O que a ideia de “robôs sexuais” nos diz sobre a prostituição

Escrito por Nordic Model Now!

Traduzido por Uma QueViu para o QG Feminista


Suzzan Blac, sobrevivente de abuso infantil, prostituição e tráfico sexual, que, através de sua arte, realça a violência, a objetificação e a desumanização intrínseca à indústria de exploração sexual comercial.

Conversamos com a Dra. Kathleen Richardson, pesquisadora sênior em Ética da Robótica na Universidade De Montford, sobre o que a ideia de “robôs sexuais” pode nos falar sobre a prostituição


P: Você já vinha pesquisando a ética dos robôs há vários anos quando a ideia de robôs sexuais começou a se tornar popular e foi quando você ouviu defensores dizendo que os robôs sexuais logo substituiriam as prostitutas que você começou a se tornar crítica a indústria do sexo. Você pode me falar mais sobre isso?

Comecei a pesquisar robôs quanto fazia doutorado em Cambridge, estudando antropologia social. Eu originalmente queria estudar a Amazônia porque estava interessada em culturas que antropomorfizam ou animam o meio ambiente. Eu queria saber mais sobre por que as culturas humanas fizeram isso. Mas, por acaso, eu fui ver o filme AI: Inteligência Artificial (2001) enquanto esperava para saber se seria aceita no programa de doutorado. O filme é a história de um robô fabricado para se parecer com uma criança. O robô infantil (David) era um novo produto comercial para ajudar as pessoas que perderam filhos ou não podiam tê-los. Eu percebi que se você projetasse robôs para parecer de uma certa maneira, poderia provocar reações nas pessoas.

Para minha surpresa, descobri que havia pesquisadores de robótica nos EUA (no Instituto de Tecnologia de Massachusetts) que também tentavam criar robôs com os quais as pessoas podiam formar “relacionamentos” (pelo menos, era assim que eles chamavam). Eles os chamaram de “robôs sociais” e começaram a construí-los, como um chamado Kismet. Esta foi a minha introdução aos robôs humanos contemporâneos. Este é o lugar onde tudo começou.

Um tema recorrente na ficção é o de homens fazerem fêmeas artificiais. No Gênesis, Deus criou Adão a imagem dele e a mulher foi criada a partir de uma simples costela de Adão. Em Pigmalião, um escultor (Pigmalião), que é o que hoje chamamos de “comprador de sexo”, fica desgostoso de comprar acesso aos corpos de mulheres prostituídas e esculpe uma mulher que é trazida à vida. Pigmalião era um conto em Metamorphoses de Ovídio (8 DC).

Depois, há A Eva Futura (1886) de Auguste Villiers de l’Isle-Adam, onde o termo android (“tendo a forma ou semelhança do homem”) foi popularizado em sua forma moderna. Mais recentemente, existem filmes como Mulheres Perfeitas (1972), escrito por Ira Levin e Ex-Machina (2014), escrito e dirigido por Alex Garland.

blue hair

“Blue Hair” por Suzzan Blac

Em todas essas histórias, as mulheres são subordinadas, dependentes e controladas pelos homens (seus criadores) em graus variados.

Podemos situar “robôs sexuais” como parte dessas narrativas de controle das representações das mulheres.

Imagine uma mulher que não tem interioridade, sem pensamentos, sentimentos, desejos ou vontades próprias, mas apenas o que se imagina que ela seja, uma tela em branco. Ela não é um ser humano por si próprio, mas o resultado do que (alguns) homens imaginam que ela é. É o que queremos dizer quando falamos que as mulheres são objetificadas.

Não existe nenhum robô sexual no momento — apenas bonecos de aparência realista, principalmente sob a forma pornificada de mulheres e garotas, embora algumas pessoas estejam fazendo remendos em suas oficinas caseiras, para criar robôs que possam realizar atos físicos básicos — como olhar de um lado para o outro, ou fazer um ruído quando uma parte específica do seu corpo é pressionada.

A afirmação de que os robôs sexuais podem reduzir a prostituição comercial e a exploração sexual infantil é uma tolice, porque ela despolitiza esses atos. Toda vez que um homem usa seu poder para comprar o acesso a outro ser humano para sexo, ele está envolvido em um ato político; ele está usando seu poder e privilégio para desumanizar outro ser humano. Toda vez que adultos estupram crianças, eles estão exercendo seu poder político sobre outros. Eles estão dizendo “você não é tão humano como eu e eu posso tratá-lo como sub-humano”. Os robôs não conseguem resolver esses problemas tanto quanto não conseguem resolver problemas de desigualdade ou racismo, porque essas questões são políticas.

P: Mas certamente seria uma boa coisa se pudéssemos substituir as pessoas dessa indústria exploradora por objetos inanimados não?

red hair

“Red Hair” por Suzzan Blac

Como abolicionista do comércio de seres humanos, eu festejaria e apoiaria a chegada de robôs sexuais se eu achasse por um segundo que eles iriam ajudar a abordar qualquer um desses problemas. A razão pela qual os homens são autorizados a pagar para estuprar mulheres e crianças no comércio da prostituição é um problema político e que só pode ser abordado ao acabar com a comercialização de seres humanos para o sexo. Vamos ver de outra maneira. Se os homens simplesmente querem esfregar algo em seus órgãos genitais para conseguir prazer, existem muitas maneiras de fazê-lo. E eles nem precisam comprar produtos comerciais (ou “brinquedos sexuais” como são chamados); alimentos domésticos e objetos podem fazer o trabalho.

Como minha colega Florence Gildea e eu escrevemos recentemente, quando um homem coloca seu corpo (dedos, língua, pênis) dentro ou sobre um objeto inanimado, é uma masturbação. Mas quando ele coloca seu corpo (dedos, língua, pênis) dentro ou sobre um ser humano (uma mulher, um homem ou uma criança), mas se relaciona com eles como se fossem objetos (incluindo o pagamento pelo acesso aos seus corpos), isso é ESTUPRO!

Se os homens não conseguem distinguir a diferença entre masturbação e estupro pago quando eles se envolvem com um ser humano real no comércio da prostituição, como lhes dar uma boneca como substituta vai mudar suas crenças?

P: Então, por que os robôs sexuais são diferentes dos vibradores?

 Ah, essa velha história. Se eu pudesse ganhar um centavo para todas as vezes que já perguntaram isso…

Vibradores são objetos que você esfrega em seus órgãos genitais. Um pênis não vibra. Mas se queremos estender esse exemplo a um vibrador (que geralmente pode parecer uma forma fálica), isso significa que os vibradores “objetificam” os homens? Eu acho que seria útil entender o que queremos dizer com objetificação. É o que acontece com os seres humanos quando são vistos como se não fossem diferentes de artefatos ou mercadorias. Homens adultos, apesar do que pensam, não são sexualmente objetificados. Não há mercados comerciais em massa para compra e venda de seus corpos para sexo.

Além disso, formas que se assemelham a um falo exterior ou a uma vagina interior ocorrem naturalmente. Se, por associação, qualquer coisa fálica objetifica homens, então cenouras, bananas e pepinos pertenceriam a essa categoria. Mas existe um enorme mercado de compra e venda de corpos humanos, principalmente femininos, para sexo, e os compradores primários são homens — MAIS DE 99% SÃO DO SEXO MASCULINO!

Portanto, não podemos falar sobre corpos masculinos e femininos da mesma maneira.

E, além disso, o verdadeiro equivalente de um vibrador, mesmo do ponto de vista lógico, é uma lanterna, não uma figura humanoide completa.

P: Então, o que você está dizendo é que a prostituição ecoa e reproduz o relacionamento mestre-escravo — um relacionamento não mútuo que caracteriza uma parte como humana e a outra como uma ferramenta?

 Vivemos em uma sociedade onde o paradigma individualista é a forma dominante. Pense nisso como “eu penso, logo, eu sou” (famosa citação de Rene Decartes).

A ênfase das sociedades escravagistas, colonialistas e capitalistas é sobre a importância do “eu”. Somente o “eu” importa.

Mas quando nos encontramos com outros seres humanos, não somos apenas um “eu”, também somos simultaneamente um “você”. Isso significa que, quando estamos interagindo com outro ser humano, não podemos ignorar o fato de ser uma co-experiência.

Mas o que acontece se ignorarmos essa realidade e privilegiarmos a perspectiva de pessoas com mais poder na sociedade, como os homens brancos? Aqueles com mais poder podem então sair impunes ao tratar os outros, não como iguais, mas como subservientes, como menores. Quando alguém compra acesso sexual a um ser humano, eles os desumanizam.

Os homens sabem muito bem que, se querem fazer sexo com uma mulher, devem ter em conta o que ela pode estar pensando, sentindo e experimentando. E é por isso que os homens vão recorrer as pessoas prostituídas, para que eles não precisem reconhecê-las como seres humanos. Caso contrário, não haveria prostituição.

Em uma das primeiras definições de escravo por Aristóteles, ele não fez nenhuma distinção entre ferramentas inanimadas e ferramentas vivas (escravos). Ele simplesmente pensou que eram ferramentas de diferentes tipos. Aristóteles chamou o escravo de “uma espécie de pedaço vivo de propriedade” — ele escreveu isso em Política. No mesmo livro, ele disse que escravos, mulheres e crianças eram propriedade de cidadãos do sexo masculino. Eu acredito que essa simetria entre pessoas e coisas — como se fossem equivalentes à propriedade — é a ideia subjacente ao comércio de prostituição comercial. É essa visão da pessoa prostituída como uma ferramenta (um pedaço vivo de propriedade) que precisa ser desafiada.

Algumas pessoas pensam que, com robôs sexuais, ferramentas inanimadas podem se tornar vivas. Mas isso é uma fantasia, uma ilusão. Somente na ficção, as ferramentas inanimadas podem se tornar equivalentes aos seres humanos.

P: Quais você acha que são os impactos disso para nossa sociedade, nossa cultura, nosso futuro?

 Quando comecei a questionar o poder dos homens de usar os corpos de seres humanos para o sexo, encontrei com uma barragem de contra-argumentos. Há aqueles que estão fazendo tudo o que podem para proteger o direito dos homens de estuprar pessoas, considerar os outros como menos do que humanos e manter para os homens as diferentes regras deste mundo de se relacionar com aqueles com menos poder. Parece David lutando contra Golias!

No meu trabalho, faço uma distinção entre humanos e ferramentas. Eu digo que é problemático usar humanos como ferramentas e se relacionar com eles como se fossem ferramentas, formas de propriedade. Mas também é problemático dizer que as ferramentas podem se tornar pessoas. Há muitos debates em inteligência artificial e robótica em que filósofos especulam dar direitos às máquinas (acredite ou não).

Como o meu trabalho é formado pela política contra a escravidão e pelo feminismo abolicionista, não vejo pessoas como propriedade. Em uma sociedade como a nossa, acabar com as distinções entre humanos e máquinas é benéfica para as corporações, particularmente aqueles que querem abolir os direitos humanos. Para que os seres humanos tenham proteções, sejam tratados de maneira diferente dos objetos, deve haver a consciência de que o que significa ser humano é fundamentalmente diferente de uma mercadoria.

Ver as pessoas como se fossem máquinas, pode ser bom para empresas e corporações, mas é ruim para o resto de nós que não possuem ou que tem participação nelas.

Ver as pessoas como menos do que humanas pode ser bom para os homens que pagam para estuprar mulheres e crianças no comércio de prostituição, mas é ruim para a humanidade como um todo, porque os seres humanos estão interpessoalmente conectados e têm diferentes quantidades de poder.

Quando eu estava estudando a escravidão na Grécia antiga, muitas pessoas disseram, “ninguém contestou a escravidão na Grécia antiga porque foi naturalizada”. Isso significa que pessoas como Aristóteles, que seriam consideradas fascistas, racistas, colonialistas e sexistas em nosso mundo contemporâneo, conseguiram um passe livre. Você ficaria surpreso com quantos filósofos da tecnologia usam as ideias desenvolvidas por Aristóteles para falar sobre relações humanas.

Meu objetivo é expor as falhas no pensamento de Aristóteles e mostrar que ele não está apto a nos ajudar a entender um mundo onde existe um compromisso genuíno com a igualdade de todos os seres humanos. Promover a filosofia de Aristóteles é inerentemente problemático.

Finalmente, não é verdade que todos na Grécia antiga concordavam com a escravidão e Aristóteles faz uma referência a isso em seu livro, Política:

“Outros dizem que é contrário à natureza governar como mestre sobre o escravo, porque a distinção entre escravo e liberto é apenas uma convenção e, na natureza, não há diferença, de modo que esta forma de regra é baseada na força e portanto, não é justa.”

Felizmente, a resistência à desigualdade é tão antiga quanto a própria escravidão.

Publicado por

solemgemeos

Advogada. Especialista em Direito Constitucional. Especialista em Processo Penal. email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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