista, graças aos compradores de sexo (ou “clientes”), máfias e proxenetas e quem comercializa e trafica milhões de mulheres e meninas para satisfazer a crescente demanda. Hoje, quase 40% da população masculina na Espanha são compradores de sexo ou compraram sexo no passado (Casas Vila, G, 2016).

A prostituição é o exercício do controle absoluto sobre os corpos e a sexualidade das mulheres. Como acontece com qualquer tipo de escravidão, ela desumaniza as mulheres e as priva da capacidade de desenvolver seus talentos e potencialidades na vida. Quase todas as mulheres na prostituição sofrem o que as psicólogas feministas denominam dissociação. Para poder resistir e sobreviver ao abuso, cativeiro e estupros repetidos, elas têm que criar um mecanismo de defesa: a desconexão de seus próprios corpos e identidades (Kraus, I, 2015). Além disso, foi demonstrado que 68% das mulheres prostituídas sofrem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) como resultado de sua exposição constante a experiências traumáticas (Mau H, 2016).

O fenômeno da prostituição fornece a mais clara evidência existente da profunda desigualdade sexual que ainda caracteriza nossas sociedades. O comércio sexual nasceu dessa desigualdade, alimenta-se dela e mostra a relação de poder da subjugação das mulheres aos homens. Os aspectos mais visíveis da prostituição são pobreza extrema, racismo, abuso sexual, estupro e tráfico. Diante disso, a prostituição nunca pode ser considerada um trabalho como qualquer outro, pois constitui sempre uma violação dos direitos humanos. O sexo pelo qual os homens pagam nunca é desejado pelas mulheres prostituídas, mas é imposto a elas. A motivação de uma mulher na prostituição é a sua sobrevivência e a de sua família. Elas vivem sob constante ameaça de violência, extorsão e manipulação. Nas palavras da jornalista mexicana e ativista de direitos humanos Lydia Cacho, elas são “escravas do poder” (2010).

Estudos mostraram que a taxa de mortalidade de mulheres prostituídas é 40 vezes maior do que a média nacional (Mau, H, 2016). Na Espanha, cerca de 30 mulheres prostituídas foram mortas por homens desde 2010, segundo Graciela Atencio do feminicidio.net, um site que acompanha a violência masculina contra as mulheres. O número verdadeiro é quase certamente maior se considerarmos as dificuldades em estudar o fenômeno da prostituição com profundidade e quão poucos homens são levados à justiça e condenados pelos crimes que cometem contra as mulheres (Atencio, G, 2015). Os “Estados Cafetão” caracterizam-se pela sua impunidade e cumplicidade, que disfarça o fato de que muitos políticos, soldados, policiais, ministros, juízes, advogados, atletas famosos, artistas, músicos, intelectuais e escritores são compradores de sexo. Um acordo foi feito. Um estado que não é abolicionista torna-se cúmplice. (Falcón O´Neill, L, 2015).

FATORES SOCIOECONÔMICOS

A maioria das mulheres que estão presas no mercado de exploração sexual são vítimas do tráfico. O tráfico de pessoas, juntamente com o comércio de armas e drogas, faz parte do maior mercado do mundo. Na Espanha, a inclusão desta poderosa economia oculta nas contas nacionais do governo impulsionaria o PIB em cerca de 4,5%. (El País, junho de 2014). À luz do papel que o tráfico desempenha na exploração sexual, não podemos considerar o comércio de seus corpos na prostituição como uma escolha livre para as mulheres. A luta contra o tráfico de seres humanos deve ser uma obrigação internacional, de acordo com os direitos humanos básicos. Portanto, regulamentar uma atividade como a prostituição, ou mesmo apenas adotar uma atitude passiva em relação a ela, prioriza os interesses econômicos em detrimento da ética social e desvaloriza a dignidade humana.

A campanha Stop the Traffik enviou uma mensagem clara contra o apagamento da realidade da prostituição em seu vídeo “Girls going wild in the red light district”, filmado ao vivo em Amsterdã. A cena se abre em um bordel de dois andares, com uma mulher ocupando cada uma das seis janelas. É noite e uma multidão de homens se reúne para observá-las da rua. De repente, uma explosão alta de música dubstep eletrônica irrompe e as mulheres começam a se mover como bailarinas profissionais. A multidão fica animada e começa a dançar junto com elas. Existe uma atmosfera de festa. De repente, a música para e as mulheres congelam diante dos homens observadores. O outdoor acima do bordel é revelado e os sorrisos dos espectadores desaparecem. As letras brancas em um fundo preto mostra;

Todos os anos, milhares de mulheres são prometidas uma carreira de dança na Europa Ocidental

Infelizmente, elas acabam aqui

Todos os estudos realizados por pesquisadoras feministas produziram estatísticas muito semelhantes e fornecem evidências da realidade da prostituição. Na Espanha, 90% das mulheres prostituídas são imigrantes. Na Alemanha, 90% vêm da Romênia e da Bulgária. Na Irlanda, 85% são de países da Europa Oriental.

Muitas mulheres na prostituição vêm de um ambiente socioeconômico de extrema pobreza que as obriga a vender seus corpos para sua sobrevivência e a de sua família. Isso não pode ser considerado uma decisão livremente tomada quando a falta de alternativas, como o acesso à educação e ao treinamento, não lhes dá outra escolha a não ser entrar na prostituição. É por isso que acreditamos que as instituições e as administrações devem fazer um esforço sério para combater a pobreza e a igualdade econômica, para oferecer às mulheres das áreas desfavorecidas outro modo de vida.

Muitas mulheres na prostituição foram vítimas de abuso sexual durante a infância ou a adolescência. Vários estudos mostram que muitas dessas mulheres têm uma longa história de abuso e sujeição ao estupro em suas vidas, o que pode ser uma séria influência em sua percepção de si mesmas como objetos. Um estudo global da psicóloga e pesquisadora americana Melissa Farley mostrou que 55% a 90% das mulheres prostituídas foram vítimas de agressão sexual durante a infância e 59% forma vítimas de abuso físico (2003). Os efeitos negativos sobre a autoestima e a autovalor causados por essas experiências verdadeiramente traumáticas tornam essas mulheres mais vulneráveis à exploração sexual. As mulheres que compõem o chamado setor de ‘luxo’ ou ‘alta classe’ da prostituição foram vítimas de abuso sistemático. Por mais que algumas pessoas queiram vender a ideia de que a prostituição “de luxo” oferece um estilo de vida feliz e livre, a realidade por trás da fachada é dramaticamente diferente. A saída da prostituição requer apoio psicológico, que permite às mulheres tornarem-se plenamente conscientes do abuso que sofreram e identificar as circunstâncias que as levaram a vender seus corpos.

Segundo o estudo de Farley, 47% das mulheres na prostituição foram iniciadas antes dos 18 anos (2003). Considerando a grande velocidade com que a indústria do sexo cresceu e se especializou na última década (quase 1,5 milhão de homens compram sexo todos os dias apenas na Alemanha: cerca de 547 milhões por ano), não é de surpreender que esses números tenham aumentado, já que os clientes demandam cada vez mais mulheres e crianças mais jovens (Banyard, K, 2016).

Uma análise desses contextos nos leva a concluir que a prostituição ‘voluntária’ não existe: uma mulher que se envolve em prostituição tem sérios motivos para fazê-lo. Como Rosen Hircher, ativista francês que passou mais de 20 anos na prostituição, escreve em seu livro Une prostituée témoigne relata:

“Eu jamais esquecerei as palavras de uma prostituta que me disse no primeiro dia: ‘Você já fez isso a vida toda.’ Na verdade, eu fui abusada sexualmente pelo meu tio desde que era criança. Meu pai era alcoólatra e extremamente agressivo. Desde a minha infância eu estava acostumada a suportar a violência dos homens” (Hircher, R, 2009).

O QUE É A ABOLIÇÃO?

Abolir a prostituição significa trabalhar para erradicar a escravidão do século XXI. O feminismo abolicionista não se baseia no puritanismo, no paternalismo, na repressão sexual ou na invasão da vida das mulheres. Luta pela liberdade, pelos direitos humanos, pela conscientização da sociedade, pela real igualdade entre mulheres e homens e pela erradicação de uma cultura machista que destrói milhões de vidas de mulheres (Murphy, M, 2015).

Neste documento queremos destacar e denunciar os profundos mal-entendidos em torno das práticas abolicionistas; que são de fato usados habitualmente e deliberadamente para confundir os conceitos de abolição e proibição. É por isso que é tão importante esclarecer o que é a abolição e quais são seus objetivos essenciais.

1 Os objetivos da abolição

  • Descriminalizar as mulheres prostituídas e criminalizar os compradores de sexo, cafetões, máfias e traficantes que criam e sustentam a indústria do sexo.
  • Opor-se a visões tradicionais que colocam mulheres à inteira disposição dos homens, como objetos sexuais a serem comercializados e explorados.
  • Progredir em direção a sociedades verdadeiramente igualitárias. Educar e conscientizar sobre a necessidade de erradicar uma cultura na qual o estupro de mulheres é considerado natural.
  • Romper com a tolerância das sociedades à violência masculina, incluindo especificamente a prostituição como uma das suas manifestações. Perseguir todos aqueles que a perpetuam, qualquer que seja sua classe social ou profissão; políticos, legisladores, policiais, trabalhadores e artistas.
  • Transformar a sociedade e o Estado para que estejam genuinamente comprometidos na defesa dos direitos humanos. Adotar um modelo progressista que se oponha à violência masculina, à mercantilização das mulheres, à normalização da exploração sexual e ao tratamento do tráfico como forma de escravidão que deve ser abolida.
  • Lutar pela liberdade das mulheres prostituídas e permitir-lhes recuperar as suas vidas, criando todas as medidas de intervenção necessárias; fornecendo apoio social, econômico, jurídico, educacional e vocacional.
  • Para acabar com os mitos patriarcais que existem sobre prostituição e violência contra as mulheres.

É evidente que a abolição é muito diferente do modelo de proibição, como adotado nos EUA, que criminaliza tanto as vítimas da prostituição quanto aqueles que as exploram. O Partido Feminista da Espanha trabalha para que o nosso país adote e implemente o modelo abolicionista, em consonância com outros países europeus. A Suécia aprovou a lei Kvinnofrid, pela paz das mulheres, em 1999, amplamente conhecida como “Modelo Nórdico”. Na Espanha, mais especificamente em Sevilha, foi promulgado há alguns anos um decreto contra a prostituição de rua em 2011, que permite à polícia multar os compradores de sexo. Exigimos que todos os partidos políticos do nosso país sigam o exemplo, para que as políticas da Espanha em matéria de igualdade e a erradicação da violência masculina contra as mulheres sejam um modelo exemplar para os outros.

2 As conquistas do modelo nórdico na Suécia

  • Progresso quantitativo e qualitativo para a igualdade e uma sociedade mais democrática e livre para as mulheres.
  • Redução da prostituição em até 60%, mostrando que é possível que as mulheres abandonem o comércio sexual e continuem a reconstruir suas vidas.
  • Uma redução significativa na demanda, graças à criminalização dos compradores de sexo e campanhas de conscientização. Antes de a lei ser aprovada, 1 em cada 8 suecos eram compradores de sexo; a proporção está agora mais próxima de 1 em 13.
  • Nas ruas da capital sueca de Estocolmo, o número de mulheres prostituídas foi reduzido em dois terços e o número de compradores sexuais em 80%.
  • O governo sueco calcula que, nos últimos anos, entre 200 e 400 mulheres e meninas foram traficadas anualmente para o país, o que empalidece em comparação com os 15-17 mil traficadas para a vizinha Finlândia todos os anos.

“Na Suécia, a prostituição é considerada um aspecto da violência masculina contra mulheres e crianças. É oficialmente reconhecida como uma forma de exploração de mulheres e crianças e constitui um problema social significativo… a igualdade de gênero permanecerá inatingível enquanto os homens comprarem, venderem e explorarem mulheres e crianças prostituindo-as…. A estratégia exclusiva da Suécia trata a prostituição como uma forma de violência contra as mulheres na qual os homens que exploram comprando sexo são criminalizados, as prostitutas majoritariamente femininas são tratadas como vítimas que precisam de ajuda e o público é educado a fim de neutralizar o preconceito masculino histórico que há muito tem prejudicado o pensamento sobre a prostituição.” (De Santis, M, 2004).


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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REFERENCIAS AUDIOVISUALES

La Moderna Esclavitud (PFE, 2016): https://vimeo.com/177531412

Stop the Traffik (Duval Guillaume, 2012): https://www.youtube.com/watch?v=y-a8dAHDQoo

 

Mito: Regulamentar torna a prostituição segura

Por Nordic Model Now
Traduzido por Carol Correia

Um dos argumentos comuns para regulamentar a prostituição é fazer com que ela seja incluída na legislação de Saúde e Segurança, para que seja mais segura para as mulheres. No entanto, esta abordagem não considera que os compradores sexuais são eles próprios a fonte de danos.

Dentist in goggles, mask, gown and gloves
Dentista de óculos, máscara e luvas

Em qualquer outra ocupação em que haja risco de exposição a fluidos corporais de outras pessoas, os trabalhadores devem usar máscaras, luvas, óculos de proteção e roupas de proteção.

Os preservativos não chegam nem perto de reduzir o risco de prostituição para um nível comparável àqueles enfrentados pelos trabalhadores, digamos, na odontologia ou na enfermagem, porque os preservativos escorregam e rompem e os compradores sexuais se recusam a usá-los. E os preservativos não protegem a pessoa na prostituição da saliva, do suor e de outros fluidos corporais do comprador; nem protegem de danos nos orifícios e órgãos internos causados por atrito e penetrações fortes e prolongadas; nem protegem da violência dele.

Os padrões de saúde e segurança exigem que os empregadores repensem práticas de trabalho para eliminar o risco excessivo. Na prostituição, isso exigiria que os participantes usassem roupas de proteção completas e a proibição de qualquer contato íntimo. Isso, naturalmente, mudaria a natureza da prostituição.

Quando não é possível tornar o trabalho seguro, as indústrias são frequentemente fechadas. Por exemplo, a indústria do amianto foi fechada porque os riscos eram muito grandes e havia alternativas disponíveis.

Nós acreditamos que a prostituição nunca pode ser feita segura e, portanto, pedimos a sua abolição.

Isso não significa sugerir que as mulheres na prostituição não devem ter toda a assistência disponível para reduzir os danos e minimizar os riscos envolvidos. O desejo de reduzir os danos é um dos principais argumentos para a total descriminalização das mulheres envolvidas, conforme preconizado pelo Modelo Nórdico.

Leitura adicional

O modelo germânico está produzindo o inferno na terra

Discurso de Dra. Ingerborg Kraus em Vancouver, Canadá, em 20 de setembro de 2016 para “International Approaches to Prostitution: Sweden, Germany, Canada” para uma plateia de 200 pessoas no Orpheum Annex.
A apresentação foi patrocinada por Aboriginal Women’s Organizing Network; Asian Women Coalition Ending Prostitution; Formerly Exploited Voices Now Educating; Foy Allison Law; Resist Exploitation, Embrace Dignity; University Women’s Club of Vancouver; Vancouver Rape Relief and Women’s Shelter e foi reproduzida no Trauma and Prostitution
Traduzido pelo Feminismo Radical Didático

Prostituição sempre foi legal na Alemanha, exceto por um curto período de tempo no início do século 20. [1] A Alemanha instituiu uma lei em 2002 que tentou transformar a prostituição em um trabalho como outro qualquer. Os políticos pensaram que não era a prostituição em si o problema, mas a discriminação das mulheres (prostituídas) pela sociedade e o lapso de direitos que elas tinham.

Considerando o problema dessa perspectiva, eles quiseram fortalecer as mulheres o melhor possível. (Eles disseram): prostituição não deveria mais ser vista como algo “contra os bons costumes”, mas como um trabalho. De agora em diante, as mulheres seriam consideradas trabalhadoras, “trabalhadoras sexuais”. E se elas são trabalhadoras, elas deveriam ter os mesmos direitos que qualquer trabalhador que gerencia um negócio ou um empregado em outra atividade, como ter seguro social, ou se seus direitos não forem respeitados, elas deveriam ter o direito de reclamar por vias legais. O estado não queria regulamentar as práticas sexuais. Eles disseram que ninguém pode dizer como as pessoas deveriam fazer sexo. E como eles tinham um negócio, eles também estavam liberados para fazer propaganda dele. Então a nova lei revogava a restrição de promover a prostituição.

Quinze anos depois da aprovação da lei, os resultados são os seguintes:

Nós estamos observando uma industrialização da prostituição

· A renda total é de 14,6 bilhões de euros com 3.500 bordeis legalizados [2]. Esses não os números oficiais. Há muitos bordeis não legalizados.

· A criação de megabordeis com a capacidade de acomodar aproximadamente 1000 clientes de sexo de uma vez ou até mais. [3]

· O crescimento da demanda: 15 anos atrás era estimado que 400.000 mulheres estivessem na prostituição. Hoje muitos oficiais da polícia dizem que o número aumentou em pelo menos 30%.

· Você não precisa mais ir a Tailândia para turismo sexual, você vê turistas sexuais de todo o mundo chegando em grupos — ônibus transportam turistas direto do aeroporto de Frankfurt para os megabordeis.

Novas garotas no bordel Calígula em Berlim. A absoluta sex-oferta matadora: 20min = 20 euros.

Nós temos bordéis “taxa única”. Por 70 euros eles oferecem uma cerveja, uma salsicha e mulheres ilimitadas. Uma cadeia de bordeis “taxa-única” chamada “Pussy-Club” foi manchete quando, no dia de sua inauguração em junho de 2009, 1700 homens formaram fila para entrar. As longas filas do lado de fora do quarto das mulheres duraram até a hora do fechamento quando muitas mulheres entraram em colapso devido à exaustão, dores, ferimentos, e infecções, incluindo dolorosas coceiras e infecções por fungos que se espalhavam dos seus genitais pelas pernas abaixo. [4]

Nós observamos a redução do pagamento para as mulheres: 30 euros para relação sexual, enquanto elas devem pagar em torno de 160 euros pelo quarto e 25 euros de impostos por dia. Então elas têm que servir 6 homens antes de começar a ganhar qualquer dinheiro. Nas ruas o pagamento começa em 5 euros.

“Verrichtungsboxen”, os bordéis-estábulos.

As condições de trabalho tornaram-se um desastre. Eles desenvolveram “Verrichtungsboxen”, que significa “coisas que são feitas em uma caixa”, como estábulos, sem água, banhei­­ros, nada.

Prostíbulos em garagens.

Ou prostíbulos garagem.

Vemos a banalização da prostituição:

· Publicidade em todos os lugares. O guia turístico oficial de Munique tem promoções para bordeis.

· Recrutamento de mulheres na rua como “acompanhantes femininas”.

· É comum que jovens celebrem a graduação escolar em bordeis.

· Uma visita turística dos bordeis é oferecida para novos estudantes em Berlim.

Inauguração do distrito “red light” em Frankfurt, setembro de 2016.

Ou aqui, há duas semanas em Frankfurt: uma tarde de inauguração no distrito “red light”(*). Mesmo sabendo que o distrito está nas mãos dos Hells Angels, um grupo do crime organizado, os habitantes vieram comemorar o dia.

Violência contra mulher tornou-se violência estrutural, significa que a sociedade, instituições (as autoridades políticas, educacionais, executivas e legislativas) não estão mais a questionando. A violência está internalizada.

Vitrine de uma boutique de roupas comuns na minha cidade, setembro de 2016.

Aqui na minha cidade, também há 2 semanas atrás: essa é uma boutique normal que teve a ideia de fazer publicidade desse jeito. A prostituição afeta a todos, não somente as mulheres na prostituição.

A meta da lei — que era proteger e dar apoio para as mulheres na prostituição — falhou completamente: dessas 400.000 mulheres, apenas 44 são registradas como proprietárias de negócios. [6] Mais da metade dessas mulheres trabalham ilegalmente, significando que elas não têm qualquer seguro social e não têm acesso aos serviços médicos na Alemanha. (1) Então, mesmo que elas tenham uma gripe, elas não têm a possibilidade de se consultar com um médico. Existe um enorme problema com mulheres grávidas que não podem pagar por um aborto ou nascimento da criança em um hospital. Muito frequentemente elas abandonam a criança. [7]

Os inspetores de polícia dizem sentir-se desamparados. Manfred Paulus, um inspetor criminal que trabalhou por anos em campo, diz que com essa lei a Alemanha tornou-se o Eldorado para traficantes, cafetões e donos de bordeis. [8] As mulheres que vêm do exterior para trabalhar no distrito “red light” não conhecem a Alemanha que os alemães conhecem e desfrutam. Não, elas são prisioneiras de uma sociedade paralela de alta criminalidade. [9]

Essas mulheres vivem sob o medo constante: o medo de clientes violentos, medo de não ganhar o suficiente para pagar os custos fixos diários, o medo de adoecer, o medo de engravidar, o medo da polícia, o medo dos cafetões, o medo dos donos dos bordeis, o medo da competição…

A lei de 2002 não ajudou a prevenir o tráfico: em 2000, 151 pessoas foram condenadas por tráfico humano, em 2011 apenas 32. A polícia registrou 636 casos de mulheres traficadas em 2011, 3 vezes menos que 10 anos antes. 13 delas tinham menos que 14 anos, 77 tinham menos de 18. [10] A polícia reclama que tem pouco poder para intervir na situação, porque sem provas inquestionáveis, eles não podem entrar nos bordeis. Além disso, os procedimentos legais dependem do depoimento das mulheres. E muitas das vezes elas estão com medo demais para prestar testemunho e os trâmites são paralisados. [11]

A lei que proíbe a cafetinagem era fácil de contornar, eles simplesmente se tornaram hoteleiros alugando quartos para as profissionais do sexo.

Estima-se que 1,2 milhões de homens compram sexo todos os dias. 18% são consumidores regulares, 80% já estiveram em bordel. [12]

Nós observamos a crescente perversão entre os clientes do sexo. Práticas estão se tornando mais perigosas com o aumento da violência contra as mulheres e o lapso de proteção para elas. Foram feitas pesquisas que examinam a violência na prostituição:

  • O estudo de Zumbek em 2001 na Alemanha descobriu que 70% das prostitutas sofreram violência física. [13]
  • O estudo feito pelo Ministério da Família da Alemanha em 2004 declarou que: 82% mencionaram sofrer violência psicológica, 92% sofreram violência sexual.[14]

Apenas considerando esses números, é difícil dizer que esse é um trabalho como outro qualquer. E essas pesquisas datam de mais de 10 anos atrás — As coisas pioraram muito na Alemanha.

Isso é o que a dominatrix Ellen Templin já tinha observado em 2007: “Desde a regulamentação podemos observar que não apenas a propaganda tornou-se sem inibições, os clientes de sexo tornaram-se mais brutais. Isso foi de dia pra noite. Hoje em dia, se você diz: “Não, eu não faço isso,” você geralmente obterá a resposta, “Vamos lá, não seja tão difícil, esse é o seu trabalho”. Antes era proibido requisitar sexo sem proteção. Hoje, clientes perguntam ao telefone se eles podem urinar no seu rosto, querem fazer sexo sem camisinha, querem fazer anal e oral sem preservativo. Nos dias de hoje isso é comum. Antes os clientes ainda tinham a consciência culpada. Isso não existe mais hoje, eles querem mais e mais.” [15]

Existe um “cardápio” circulando na internet, onde clientes podem escolher o que eles querem numa longa lista à la carte. [16]

Eu vou dar alguns exemplos:

AF = Algierfranzösisch (Zungenanal) — língua anal.

AFF = Analer Faustfick (die ganze Hand im Hintereingang) — Fist Fucking anal (enfia-se a mão até o punho no ânus).

AO = alles ohne Gummi — Tudo sem camisinha.

Braun-weiß = Spiele mit Scheiße und Sperma — Brincar com fezes e esperma.

DP = Doppelpack (Sex mit zwei Frauen) oder: double Penetration (zwei Männer in einer Frau) — Sexo com 2 mulheres ou dupla penetração (2 homens e 1 mulher).

EL = Eierlecken — Lamber o saco escrotal.

FFT = Faustfick total — Fist Fuck total.

FP = Französisch pur (Blasen ohne Gummi und ohne Aufnahme) — Oral sem camisinha.

FT = Französisch total doppeldeutig: Blasen ohne Gummi mit Spermaschlucken und seltener:Blasen ohne Gummi bis zum Finale — Oral sem camisinha e engolindo o esperma.

GB = Gesichtsbesamung (manchmal auch Gangbang, also Gruppensex, aber mit deutlichem Männerüberschuss) Ejacular no rosto.

GS = Gruppensex — Sexo Grupal.

Kvp = Kaviar Passiv (Frau lässt sich anscheißen) — Homem defeca em mulher.

SW = Sandwich, eine Frau zwischen zwei Männern — Uma mulher entre dois homens.

tbl, = tabulos, ALLES ist erlaubt — Sem tabu, TUDO é permitido.

ZA = Zungenanal (am / im Hintereingang lecken) — Lamber o ânus.

Existem sites na internet em que clientes dividem suas experiências onde você pode ler: “Eu abri as bandas da bunda dela e devagar empurrei meu pau dentro dela, o que foi acompanhado por um gemido baixo. Quando eu estava perto de terminar e fodendo ela cada vez mais e mais violentamente, ela queria que eu parasse e fodesse ela na vagina. Eu não queria. Desculpa, Vanessa! Depois de mais algumas estocadas violentas eu disparei minha munição e empurrei fundo nela de novo.” [17]

Promoção: Novas garotas por 40 euros.

Os compradores de sexo querem distração. Mulheres são chamadas “Frischfleisch”, que significa: carne fresca. Mais da metade das prostitutas não tem endereço fixo, mas são mandadas de uma cidade para outra. Às vezes, elas nem mesmo sabem em que cidade estão. As mulheres vivem em bordeis, comem e dormem no mesmo quarto em que servem os compradores de sexo. Elas dormem aproximadamente 5 horas por dia. O resto do tempo, elas devem estar prontas para os clientes. Aqui está uma propaganda anunciando novas garotas.

Existe um estudo médico recente de um ginecologista, Dr. Wolfgang Heide, que está trabalhando com mulheres prostituídas. As condições de saúde dessas mulheres são catastróficas. Com 30 anos elas já estão comumente envelhecidas precocemente. Todas as mulheres têm dores abdominais persistentes. Gastrite e infecções frequentes, também em decorrência das condições de vida e saúde precárias. E claro, todos os tipos de doenças sexualmente transmissíveis.

Na quarta-feira estamos organizando uma festa de sexo grupal com a garota de 19 anos Tina, grávida de 6 meses, 35 euros.

O trauma psicológico só pode ser suportado com álcool e drogas farmacêuticas. Ele avisa sobre o crescimento da demanda por mulheres grávidas na prostituição. Essas mulheres tem que servir de 15 a 40 homens por dia continuamente até darem a luz. Muitas vezes, elas abandonam a criança para voltar ao trabalho o mais rápido possível. Algumas 3 dias depois de dar a luz. Essas práticas são totalmente irresponsáveis para a saúde da mãe e da criança. Podem causar danos irreversíveis para a criança ainda no ventre. E toda mãe sabe que leva um tempo depois do parto antes que a relação sexual seja possível de novo sem provocar dor. [18]

Sob essas condições, nenhuma mulher alemã se acha capaz de fazer esse “trabalho”. O retrato das mulheres na prostituição mudou. Com a abertura da Europa para o leste, mulheres vêm das regiões mais pobres da Europa: Romênia, Bulgária — e geralmente minorias como os Romani que vivem na extrema pobreza. Hoje, cerca de 95% das prostitutas vem de outros países. Tornou-se a prostituição da pobreza. [19]

Sabine Constabel, assistente social que trabalhou em Stuttgart com mulheres prostituídas por mais de 20 anos, disse o seguinte: “30% dessas mulheres são jovens, abaixo dos 21 anos de idade. Geralmente sacrificadas pela própria família para ajudá-los financeiramente. A maioria não fala alemão, e algumas delas são analfabetas. E frequentemente eram virgens antes. Essas jovens vêm para Alemanha e são sujeitadas aos desejos mais perversos dos clientes. Elas não são capazes de dizer “não”, de se defender. Elas são completamente subjugadas pela situação e completamente traumatizadas por ela. Muitas delas pedem drogas psicotrópicas imediatamente depois da primeira experiência. Elas dizem: “De outra forma, não dá pra sobreviver a isso.” Algumas delas estão há apenas poucos dias na prostituição e dizem: “Eu estou morta aqui, e não posso mais sorrir.” Outras aguentam por anos e dizem: “Eu tenho crianças em casa, eu tenho que sustentá-las.” Essas mulheres estão muito traumatizadas, elas desenvolvem depressão, pesadelos e problemas físicos; elas somatizam, têm dores no estômago, ficam doentes e sofrem. Elas se tornam desesperançadas, elas não querem fazer esse trabalho horrendo.” [20]

Eu fui convidado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para falar na conferência de Dublin [21] no ano que vem sobre a saúde mental das mulheres prostituídas na Alemanha. O que eu posso dizer? O que é a situação da saúde mental de uma mulher ser reduzida a um pedaço de carne? Elas estão totalmente destruídas. Uma mulher que está trabalhando em um programa de ajuda para mulheres que desejam sair da prostituição me disse que existem poucas mulheres saindo da prostituição. Elas ficarão até o colapso físico. É só uma questão de tempo. Eu pergunto a mim mesmo, por que é assim? Porque a vontade delas foi quebrada. Elas não estão mais existindo como pessoa que tem uma identidade e um futuro que elas podem imaginar para elas. Nós estamos falando sobre um processo de trauma complexo.

O modelo germânico está produzindo o inferno na terra. As vidas e os direitos dessas mulheres estão sendo sacrificados, mas pelo que? Eles estão defendendo a nossa democracia? É para proteger nossa terra de invasores ou terrorismo? Não, essas mulheres estão sendo sacrificadas para que alguns homens possam ter sexo quando eles quiserem e com quem eles quiserem. E esse é o problema. Nós temos que focar nos compradores de sexo.

O comprador de sexo é uma construção social, não é uma fatalidade, um destino. Os números pelo mundo inteiro provam: Na Inglaterra, 7% dos homens são clientes da prostituição, na Espanha 39%, 37% no Japão, 73% na Tailândia…[23]. Isso é resultado de uma educação desigual entre os gêneros. A prostituição não resolve os problemas dos homens, está aumentando o medo deles de entrar em um relacionamento igualitário com as mulheres. [23]

ingeborg kraus - nova geração de homens

Quando nós falamos de prostituição, nós temos que pensar em que tipo de sociedade nós queremos, não apenas em termos de redução de danos. Nós precisamos de uma nova geração de homens que não recorra à exploração sexual e dominação das mulheres para definir a si mesmo. [24] É falacioso pensar que a sexualidade masculina não é controlável. Homens têm que aprender novos meios de lidar com as frustrações.

Normalizar prostituição significa cimentar a desigualdade entre homens e mulheres e aceitar a violência contra mulheres. E isso diz respeito a todos nós, mulheres e homens. É por isso que a Alemanha precisa do modelo nórdico.

Obrigado!


Bibliografia:

[1] Manuela Schon: Legalized prostitution turned Germany into the bordello of europe, we should be ashamed, 09.05.2016, in Feministcurrent: http://www.feministcurrent.com/2016/05/09/legalization-has-turned-germany-into-the-bordello-of-europe-we-should-be-ashamed/

[2] Michael Jürgs: Sklavenmarkt Europa, 2014, Bertelsmann, P. 327.

[3] Chantal Louis : Die Folgen der Prostitution , Alice Schwarzer HG, Prostitution, ein Deutscher Skandal, 2013, KIWI, p. 70–87.

[4] Der Spiegel: Bordell Deutschland. 27.05.2013 . http://www.spiegel.de/international/germany/human-trafficking-persists-despite-legality-of-prostitution-in-germany-a-902533-2.html

[5] Radio Interview with the Domina Ellen Templin, 08.03.2010. http://abolition2014.blogspot.de/2014/05/interview-mit-einer-domina.html

[6] TERRE DES FEMMES: http://frauenrechte.de/online/index.php/themen-und-aktionen/frauenhandel/prostitution

[7] Dr. Lutz Besser: Stellungnahme zur Anhörung zum Entwurf eines Gesetzes zur Regelung des Prostitutionsgewerbes sowie zu Schutz von in der Prostitution tätigen Personen. 04.06.2016. http://www.trauma-and-prostitution.eu/2016/06/04/lutz-besser-stellungnahme-zum-prostituiertenschutzg/

[8] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2014, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 107.

[9] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2014, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 112.

[10] Geneviève Duché: Non au système prostitutionnel, 2015, Editions Persée, p. 170.

[11] http://www.spiegel.de/international/germany/human-trafficking-persists-despite-legality-of-prostitution-in-germany-a-902533-2.html

[12] Udo Gerheim, die Produktion des Freiers, 2012, Transcript, p. 7.

[13] Zumbeck, Sibylle: « Die Prävalenz traumatischer Erfahrungen, Posttraumatische Belastungsstörungen und Dissoziation bei Prostituierten », Hamburg, 2001.

[14] Studie von Schröttle & Müller 2004 in: Bundesministerium für Familie, Senioren, Frauen und Jugend : Gender Datenreport, Kapitel 10: Gewalthandlungen und Gewaltbetroffenheit von Frauen und Männern, 2004, p. 651–652.

[15] Radio Interview mit Ellen Templin am 08.03.2010: http://www.wueste-welle.de/redaktion/view/id/114/tab/weblog/article/34860/Interview_mit_einer_Domina.html

[16] http://www.traummaennlein.de/

[17] www.freiersblick.de

[18] Dr. Wolfgang Heide: Stellungnahme zur öffentlichen Anhörung zur „Regulierung des Prostitutionsgewerbes“ im Ausschuss für Familie, Senioren, Frauen und Gesundheit im Deutschen Bundestag am 06. Juni 2016 http://www.trauma-and-prostitution.eu/2016/06/05/stellungnahme-von-wolfgang-heide-facharzt-fuer-gynaekologie-und-geburtshilfe/

[19] Manfred Paulus: Menschenhandel, 2004, Verlag Klemm+Oelschläger, p. 109.

[20] TV Interview with Sabine Constabe, 17.03.2013 in SWR1 Leute:

https://www.youtube.com/watch?v=BpCPKDRcFg0

[21] http://iawmh2017.org/wp/

[22] Claudine Legardinier: Prostitution: une guerre contre les femmes, 2015, Editions Syllepse, p. 95.

[23] Claudine Legardinier und Said Bouamama: Les clients de la prostitution, 2006, Presses de la Renaissance, p. 235.

[24] Udo Gerheim: die Produktion des Freiers, 2012, Transcript, p. 297.