Nenhum mal? ‘Distritos Sexuais’ fazem da cidade um lugar mais ameaçador para mulheres

Por medo de serem assediadas ou abusadas, muitas mulheres saem do próprio caminho para evitar andar por partes da cidade em que as avenidas de entretenimento sexual são concentradas

Texto escrito por Nicole Kalms e traduzido por Mariana Amaral para o QG Feminista
Texto original: No harm done? ‘Sexual entertainment districts’ make the city a more threatening place for women

Atitudes crescentemente liberais em relação ao sexo permitiram uma celebração pública da diversidade sexual, mas os desejos dos homens heterossexuais ainda dominam os ambientes públicos.

Vizinhanças em que bordéis, clubes de strip tease, grupos de sex shops e shows de voyerismo, devido aos “distritos de entretenimento sexual”, se tornaram comuns nas cidades neoliberais. Um olhar mais apurado sobre essas áreas, que constam no CBD como cidades históricas e subúrbios afastados de novas cidades, revela como a desigualdade entre os sexos se materializa nos espaços urbanos.

A maioria dos críticos ao redutos de entretenimento sexual, também conhecidos como “distritos dos vícios”, foca na crescente onda de crimes e na baixa imobiliária das propriedades ao redor. Nós raramente discutimos os efeitos desses distritos na população de mulheres habitando os espaços urbanos.

Os clubes de strip apresentam um enigma especial, uma vez que eles não são sujeitos às mesmas restrições que por exemplo, os bordéis. Na Austrália e no Reino Unido, os primeiros clubes de strip legalizados abriram as portas nos anos 1990. Desde então, o comércio do sexo rapidamente aumentou seu domínio.

Em paralelo com uma legislação mais aberta, os clubes de strip operam com uma certa flexibilidade. Diferente dos bordéis, eles podem fazer propaganda nas mídias tradicionais e têm licença para vender álcool aos clientes. Com uma receita global estimada em US$75 bilhões, a indústria dos clubes de strip se estabeleceu como uma força econômica urbana. Mas a que custo?

Um relatório feito pela Coalização Anti-Tráfico de Mulheres descobriu que o consumo de álcool nos clubes de strip cria um risco significativo para a segurança das mulheres da região. O relatório sugere que a licença para vender álcool tem efeitos diretos no controle comunitário das avenidas de clubes de strip e gera zonas infrequentáveis para mulheres.

O recente projeto interativo de mapeamento criado pelo Plan International Australia, Free to Be, descobriu que mulheres evitam deliberadamente todo o cumprimento da King Street, a principal avenida de clubes de strip de Melbourne. Os participantes do projeto relataram que qualquer mulher que frequente a área é considerada aberta a investidas sexuais pelos estranhos.

Envios anedóticos para o mapa do Free to Be incluiam depoimentos como:

“Homens acham que só porque você está andando pela King Street, você deve ser uma stripper ou uma prostituta”

“São práticas comuns aqui, o assédio, o abuso e a hostilidade aberta.”

Os dados do Plan International Australia indicam que as mulheres de Melbourne internalizaram a ligação entre as áreas de clubes de strip, a suposição de que qualquer mulher na área esteja “pronta para o sexo”, e normalização da violência hiper masculina.

Para reduzir o risco de assédio e abuso, mais e mais mulheres se vêem forçadas a modificar seus trajetos pela cidade — especialmente durante a noite e nas madrugadas.

Essa questão não está limitada apenas à Austrália — é um problema global.

A organização do Reino Unido, Object, também relatou que a presença de clubes de strip cria zonas em que o “senso de segurança e pertencimento das mulheres ao espaço público” é reduzido.

Nesse contexto, infraestruturas públicas e de transporte, como paradas de ônibus, se tornaram locais de assédio, intimidação e outros comportamentos anti-sociais.

Exploração além dos muros dos clubes de strip

É vital entender como o comportamento e as relações de poder dentro da indústria do sexo, como nos clubes de strip, influenciam as interações sociais fora deles.

Minha última pesquisa sugere que a exploração das mulheres dentro da relação cliente-e-stripper se estende para os espaços públicos e transforma a cidade em um ambiente hetero-sexista. Aqui, as mulheres cobradas de imitar os aspectos da indústria do sexo e perdoar o comportamento sexualmente abusivo dos homens.

A cobertura da mídia sobre casos de abuso sexual confirma essa ideia. Por exemplo, em 2015, três homens assistiram rindo à outro homem abusando de uma mulher, apenas um quarteirão de distância do Goldfingers Men’s Club na King Street. Isso aconteceu numa noite de terça-feira, em que a vítima estava no seu caminho para casa de volta do trabalho.

Em um incidente de 2013, um homem desconhecido perseguiu uma mulher de 23 anos no seu caminho para casa pela King Street, em que ela foi fisicamente violentada e sexualmente abusada as 14:45 da tarde de um domingo. Ela tinha se recusado a segurar a mão do homem.

Esses exemplos do mundo real estão de acordo com uma afirmação da acadêmica Meagan Tyler sobre a objetificação das mulheres nos clubes de strip e seu impacto na população em geral. Tyler diz:

“Se você permite a algumas mulheres serem compradas e vendidas para o prazer sexual dos homens ou para seu entretenimento, você compromete a posição de todas mulheres em uma comunidade.”

Para onde vamos daqui?

É evidente que os clubes de strip e outros negócios da indústria do sexo criam um ambiente social que estimula o privilégio masculino e sua dominância. Como resultado, algumas feministas sugerem que a proliferação avenidas de sexo urbanas servem para relembrar às mulheres de seu lugar e “as manter quietas”.

Em 2010, a Islândia baniu os clubes de strip se baseando no argumento de que a existência desses lugares compromete a seguranças de todas as mulheres, não apenas aquelas trabalhando na indústria.

De acordo com a CEO da Australia’s National Research Organisation for Women’s Safety, Heather Nancarrow, nós precisamos examinar nossa ligação cultural com a hiper masculinidade. Isso inclui as maneiras pela qual as cidades normalizam a comercialização hiper sexualizada e a objetificação sistêmica dos corpos femininos.

Pesquisadores, planejadores urbanos, criadores de políticas públicas precisam prestar atenção nesse fenômeno. Não é apenas um “divertimento inofensivo”, mas um sistema que legitima as infraestruturas da exploração sexual e estereótipos que oprimem as mulheres.

Hoje vemos uma grande determinação social e política para agir nas causas e consequências da desigualdade de gênero e a violência sexual. E quanto mais entendemos sobre a influência dos distritos de “entretenimento sexual” na sociedade, mais difícil fica de ignorar seus impactos negativos.

Capítulo 4 de “Vagina Industrial” por Sheila Jeffreys

A Vagina Industrial – A economia política do comércio do sexo global

Sheila Jeffreys

Tradução deste capítulo realizada por Mayara Balala


Capítulo 4: O boom do strip club

Aconteceu uma rápida expansão da indústria do strip club no mundo ocidental na última década, particularmente na forma de clubes de lap dancing. A indústria é estimada em um valor de 75 bilhões de dólares ao redor do mundo (D. Montgomery, 2005). Alguns escritores no campo dos estudos de gênero têm defendido a prática do stripping. Eles têm argumentado que o stripping deveria ser entendido como uma transgressão social, um exercício da agência das mulheres ou uma forma de empoderamento feminino (Hanna, 1998; Schweitzer, 1999; Liepe Levinson, 2002). Esses argumentos exemplificam o descontextualizado individualismo que é comum a muitas defesas da indústria do sexo. No entanto a tradição de mulheres dançando para deixar homens sexualmente excitados (normalmente seguida pelo uso comercial das mulheres) é uma prática histórica de muitas culturas, como no caso das auletrides da Grécia clássica, que eram escravas (Murray e Wilson, 2004), e das garotas dançarinas de Lahore, que eram prostituídas dentro de suas famílias desde a adolescência (Saeed, 2001). Isso não representa igualdade para mulheres. Ao invés disso, a tradição do stripping representa a desigualdade sexual e predomina, historicamente, em sociedades nas quais mulheres eram extremamente secundarizadas. Este capítulo vai examinar o contexto no qual o stripping ganha espaço, observando quem detém a indústria e quem mais se beneficia dela, no intuito de expor a fraqueza do argumento de que stripping seja uma forma de empoderamento feminino. Vai se voltar à evidência que sugere que gangues criminosas nacionais e internacionais de crime organizado controlam os setores mais lucrativos da indústria. Vai mostrar como, conforme a indústria se expande e se torna mais exploradora para gerar lucros maiores, o tráfico de mulheres e garotas em escravidão por dívida tem se tornado um meio básico de aprovisionamento de strippers na Europa e na América do Norte. Ao invés de empoderar mulheres, este capítulo vai sugerir, o boom dos strip clubs ajuda a compensar homens por privilégios perdidos.

O boom do strip club

Striptease não é um fenômeno novo no ocidente. Entretanto no século 20 a prática foi gradualmente recriada e se tornou a cada vez mais explícita na quantidade de nudez e permissão de toque: de tableaux vivants (“quadros vivos”) onde as mulheres não tinham permissão de se moverem e precisavam usar coberturas cor de pele aos clubes de lap dancing do presente. Nos mais recentes, as mulheres normalmente estão nuas e usam suas genitálias para massagear os pênis de homens vestidos enquanto sentam nos seus colos em cabines privadas. Clientes da recente expansão da indústria são propensos a terem sido treinados e encorajados ao uso comercial das mulheres para sexo pela “descensurização” da indústria pornográfica dos anos 1960 em diante. Muitos dos clubes e franquias abertos nesse boom pertencem a homens que ficaram ricos através da pornografia, tais como a rede Hustler, de Larry Flynt.

Nos anos 1980 o striptease passou para uma nova fase. Até esse momento era tradicional que os clubes pagassem mulheres para dançar. A mudança começou nos Estados Unidos. Dawn Passar, uma ex-stripper que agora organiza a Exotic Dancers’ Alliance (“Aliança das Dançarinas Exóticas”), explica que, quando dançou pela primeira vez em São Francisco, o conhecido local Teatro Mitchell Brothers O’Farrel, cujas operações são mencionadas no capítulo 3, “pagava salários, mínimo por hora e gorjetas” (Brooks, n.d.). O Market Street Cinema na mesma cidade introduziu “taxas de palco” em que as dançarinas tinham que pagar gerenciamento pelo direito de dançar, ganhando a vida através das gorjetas das danças privadas, e isso se alastrou para os outros lugares. Isso foi uma mudança profunda que habilitou os proprietários de espaços a fazerem lucros muito mais consideráveis. Eles agora estavam cobrando das dançarinas ao invés de pagá-las. Desse ponto, a situação de “taxas de palco” evoluiu muito rápido para o ponto onde mulheres às vezes vezes dançam sem nenhum lucro para si mesmas em uma noite ou até mesmo perdem dinheiro. Esse novo nível de rentabilidade e o novo princípio de que trabalhadoras deveriam pagar para trabalhar, estimulou o boom dos strip clubs. A indústria dos EUA foi estimada, em um relatório da mídia de 2006, valer muito mais do que basebol: “$4 bilhões por ano são gastos por homens em basebol, o passatempo nacional. Em comparação, $15 bilhões por ano são gastos por homens em strip clubs” (Sawyer e Weir, 2006).

O debate feminista

Em resposta a esse crescimento dos strip clubs talvez fosse de se esperar que houvesse uma viva discussão feminista, mas esse não é o caso. As críticas feministas ao stripping estão perto do chão. Ao invés disso, existem muitos artigos e livros que representam o stripping como uma exemplificação da ideia de Judith Butler de transgressão de gênero através da performance de feminilidade e masculinidade (Butler, 1990). Liepe-Levinson, por exemplo, no livro Gender in Performance (“Gênero em performance”), da série Routledge, argumenta que shows de strip envolvem “transgressividade social” porque as dançarinas “desempenham o papel de objeto sexual desejado enquanto desafiam abertamente as expectativas do duplo estandarte” (Liepe-Levinson, 2002, p.4). Dahlia Schweitzer, no “Jornal da Cultura Popular”, também defende que stripping seja transgressivo (Schweitzer, 1999). Striptease, na visão dela, habilita mulheres a inverter papéis e tomar poder sobre os homens: “com homens sendo “sugados” e mulheres embolsando o dinheiro, o striptease se torna uma reversão dos papéis sociais convencionais homem/mulher. Striptease é, essencialmente, uma forma de eliminação de papéis” na qual as mulheres estão “claramente no comando” (ibid., p. 71). Ela dá a impressão de que uma alinhamento pró-stripping seja a posição feminista correta quando argumenta que “ao tirar suas roupas, a stripper rompe anos de hegemonia patriarcal” (ibid., p.72). A antropóloga Lynne Hanna, por outro lado, toma a abordagem do puro individualismo liberal americano (Hanna, 1998). Ela pesquisa e escreve no campo de estudos de dança e agora serve como uma testemunha expert dos bastidores da indústria do strip club em casos onde autoridades locais tentam exercer controle sobre strip clubs. Ela alega que tentativas de limitar clubes e atividades de strip nos EUA violam os direitos de liberdade de comunicação da Primeira Emenda (N.T.: Primeira Emenda da constituição dos Estados Unidos, “O Congresso não deverá fazer nenhuma lei com relação a estabelecer religião, ou proibir seu livre exercício; ou limitar a liberdade de expressão, ou de imprensa; ou o direito do povo de se reunir pacificamente, e de peticionar ao governo por reparação de queixas”). Sua conclusão é que “é hora de parar de esfolar a Primeira Emenda, de sufocar a dançarina exótica e seu patrão e de restringir a comunidade e promover igualdade de oportunidade para todos” (ibid., p.21).

Essa forma de literatura sobre strip clubs, muito dela escrita por mulheres que têm experiência na indústria, tende a acentuar a agência que mulheres que praticam strip estão hábeis a exercer. Katherine Frank, que trabalhou como stripper antes de elaborar um PhD sobre strip clubs e seus mantenedores, diz que tinha “sentimentos aumentados” de “auto-eficácia” quando “dançava”, apesar de reconhecer em seu trabalho que o fato de que ela era conhecida por ser uma estudante de graduação e de ter tido outras opções provavelmente tornou sua experiência pessoal atípica (Frank, 2002a). Ela é crítica à noção de que stripping seja transgressivo. Ela pretende criar uma “política feminista de stripping” e escreve sobre como “performa” feminilidade através da prática, mas defende que os compradores masculinos não estão cientes dessa “performance” e “sustentam visões muito normativas sobre papéis de gênero”. Ela é forçada a perguntar se a transgressão funciona : “Qual é o efeito da minha abordagem de agente dupla da feminilidade nos homens que olham pra mim? A dura verdade é que eu não posso prever ou prescrever como minhas performances serão interpretadas” (Frank, 2002b, p. 200). Frank está bem ciente de que existem restrições ao exercício da agência. Ela fala, por exemplo, sobre o stripping ser “profundamente entrelaçado a posições de sexo e gênero e a relações de poder” (Frank, 2002a, p.4). Mas ela é bastante positiva quanto ao que o stripping oferece a mulheres. Frank fala, por exemplo, sobre as “potenciais recompensas econômicas e pessoais” e sobre o “radical potencial político de misturar dinheiro, sexualidade e a esfera pública”, de forma que “trabalho sexual não pode ser desmerecido como uma possível forma de resistência feminista ou um exercício da agência feminina” (Frank, 2002a, p. 16). Quanto às strippers ela escreve: “Nós abrimos espaços de resistência dentro da cultura heteronormativa do strip club e de onde quer que seja”. (Frank, 2002b, p. 206). As próprias restrições, tais como as dimensões estruturais da indústria, as práticas exploradoras e abusivas de proprietários, clientes e gerentes de strip clubs, limitações sobre quanto dinheiro é feito por mulheres que fazem strip e o que precisamente elas têm que fazer para ganhá-lo, são raramente mencionadas. Ainda que exista agora uma considerável literatura feminista sobre os danos da prostituição observando seus efeitos, psicológicos e físicos, em mulheres prostituídas (Farley, 2004; Jeffreys, 1997), esse não tem sido o caso para o stripping,onde há poucas análises dos danos. A pesquisa feminista apenas acaba de começar a tratar do efeito desse boom em outras mulheres, como aquelas nos arredores de onde os clubes são abertos e aquelas que buscam igualdade em um mundo de negócios onde, em alguns setores, a maioria dos acordos são estabelecidos em strip clubs dos quais elas são excluídas (Morgan e Martin, 2006). Essa literatura está apenas começando a dissertar sobre os ganhos que compradores homens fazem de seu envolvimento na indústria do strip club. Mais significativamente, tem havido uma perceptível lacuna na literatura em relação ao contexto no qual o stripping toma espaço. A literatura feminista não discute quem está desenvolvendo essa indústria e quem se beneficia dela. Este capítulo começa com um exame, principalmente de reportagens de mídia, do contexto do stripping, observando quem detém a indústria, o envolvimento do crime organizado e o tráfico de mulheres que a supre. A segunda parte observa os danos sofridos por mulheres que praticam strip dentro desse contexto de exploração, usando a pequena pesquisa que existe combinada com materiais de revistas da indústria do strip club e de organizações de trabalho sexual. A terceira parte observa o impacto dos strip clubs na igualdade entre os sexos a partir da experiência dos homens compradores e das mulheres no mundo dos negócios que têm que confrontar um novo teto de vidro (N.T.: o termo “teto de vidro”, em inglês “glass ceiling”, é um termo usado por feministas para fazer referência à barreira invisível que impede ou atrapalha mulheres de ascenderem profissionalmente) criado pelo uso de strip clubs dos colegas homens, usando algumas interessantes pesquisas recentes nessa área.

O contexto da indústria do strip club

Strippers não trabalham independentemente. A prática se estabelece em clubes que são extremamente exploradores. Os clubes são frequentemente parte de esquemas nacionais e internacionais que, de acordo com o trabalho de jornalistas investigativos no Reino Unido e nos EUA, têm conexões criminosas (Blackhurst e Gatton, 2002). Esse contexto é propício a afetar o potencial para empoderamento. A indústria do strip club está se expandindo por causa dos níveis de lucro no negócio. Nos EUA em 2005 havia aproximadamente 3000 clubes, empregando 300.000 mulheres (Stossell, 2005). Em 2002, havia 200 clubes de lap dancing no Reino Unido (Jones et al; 2003). Uma reportagem de mídia de 2003 estimou o retorno anual dos clubes de lap dancing do Reino Unido em £300 milhões e comentou que “eles são um dos elementos que cresce mais rápido na indústria de serviços de lazer do Reino Unido” (ibid., p. 215). A indústria é estimada valendo £22,1 milhões por ano só para a economia escocesa (Currie, 2006).

Spearmint Rhino, a rede americana possuída por John Gray, agora tem clubes no Reino Unido, Moscou, Austrália, bem como nos EUA. Os jornalistas investigativos britânicos, Jonathan Prynn e Adrian Gatton reportam que o clube Tottenham Court Road, em Londres, faz lucros de mais de mais de £3 por minuto (Prynn e Gatton, 2003). Em 2001, um ano depois de aberto, o clube teve uma “taxa de lucro de mais de £1,75 milhões, de uma venda de £75 milhões, equivalente a angariar £150.000 por semana” (ibid.).Depois do período de natal os rendimentos eram de £300.000 por semana. Eles apontam que um pub de cidade grande ganharia apenas cerca de £20.000 libras em uma semana boa e isso explica muito bem o porquê de tantos pubs no Reino Unido terem sido convertidos em strip clubs em anos recentes. Spearmint Rhino opera no estilo comum de clubes de lap dancing, com dançarinas pagando £80 por noite para trabalhar e o clube tomando 35% dos ganhos vindos dos clientes.

Reportagens sugerem que alguns proprietários e gerentes de strip clubs estão associados ao crime organizado. Isso é relevante para o nível de “empoderamento” que provavelmente está disponível a strippers. Os donos de strip clubs tomam o cuidado de representar a si mesmos como membros engajados da comunidade em seu patrocínio de times de futebol, doações para caridade e assim por diante.Os patrões de clubes de luxo os promovem como elegantes destinos para a elite social masculina. No entanto, há indicações, apesar de todas as tentativas de manter a fachada de respeitabilidade, de que donos de strip clubs têm associações desonrosas. Uma das indicações é o amontoado de mortes inexplicadas sustentadas pelos proprietários/ gerentes e seus associados. O diretor do Spearmint Rhino UK, uma suposta franquia de luxo, foi traiçoeiramente atacado enquanto caminhava do Tottenham Court Road club para o estacionamento, em 2002 (Blackhurst e Gatton, 2002). Dois homens vieram por trás, golpearam ele na cabeça com um cacetete e trancaram o Sr Cadwell no porta-malas. De algum jeito ele revidou, mas foi esfaqueado pelo menos duas vezes e um dos golpes perfurou um pulmão” (ibid.) . Ninguém foi acusado e a polícia “suspeita que não tenha sido um assalto ordinário de rua, que o Sr Cadwell tenha sido caçado por sócios de uma notória família criminosa do norte de Londres em um rixa com sua companhia”. (ibid.). Uma morte inesperada relacionada a Cadwell ocorreu quando, em setembro de 1990, uma mulher de 21 anos, que estava voando de helicóptero com ele, foi morta. Ela era a namorada do amigo próximo de Cadwell, David Amos: “Ela saiu do helicóptero quando ele pousou na pista do aeroporto de Long Beach para conhecer o sr Amos, que estava esperando por ela, e caminhou em direção às hélices traseiras ainda ligadas.” A investigação policial concluiu que essa morte havia sido uma acidente. Em 2001, Amos foi condenado por ter metralhado um chefe de strip club em Los Angeles em 1989. Ele era próximo a um membro da família mafiosa Bonnano em Nova York e pagara a um assassino de aluguel para atirar em Horace McKenna na casa dele (ibid.). Um ataque similar a esse aconteceu a Cadwell em Edimburgo em 2005. O gerente de um dos maiores bares de lap dancing de Scotland “foi esfaqueado quando fechou para a noite” (J. Hamilton, 2005). A nota do repórter do Sunday Mail foi: “A polícia acredita que ele pode ter sido pego em uma briga entre os gangsters da capital.” (ibid.).

O Spearmint Rhino, de John Grey, é a rede internacional mais bem sucedida. Esses clubes vão para um patamar particular de estabilidade no qual são locais de luxo e não apenas “juntas de strip” e são populares entre executivos de negócios para entreter clientes. Gray, contudo, é uma figura controversa. Ele tem 6 condenações nos EUA por delitos que vão de portar uma arma escondida a fazer cheques falsos, pelos quais, coletivamente, ele recebeu uma sentença suspensa de 68 meses de liberdade condicional e períodos na cadeia (Blackhurst e Gatton, 2002). Segundo uma investigação do Evening Standart (Londres), todavia, “desde que nasceu, Jhon Leldon Gray… ele usou os nomes John Luciano, John Luciano Gianni e Johnny Win” (ibid.). O artigo do Standart levanta o interessante ponto de que “estranhamente, existe também um John L Gray, nascido em fevereiro de 1957 e ligado a dois endereços do Spearmint Rhino e a um dos endereços de moradia do Sr. Gray, que está registrado nos EUA como “falecido” (ibid.). Jornalistas em diferentes países estão claramente interessados nas conexões entre o crime organizado e a indústria do strip club mas tem que ser cuidadosos com o que dizem no caso de queixas de difamação.

Argumentos sobre mulheres adquirindo agência e empoderamento através do stripping precisam ser observados no contexto da extensão do crime organizado na indústria. Empregadores e gerentes do crime organizado são homens que perseguem, ameaçam e matam para ganhar seus lucros. Isso precisa ser analisado como uma forma poderosa de desigualdade entre os empresários do sexo e aquelas a quem eles exploram. É interessante notar que um dos argumentos pela legalização da indústria da prostituição em muitos países onde bordéis ainda são ilegais é que isso leva ao crime organizado, o que só acontece porque a indústria ilegal é conduzida debaixo dos panos. Mas strip clubs são legais em todo lugar e pessoas conectadas ao crime organizado estão liderando esses clubes e coletando consideráveis lucros. Uma abordagem de descontextualizado individualismo é inapropriada para análises do stripping porque, diferentemente das mulheres que fazem stripping, os donos e empreendedores dos clubes são muito organizados, nacionalmente e internacionalmente. Eles não estão operando simplesmente como indivíduos. Muitos são envolvidos em redes de crime organizado. Mas mesmo aqueles de quem não há evidência de tal envolvimento estão organizados juntos para influenciar, e em muitos casos subornar, políticos, para engajar advogados e experts que podem encontrar formas de evitar regulamentação e de vencer ativismo comunitário. Essas redes são organizadas através de associações e recursos online como o “Jornal dos EUA da Associação de Clubes Executivos”, a Strip Magazine na Europa e a “Fundação Eros” na Austrália.

Como resultado de seus cuidadosos esforços para alcançar respeitabilidade, tais como exibições de sexo, competições de stripping, apoio a caridades e uma cobertura positiva na mídia, strip clubs têm experimentado uma impressionante normalização. Mesmo figuras de liderança da elite do Reino Unido como Margaret Thatcher, Príncipe Harry e o filho de Tony Blair, Euan, foram todos observados como patrocinadores dos clubes em 2005/2006. Thatcher foi uma das convidadas de uma arrecadação de fundos do Partido Conservador (Tory Party) no clube londrino de Peter Stringfellow em abril de 2005 (Strip Magazine, 2005). Euan Blair foi observado “passando a noite no clube Hustler, mais tarde em novembro, enquanto estava a trabalho em Paris em 2005 (Strip Magazine, 2006). Em abril de 2006, o príncipe Harry foi observado em um clube de lap dancing: “Ele [Harry] e um grupo de companheiros chegou ao Spearmint Rhino em Colnbrook perto de Slough, Berks, às 3 da manhã … Harry pegou um lugar perto das dançarinas de topless – e a stripper Mariella Butkute sentou no colo dele (Rousewell, 2006). Enquanto isso, a indústria é promovida nas páginas de negócios de jornais, em livros de “como fazer” e, atualmente, em algumas disciplinas acadêmicas como estudos de negócios(Jones et al., 2003) e estudos de lazer, onde é descrita positivamente, em uma coleção de estudos de entretenimento, como “uma satisfatória experiência de lazer” e “recreação passiva” (Suren e Stiefvater, 1998).

Tráfico

Apesar das tentativas dos empresários dos strip clubs de promoverem a si mesmos e a suas franquias como respeitáveis, tráfico de mulheres por grupos de crime organizado se tornou uma forma comum de conseguir dançarinas. Por toda a Europa e América do Norte mulheres são trazidas para dentro dos clubes pela enganação, pela força ou, inicialmente, pelo consenso. Em todos os casos elas são mantidas em escravidão por dívida, têm seus documentos de viagem confiscados e são controladas por ameaças contra elas próprias ou contra suas famílias, todos os aspectos tradicionais dessa forma moderna de escravidão. Governos podem ser cúmplices no tráfico de mulheres para strip clubs, agindo como procuradores para os negócios. No Canadá, por exemplo, a importação de mulheres era organizada através da emissão de vistos de dançarinas exóticas pelo Estado. Vistos para profissões particularmente habilidosas que poderiam não ser preenchidas por empregadores locais eram uma parte formal do programa de imigração; 400- 500 vistos por ano para mulheres da Europa Ocidental foram emitidos até 2004. Para ganhar vistos, as mulheres tinham que fornecer provas de que elas eram strippers, e isso foi efetuado pela provisão de fotografias “soft-porn” (N.T.: em tradução literal, “pornô leve” – basicamente fotografias eróticas de mulheres nuas em posições sexuais) para autoridades de imigração (Agence France-Presse, 2004). Audrey Macklin aponta no “Relatório de Migração Internacional” que strippers locais não podiam ser encontradas porque as condições de trabalho no stripping haviam deteriorado drasticamente com o advento do lap dancing e das cabines privadas (Macklin, 2003). Cidadãs canadenses não estavam preparadas para experienciar a extrema degradação envolvida. Macklin levanta o fascinante argumento de que as strippers da Europa Oriental deveriam ser vistas como os “despojos de guerra”. Ela explica: “se a queda do muro de Berlim simboliza a derrota do comunismo e o triunfo do capitalismo , então talvez mulheres comoditizadas da Europa Ocidental, exportadas para servir a homens ocidentais, sejam os despojos da guerra fria servidos pelo mercado global aos vitoriosos” (Macklin, 2003). Os soldados da liberdade do ocidente, na forma de frequentadores de strip clubs na América do Norte e na Europa Ocidental, podem exigir e usar os corpos de mulheres do fracassado regime comunista. Eles exercitam o poder da colonização dentro de uma economia globalizada.

Os proprietários de strip clubs têm tanto poder e influência dentro das economias nacionais que estão hábeis a fazer com que os governos ajam como procuradores da sua indústria. Macklin explica que Mendel Green, advogado dos clubes, afirmou que o Estado possuía um dever com o setor privado de providenciar mão de obra onde os incentivos de mercado falhassem. (Macklin, 2003). Na verdade, ele é citado em um jornal da época chamando strippers de “produtos”, dizendo: “Elas são um tipo crucial de produto na indústria do entretenimento e que não está facilmente disponível no Canadá” (Guelph Mercury, 2004). Interessantemente, Green defendeu que mulheres estrangeiras eram necessárias porque “ dançarinas nascidas canadenses eram controladas por gangues de motoqueiros” (ibid.), o que é uma admissão, por um representante da indústria, do envolvimento do crime organizado.O governo canadense se tornou suficientemente embaraçado em agir tão claramente como um cafetão para os proprietários de strip club locais e os vistos das dançarinas exóticas foram descontinuados em 2004.

Tráfico de mulheres na Europa Oriental para strip clubs tem causado considerável preocupação na Irlanda. Até 2002, o Estado irlandês, como o Canadá, emitia autorizações de trabalho para dançarinas de lap dancing sob a categoria de “entretenimento”, o que tornava o tráfico descomplicado(Haughey, 2003). O Ministro de Justiça Michael McDowell disse ao parlamento, em 2002, que “existiam claras evidências de que os traficantes de pessoas da Europa Oriental usavam clubes de lap dancing como uma fachada para o comércio do sexo” (Wheeler,2003). Em junho de 2003 o Gardai (N.T.: A Guarda Siochána ou Garda Síochána na hÉireann (Guarda da Paz da Irlanda), conhecida também pelo diminutivo Gardai, é a força policial civil da República da Irlanda) na Irlanda “impediu uma tentativa de gangues de crime organizado da Europa Oriental de tomar controle da circulação de dinheiro da indústria de lap dancing” (Brady, 2003). Os gangsters eram suspeitos de ter ligações com paramilitares e criminosos na Irlanda. O Irish Times comentou que a indústria é “atormentada” por denúncias de que ocorre prostituição nos clubes e, em Dublin, um clube foi fechado por uma ordem judicial depois que foi descoberto que atos ilegais de sexo estavam tomando espaço (Haughey, 2003). A organização feminista antiviolência Ruhama aponta que os clubes preparam mulheres para prostituição e “em todos os outros países no mundo elas são apenas um disfarce para a prostituição” (ibid.). Existe tráfico dentro dos clubes nos EUA também. Por exemplo, em 2005 “um promotor russo de entretenimento, Lev Trakhenberg, de Brooklyn, NY, pegou 5 anos de cadeia por admitir que ele e sua esposa ajudaram mais de 25 mulheres a vir ilegalmente da Rússia para os EUA para performar lap dancings nuas em strip clubs” (Parry, 2006).

Exploração e violência direcionadas a strippers

É nesse contexto de lucros enormes para proprietários de clubes, de crime organizado e tráfico, que mulheres praticam strip nos clubes. Os lucros não seriam tão grandes se mulheres estivessem sendo remuneradas de maneira justa pelo stripping. Na verdade, a vasta maioria dos lucros vão para os donos dos clubes e não para as dançarinas, que podem achar difícil ganhar o suficiente para pagar as taxas de palco. Em São Diego dançarinas “podem fazer uns $100 em uma noite de fim de semana,mas por maior esforço que façam para conseguir $100 por noite, muitas delas ganham apenas o que podem fazer em gorjetas… Outra dançarina do Minx Showgirls… disse que ganha uma média de $45 por noite” (Washburn e Davies, 2004). O frequentador de strip club de 25 anos, Tyke, que escreve para o jornal da indústria Strip Magazine explica que a ideia de que as dançarinas do Reino Unido podem fazer £2000 em uma noite é um mito. É de fato uma história frequentemente repetida por proprietários de clube, que achariam difícil atrair dançarinas se dissessem a verdade.Tyke explicou: “fazer £2000 em uma noite envolveria 100 danças de mesa, isto é, por volta de 15 por hora, por um típico turno de 7 horas, eu simplesmente não acho que isso aconteça” (Tyke, 2004). Ele diz que “garotas” podem, em circunstâncias excepcionais encontrar um banqueiro comercial que gaste seu “bônus de natal” e que isso poderia gerar os muito promovidos altos ganhos.

As taxas de lucro na indústria são elevadas pelo fato de que strippers não obtém os benefícios que os outros trabalhadores dos clubes recebem, uma vez que os donos dos clubes as tratam como agentes individuais que simplesmente alugam espaço no clube.

Como pontua Kelly Holsopple em sua pesquisa sobre stripping, embora os donos de clube defendam que elas não sejam empregadas e que strippers sejam agentes independentes, eles controlam horários e agendas, salários e gorjetas e até mesmo determinam o preço de danças de mesa e danças privadas(Holsopple, 1998).Eles pressionam dançarinas a fazer depilação completa dos pelos púbicos, bronzeamento para o ano todo ou silicone nos seios. Eles definem quando essas mulheres podem usar o banheiro, quando elas podem se misturar com outras mulheres e quando elas podem fumar. As regras são impostas com multas por chegar atrasada, por ligar doente, por “falar de volta” com clientes ou funcionários e muitos outros infringimentos que podem esgotar os ganhos delas. Muitas das ofensas pelas quais as strippers são multadas são, na verdade, inventadas. Além do mais, strippers têm que dar gorjetas àqueles que são empregados pelo clube em turnos regulares. Gerentes instituíram “uma gorjeta mandatória para seguranças e DJ’s” (ibid., p.3). Liepe-Levinson também escreve sobre multas por transgressões menores e horários duros de trabalho(Liepe-Levinson, 2002).

Vagina Industrial - citações(4)

Conforme os clubes tentam maximizar lucros, eles colocam números maiores de dançarinas, o que cria uma competição maior, diminui ganhos e pressiona strippers a engajar em práticas violadoras que elas prefeririam evitar, tais como lap dancing e prostituição. A stripper “aposentada” Amber Cook explicou, em uma coleção dos anos 1980 sobre trabalho sexual, que strippers são forçadas, porque existem dançarinas demais e não homens compradores suficientes, a competir e “encorajar entretenimento com mãos nelas ao invés de dança, para poderem fazer seu dinheiro” (Cooke, 1987, p. 98). Ela aponta que isso é “perigoso” e seguranças não são uma proteção efetiva porque eles não podem vigiar todas as mesas, muito menos as mais recentes cabines privadas, e podem ser “relutantes” em proteger uma stripper contra um grupo de homens agressivos. O advento do lap dancing em strip clubs foi visto por grupos advocatícios do stripper e dançarinas individuais como um criador de severos danos. Quando executado em cabines privadas isso habilita homens compradores a assediar sexualmente mulheres e a se envolver em formas de contato íntimo que as mulheres acham intolerável. Em um caso da corte de Melbourne, um homem foi preso em julho de 2006 por estuprar uma stripper em uma cabine privada: “Durante a dança, ela tirou seu tapa-sexo e ficou nua. Seus seios estavam perto de 30cm do rosto de Nguyen’s… [ele] atacou a mulher, estuprando-a com os dedos…ele prendeu a mulher a um sofá” (The Australian, 2006).

Vagina Industrial - citações(5)

Strippers canadenses formaram uma organização para se opor ao desenvolvimento de clubes de lap dancing e as entrevistadas de certo estudo objetaram particularmente terem que entrar em contato com “ejaculação de clientes”, o que acontecia “quando a ejaculação penetrava a roupa dos homens durante lap dances” (Lewis, 2000, p. 210). Uma entrevistada explicou: “Então na metade da música, tipo sem nenhum aviso, vocês está sentada no colo dele e de repente está molhada.” Outra preocupação era contato genital das “dançarinas” com a secreção vaginal de outras “dançarinas”, deixadas na roupa de “clientes”. Essas oponentes do lap dancing também falaram do prejuízo que experienciaram sendo pressionadas por proprietários, gerentes e clientes a fazer lap dancing e ao serem ameaçadas com perda de emprego caso não atendessem. Tais práticas as fizeram sentir “desempoderadas e vitimizadas”. Duas dançarinas disseram que estiveram “chorando até não poder mais” depois de sua primeira noite de lap dancing, e ficaram angustiadas por causa d’ “os dedos daqueles estranhos em você inteira – era realmente nojento” (ibid.). Não obstante, a pesquisadora, Jacqueline Lewis, se opôs à proibição do lap dancing, que muitas de suas entrevistadas viam como necessária para a sobrevivência delas na indústria. Ela considerava que a solução para os problemas que strippers encaravam era tratar o stripping apenas como outras formas de trabalho. Mas não existem outras formas de trabalho, separados da indústria do sexo, nas quais mulheres tenham que lutar para manter os dedos e a ejaculação dos homens longe de seus corpos nus.

Houve muito pouca pesquisa sobre os danos físicos e psicológicos que strippers encaram nos clubes. De fato, informação sobre esses prejuízos podem ser difíceis de extrair para alguns pesquisadores. Danielle Egan, que escreve sobre stripping do que ela chama de uma perspectiva “sexualmente radical” e rejeita a análise do feminismo radical, que foca em danos, comenta que as mulheres com as quais ela trabalhou como uma stripper e entrevistou para seu livro evitavam se elaborar em suas “experiências com noites ruins” (Egan, 2006, p. 83). Egan interpretou noites ruins como aquelas nas quais as mulheres conseguiam muito pouco dinheiro e as faziam se sentirem mal ou “como putas” e noites boas como aquelas nas quais elas faziam dinheiro e se sentiam bem. Ela não se estende na experiência das mulheres de serem tocada por homens ou de terem que tocá-los e de como elas se sentiam sobre a tais práticas. Essa análise mais detalhada é difícil de se encontrar. Kelly Holsopple, que trabalhou como uma stripper nos EUA por 13 anos, conduziu pesquisas sobre os danos da indústria contra as dançarinas (Holsopple, 1998). Ela coloca que “o elemento básico comum em strip clubs é que clientes homens, gerentes, funcionários e proprietários usam diversos métodos de assédio, manipulação, exploração e abuso para controlar mulheres strippers” (ibid., p. 1). Holsopple conduziu 41 entrevistas e 18 pesquisas face a face seguidas por discussões.

Suas entrevistas não relatavam o empoderamento feminino ou expressão de agência que alguns estudos de gênero têm atribuído ao stripping (e.g. Egan, 2006). Mulheres tinham que fazer atividades que elas não queriam porque sua renda era “inteiramente dependente de condescendência com demandas dos clientes para poder ganhar gorjetas” (Holsopple, 1998, p. 3). Holsopple conclui de suas entrevistas que, como abuso “clientes cospem nas mulheres, jogam cerveja e apagam cigarros nelas” e elas são “apedrejadas com gelo, moedas, lixo, camisinhas, chaves de apartamento, pornografia e bolas de golfe”(ibid., p. 8). Missiles incluiu um porquinho-da-índia vivo e um esquilo morto. Mulheres eram acertadas por latas e garrafas jogadas pela audiência, e compradores também “puxam o cabelo das mulheres, puxam elas pelo braço ou joelho, rasgam suas fantasias e tentam tirar suas vestimentas”. Mulheres são comumente “mordidas, lambidas, esbofeteadas, socadas e beliscadas” (ibid.). Os homens compradores tentam penetrar mulheres pela vagina e pelo ânus com “dedos, notas de dólar e garrafas”. Penetração vaginal e anal bem sucedidas eram comuns.

O estudo de Holsopple mostrou que mulheres sofriam prejuízos particulares pelas condições nas quais era exigido que elas dançassem. Elas tinham que dançar em pistas elevadas, o que as limitava de se livrar de homens tocando nelas de qualquer lado. No contexto das danças privadas, homens abertamente se masturbavam e “colocavam seus dedos dentro das mulheres”. Dança na parede, por exemplo, “exige que uma stripper carregue alcohol swabs (gazes com álcool para higienização) para limpar os dedos do cliente antes que ele os insira na vagina dela”. As costas dele ficam estacionadas contra a parede e a mulher é pressionada contra ele com uma perna levantada” (Holsopple, 1998,p. 6). As entrevistas de Holsopple descrevem claramente as formas de pressão e assédio sexual que elas experienciam dos homens compradores em danças privadas: “Eu não quero que ele me toque, mas eu tenho medo de que ele vá dizer alguma coisa violenta se eu disser não para ele” e “eu só conseguia pensar no quão mal esses caras cheiravam e tentar segurar minha respiração” ou “eu passava a dança super vigilante para evitar suas mãos, bocas e genitálias” (ibid.). Todas as mulheres na pesquisa dela reportaram terem sido fisicamente e sexualmente abusadas nos clubes e sofrido assédio verbal, frequentemente múltiplas vezes. A maioria fora perseguida por alguém associado ao clube, de uma a sete vezes cada. Holsopple diz que regulamentos de que clientes não devam tocar dançarinas são “constantemente violados” e “stripping normalmente envolve prostituição” (ibid.). Liepe-Levinson relata que as strippers que ela entrevistou experienciaram pressão para fazer favores sexuais para chefes e empregadores (Liepe-Levinson, 2002).

A recomendação oferecida a strippers ,vinda seja de dentro da indústria seja de agências de trabalho sexual financiadas pelo Estado, sobre como evitar violência apoia os pensamentos de Holsopple sobre os perigos associados ao stripping. No website da Strip Magazine, por exemplo, Ram Mani oferece conselhos sobre como estar constantemente alerta a todas as possibilidades de violência masculina (Mani, 2004). Mulheres são advertidas a não deixarem os clubes sozinhas. Fora do clube elas devem ir direto pra dentro de seus carros e trancar as portas, indo embora imediatamente. Elas não devem tomar uma rota direta para casa e devem manter um olho no retrovisor para checar se não estão sendo seguidas. Elas devem estacionar nem tão longe do clube que tenham que fazer uma caminhada perigosa para chegar a ele, nem tão perto que um homem possa estar hábil a anotar o número da placa. Quando elas registram seus carros elas devem fazê-lo com outro endereço que não seja sua casa. Elas são avisadas: as chances de ser perseguida, assaltada ou amarrada estão maiores e você deve sempre se manter em guarda” (ibid.). O aviso oferecido a strippers pelo website advocatório do trabalho sexual STAR, em Toronto, inclui dicas para combater agressão sexual: “Fique atenta a mãos vagueando. Clientes têm um momento facilitado para tocar você quando você dança em uma caixa, especialmente quando você está se curvando (STAR, 2004). É avisado às dançarinas que se “tome cuidado com clientes indisciplinados ou agressivos” e que se “use os espelhos para tomar conta da sua retaguarda”. Existe um aviso específico para danças privadas já que “existe uma grande possibilidade de ataque”, que é: “Se um cliente estiver tentando agarrar você, tente segurar as mãos dele de um jeito sexy para controlá-lo. Mas esteja ciente de que toque viola alguns estatutos municipais. Se você estiver sendo atacada, grite” (ibid.). A indústria do strip club é perigosa e abusiva nesse nível para as mulheres envolvidas nela, mas os seus danos se estendem para além dos próprios clubes para afetar o status e a experiência de outras mulheres.

Reforçando a desigualdade de gênero: o teto de vidro para mulheres nos negócios

Mulheres em uma sociedade na qual strip clubs florescem estão suscetíveis a serem afetadas por eles de várias formas. Mulheres cujos maridos, parceiros, filhos, amigos e colegas de trabalho homens visitam strip clubs sofrerão alguns efeitos. Esposas e parceiras de pornófilos, por exemplo, relatam em entrevistas que sofrem prejuízos como perda de autoestima, conforme homens as comparam com as mulheres da pornografia, tendo que fazer posições e práticas que vêm da pornografia para satisfazer seus parceiros, e perda de renda familiar necessária para a obsessão dos homens com pornografia (Paul, 2005). A pesquisa de Frank constatou que homens relataram visitar strip clubs para se vingar de suas esposas se tinham uma discussão com elas e que estavam bem cientes do estresse que seu comportamento causaria se elas soubessem e que de fato causou para as mulheres que suspeitavam (Frank, 202a).Quando áreas de cidades são reivindicadas para a mercantilização sexual de mulheres por homens, mulheres que não estão na indústria do sexo provavelmente se sentirão excluídas desses espaços. Enquanto homens tomam como certo seu direito de estarem hábeis a acessar livremente locais públicos, mulheres sempre sofreram uma redução desse direito por causa da violência masculina e da sua ameaça.

Strip clubs não estão separados da sociedade, mas afetam a forma como homens se relacionam com mulheres em muitos níveis. Uma área de de prejuízo para a qual casos legais estão sendo trazidos agora e a pesquisa está apenas começando a ser realizada relaciona os obstáculos que strip clubs colocam no caminho da igualdade feminina no mundo dos negócios. Um estudo fascinante de 2006 (Morgan e Martin, 2006) mostra como profissionais mulheres são impedidas de participarem da rede social vital que assegura clientes e contratos. Ele explica que muitas profissionais “atravessam outros cenários, além do escritório, no curso de seu trabalho”, incluindo conferências, aviões, quartos e saguões de hotel, espaços de fábrica, percursos de golfe, quadras de tênis, eventos esportivos, bares, carros e feiras (Morgan e Martin, 2006, p. 109). O estudo explica que “socializações fora do escritório patrocinadas pelo empregador, com colegas, clientes e fornecedores, é institucionalizada”. Dessa forma o trabalho do dia a dia é feito tão bem quanto a “construção de relacionamento” que “firma o alicerce para reciprocidade e prolonga laços organizacionais em laços pessoais”(ibid.). Assim, essa socialização fora do escritório tem propósitos importantes que são completamente necessários para o trabalho e carreira de uma mulher, totalmente não opcionais. As autoras do estudo, Morgan e Martin, explicam que entreter clientes em strip clubs é uma parte ordinária do trabalho dos representantes de vendas que elas estiveram pesquisando em muitas indústrias. Elas escrevem: “Cálculos de revistas de comércio sugerem que quase metade dos homens de negócios, mas apenas 5 por cento das mulheres de negócios, haviam entretido clientes em bares topless” (Morgan e Martin, 2006, p. 116). Mulheres de negócios, elas apontam, são excluídas de “contatos de negócio e têm acesso negado a troca de informação profissional”. A informação da entrevista que elas estavam examinando mostrou que algumas das profissionais sentiam nojo das visitas a strip clubs, enquanto outras estavam simplesmente com raiva por serem excluídas, sendo mandadas para seus quartos de hotel enquanto os homens iam para os clubes. Os recibos de entretenimento mostravam os clubes como restaurantes, então os contadores não tinham que saber onde os eventos aconteceram.

Existe uma profusão de evidências que sugere que quando homens adentram strip clubs em grupos a atmosfera é ainda mais exageradamente masculina (Frank, 2003; Erickson e Tewksbury, 2000). Como Morgan e Martin colocam: “Os clientes tendem a ser mais barulhentos e mais estridentes. A bravata da ligação masculina permeia a audiência toda em algum grau. O nível de objetificação das dançarinas também parece aumentar como resultado desse fenômeno” (Morgan e Martin, 2006, p. 118). Mulheres não estão hábeis a participar dessa ligação, que é expressamente construída entre homens através da sua objetificação de mulheres nuas. Mulheres de negócios disseram que em tais eventos “eles minavam o “interação”, “diversão” e ultimamente os “laços” que essas confraternizações pretendiam promover” (ibid.). Uma mulher descreveu sua tentativa de comparecer a um strip club com um cliente e dois gerentes da empresa. Ela acabou conversando, e talvez se ligando, com as strippers ao invés de suas companhias masculinas. Ela disse: “E eu estou tipo, “okay, para onde eu olho?” eu vou falar com as strippers” (ibid.). A interação dela com as strippers é propensa a humanizá-las e proporcionar um impedimento para o aproveitamento masculino da objetificação

A prática de levar clientes a strip clubs parece ser particularmente comum na indústria de finanças. Estimadamente 80 por cento dos trabalhadores da cidade (presumivelmente homens) visitam clubes como o Spearmint Rhino em Londres como parte de seu trabalho. Isso saiu em um caso judicial sobre a caça de clientes entre duas firmas de finanças de Londres, em 2006 (Lynn, 2006). O jornalista documentando essa interessante peça de informação utilmente comenta: “Efetivamente, da mesma forma como os pais deles devem ter levado clientes a um dos clubes de cavalheiros de Pall Mall, corretores, hoje em dia, levam seus sócios de negócios para ver dançarinas de lap dancing. Os antigos clubes de cavalheiros proibiam mulheres – alguns ainda o fazem – ao passo que os estabelecimentos de lap dancing simplesmente as intimidam” (ibid.). Ele explica que se um banco não deixar seus trabalhadores levarem clientes a clubes de lap dancing então seus rivais certamente vão. Nos EUA essa forma de exclusão de mulheres de oportunidades iguais resultou em algumas ações de grande importância por discriminação de sexo contra grandes empresas de financiamento por funcionárias mulheres. Morgan Stanley, por exemplo, em 2004, concordou em pagar $54 milhões para redimir a “Comissão para a igualdade de oportunidade de emprego” (Equal Employment Opportunity Commission – EEOC) da cobrança de que esta havia “discriminando mulheres em salários e promoções e tolerado comentários indelicados sobre sexo e saídas apenas para homens a strip clubs com clientes”(Lublin, 2006). A mulher que processou disse na ação judicial que foi deixada de fora de um fim de semana de entretenimento com clientes em Las Vegas porque “os homens ficariam desconfortáveis participando de entretenimento sexualmente dirigido com uma colega presente, especialmente uma que conhecesse suas esposas” (Summers, 2007). Outra companhia, UBS, pagou US$29 milhões para uma ex-diretora de capitais internacionais que tinha um número de queixas que incluía ser convidada pelo seu chefe a um clube de ‘bottomless’ (N.T.: clubes onde as dançarinas ficam completamente nuas).

A prática de homens de negócios confraternizando em strip clubs também se estende a políticos em negócios de Estado. Em 2007 foi revelado que o líder do Partido Trabalhista na Austrália, Kevin Rudd, um comprometido cristão que é agora primeiro ministro, visitou o strip club Scores em Nova York, enquanto estava em negócios oficiais para as Nações Unidas (Summers, 2007). Ele foi convidado por Col Allen, editor do New York Post, pertencido por Rupert Murdoch, para ir ao clube junto com Warren Snowdown, membro do parlamento do Partido Trabalhista . Anne Summers, jornalista e diretora nos anos 1980 da “Comissão para Oportunidades Igualitárias”, escreve sobre seu desapontamento de que essa visita tenha sido recebida com alegre aceitação na mídia australiana a despeito de ser uma prática que discrimina mulheres. Ela aponta que a prática de entretenimento para negócios e política em strip clubs pode ser um grande negócio em termos de quantidade de dinheiro despendido. O clube Scores, ela expõe, abriu uma conta contestável de $US 241,000 debitada no cartão American Express do ex CEO da companhia de tecnologia informativa Savvis” (ibid.). O jornal na história de Kevin Rudd provavelmente apanhou a conta. O uso de strip clubs para atividades discriminatórias em prol dos laços masculinos tanto oferece oportunidades de corrupção para homens de negócios e elites políticas como senta pra beber em companhia de outra rede masculina, o crime organizado. O clube Scores era controlado nos anos 1990 pela família mafiosa Gambino (Raab, 1998).

Os strip clubs se tornaram tão integrados e aceitos dentro da cultura corporativa que sua importância nos negócios está agora sendo usada como um argumento sobre por que assembleias municipais deveriam encorajar seu desenvolvimento (Valler, 2005). Quando a questão de conceder licença a um clube de lap dancing estava perante o conselho em Coventry, Reino Unido, em 2005, um “líder de negócios” argumentou que “um clube de lap dancing impulsionaria a reputação da cidade como um centro principal de comércio… Quando homens de negócios viajam para um cidade grande onde passam a noite, eles quase esperam encontrar um clube de lap dancing. Se Coventry tem aspirações de ser uma área principal de negócios, então tem que ter entretenimento adulto de qualidade, e isso incluiria um clube de lap dancing”(ibid.). Strip Clubs são um aspecto da indústria internacional do sexo integrado a atual maneira como homens fazem negócios, política e crime, todavia através dos corpos de mulheres nuas. O efeito disso é o reforço do teto de vidro para mulheres nos negócios e nas profissões onde tenham a permissão de manter suas roupas vestidas na companhia de homens.

Reforçando a desigualdade de gênero: uma prática masculinizante

Concomitantemente às perdas que mulheres experienciam pela existência de strip clubs, parece haver um direto aprimoramento da autoestima dos homens, dos seus sentimentos de masculinidade e dos seus laços com outros homens. Embora exista pouca evidência de pesquisa em práticas de strip club que sugira que strippers experimentem uma reversão de papéis de gênero e um acesso ao poder, existe alguma pesquisa muito interessante sobre o que os compradores ganham em termos de poder pessoal em relação às mulheres por visitar os clubes. Katherine Frank usou seu status como stripper para ganhar acesso aos clientes e entrevistá-los. O trabalho dela é muito revelador quanto às motivações dos compradores (Frank, 2003). Ela estudou homens em strip clubs tradicionais, que não proporcionavam lap dancing, e relatou que nenhum dos homens que ela entrevistou disse frequentar os clubes por “alívio sexual”. Eles tinham outros motivos dos quais o mais comum era o “desejo de relaxar” e de visitar um lugar onde se podia “ser um homem” (Frank, 2003, p. 6). Frank explica que os clubes “proporcionam um ambiente onde homens, individualmente ou em grupos, podem participar de atividades tradicionalmente “masculinas” e formas de consumo mal vistas em outras esferas, tais como beber, fumar cigarros e… ser arruaceiro, vulgar ou agressivo” (ibid.). Strip clubs recriam os espaços exclusivos para homens que foram desafiados na segunda onda feminista. Nos anos 1970 e 1980 algumas das principais campanhas foram direcionadas a tirar dos homens o privilégio de terem espaços apenas para eles, para socializar e fazer negócios, onde mulheres não eram permitidas. Essas campanhas incluíram exigir e alcançar a entrada das mulheres em casas públicas, em clubes esportivos e em outros lugares de entretenimento em uma base igualitária com homens. O boom dos strip clubs pode ser visto como um contra ataque, no qual homens têm reafirmado seu direito a redes para e saturadas da dominação masculina, sem a presença irritante de mulheres, a não ser que essas mulheres estejam nuas e servindo para seu prazer.

Vagina Industrial - citações(6)

Frank descobriu que uma importante razão para homens visitarem os clubes era que providenciava uma compensação para o declínio de poder que eles experimentavam conforme suas esposas, parceiras e colegas de trabalho mulheres largavam a subordinação, começavam a competir com eles e exigiam igualdade. Os strip clubs forneciam um antídoto para a erosão da dominação masculina, através da institucionalização da hierarquia tradicional das relações de gênero. Os homens achavam as relações diárias com mulheres “uma fonte de pressão e expectativa” e descreveram relações entre mulheres e homens no geral como “forçadas”, “confusas” ou “tensas”. Um comprador se referiu à “guerra entre os sexos”. Eles buscavam descanso dos problemas de terem que tratar mulheres como iguais no ambiente de trabalho também. Um dos entrevistados de Frank, Philip, disse que ele conseguia “deixar a frustração do lado de fora”, particularmente sobre “essa perseguição sexual acontecendo nos dias de hoje, homens precisam de algum lugar para ir onde possam dizer e fazer o que quiserem”. Alguns compradores, Frank descobriu, “desejavam interagir com mulheres que não fossem “feministas”, e que ainda quisessem… interagir com homens de jeitos “mais tradicionais” ”. Um desses jeitos tradicionais, pelo visto, é o serviço incondicional de mulheres às demandas sexuais dos homens. Outros compradores disseram a ela que, fora da indústria do sexo, “homens tinham que estar continuamente vigilantes para não ofender mulheres”. frank pontua que “vários dos comentários acima poderiam ser analisados como parte de um contra-ataque ao feminismo” mas ela diz que prefere vê-los como um resultado da confusão causada pelo feminismo e pelo movimento das mulheres para igualdade, caindo em “uma treliça de confusão e frustração ao invés de uma de privilégio ou dominação”. Ela diz, no entanto, que o rápido crescimento de strip clubs nos EUA nos anos 1980 “concorreu com um massivo aumento de mulheres na força de trabalho e uma expansão na atenção para questões de assédio sexual e estupro” (ibid.). “Muitos” dos homens com quem ela falou disseram que estavam confusos sobre o que mulheres esperavam deles em relacionamentos, particularmente quando as esposas trabalhavam, tinham suas próprias rendas e queriam ser incluídas na tomada de decisões.

Frank considera que o que acontece nos clubes faz mais do que compensar homens por essas mudanças. As visitas a strip clubs podem ser entendida como “práticas masculinizantes” por direito próprio. Nos clubes, mulheres que seriam de outra forma inalcançáveis, podiam ser submetidas ao controle dos homens, exercido dentro da habilidade delas de recusar pagamento, que seria discutida ao longo de suas conversas com as mulheres, e também se e quando as mulheres tinham que fazer strip. Homens relataram que eles ganhavam um “impulso no ego” porque não existia medo de rejeição ou de competição com outros homens. Frank conclui que strip clubs ajudam a reforçar o poder masculino, através da manutenção do “desequilíbrio na dinâmica de poder em relações pessoais com mulheres, especialmente quando são usados para envergonhar ou estressar esposas ou parceiras” (ibid., p. 74). Entretanto ela permanece determinada a não colocar muita ênfase nisso. Ela comenta, a despeito da evidência que ela apresenta, que “isso não é dizer que intercursos sexuais mercantilizados sejam inerentemente sobre a preservação e reprodução do poder masculino” (ibid., p. 75).

Outro estudo sobre clientes de strip club, feito por dois pesquisadores homens, apoia as descobertas de Frank sobre o papel que os clubes exercem na preservação da dominação masculina (Erickson e Tewksbury, 2000). O estudo analisa como o “contexto ultra-masculino programado afeta e esclarece os motivos dos clientes para frequentar strip clubs (ibid.,p. 272). Esse estudo também aponta que os homens nos clubes estão no controle enquanto as mulheres estão limitadas a “retribuir a maior parte da atenção paga a elas pelo cliente” ao invés de poderem rejeitar atenção masculina como podem fazer no mundo de fora (ibid., p. 273). O cliente “pode ditar a natureza, e constantemente o curso, das interações porque a dançarina é ao mesmo tempo obrigada e financeiramente motivada a cooperar com a direção do cliente na definição dessas interações” (ibid.). Esse estudo confirma o argumento de Frank de que os clubes são ambientes apenas para homens e que reafirmam a masculinidade, “é quase exclusivamente uma “coisa de homem” ir a strip clubs. É um dos muito poucos lugares onde homens têm a oportunidade de abertamente exibir seus desejos sexuais latentes e de performar seu “privilégio masculino””(ibid., p. 289). O “contexto” do strip club serve para afirmar masculinidade porque é “impregnado” por imagens que abertamente objetificam mulheres, é ultra-masculino” (ibid.). Eles concluem, entretanto ,de um modo que parece contradizer suas descobertas anteriores, dizendo que o estudo deles contraria a noção de que strippers sejam exploradas porque as dançarinas “controlam a sequência e o conteúdo das suas interações com clientes e, ao fazer isso, geram uma substancial renda para si mesmas e proporcionam aos homens acesso a importantes produtos sociais”(ibid., p. 292). Na visão deles, isso é uma troca justa. Ainda que anteriormente eles explicitamente tenham exposto que homens estão no controle das interações, porque as mulheres não podem rejeitar seus avanços como poderiam fazer no mundo fora dos clubes, e que eles também não apresentem nenhuma evidência de ganhos para as dançarinas. A pesquisa deles parece assim representar uma perspectiva de compradores homens.

Diferentemente do tradicional clube londrino de cavalheiros Pall Mall, os strip clubs oferecem a oportunidade de degradar mulheres, não apenas de criar laços e fazer negócios sem a presença delas. Os novos clubes de cavalheiros precisam de mulheres presentes, mas apenas quando nuas e disponíveis para compra. Homens podem beber com seus amigos enquanto encaram a genitália de uma mulher ou enfiam seus dedos dentro de seu ânus ou vagina. O contexto no qual os compradores têm essa recompensa entregue é criado para eles por redes masculinas de proprietários e franqueados.

Conclusão

O boom dos strip clubs precisa ser adequado à compreensão da industrialização e globalização da indústria do sexo. Um exame do contexto do boom dos strip clubs, da forma como são feitos os lucros, do envolvimento do crime organizado, do tráfico de mulheres e garotas para os clubes, da violência e exploração que toma espaço, faz com que os argumentos de algumas feministas liberais de que dançarinas sejam empoderadas pelo stripping, aptas a exercitar agência e transgredir relações de gênero, pareçam muito frágeis. Tais argumentos representam um descontextualizado individualismo que não leva em conta a desigualdade existente entre homens e mulheres e a forma como strip clubs podem derivar dela e servir para reforçá- la. Ao invés disso, eu sugiro, o boom do strip club representa um rebalanceamento das relações de poder da dominação masculina, longe do que foi conquistado através dos movimentos feministas e das mudanças sociais e econômicas do último quarto de século. Faz isso através do seu papel no capitalismo internacional e no crime organizado, dos efeitos masculinizantes da frequentação dos clubes em compradores, da subordinação de centenas de milhares de mulheres nos clubes e da privação de oportunidades iguais a mulheres em redes profissionais e de negócios, nacionais e internacionais, de homens que usam os clubes para criar laços e fazer negócios. O boom do strip club importa para o ocidente práticas degradantes desenvolvidas nos países pobres do sudeste da Ásia para servir aos militares dos Estados Unidos como descanso e recreação. As normas da prostituição militar foram globalizadas. Mulheres dançavam e esperavam para ser escolhidas , no ocidente para lap dances, e no sudeste da Ásia para outras formas de prostituição, como veremos no capítulo 5.

Vagina Industrial - citações(7)

*N.T.: Nota da tradutora