“Trabalho sexual” ou “prostituição”? Escolha de linguagem revela visão sobre dominação masculina

Por Robert Jensen, publicado em 27 de fevereiro de 2017 para o Conatus News. Robert Jensen é professor da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas em Austin. Este ensaio é extraído de seu livro O Fim do Patriarcado: Feminismo Radical para Homens, publicado em janeiro de 2017 pela Spinifex Press. Ele pode ser encontrado em rjensen@austin.utexas.edu ou através de seu website, http://robertwjensen.org/

Traduzido por Carol Correia


Os termos para descrever a compra e venda de corpos para sexo no mundo moderno transmitem muito sobre o debate ideológico subjacente em curso na cultura e no feminismo.

Nos círculos liberais, “trabalhadora do sexo” tornou-se comum, rejeitando a feiura de palavras como “prostituta” que são usadas em uma cultura que gosta de culpar as mulheres pela exploração e abuso das mulheres pelos homens.

Mas como um homem enraizado em uma crítica feminista do domínio masculino institucionalizado – em outras palavras, um crítico do patriarcado, talvez uma palavra antiquada mas que ainda descreve nossa sociedade – não me refiro à compra do sexo como trabalho, mas como prostituição. Refiro-me à prostituição – junto com a pornografia e as atividades em bares de strip-tease, operações sexuais comerciais por telefone/computador e casas de massagem – como as indústrias da exploração sexual.

Qual é o melhor termo para uma mulher em uma das indústrias de exploração sexual? Eu sigo os insights de mulheres como Rachel Moran, autora de Paga: Minha jornada pela prostituição: “Eu não era uma prostituta, eu estava prostituída. Há uma diferença muito grande e significativa”, diz ela. Uma mulher sendo usada por homens para o sexo não é reduzida a “prostituta” como uma identidade; ela continua sendo um ser humano completo, mesmo sendo tratada como menos do que isso por um homem. (Tanto homens quanto mulheres podem ser prostituídos dessa maneira, mas a maioria é de meninas e mulheres e a grande maioria dos compradores são homens.)

Essas escolhas de linguagem sinalizam análises dramaticamente diferentes. Podemos entender essas práticas como parte fundamental de um sistema patriarcal que tenta controlar as mulheres e sua sexualidade, que, portanto, devem ser desafiadas (a posição feminista radical); ou apenas como um tipo de trabalho que as mulheres podem dedicar à sua vantagem potencial, que, portanto, deve ser tratada como qualquer outra forma de trabalho (a posição liberal).

Uma série de perguntas pode ajudar a revelar qual posição é mais consistente com a justiça.

Primeiro, é possível imaginar qualquer sociedade que alcance um nível significativo de justiça se as pessoas de uma classe de sexo/gênero puderem ser rotineiramente compradas e vendidas para serviços sexuais por pessoas de outra classe de sexo/gênero? Se uma classe de pessoas é definida como “disponível para compra e venda de serviços sexuais”, existe alguma forma da classe de pessoas não ser designada como subordinada para a classe dominante que faz a compra? A justiça é possível quando os espaços mais íntimos dos corpos das pessoas de um grupo podem ser comprados por pessoas de outro grupo?

Mesma pergunta feita diferentemente: Se vivêssemos em uma sociedade igualitária com justiça de sexo/gênero, a ideia de comprar e vender pessoas para serviços sexuais surgiria? Se vivêssemos em uma sociedade que colocasse a dignidade de todas as pessoas no centro de sua missão, alguém imaginaria a possibilidade de “trabalho sexual”?

Outra formulação: você está construindo uma sociedade a partir do zero, com o poder não apenas de escrever leis (se decidir que devem existir leis formais), mas também de escrever as histórias que as pessoas contam sobre si mesmas e sobre o mundo vivo. Você escreveria histórias sobre como uma classe de sexo/gênero rotineiramente compra e vende outra classe de sexo/gênero para prazer sexual?

Última pergunta: Você está falando com uma garota que está considerando futuras vocações. Você quer que ela viva em um mundo com justiça sexual/de gênero. Ela pergunta: “O que você acha que eu deveria ser quando crescer?” Você inclui “prostituta” na lista? Se ela inclui isso em sua lista, você responde da mesma maneira que outras possibilidades?

Se a resposta a essas perguntas é não, talvez seja porque, como a socióloga Kathleen Barry expõe sem rodeios em seu livro A Prostituição da Sexualidade: “Quando o ser humano é reduzido a um corpo, objetificado a servir sexualmente a outro, tenha ou não consentimento, violação do ser humano tomou lugar.”

Uma sociedade justa que garanta a dignidade para as mulheres é impossível no patriarcado – seja a versão conservadora ou liberal do domínio masculino institucionalizado. Temos que trabalhar não apenas para desmantelar as estruturas do patriarcado, mas também para imaginar como seria uma sociedade além do patriarcado. Em tal mundo, é difícil imaginar prostitutas, profissionais do sexo ou putas.

Publicado por

solemgemeos

Advogada. Especialista em Direito Constitucional. Especialista em Processo Penal. email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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