Sonia Sánchez: “Nenhuma mulher nasce para ser puta”, a história de uma sobrevivente do tráfico de mulheres e da prostituição

Escrito por Graciela Atencio para o  Feminicidio

Traduzido por Leonardo Paradeda


Foi explorada sexualmente por quase 6 anos. Ainda que se defina como uma sobrevivente, abraça-se à vida com paixão e dignidade. Teve a coragem e a força interior para romper as correntes de uma das piores escravidões desta época. Enfrentou o que ela chama “a solidão da puta” e nessa viagem subjetiva repleta de adversidades desconstruiu e reconstruiu sua vida. Hoje, é escritora, formadora e ativista feminista. Entrevistamos ela uns dias antes de sua participação nas Jornadas Internacionais sobre Tráfico e Prostituição de Mulheres, que acontecem em Madri, organizadas pela Comissão para a Investigação de Maus-tratos a Mulheres

Madri, Espanha — Entrevistar Sonia Sánchez por Skype, às vésperas de sua primeira viagem à Europa, foi mais fácil do que parecia. Amanhã, ela participa das Jornadas Internacionais sobre Tráfico e Prostituição de Mulheres, que acontecem em Madri, convidada pela Comissão para a Investigação de Maus-tratos a Mulheres.

Seu livro, Nenhuma mulher nasce para ser puta [Ninguna mujer nace para puta], escrito a duas vozes, junto com María Galindo, é uma referência entre os ensaios em castelhano sobre a prostituição. No meu caso, há um antes e um depois de lê-lo; o testemunho de Sonia Sánchez, seu destroçamento interior, sua catarse de sobrevivente da prostituição e do tráfico de mulheres e seus questionamentos não passam em branco, sacodem-te para a tomada de consciência. Deixam uma marca. Ela é uma heroína do século XXI, que sobreviveu a uma das piores barbáries contemporâneas. Tem a sorte de poder contá-lo e transformar o mundo que a rodeia com seu relato comovedor, seu discurso corrosivo e um otimismo transbordante.

A entrevista durou mais de 6 horas e estendeu-se por Skype durante todo o fim de semana passado. É impossível condensar seu meio século de vida em poucas páginas, mas a conversa, minhas perguntas e as suas respostas fluíram em um encontro de coração aberto.

A ESCURIDÃO

Começo com uma pergunta que você deve estar acostumada que te façam: Como você chegou à prostituição?

Preciso te lembrar a uma circunstância, que é que, aos 15 anos, abandonei o colégio. Nasci em Villa Ángela, Província do Chaco, rica em recursos naturais, mas uma das mais empobrecidas da Argentina. Cansada de comer bem apenas a cada três dias, tinha uma irmã trabalhando como empregada doméstica em Buenos Aires, morando na casa dos patrões e decidi ganhar a vida lá da mesma forma.

Tinha uma família grande?

Sim. Minha mãe era lavadeira, trabalhava como empregada doméstica às vezes, e meu pai era pedreiro. Somos 7 irmãs mulheres. A mais velha de todas era a que vivia na cidade de Buenos Aires. A amiga de sua patroa pediu uma mulher do interior para ter como empregada doméstica. Lembro que discuti com minha mãe, porque ela não queria que eu viajasse em busca de trabalho fora de minha terra. Mas, eu dizia: “Quero progredir”. Era a quarta filha de 7. Bem, e assim cheguei, com 16 anos, à Capital. A patroa foi me esperar na rodoviária do Bairro Retiro, com uma plaquinha que dizia: “Sonia Sánchez”. Sempre digo que as placas marcaram minha vida. Foi fascinante chegar a uma cidade tão grande. Lembro de passar pela Avenida Córdoba e ver um rio de carros. Pensava: “Uau! O que é isso?”, eu perdia o olhar até o céu, ao ver tantos edifícios altos. Levaram-me ao Bairro Floresta, a uma casa muito grande, de dois andares.

Tinha que fazer todos os trabalhos da casa: lavar, passar, limpar e cozinhar. Lembro que me levantava às 5h e deitava à 1h. Dar banho nas meninas, preparar o café da manhã, assim começava meu dia. Só descansava aos domingos à tarde, mas trabalhava de segunda-feira a domingo. Então, nessa meia tarde que tinha livre, lia o jornal Clarín e via nos classificados que procuravam por empregada doméstica, ofereciam muito mais do que me pagavam. Eu mandava tudo que ganhava para minha mãe, até que, depois de seis meses, me cansei; havia vindo a Buenos Aires para progredir e ajudar minha família. De modo que pedi um aumento à patroa e ela não quis me dar, porque, claro, era menor de idade, estava sozinha e longe de minha família. Hoje, posso entender que era explorada laboralmente. Disse à minha patroa que procurasse outra pessoa e me substituíram por uma menina paraguaia, pagando-lhe exatamente o mesmo que a mim. Aí começou a violência em minha vida. Puseram-me na rua e tive que buscar um hotel muito econômico do bairro onde dormir.

Passei 15 dias em um hotel, até que já não tive mais com que pagar, e nesse momento entrei em outra dimensão, em que me desconectei de tudo que me rodeava. Minha irmã também havia mudado de trabalho e perdi seu telefone. Há mais de 30 anos, não existia celular e não podia me comunicar com minha família do Chaco porque não tinham nem luz nem telefone. De maneira que, quando acabou meu dinheiro, o dono do hotel tirou-me a pouca roupa que eu tinha e fiquei na rua apenas com a roupa do corpo, um vestido e minha bolsa com os documentos. Fui para a Praça Flores e depois caminhei até a Praça Onze, no Centro. Lembro que caminhei mais de 60 quadras. Ali estive vivendo um tempo e passei as festas de fim de ano. Dormia durante o dia nos trens, onde me sentia protegida e à noite ficava acordada, não fazia ranchada com ninguém.

O que significa ranchada?

Ranchada é quando as pessoas que vivem na rua juntam-se em grupos de três, quatro ou cinco pessoas, com colchões que recolhem do lixo e dormem todas juntas, comem todas juntas, como se fossem uma família da rua. Existem ranchadas de pessoas adultas e ranchadas de adolescentes.

Quanto tempo você viveu na rua?

Vivi cinco meses na Praça Onze. Ficava acordada toda a noite, para me proteger de possíveis agressões. Comia o que encontrava no lixo, porque não sabia pedir. Comecei a emagrecer por causa da fome. A rua é o espaço mais vulnerável para as mulheres. Você está a mercê de todas e de todos. Agora, penso que, se tivesse podido terminar a escola secundária, se tivesse tido uma educação libertadora, se meus professores tivessem me dito “Não viaje para procurar trabalho em um lugar estranho, porque nem todas as pessoas que viajam, que migram, progridem”, se tivesse podido arrebentar a porta da casa do prefeito da minha cidade para exigir-lhe trabalho, educação — porque para isso estão nossos governantes, não? — , se tivesse tido tudo isso, não teria migrado.

Tua história é a de muitas migrantes que vêm à Espanha para buscar trabalho e logo acabam sendo enganadas e obrigadas a prostituírem-se.

Afinal, migra-se para sobreviver. Na prostituição, não se vive, sobrevive-se. Quando vivia na rua, não sabia que existiam as putas nem os homens prostituintes. Tampouco sabia que existiam fiolos (proxenetas). Na pobreza do Chaco, minha vida era a de uma menina inocente, ainda que sempre tenha trabalhado. Colhi algodão desde os 5 anos, era empregada doméstica, estudava e, em minha adolescência, aos sábados ia dançar.

Na cidade grande, só e desamparada, não sabia nada, não me juntava com ninguém e não fazia ranchada, de modo que segui procurando trabalho. Os possíveis empregadores respondiam-me que uma pessoa que vive em uma praça não tem domicílio legal e não me davam trabalho. E assim o mundo vai te expulsando. Depois de três dias vivendo na rua, já está a pura sujeira. Não tinha onde tomar banho nem onde lavar a roupa. Nesse entorno, via todos os dias mulheres que ficavam sentadas na praça e perguntava-me: “O que estarão fazendo essas mulheres?”. Pensava que deveriam estar descansando antes de voltar a suas casas. Olha a inocência de meus 16 anos! Houve uma que me provocou empatia, uma mulher que nessa época deviria ter 50 anos. Aproximei-me dela e contei minha história. Deu-me dinheiro para que comprasse xampu, condicionador; e moedas para pagar o chuveiro público da estação de trem. Disse-me: “Depois, vem e senta aqui na praça.” Fiz exatamente o que me disse e, quando voltei, perguntei-lhe: “E agora, o que faço?” E me respondeu: “Nada, senta no banco, que os homens farão tudo.” Nunca mais em minha maldita vida esquecerei essa frase que me marcou para sempre. Assim, os homens fizeram-me a puta de todas e de todos. Não recordo o primeiro homem que me prostituiu. Em minha memória turva, me vejo entrando sozinha em um hotel e com um prato de comida quente na mão. Uma semana depois, a polícia me prendeu pela primeira vez e soube nesse momento que na Província de Buenos Aires castigava com cárcere as prostitutas que estavam na rua. E você sabe por que me prenderam? Porque não tinha proxeneta. A polícia me obrigava a ter fiolo. Como se chama fiolo na Espanha?

Chulo. Mas a polícia te perguntou diretamente se tinha chulo?

Sim, pela propina. O que a polícia queria era sua cota. Quando eu disse que não tinha fiolo, levaram-me para o Departamento de Moralidade. Foi em 1983, ainda era ditadura, pouco antes da volta da democracia. E, como não tinha chulo nem pagava a propina, a polícia vingava-se com a privação de minha liberdade. As mulheres que tinham proxeneta não eram presas. Aqui na Argentina, chamam loucas soltas as putas que não têm fiolo. Eu nunca tive fiolo.

É mais difícil ser autônoma no mundo da prostituição?

Na prostituição, as mulheres não têm autonomia nem liberdade, você é coagida de uma maneira ou de outra pelo homem da vez, pelo fiolo ou pelo Estado capitalista. As que escolhem são muito poucas e supõe-se que, por exemplo, as putas VIP escolham com total liberdade, mas isso não é verdade, porque são escravas de seus luxos e o produto de um capitalismo feroz que nos constrói desejos consumistas desnecessários.

Paramos em que te prenderam e você descobriu que as putas que não tinham fiolo eram pegas pela polícia e iam para a cadeia.

Cheguei a ficar três horas livre, depois de sair, e voltar a ficar presa por outros 21 dias novamente. Ia para uma cadeia só para putas que Perón havia construído e que hoje funciona como escola de suboficiais da Polícia Federal. Nessa época, vivia presa a maior parte do tempo. E na cadeia, a polícia te ensina a odiar outras mulheres.

Por que?

Prendiam entre duas ou três mulheres na mesma cela. Quando traziam as prostituídas dos clubes privados, das whiskerías e dos bares que tinham acerto com a polícia, essas mulheres ficavam presas por apenas algumas horas. Nem sequer entrevam na cela, pegavam suas impressões digitais até que chegava o fiolo ou o dono do lugar, que pagava uma multa grande e levava as mulheres do seu clube. E nós, putas da rua, que passávamos 21 dias presas, víamos isso. A polícia ensinava-nos sobre as meninas que não eram como nós. Elas iam bem-vestidas, cheirando a perfume, enquanto nós ficávamos lá, jogadas. Depois, tive que fazer um trabalho interior muito forte, para eliminar essa raiva. Dei-me conta de que esse aprisionamento e essa discriminação nos ensinava a odiar outras mulheres.

Você acreddita que os homens do mundo da prostituição e do tráfico de mulheres — clientes, proxenetas e policiais — geram competição entre as mulheres?

Sim, totalmente. Eles a fomentam com muita crueldade. Criam distintas categorias de putas. Há, de um lado, as dos lugares fechados, e supõe-se que essas são as que ganham mais. Na prática, não é assim, porque os donos dos prostíbulos ficam com quase todo o dinheiro dos serviços. Depois, há as putas da rua, que são as mais “baratas”, entre aspas. E essas têm que dar parte do que ganham ao seu fiolo.

Um dia, cansei de ir presa e de brigar com a polícia por não ter fiolo, então decidi procurar trabalho.

Comprei um jornal Clarín — prestes a completar 17 anos — e encontrei um anúncio: “Necessita-se camareira. Bom pagamento. No sul, Río Gallegos.” Aparecia um número de telefone. Liguei e marcaram comigo em um escritório da Rua Independência, na Praça Onze. Um homem me recebeu. Expliquei a ele que precisava do trabalho de camareira, mas não tinha experiência. Deu-me e pagou-me a passagem de avião. No dia seguinte, quando cheguei a Río Gallegos, esperava-me outro senhor com outra plaquinha que dizia o mesmo que na vez anterior: “Sonia Sánchez”. Levou-me a um bar, onde uma mulher me recebeu, uma mulher que hoje é uma das grandes traficantes de mulheres no sul da Argentina. Em Santa Cruz (a província a que pertence a cidade de Río Gallegos), há 5 famílias de fiolos que traficam mulheres, controlam toda a Província e são milionários graças à cumplicidade dos políticos da Argentina. Ademais, são peronistas. Por isso, o segundo livro que estou escrevendo chama-se Nem puta nem peronista [Ni puta ni peronista].

Quando lhe dou meu documento de identidade, o dono do local diz para mim que não trabalharei de camareira, mas de puta. Tratava-se do prostíbulo VIP da cidade naqueles anos, e ali exploravam 10 mulheres muito jovenzinhas, quase todas de 17 anos como eu, vindas de várias províncias. Davam-nos roupa de qualidade e sapatos de salto, que depois nos cobravam descontando de nosso salário. Era o único prostíbulo da zona que tinha televisão a cores, que haviam trazido da Espanha. Ficava 24 horas por dia ligado, passando filmes pornográficos.

O prostíbulo funcionava 24 horas por dia?

Sim, claro, e nos obrigavam a atender os homens a qualquer hora. Descansávamos somente duas ou três horas, e de novo a exploração. Nós não lidávamos com o dinheiro, davam-nos uma pulseirinha na qual contabilizavam as penetrações. Também nos descontavam do salário a comida. Às vezes, chegávamos a atender dezenas de homens em um dia. Pouco depois de chegar, fizeram-me um batismo: uma violação massiva de 25 homens trazidos por 5 amigos da casa (os que pagavam o ritual), das 19h às 7h. O batismo era praticado com cada puta nova que chegava ao local. Experimentava-se toda a carne nova. Nessa noite fazia-se um bom caixa e o local era fechado para que se levasse a sério o ritual.

Aqui, os donos de prostíbulos são chamados de “empresários de casa de prostituição”. Você já conhece algum proxeneta bom?

Não há empresários da prostituição bons. Nem nos filmes de Hollywood eles existem! Eu fugi do prostíbulo, mas te juro que hoje não recordo como o fiz. Lembro que há dois anos tive um ataque de pânico, começaram a aparecer fotografias em minha memória, traslados vinculados à minha situação de traficada… Recentemente estão brotando todo o medo e a dor suportados… Estive por volta de cinco meses sequestrada e nunca vi um peso do que ganhava.

O prostíbulo em que você foi explorada sexualmente continua aberto?

Sim, o dono hoje é milionário e também tem outros dois macroprostíbulos, um em Río Gallegos e outro em El Calafate, a três quadras da mansão de Cristina Kirchner, a presidenta deste país. Há dois anos ajudei uma menor, de 17 anos, que foi resgatada de um desses prostíbulos. Esse homem foi denunciado à Justiça, prenderam-no e, algumas horas depois, foi posto em liberdade. A coisa piorou em Río Gallegos desde que fui prostituída lá. Agora, há 80 prostíbulos, em uma cidade com apenas 100 mil habitantes. Por outro lado, o norte da Argentina é o berço das putas: Salta, Formosa, Tucumã, Chaco são províncias muito pobres e as meninas saem de onde vivem fugindo da miséria. Noventa por cento das meninas e adolescentes traficadas na Argentina caem nas mãos das máfias da prostituição procurando trabalho.

O que aconteceu depois que você fugiu do prostíbulo?

A fuga durou vários meses desde que saí de Río Gallegos até que regressei a Buenos Aires. Cheguei a pesar 44 kg e estava muito consumida, não me lembro nada de nada dessa época.

Às vezes, é bom esquecer.

Mas, no meu caso, não foi algo voluntário. Na verdade, como te disse antes, estou começando a recordar. Vejo-me parada a duas ruas da Praça Flores, a primeira praça de Buenos Aires que conheci. Vejo-me outra vez na rua. Afinal, era só o que eu conhecia da Cidade, a Praça Flores é o cemitério das putas.

Por que?

Porque é uma zona de oferta de prostituição. E aí estão as mais velhas, as que morrem como putas. Voltei a essa praça em 1987, 5 anos depois de chegar a Buenos Aires. Não sabia em que dia e em que ano estava… tua cabeça só funciona para tentar sobreviver.

Por quanto tempo mais você fez algo na rua?

Um ano e alguma coisa, até que um dia, às 14h30, no Bairro de Flores, um prostituinte levou-me em seu carro. Combinamos um preço e fomos a um hotel. Dentro do quarto, atrevi-me a dizer “não” a uma coisa que me pediu e o sujeito me meteu a porrada. Quando conto isso, insisto em que as mulheres prostituídas não podem dizer “não”, não são livres, senão objetos para serem usados e abusados pelos homens. E a muitas, matam, porque se negam a submeter-se a torturas ou a violência extrema. O sujeito arrebentou-me o nariz e o tímpano. Toda ensanguentada, consegui chegar à porta e bati nela com força, para que o zelador me escutasse. Se ele não tivesse entrado no quarto, hoje eu não estaria viva. O zelador chamou a polícia, mas a coisa ficou em uma propina que o prostituinte pagou à polícia. Quanto a mim, em vez de levarem-me ao hospital, meteram-me em uma cela. Nessa noite, cheguei ao fundo do poço… foi a noite mais longa e mais profunda de minha vida. Também a mais libertadora. Tive que chegar até aí para dizer: “Basta!” Tive que romper com a falsa imagem da puta que está sempre sorrindo, comendo a vida em uma maldita esquina, com esse falso discurso: “Sou eu a que põe o preço, a que decide, a que entra e sai de uma negociação quando quer.” Tive que me desfazer dessas ideias estúpidas, desse falso orgulho e dessas falsas tomadas de decisão. Nessa noite escura, lembro-me que chorei, chorei e chorei; era um monstro do choro.

Estava sozinha?

Sim, a polícia havia me soltado. Lembro que em casa havia um espelho muito grande. Quando voltei a mim, depois de chorar e chorar durante horas, me vi frente ao espelho e creio que foi a primeira vez em minha vida que me vi. Nessa noite, não fugi. Eu vivo sempre maquiada, as putas vivem pintadas, é um ato muito mecânico, trata-se de pintar-se rápido para não ver o que te devolve o espelho. Pela primeira vez em minha maldita vida, não fugi, fiquei frente ao espelho, e o que me devolveu esse espelho não era a Sonia de 16 anos, que emigrou para buscar um trabalho e progredir. Tampouco me vi como a mulher em situação de prostituição da qual falam as feministas, nem como a trabalhadora sexual da qual falam as trabalhadoras sexuais que reclamam direitos trabalhistas. Vi-me puta. A puta de todas e de todos. A puta da sociedade e do Estado patriarcal. Precisava tirar essa palavra de meu corpo. Precisava dizer em voz alta: PUTA. Foi muito doloroso, e por isso respeito e compreendo as mulheres prostituídas que não se atrevem a pronunciá-la, aquelas que dizem “trabalho sexual” ou “mulheres em situação de prostituição”, para não a dizer. Compreendo que rechacem a palavra “puta”. Assumir a identidade de puta foi o que me permitiu deixar de maquiar a violência. A partir de então, comecei a chamar as coisas por seus nomes e, nessa mesma noite, joguei no lixo todos os meus disfarces de puta: sapatos de salto, saias curtas, peruca — porque os caras aqui queriam que as putas fossem loiras e de cabelos compridos e eu não era branca e precisava comprar perucas loiras, então também joguei fora a peruca. Nessa noite, perguntei-me: “Quem sou eu?” E me desfiz de todas as identidades alugadas.

Teve amigas?

Nesse mundo, não há amizade, há cumplicidades. Na prostituição, não se pode cultivar afetos. Tudo é abuso, tudo é comércio. Não há amizade, não há amor.

De modo que nunca se apaixonou por algum dos homens com que esteve.

Não, não me apaixonei por nenhum. Na prostituição, não há afeto, nem carícias, nem abraços. Há passadas de mão e violência. Como você vai se apaixonar por alguém que te passa a mão, que te viola, que te paga para te penetrar como ele queira?

Acredita no slogan “Homens de verdade não compram mulheres”?

Os homens têm que construir uma nova masculinidade e deixar de comprar mulheres.

A LUZ

Como foram os dias seguintes à noite mais escura de tua vida?

Decidi procurar um trabalho, mas, claro, não tinha currículo. Pensei: “Só direi que sou Sonia Sánchez, chaquenha e recém-chegada à Cidade de Buenos Aires.” Consegui emprego em uma fábrica de casquinhas de sorvete. Aí me recuperei. Pensava e pensava, enquanto classificava casquinhas que eram distribuídas em sorveterias de todo tipo, dos bairros bacanas até os mais pobres, como a favela 38. Quando saía da fábrica, ia caminhar na Avenida Corrientes, entrava nas livrarias e passava horas lendo os livros que não podia comprar.

Comecei a recuperar meu corpo, passava um tempão embaixo do chuveiro, tomava longos banhos. E aí me dei conta de que, quando te fazem a puta de todas e de todos, teu corpo não te pertence. Teu corpo é alugado vez após outra a teu fiolo. Se meu corpo não me pertencia quando era puta, eu o devia recuperar, e recuperar significa conhecer. Quanto me custou perder a vergonha de ver-me nua sob o chuveiro! Tive que aprender a acariciar, porque a puta não sabe acariciar. Também sob o chuveiro. Sozinha. Quando comecei a acariciar-me, dei-me conta de que estava aprendendo a amar-me. Foram meses até que eu pudesse dizer: “Este corpo é meu!” Comecei a aceitar-me como sou e a ter voz própria. Foi um processo rico em emoções e sensações. A prostituição tem uma dialética: dentro da prostituição, eu buscava as portas de saída e não queria falar, como todas as mulheres prostituídas, mas, ao mesmo tempo, quando tentava sair, encontrava a existência de um discurso, o da “trabalhadora sexual”, que não me deixava ter meu próprio discurso, minha própria subjetividade. Desde então, trabalho muito com minha pessoa e cultivo-me, leio muito, gosto do que tenha a ver com os problemas sociais, gosto de filosofia — ainda que por vezes não entenda, adoro ler filosofia — , também gosto de psicologia. Consegui tudo isso quando me vi. A puta não se vê, irmã! A puta não olha seu corpo, porque seu corpo é um campo de batalha e, por isso, rechaça-o.

Depois, conheci meu primeiro companheiro, Roberto, o pai de meu filho, Axel, que hoje tem 19 anos. Tive 5 abortos dentro da prostituição, por isso também sou uma lutadora e defensora do aborto legal, seguro e gratuito. Meu filho é um grande companheiro. Desde os 4 anos, acompanha-me a toda parte, ele sabe de minha história. Nunca lhe escondi nada, não gosto de esconder o que seja de minha vida. E, como sabia que algum dia cairia sobre meu filho o insulto “filho da puta”, eduquei-o com as ferramentas necessárias para que se defendesse a partir da não-violência. Meu filho, entre outras coisas, nunca comprará mulheres, porque é um homem feminista.

Contei minha história a todos os homens que passaram por minha vida, devido a que, por meu ativismo, sou uma mulher pública. Desde que mudei de vida, sempre lhes deixei claro que não podiam cruzar a barreira dos mau-tratos.

Você pode manter relações igualitárias.

Sabes por quê? Porque a única coisa que a prostituição não pôde destruir em mim foi a capacidade de amar. Por isso eu não odeio. As mulheres me perguntam às vezes: “Com tudo que te fizeram, você não odeia os homens?” Não posso sentir ódio, se sentisse ódio, todas essas pessoas que me fizeram mal seguiriam vivendo em mim.

Você faz terapia?

Não faço terapia entre quatro paredes, nem com psiquiatra, nem com psicólogo. Considero que a violação na prostituição é pública, portanto, faço terapia agora, quando estou falando contigo, faço terapia quando dou minhas oficinas e conferências. A marca da vergonha e da dor que nós, as putas, vivemos não é nossa, pertence à sociedade e aos nossos governantes. Não são só minhas a vergonha e a dor de haver sido humilhada e violentada. Por que tenho que enclausurar essa dor entre quatro paredes? Prefiro devolvê-la à sociedade e aos meus governantes. Vocês façam o que quiserem com isso.

Você fará muita terapia na Espanha. Prepara-se.

É isso que quero agora, estou muito entusiasmada. É minha primeira viagem à Europa.

Em tuas palestras e conferências, você diz que o corpo da puta não é só um campo de batalha do prostituinte e do proxeneta.

É também do Estado, das grandes agências internacionais da ONU, por exemplo, o Banco Mundial, o UNAIDS. Quando você fala com as putas organizadas, as agências internacionais que te dão os subsídios e ajuda, elas são as que te fazem utilizar o termo trabalho sexual. Em 1998, o Banco Mundial começou na Argentina com esse tema. Ao neoliberalismo convém que exista o trabalho sexual. Há um negócio com a prevenção do tráfico de mulheres e a sensibilização sobre o tema. Eu sei porque fui cobaia desses organismos internacionais, que tentaram me convencer das bondades do trabalho sexual.

Parece que o imaginário patriarcal põe as mulheres pobres no dilema de escolher entre serem putas ou pobres, como se a prostituição fosse uma via de saída da pobreza extrema.

Esse dilema é falso. O discurso fálico do trabalho sexual baseia-se em que a puta adquira um falso orgulho e uma falsa tomada de decisão, mas, como a puta está atravessada de violência e de humilhação, o discurso do trabalho sexual é como um espartilho que a mantém muito erguida frente a essa violência que padece na maldita esquina ou em um prostíbulo. Quem decide é um homem prostituinte, o proxeneta, o Estado e os organismos internacionais. A puta termina sua vida sendo puta e pobre. E muitas morrem sozinhas e sem que ninguém reconheça seus corpos no necrotério. Encontra-se todos os dias com casos de corpos que são doados às faculdades de medicina para que os estudantes façam suas práticas. Se o corpo das putas não lhes pertence em vida, menos lhes pertence quando morrem. O corpo mais descartável é o da puta. Isso também explica porquê os assassinatos de putas não sejam considerados femicídios. Ninguém fala disso.

O femicídio por prostituição é invisível na Espanha.

Deveríamos nos ocupar mais do assassinato de putas, fazer mais ruído nos meios de comunicação, para que sejamos escutadas.

No Feminicidio.net tentamos fazê-lo, mas, a verdade é que na Espanha não nos dão muita atenção. Me conte sobre o que esta escrevendo em seu novo livro.

Agora mesmo estou trabalhando na ideia da prostituição como campo de concentração, mas não porque você passa a vida presa em um prostíbulo. Não me refiro ao aprisionamento literal, mas sim a seus efeitos. Quando você esta em uma praça ou em uma estrada, também se sente como se estivesses presa em um campo de concentração, ainda que esteja de frente a um céu aberto. É preciso ver o paradoxo do aprisionamento. Ela é controlada, é torturada física e psicologicamente. O pênis é como uma picana. São tão tremendos os efeitos provocados em teu corpo e em tua mente, que o esquecimento forma parte da experiência que envolve o campo de concentração.

O que é a escrita para você?

Reparação, paz interior. A primeira coisa que escrevi, quando comecei a reconstruir minha vida, foi: “Sou uma mulher, não uma coisa.” Nas oficinas com outras prostitutas, quando nos sentávamos para escrever, dizia-lhes: “Vamos reapropriar-nos do saber que a violência que recebemos nos deu.” Para mim, também é uma necessidade escrever.

Na Espanha, a prostituição e o tráfico de mulheres movimentam 5 milhões de euros por dia. As máfias do tráfico de mulheres movimentam muito dinheiro na Argentina?

Na Argentina, não conhecemos as cifras do dinheiro que o tráfico de mulheres movimenta, mas sabemos que o corpo de uma menina é alugado até 30 vezes por noite a 1.000 pesos argentinos, em um prostíbulo em que há até 20 meninas e mulheres. E, por isso, o sistema precisa nos vender, a nós, mulheres empobrecidas, um falso discurso progressista de direitos. Quais são os direitos das putas? Preservativos grátis? Ter uma aposentadoria como prostituta? Desculpa, se é que chegam à aposentadoria! A maioria das putas não chega à velhice. E, se chega à velhice como puta, não vale nada. As putas velhas cobram uma miséria por um serviço. Supondo que se contribua para a Previdência, depois de quantos anos poderá se aposentar? E por que se aposenta uma puta? Pela quantidade de penetrações que teve em sua vida? Quais são os serviços sexuais que se consideram como trabalho?

Como você define o trabalho sexual?

É isso que me pergunto: o que é trabalho sexual? Penetração da boca, vagina e ânus? Isso é trabalho sexual? Uma mulher que realiza um trabalho sexual não é uma mulher, mas uma boca, uma vagina e um ânus. Esse trabalho nos reduz a isso, não somos pessoas, as putas não tem um corpo, porque um corpo é um todo. As campanhas das organizações internacionais que concedem milhões de dólares na Argentina para as trabalhadoras sexuais focalizam no HIV, na malária, nas doenças venéreas e em nada mais. Não lhes importa a saúde das mulheres. A puta não tem pulmões, não tem olhos, não tem sentimentos… só tem boca, vagina e ânus.

Dou oficinas para juízes e policiais e digo-lhes: “Definamos juntos o que é trabalho sexual e o que uma puta produz.” Chamemos as coisas pelo nome, choque a quem chocar. Na Argentina, as que defendem o trabalho sexual dizem que é preciso inscrever-se como contribuinte autônoma. Contribuir ainda mais com o Estado por ser explorada sexualmente? E quando se fatura, a título de quê? Quais são os serviços sexuais? Quais são os serviços sexuais na Argentina que deveriam ser faturados? Falo com exemplos da linguagem do fiolo, uma linguagem que encoberta, maquia e distorce a realidade. Meia francesa: chupada de pênis, com ou sem preservativo, e o homem escolhe onde ejacular. Fará na vagina ou no ânus da puta. A francesa é sexo sem preservativo e o homem ejacula na boca da puta. Depois vem o completo, com ou sem preservativo; o homem a penetra pela boca, depois pela vagina e, ao final, ejacula no ânus da puta. Outro serviço sexual é a chuva dourada: o homem a obriga a urinar sobre seu corpo, enquanto te humilha com as palavras que o excitam e depois ejacula. E, assim, toda uma variedade mais de serviços sexuais. Agora, te pergunto: isso pode ser considerado trabalho? O que me fizeram, que é tão frequente, o batismo: isso pode ser considerado um direito? Todo mundo que defende o trabalho sexual não descreve o que chama de trabalho sexual.

Aos juízes, advogados e policiais, descreve isso tal qual está descrevendo para mim?

Claro.

E como reagem?

Alguns não suportam. Digo a eles: “Vejamos, vocês, que são tão espertos, me descreva o delito de tráfico de pessoas com fins de exploração sexual.” Reúno-nos em grupos e peço-lhes como exercício que me definam o delito, em que consiste. Porque com o assassinato é mais fácil: “Juana Velázquez sofreu 15 punhaladas, arrebentaram o olho direito, recebeu golpes no tórax, braços, rosto, foi violada, seu corpo foi encontrado dentro de um saco plástico, jogado dentro de uma lixeira.” Assim descrevem um assassinato. Por outra parte, os juízes descrevem o delito de tráfico assim: “Sonia Sánchez, natural de Villa Ángela, Chaco, 20 anos de idade, foi traficada por seis meses para o prostíbulo ‘As Gatinhas de Marta’, sendo a dona Fulana de Tal.” Essa é toda a descrição que fazem em seus relatos judiciais. Eu lhes pergunto: “Como sabem quanto dinheiro produziu o corpo de uma vítima de tráfico? Como sabem quantas vezes foi penetrada, quantas vezes foi violentada, golpeada, violada?” Os juízes em seus pareceres dizem somente: “Foi explorada sexualmente” e ponto. Uns advogados de Mendoza me disseram: “Só com dizer ‘explorada sexualmente’ entende-se a que se refere o delito.” Convidei-os, como homens, a descrever essa violência que outros homens praticam impunemente com as mulheres prostituídas. E foi difícil para eles fazerem isso. No tráfico, não se chamam as coisas pelos nomes. E se perguntar a uma puta sindicalizada quais são os serviços sexuais que realiza, ela não te diz. E por que isso acontece? Porque produz vergonha. Insisto: o Estado capitalista nos reduz, as putas, a ser uma vagina, a produzir dinheiro de nossas vaginas, bocas e ânus.

É cru escutar você falar assim.

Não há outra maneira de dizê-lo, é preciso falar sem rodeios. E sabe por quê? Porque as máfias vêm buscar nossas meninas, porque a cada dia aumentam a prostituição e o tráfico. Minha mãe, quando me pariu, não disse que Sonia seria a puta da família. E hoje, com o tráfico de pessoas, muitas mulheres, muitíssimas, todas as que são pobres, estão em perigo de ser vítimas de tráfico. E também os homens, a cada dia há mais homens traficados e feminizados na prostituição.

 

Alguma vez você recebeu ameaças de morte?

Agora mesmo tenho duas ameaças de morte denunciadas na Procuradoria-Geral da Nação. Em 2007, depois da apresentação de meu livro, Nenhuma mulher nasce para ser puta [Ninguna mujer nace para puta], tive que ir para a Bolívia e mandar meu filho para outro lugar, já que vários fiolos me perseguiram em Buenos Aires. Por tudo isso, minhas irmãs não querem que eu siga nesta militância. Trabalho meu medo a cada dia, de outra maneira não poderia nem sair na rua.

O que você diz aos adolescentes que estão iniciando sexualmente para convencê-los a não comprar mulheres?

É uma felicidade muito grande para mim dar oficinas para jovens de colégio. Descrevo na lousa três situações: 1) Fazer amor. 2) Fazer bom sexo. 3) Prostituição. E pergunto-lhes: Como é fazer amor? Muitos não o sabem descrever, simplesmente porque não sabem o que é. Explico-lhes que não há coisa mais maravilhosa do que desfrutar de fazer amor e de fazer sexo com outra pessoa de maneira consensual e sem violência. Os adolescentes são muito perceptivos e entendem bem. Aqui na Argentina, há uma prática entre os jovens de agora: quando vão a danceterias, esses locais servem a jarra louca (uma mistura de álcool e bebidas energéticas de muito baixa qualidade), que custa 150 pesos. E o que acontece com as meninas? Elas levam menos dinheiro que eles e, na maioria das vezes, só têm para pagar a entrada, e não para pagar a jarra. Então, muitos rapazes negociam: “Eu te pago a jarra louca e tu me fazes um boquete.” Algumas meninas aceitam essas regras do jogo e até acham isso engraçado. Pergunto a eles: “Que diferença há entre trocar uma jarra louca por chupar o pênis de um rapaz no banheiro de uma danceteria e a puta de teu bairro que está na esquina quando sai da escola, que cobra por um suposto serviço sexual a um prostituinte? Nenhuma. Esse rapaz está te fazendo uma puta nessa danceteria, a puta dessa escola. Estão te prostituindo por uma jarra. Hoje é uma jarra, depois é um hábito e, no ano que vem, é uma maldita esquina.” E a eles, digo: “Vocês, os rapazes, aprendem a ser prostituintes desde pequenos, e assim também aprendem a exercer violência e poder sobre as moças. E o pior é que acreditam que isso pode lhes fazer felizes, quando nem aprendem a fazer amor.” E aí começamos um debate sobre como se faz amor e terminamos fazendo um relato de como fazer amor. Depois, mostro como usar os preservativos, às meninas, ensino como negociar, que aprendam a fazer sexo com cuidado e prazer. Não separo a educação sexual da prevenção da prostituição. Não dá! Se todas e todos fôssemos educados para aprender a fazer amor, esta seria uma sociedade menos violenta e menos precarizada a nível sexual.

O que opina sobre a pornografia?

A pornografia educa na violência e nos deixa muito precários sexualmente. É outra das portas de entrada para a prostituição e para o tráfico de mulheres. O importante é ensinar aos adolescentes a diferenciar fazer amor, fazer bom sexo e consumir prostituição.

Conta-me de tua experiência no trabalho com mulheres que querem sair da prostituição.

O que fiz nas organizações onde trabalhei foi acompanhar as mulheres em sua capacitação laboral e exigir do governo que criasse fontes de emprego. As putas não têm cultura do trabalho, mas cultura da exploração. Na Argentina, não há programas em nível nacional nem municipal que ajudem as mulheres a sair da prostituição e tampouco há programas para mulheres prostituídas e vítimas de tráfico focalizados em que essas mulheres possam reconstruir-se subjetiva e emocionalmente. Não há apenas que lhes dê trabalho. Aqui, não há nada disso, como tampouco há restituição de direitos econômicos, sociais e culturais para essas mulheres. Na Espanha existe esse tipo de programa?

Não.

É que os Estados não se importam com as putas, é um problema mundial do capitalismo, do neoliberalismo.

De que a sociedade do século XXI precisa para acabar com a prostituição?

Primeiro, temos que começar a apagar a fronteira entre as boas e as más mulheres. É o patriarcado que nos divide entre boas e más, e isso também nos afeta nas alianças entre nós. Creio que nós, mulheres, devemos nos organizar ao redor de outro tipo de cumplicidades, que estejam destinadas a lutar contra todo tipo de violência.

É um desejo difícil de alcançar, tendo em conta que as regulacionistas e as abolicionistas não podem se sentar e conversar para encontrar pontos de encontro no debate da prostituição.

Isso acontece porque não podemos nos olhar frente a um mesmo espelho, relacionamo-nos pelas diferenças e não pelas coisas em comum. O debate entre abolicionistas e regulacionistas da prostituição está manipulado pelo capitalismo e pelo patriarcado. É preciso aprofundar mais o debate e pôr outras e mais questões em comum. Unem-nos mais questões do que nos separam. Aprofundemos o debate e não nos fechemos entre putas, abolicionistas e regulacionistas. O debate deve abrir-se a toda a sociedade. E parte de nossa tarefa como feministas e ativistas de direitos humanos é alcançar esse objetivo.

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Publicado por

solemgemeos

Advogada. Especialista em Direito Constitucional. Especialista em Processo Penal. email: carolcorreia21@yahoo.com.br

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